segunda-feira, 25 de março de 2013

A facilidade de dar fim a uma discussão

A dificuldade de evoluir diálogos que questionam e investigam a estrutura social se fez mais uma vez presente em uma discussão, dessa vez sobre economia monetária, numa tread do facebook.
Comummente encontro alguma resistência em quererem aprofundar essas questões. Entendo que pode parecer ameaçador de um certo comodismo.

Adoro discursos poéticos e acho lindo uma visão de mundo com paz, amor e harmonia como valores de uma sociedade mais humana e integrada. Mas começo a me sentir desconfortável quando esse tipo de discurso é usado para dar fim à uma discussão que poderia ser aprofundada  para melhor entendimento de condicionamentos cotidianos. Usar paradoxos e pensamentos relacionados a leis universais, não ajudam a entender o meio de convívio social.

Me soa como uma forma de negligenciar o problema e assumir um discurso confortável que justifique a acomodação, a não-ação, a zona de conforto. Usar a inteligencia para modificar engrenagens e tornar as coisas mais livres, mais acessíveis, dá trabalho, reconheço isso. Mas se parece ser o melhor para a tal da sociedade mais humana, porque não estamos querendo ter esse trabalho?!

Obviamente tem algo de muito grave em assuntos como esse parecerem chatos e cansativos. Podem ser chatos e cansativos a vontade, mas a questão que eu levanto é por que? Por que será que o futebol ou a vida do vizinho parecem ser mais interessantes do que discutir a estrutura acadêmica, o processo de aprendizagem, criação de filhos, alimentação, formas alternativas de vida, etc.

Há uma necessidade de concluir um assunto e, talvez por isso, se torne desgastante. Isso é um mito. O assunto não tem que ter fim. Não tem, na verdade. Quanto mais conhecimento se gera, mais o tema se alonga. E nesse conflito de querer estar certo, de querer ter a palavra final, de buscar o vilão e o herói, a galera ta desistindo de debater. O desgaste vem de uma tentativa enrustida de convencimento. Quando se entra desarmado numa discussão só se aprende e ela flui. Debates exercitam o livre pensar, não precisam ter conclusões.

Assim termino esse texto sem conclusão, simplesmente porque estou com sono e agora ele continua com quem quiser adicionar informações a esse pensamento.

domingo, 24 de março de 2013

Classificando pseudodoenças

Lendo sobre TDAH (transtorno de deficit de atençao e hiperatividade) fui percebendo que nosso descaso, fácil aceitação, na maioria das vezes por preguiça de investigar e questionar assuntos cotidianos, está afetando diretamente nossas crianças. 

Que o deficit de atenção e hiperatividade existem, não discuto, isso é inegável. Mas daí a classificar isso como doença. E o pior, fazer uso de medicamentos que alteram o sistema nervoso central. Ah, já é um pouco demais.
Descobri que na 10a edição da CID (Classificação Internacional de Doenças) no grupo F.90 está lá, bem tipificado: Transtornos Hipercinéticos. E mais ainda. Segundo os sintomas, eu e a maioria das pessoas que conheço sofre desse ''mal''.

Vamos aos sintomas da TDAH:
"Caracteriza-se pela tríade sintomatológica de desatenção, hiperatividade e impulsividade, sendo mais prevalente em meninos. Para se diagnosticar um caso de TDAH é necessário que o indivíduo em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses.''

1- Freqüentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras;
2- Com freqüência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
3- Com freqüência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra;
4- Com freqüência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade de compreender instruções);
5- Com freqüência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades;
6- Com freqüência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa);
7- Com freqüência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais);
8- É facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa;
9- Com freqüência apresenta esquecimento em atividades diárias;
e ainda são apresentados outros sintomas para hiperatividade e e impulsividade.

Visto isso, fica claro, pra mim, visualizar a coisa toda dentro de um contexto de autoridade e ambientes não-livres. Entra naquele velha história de inventar um problema para criar uma solução. Solução essa que favorece a uma minoria muito interessada na aceitabilidade da ''doença'' (industria farmacêutica).

Nos Estados Unidos a ritalina (tarja preta indicado para cura do deficit de atenção) já ficou conhecida como a ''pílula da boa nota''. Rendimento acima da média, pertencer à elite acadêmica da escola na qual estuda, estar apto a disputar e vencer a corrida pelas melhores vagas nas universidades. Como acreditar que esse tipo de comportamento padronizado é natural?! Em que universo não aceitar a diferença pode ser saudável para a criança?!

Considerando as apresentações do (cloridrato de metilfenidato):
Ritalina LA 30mg (novartis):
Preço Caixa - R$ 180,00 / Preço Comprimido - R$ 6,00
Preço Tratamento Mensal: R$ 180,00

Concerta 36mg (Janssen) (nome sugestivo e menos hipocrita):
Preço Caixa - R$ 300,00 / Preço Comprimido - R$ 10,00
Preço Tratamento Mensal: R$ 300,00

Vendas no Brasil de Caixas de Metilfenida:
Ano 2009 (160mil caixas)
Ano 2010 (270mil caixas)
Ano 2011 (420mil caixas)
A variação de 2009 pra 2011 foi de 160% calculados em mg!

No Rio, em 2011 já estava chegando a 50 caixas de remédio pra cada 1.000 crianças
Em Brasilia, passou de 110 caixas.
Rio Grande do Sul, chegou a 100 caixas.
Em Porto Alegre, o absurdo de 277 caixas (basicamente 1 pra cada 4 crianças por ano)!!!
Não quero nem imaginar o quanto deve estar este numero agora...


Observação curiosa do estudo quanto ao período do ano de maior consumo:
"a) Tem havido um aumento no consumo de metilfenidato no país com um comportamento aparentemente variável, com destaque para redução do consumo nos meses de férias e aumento no segundo semestre dos anos estudados;"
Por que será que no período de ferias se usa menos? Talvez por não terem que prestar atenção ao professor sob pena de ser diagnosticada como doente.


Fonte: boletim de farmacoepidemiologia

O problema, ao meu ver, está longe do comportamento ''anormal'' da pobre criança e sim em um sistema opressor, limitador e gerador de escassez com ferramentas muito uteis pra que ele se mantenha vivo através de escolas, creches, babás, etc. O mesmo que deturpa o conceito de natural, que mantém, com muita eficiência  pais atarefados e sem tempo para investigar como se da a evolução dos seus filhos.

Será que existiria um TDAH (classificado como doença) se não existisse escola?! Se ao invés de professores, fossemos todos responsáveis por nossas crianças tratando-as como iguais, sem hierarquia, sem autoridade, aprendendo junto?! Será que se tivéssemos  tempo e consequentemente paciência para ouvir, explicar, ajudar a desenvolver o raciocino intelectual e critico essa falta de atenção se tornaria doença?!

Por que é necessário que se conclua tarefas?! Experimentamos muitas coisas e ao fazer isso percebemos nossa aptidão, interesse, por querer continuar ou não. O simples ato de começar, já não é fazer?! O que importa o resultado final se o resultado meio é o momento presente, onde se aprende, se experiencia, portanto o mais importante. O que tem de anormal não dar atenção a assuntos desinteressantes?!

Parece muito mais cômodo enxergar a não padronização como doença. Da menos trabalho, mas é cruel, é violento, é autoritário. Estamos lidando com vidas que anseiam por aprender e não por serem ensinadas. É uma grande falácia acreditar que o aprendizado está restrito a uma instituição acadêmica.

Segue um trecho de uma excelente matéria falando sobre tudo isso:
''- Estamos medicalizando o normal.
- Estamos inserindo a patologização nas nossas vidas cotidianas - nada mais é - considerado vida comum, tudo agora é transtorno.
- Estamos dando aval a profissionais para que deem pseudodiagnósticos.
- Estamos valorizando muito mais os rótulos do que respeitando as personalidades.
- Estamos desconectados das crianças.
- Estamos comparando diferentes personalidades e esperando um padrão.
- Estamos absolutamente despreparados para acolher as diferenças
- Estamos acomodados e com preguiça de criar ambientes inclusivos, acolhedores, estimulantes e respeitosos para a criança.
- Estamos transferindo nossos papéis como pais, educadores, condutores, para caixinhas de remédios, porque, afinal, é muito mais fácil comprar...''
                                                    Matéria na íntegra

Da forma como escolhi viver já me dei conta de que fazer revolução e ser subversivo da um trabalho danado, demanda tempo e estudo. Em contrapartida, é extremamente libertador. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

De uma Tread sobre dinheiro

''Como o dinheiro é um elemento de alta liquidez (aceitabilidade), torna-se muito mais "fácil" a vida no dia-a-dia. Sim, se por facilidade entende-se o mecanismo de troca em determinado momento e se desconsidera todo a engrenagem envolvida nela (isso me faz lembrar quando o Claudio Oliver cita o exemplo do copo plastico descartável ao escutar das pessoas que justificam o seu uso dizendo:"é muito mais prático e fácil". Ele diz: - Como pode ser mais prático do que simplesmente lavar, em segundos, um copo de vidro? O sujeito tem que prospectar petróleo, retirá-lo, refiná-lo, transformá-lo, levar pra industria plastica, processar, embalar, transportar, entregar pra distribuidora, entregar para as lojas, você tem que ir à loja compra-lo e depois gera lixo que também tem toda uma cadeia de trabalho envolvida. Portanto, o copo plástico é mais fácil?''

Sergio Venuto

domingo, 10 de março de 2013

Um pouco de mim agora

Deliciosamente me percebo desapegado. De uma forma que não conhecia. Acho que desapego é a palavra que mais perfeitamente descreve essa sensação. Algo que não está sendo condicionado por tradições socioculturais. Está simplesmente fluindo.

Recentemente me vi perdidamente apaixonado por uma menina incrível. Sabe, quando se idealiza a perfeição na outra pessoa?! Me permiti fazer isso. Mentir pra mim mesmo, criar expectativas em função de sentimentos que mechem tão profundamente com nosso emocional.
Após passar uma noite linda, leve, tranquila e muito enriquecedora com essa doce menina, foi agradabilíssimo reconhecer que a memória era o lugar mais que perfeito para aqueles momentos. Não importa o amanhã nem o ontem. Eu estava bem com a ideia de viver ao lado dela até o fim da vida ou nunca mais vê-la.

A confirmação desse desapego veio quando ao deixar a casa que ''morei'' por 6 meses em Visconde de Mauá, sendo este o ambiente que me proporcionou os melhores momentos da minha vida, até hoje, não tive a sensação de estar perdendo nada, nem de estar deixando nada para trás. Não era um fim, muito menos um começo. Era simplesmente a vida. Preciosa em cada momento.

Amar não trás saudade, não trás remorso nem culpa, muito menos expectativas. Basta estarmos em paz com nós mesmos. Vivendo intensamente o agora. Respeitando a si mesmo e ao ambiente que inevitavelmente influenciamos. Fazendo o que acreditamos. Entendendo a razão das nossas ações e a verdade dentro daquilo. O que de fato somos, sentimos e queremos...

Se há uma coisa que a vida faz muito bem, é continuar...
e entender isso é libertador.