sábado, 18 de julho de 2015

A Reflexão e o Amor

"Esta é a mudança que está acontecendo agora na cultura patriarcal ocidental, tanto no espaço do entendimento como no espaço da própria convivência, já que as fontes desta mudança são a reflexão e o amor. A reflexão que libera do apego é o que constitui a ciência enquanto domínio explicativo e permite o olhar capaz de ajuizar no espaço das preferências as ideologias sociopolíticas do patriarcado; e é o amor que, ao configurar o ético a partir da aceitação do outro, como espaço das ações no qual nos importamos com o que acontece ao outro, permite o olhar reflexivo e a negação das ideologias que negam o amor."
Humberto Maturana

Como ser ultra-espiritual

Texto de Fator Quantico*

"Você deve conhecer pessoas que gostam muito de entender e praticar a espiritualidade. Praticam todas as modas espirituais que surgem de tempos em tempos, se envolvem com mensagens de mestres/médiuns/líderes/gurus espirituais desta ou de outras épocas e planos.

São pessoas amenas, doces, de fala lenta, macia, tranquila. Aparentemente sem agressividade e muito conselheiras (um grande perigo).

Acabam se tornando referência para muitas outras pessoas por essa sua postura ultra-mega-extremamente adorável-amorosa-pacífica. É aquele seu amigo "sabixão-espiritual", "muito iluminado".

Mascaradamente, julgam outras como menos iluminadas por seus comportamentos e até por condições de vida adversas que podem acometer qualquer um (agressividade, vícios, sofrimentos).

Você está lembrando de alguém que se encaixa? Pois pergunte-se o quanto você mesmo faz isso.

As ideologias religiosas/espiritualistas estão cheias de negação dos sentimentos tais como muitos deles são: ruins. Pensam que não entrando em contato com seus conteúdos psíquicos desagradáveis estão num caminho espiritual melhor do que aqueles que estão tomados pelo que sentem.

JP Sears satiriza brilhantemente o comportamento espiritualista neste video:


A importancia do fazer

Movemos o mundo com nossos corações. A partir do momento que ele grita: Faça alguma coisa!!!
Desse jeitinho que fui me libertando das amarras. Aprendi a ouvi-lo e respeitar meus impulsos mais genuínos, com muita incoerência, claro, mas aberto para entender o que sentia e alinhando pensamentos críticos e intuição.
Não foi um trabalho fácil, não está sendo, mas a satisfação é garantida. Liberdade não é uma virtude para preguiçosos. É pra quem rala, pra quem arrisca e principalmente pra quem confia.

Posso dizer que a mais ou menos 6 anos atrás comecei a questionar muito o mundo que foi me apresentado originalmente. Logo entendi como girava a roda da economia monetária e de onde vinha a desigual distribuição de renda.
Após estudar e entender bem mais do que aprendi na escola, parti pra ação. Não por ser um cara super corajoso, mas por não suportar mais as grosseiras incoerências sociais que me rodeavam na cidade. E foi assim, na base da confiança que me veio a onda de desapego. Reduzi meu quarto a uma grande mochila. Fui viajar sem dinheiro para experimentar o que é não ter nada. O que é depender necessariamente da boa vontade do ser humano. E aprendi um tanto bem bom.

Meu custo de vida foi sendo reduzido vertiginosamente. Fui  percebendo a felicidade nas coisas simples da vida. Aluguei uma casa num canto pertinho do rio e da mata, que não sofria tanto com a especulação imobiliária. E assim como meus poucos bens materiais, não fazia sentido ter mais direitos sobre aquele espaço do que qualquer outra pessoa.
Dai surgiu a máxima: "aqui é tudo nosso!". Sim, bem radical, arrisquei e confiei mais uma vez. Posso dizer que serviu de base pra aprender mais um tanto.

Abri minha casa, e de forma bem resumida digo que seguia os 4 princípios do open space:
1. Quem quer que venha, são as pessoas certas.
2. Quando começar é a hora certa.
3. O que quer aconteça é a única coisa que poderia ter acontecido.
4. Quando acabar, acabou.

Me permiti aos conflitos que poderiam surgir dai. Assumi a responsabilidade por minas atitudes e aceitei o incessante trabalho da manutenção da harmonia de uma "casa da mãe Joana". Em 2 ou 3 anos aprendi e vivi mais do que os últimos 20 e poucos. 
Algumas experiencias fui relatando e compilei aqui para compartilhar com quem se interessa: 

Pra quem pensa que aprendi tudo isso sofrendo e passando necessidade, está muito enganado. Aprendi brincando de viver. Foi fluindo pela vida e recebendo com graça o que me era oferecido, que pude experimentar momentos de plena felicidade e abundancia. Hoje em dia só sei viver assim. E assim sigo fluindo abertamente, compartilhando os recursos que disponho, desenvolvendo minha relação com a posse, respeitando os limites da minha relação com o outro e trabalhando incansavelmente minhas habilidades terapêuticas e agroecológicas.

"Brincar é uma atividade que se realiza no prazer de ser feita, com a atenção posta no prazer de fazer a coisa, pelo fazer mesmo, não na conseqüência. Permite a seriedade do fazer pelo próprio fazer, pelo respeito àquilo que se está fazendo, pelo prazer de fazê-lo e não pelas conseqüências que poderá ter."
Humberto Maturana


terça-feira, 14 de julho de 2015

Não é a casa que é aberta. É a pessoa!

Sempre me lembro de um texto do Paulo Brabo quando tendemos a nos afastar do "peer to peer", das relações naturais e espontâneas que se dão no momento ao pré-configurar um espaço.

Diz Paulo Brabo que instituições, organizações, grupos, não existem. Só existem pessoas. E elas, nós, as pessoas, criamos algo determinístico no desespero de ter as coisas sobre controle. E o controle é uma mera ilusão, meu amigo. Não temos controle sobre nada. Mais vale a gente aprender a seguir fluindo do que se matar tentando fazer nossos planos se materializarem.

Uma casa aberta, nunca será aberta se as pessoas que a frequentam não se permitirem ao imprevisível, não se abrirem a experiencia de viver o momento. Uma casa não é aberta por que assim se determina. Pessoas abertas fazem de qualquer lugar um espaço aberto. As relações podem ser abertas. Os ambientes, nunca.

Passei por casas de amigos muito queridos onde me senti num verdadeiro lar. Confortável e a vontade para dormir, comer, usar o que fosse e ficar o tempo que quisesse. O mais curioso é que alguns desses amigos nunca ouviram falar em "co-housing", "casa colaborativa", ou coisas do tipo. A interação era livre, aberta, honesta e baseada na confiança.

Se você experimenta relações livres na sua vida, naturalmente a casa que você mora não será um lugar cheio de regras e manuais de boa conduta.

sábado, 4 de julho de 2015

O que observei na Catete92

Uma coisa que sempre achei curiosa:
Observo as pessoas encantadas com a casa, com a proposta, com os encontros e tudo mais. Essa casa que é um lugar onde experimentam relações de confiança, os movimentos de cuidado e atenção com o próximo, onde podemos autogerir um espaço de forma colaborativa.

E paradoxalmente, ai que vejo a grande falta de confiança nas relações. Por que precisamos ter um espaço dedicado a isso?! Por que estamos tendo um custo adicional para isso?! Se a ideia é permitir o acesso, é gerar abundancia, por que não pegamos o máximo de nossas potencias para isso?! Será que precisaria existir uma Catete92 ou uma Laboriosa89 se estivéssemos usando nossas casas de forma autogestionada, colaborativa, compartilhada?!
Acredito que não o fazemos justamente pela falta de confiança.
Se confiássemos de verdade nas pessoas, nas relações que temos, precisaríamos ter um espaço a parte para experimentar?!

Eu acho ótimo experimetar, faz parte do nosso desenvolvimento pessoal. O que acontece no catete é muito legal. Então vamos desenvolver mais pra continuar experimentando?! Abundancia não seria ter mais casas com essa proposta?! Permitir acesso não seria eu poder descansar, ou usar a internet ou almoçar na casa mais próxima de onde estou? De acordo com minha necessidade? E poder cuidar desse espaço como se nosso fosse?

Adoraria que começacemos a pensar mais nisso. Proponho que a gente comece a fazer do catete92 a realidade de nossas vidas.
Que a gente não fique tão somente brincando de vida em comunidade quando convém, mas sim encarar o desafio do que é uma vida comunitária. Que a gente assuma a maturidade pela fluidez da vida, pelos conflitos que podem surgir das interações livres e que a gente possa, que a gente consiga, de verdade, confiar mais nas relações que estamos construindo a cada instante uns com os outros.

O discurso de: "eu preciso do meu espaço", "eu preciso da minha privacidade", mais parece uma necessidade de ter seu momento de silencio, ou solidão, ou meditação, garantido.
Quando confiamos no outro não precisamos ter esse espaço. Não exigimos garantias.
Temos nossas necessidades atendidas na relação com o outro, com base no respeito e empatia: "queria ficar um pouco sozinho, umas horas, uns dias, vc se importa?" e pronto, ai está a sua privacidade respeitada. Bem diferente de um aluguel de um quartinho para garanti-la, não?!

Atualmente moro em Visconde de Mauá e a pouco mais de 4 anos minha casa está aberta ao que quer que seja. É só chegar e se permitir. Fernando Furtado e Maiko Pinheiro podem falar com bastante confiança sobre isso.