Hoje acordei cedo. Antes mesmo do querido sol. Frio. Uma casinha bem rustica. Situada em um pequeno vale de uma pequena cidade do interior. Santo Antonio do Rio Grande foi onde o dia começou.
Levantei, contra minha, preguiçosa, vontade e senti a abundancia de ar puro entrando em meus pulmões ao respirar bem fundo. Na casa outros 6 lindos seres ainda dormiam sob uma energia abundantemente amorosa. Do lado de fora a abundancia de verde, de vida... em mim paz e alegria se misturavam. Eram expressas em melodias. Embaladas por um ukulele ao passo que ia descendo as escorregadias e orvalhadas montanhas.
Depois de uma longa caminhada, eis que surge a primeira carona. Até Bocaina ele ia. Sua história: começava a plantar oliveiras de forma biodinamica para produção de azeite organico. Que boa informação essa. Mais um pequeno produtor pra alimentar a rede de alimentos saudaveis. A conversa rendeu um "cadin" até nos despedirmos.
O querido sol, então, começa a deixar de ser tão querido. Tirei o casaco e estendi o dedão para a próxima carona. Um prefeito dessa vez. E la fomos os dois trepidando pelas estradas esburacadas conversando sobre politica. Ele desejava um "bom dia" bem verdadeiro pra todos que cruzavam por seu humilde carrinho barulhento e ainda chamava cada um pelo nome.
Me falou com orgulho da sua genial ideia de fazer o natal na rua, pra que todos pudessem compartilhar do mesmo alimento. Um grande pic-nic natalino na cidade. Misturando crianças e idosos na praça. Achei graça. Genial!!!
Chegando a nosso destino: a ponte que dividia o Estado de Minas e do Rio, mais infortúnios politicos. A ponte em estado precário não poderia ser tocada por ele, com risco de ter cassado seu mandato caso ousasse reforma-la, pois pertence a outro Estado.
Já que as "burrocracias" nos impediam de agir pela lei, apelamos ao mutirão social. Cada um sacou seu facão e começamos a desbastar o mato que cobria as placas. Achei graça mais uma vez. Prefeito que pega na "enxada" não é coisa de cidade grande.
Mais uma carona até a vila de Mauá onde reencontrei amigos do coração em uma festa mágica. Cheia de crianças, música, arte e natureza. Um ambiente perfeito para não querer sair de lá. Logo, não me apressei para a próxima parada.
Com despedidas e futuros encontros marcados, deixei a festa em busca da próxima carona.
Desta vez com um rabino. Um longo e prazeroso caminho montanha a baixo conversando sobre filosofia e teosofia. Mais aprendizado. Sem perceber o tempo passar cheguei em Penedo. Após os contatos trocados com o rabino, solicitei a gentileza dos irmãos Venuto: "Sergião, alguém pode vir me buscar aqui no portal?". Enquanto esperava, um dedinho de prosa com a Marilene. Solitária informante do solitário ponto de informações turisticas da cidade.
Chegando na casa, de carona com Chef Emerson, já fui beijando a criançada. Fiz o reconhecimento do jardim com Emerson. Admirando o resultado de um bom tempo de trabalho dedicado naquelas hortinhas. A maior touceira de inhame que já vi habita essa casa. Impressionante!
Lembrei de mamãe e peguei 1kg de café do bão de presente, lembrando da Bekinha e seu filhote natureba, uns bons kilos de abacates maduros e guardei no mochilão. Depois de comido, banhado, conectado e descansado, já era hora de acabar com a magia da vida sem tempo cronologico e pegar o expresso babilonia.
2 horas depois já estava sentindo o cheirinho desconfortantemente arrepiante do Rio de Janeiro.
Não com a mesma alegria do inicio do dia, mas ainda na abundancia, aqui pude contar com a gentileza de um padrasto pra me buscar na rodoviaria e uma mãe cheia de mimos que me aguardava ansiosa.
Explore seu capital social! Abundancia é compartilhar e não acumular!
domingo, 23 de novembro de 2014
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Prosa Estranha
Texto de Carla Ferro*
"Encontrei um amigo e saímos para conversar.
Ele queria saber como eu ia. Perguntou dos meus projetos. Não tenho projetos, eu respondi, a vida está boa. Apesar disso, sinto que estão crescendo desertos à minha volta.
Disse isso assim, ele não fez mais perguntas e continuamos conversando.
Ao final de duas horas, ele tinha dado boas risadas. De mim. Por menos que eu tivesse intenção, tudo o que eu dizia o fazia rir.
Um riso debochado, claramente reprovador. Desqualificador. Liquidificador. Liquidante.
Não sei explicar por que eu continuava. Talvez porque quisesse ter por mais tempo a sensação, experimentar mais um pouco daquele efeito e quem sabe aprender a evitá-lo caso viesse em doses mais fortes, de fontes mais infestas...
Eu falava sobre existirem no mundo pessoas que são minhas, que sou eu. Não por posse ou identificação. Pessoas que acontecem, que “se dão” no encontro.
Difícil explicar, e meu amigo ria.
São pessoas com quem não tenho a sensação de contracenar, você entende? Eu tentava, querendo muito que ele percebesse o que eu queria dizer.
Pessoas que em vez de configurar sempre o mesmo outro e, por consequência, sempre o mesmo eu, se deixam re-conhecer ao mesmo tempo em que me re-conhecem no espaço que se abre entre nós. Essas pessoas me viabilizam com a sua própria existência.
É engraçado, mesmo. Conversa estranha, eu disse. Porque você é estranho. Você é um estranho pra mim, de tanto só conseguir ser você mesmo, não poder sair desse seu lugar fixo para me encontrar entre nós.
Sinto que estão crescendo desertos à minha volta. E estou entendendo como acontece."
"Encontrei um amigo e saímos para conversar.
Ele queria saber como eu ia. Perguntou dos meus projetos. Não tenho projetos, eu respondi, a vida está boa. Apesar disso, sinto que estão crescendo desertos à minha volta.
Disse isso assim, ele não fez mais perguntas e continuamos conversando.
Ao final de duas horas, ele tinha dado boas risadas. De mim. Por menos que eu tivesse intenção, tudo o que eu dizia o fazia rir.
Um riso debochado, claramente reprovador. Desqualificador. Liquidificador. Liquidante.
Não sei explicar por que eu continuava. Talvez porque quisesse ter por mais tempo a sensação, experimentar mais um pouco daquele efeito e quem sabe aprender a evitá-lo caso viesse em doses mais fortes, de fontes mais infestas...
Eu falava sobre existirem no mundo pessoas que são minhas, que sou eu. Não por posse ou identificação. Pessoas que acontecem, que “se dão” no encontro.
Difícil explicar, e meu amigo ria.
São pessoas com quem não tenho a sensação de contracenar, você entende? Eu tentava, querendo muito que ele percebesse o que eu queria dizer.
Pessoas que em vez de configurar sempre o mesmo outro e, por consequência, sempre o mesmo eu, se deixam re-conhecer ao mesmo tempo em que me re-conhecem no espaço que se abre entre nós. Essas pessoas me viabilizam com a sua própria existência.
É engraçado, mesmo. Conversa estranha, eu disse. Porque você é estranho. Você é um estranho pra mim, de tanto só conseguir ser você mesmo, não poder sair desse seu lugar fixo para me encontrar entre nós.
Sinto que estão crescendo desertos à minha volta. E estou entendendo como acontece."
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