terça-feira, 25 de março de 2014

Carta que escrevi à uma amiga

Querida,
apesar da distância, ainda converso bastante com seu irmão. Não é nenhuma surpresa que nossos familiares sempre acabam sendo parte da conversa, creio que pela preocupação e carinho que temos uns pelos outros. Ultimamente falamos sobre você, o que motivou sua viagem e o que ela trouxe de aprendizado. Bom, especulamos algumas coisas, mas isso só você pode dizer.

Gostaria de compartilhar com você um pouco do que tenho vivido desde que sai da casa da minha mãe. Pode ser que de alguma forma você queira se apropriar da minha experiência. Digo isso porque uma grande fonte de autoconhecimento, para mim, foi a análise do relato das experiencias de pessoas próximas.

Basicamente o que me motivou a buscar o tipo de vida que levo foi a minha insatisfação com a vida que levava. Como você deve saber trabalhei em alguns lugares mais pelo retorno financeiro do que pela satisfação pessoal. Acreditava, de verdade, que um trabalho satisfatório surgiria com o tempo. Sempre sai para bares e restaurantes com amigos buscando algum entretenimento e alívio de uma semana cheia de trabalho.

Quando percebi que não estava fazendo o que me deixava feliz comecei, por conta própria, a buscar por algo que não sabia bem o que era. Não sabia o que queria, mas sabia perfeitamente o que não queria. Fui conhecendo gente de movimentos sociais do meu interesse, realizando atividades culturais que me inspiravam e sem perceber já vivia outra realidade. Atraia cada vez mais pessoas que pensavam parecido com meu ideais. Aprendi a desapegar dos antigos amigos e me abrir ao desconhecido.

Não demorou muito para começar a trabalhar com esses novos amigos e ter mais tempo livre para as coisas que eu gostava. Trabalhei em restaurante de amigo, cafeteria de amigo, casa de umbanda de amigo, intervenções urbanas com amigos e projetos sociais diversos. Surgiu a oportunidade de fazer um curso de instrutores de yoga e lá se foi todo o dinheiro do meu suado trabalho, mas sentia uma leve confiança no que estava fazendo.

Meses depois já estava morando no lugar onde cursava yoga (Visconde de Mauá).
Nessa época, creio que por estar vivendo de uma forma bem incomum, fui taxado de louco, hippie, maconheiro, utopista, idealista, socialista, anarquista, enfim... coisas de quem não se preocupa muito em conversar para saber a verdade. A verdade é que eu estava tentando ser feliz.
Felizmente eu já estava bem trabalhado psicologicamente para não deixar a opinião dos outros afetarem muito minhas decisões.

Foi ai que começou uma mudança a saltos quânticos dentro de mim. Morava em um lugar totalmente integrado com a natureza, fazia amigos com uma grande facilidade, me sentia bem para dizer a verdade pra qualquer um. Aprendi a dizer a verdade sem parecer ofensivo. Tinha tempo pra mim e para os outros e, cada vez mais, fui percebendo o que eu gostava, quais eram minhas habilidades, o que nasci pra fazer. Comecei a plantar, construir, escrever, dançar, e eu, que nunca liguei muito pra isso, até descobri o prazer em estudar. Escrevi algo na época: Relato de uma vida kavernosa.
Minha fonte de renda vinha dos cafés que eu vendia aos fins de semana para os turistas e não me preocupava em garantir mais do que o necessário para viver bem. E, com bem, quero dizer: alimento em abundância e uma casa confortável com um belo jardim.

Findo o contrato da casa voltei para o Rio e já não era a mesma coisa. Não passou um mês para que eu pegasse a minha bicicleta e embarcasse numa viagem “louca” sem dinheiro até Paraty. Arrumei uns trapos e sai com mais 2 amigos pela estrada. Nesse momento a minha segurança vinha da minha facilidade de me comunicar com as pessoas (coisa que sempre foi um sério problema até meus 18 anos) e a imensa rede de pessoas dispostas a me ajudar caso eu precisasse. Durante o caminho fui fazendo um diário de bordo, se quiser ler, ta aqui: Brasil de Bicicleta.
E essa foi a segunda das mais ricas experiências da minha vida. Aprendi a humildade de pedir por alimento e abrigo. Me forcei a ter que conversar com desconhecidos e me surpreendi com a sensibilidade e generosidade das pessoas.

Chegando em Paraty conheci um trabalho incrível de massoterapia. Fazia aulas gratuitas e antendia a população da cidade também gratuitamente. Depois de 1 mês morando em casas de amigos que fiz por aqui, achei um lugar, que eu considerei mágico, para morar. Era uma caverna de verdade. Um amigo generosamente pagou o primeiro aluguel e nesse mesmo lugar, assim como em Mauá, comecei um novo movimento de co-housing. Mais boas experiencias, aprendizados e novos amigos.
Por aqui vivi quase sem gastar dinheiro. Produzia e arranjava em mercados locais alimento facilmente. O aluguel de 400 reais era dividido por 4 pessoas e ainda entrava a colaboração dos amigos que vivenciavam a experiência na toca.

No fim do ano passado me agarrei com uma menina (a Ale) e resolvemos fazer uma viagem até a Bolívia. Desta viagem, que não me orgulho muito de ter feito, posso tirar grandes reflexões. Posso até dizer que vivi 2 dias, viajando sozinho e sem dinheiro (por opção) numa cidade com grande preconceito com viajantes, que foi a terceira experiencia mais intensa da minha vida. A Alê tem um desejo intenso de viajar e conhecer novos lugares. Acredito que esqueci de mim e passei a viver o sonho de outra pessoa por alguns momentos.

Voltei pro Rio com a Alê mês passado e uma semana depois já estava em Paraty novamente. Me reconectando com meu eu, distribuindo sorrisos e abraços como estava acostumado a fazer (tive grande carência dessa recíproca na viagem). A Alê conheceu, em Paraty, uma menina que queria fazer a mesma viagem que ela e lá foram as duas viver seus sonhos e desejos.

Com tudo isso aprendi a não criar expectativas em cima das pessoas e dos acontecimentos. Saber viver cada momento de uma vez é minha maior riqueza. Me permitir ao imprevisível, ao desconhecido, aceitar as mudanças, conviver com elas, é algo único e não pode ser tangibilizado. Podemos fazer o que quisermos. Nunca teremos controle sobre nossas vidas, mas estamos constantemente aprendendo a vive-la. E se existe alguém capaz de mudar a sua forma de agir e de pensar, é você mesmo.

Com minhas andanças, posso dizer com segurança que somos felizes exceções da sociedade, pois o amor incondicional que recebemos dos nossos pais, quando pequenos, facilitam, e muito, essa busca por autoconhecimento e amor próprio.

Hoje estou em Paraty. Morando num quarto de uma escola alternativa com uma filosofia de livre-aprendizagem, onde facilito atividades de yoga, jardinagem e musica 1 hora por dia em troca da hospedagem, enquanto procuro uma casa confortável para alugar. Continuo atendendo a população local com massagem gratuita e como fonte de renda faço massagem na academia de capoeira de um amigo dando a alternativa de contribuição espontânea (pagam quanto querem). Me alimento basicamente de vegetais e dou oficinas de alimentação viva esporadicamente. Se alguém me perguntar se minha busca chegou ao fim ou se me sinto realizado, são coisas que, sinceramente, não sei se há uma resposta. Sei que cada vez mais tento fazer as coisas que me deixam em paz comigo mesmo. Isso pra mim é felicidade.