quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mais sobre relações abertas

Então a gente se depara com um conflito. Daqueles que nossas ações podem estimular fortes sensações no outro. Ciumes, é como chamam normalmente. Mas eu não sou normal. Chamo de outra coisa. Prefiro “medo”. Aquele que só da as caras quando defrontamos o desconhecido. Aconteceu comigo e com uma namoradinha linda que eu tenho.

Surgiu, assim meio que do nada, uma menina amarela. Daquelas que atrai olhares na rua. E começamos a conviver o dia-a-dia. Senti que tinha coisa ali. Mexeu algo aqui dentro. Fui observando, fui entendendo, curioso, atraído, até compartilhar com a namorada.

Vem a mente aquele papo de “amor livre”. Papo furado. Vem conversas, vem choros, vem lembranças, vem a pergunta: “Isso que eu to sentindo, de onde vem?”. E desvendando juntos esses mistérios, desconstruindo muros de paradigmas, vamos caminhando para um campo de duvidas e incertezas comum aos dois.

Nesse campo nos encontramos despidos, quase nus de influencias. Querendo cada vez mais despir-nos e experimentar um novo e encantador encontro. Construir um novo mundo. Por raras vezes conseguimos. Compreendemos, fazemos novos acordos e conseguimos dizer honestamente que estamos satisfeitos.

Assim se manifesta o companheirismo de quem decide viver uma vida junto, em comunidade. Que contempla o respeito, atenção, cuidado e empatia. Ser capaz de sentir o que outro sente. Entender o bom momento para ousar. Cuidar das experiencias, uma de cada vez. Não deixar que elas se misturem, que se confundam. Se ouvir e se respeitar em comunhão.

Foi assim, que muito recentemente, aprendi mais um pouco sobre relações abertas, ou seja, relações honestas. Onde se escuta de verdade e há espaço para dizer o que se pensa. Sigo satisfeito, com uma curiosidade que só aumenta ao me aprofundar em relação com o outro. O outro que eu amo e que aprendo a cuidar.


Mataram um cara na minha rua

Eu soube hoje pelos vizinhos. Uma briga de faca.

Um sentimento de derrota. Perceber dentro da vizinhança que me disponho a cuidar dia após dia, a cada “bom dia” com sorriso estampado no rosto, a cada meia horinha dispensada no portão para uma prosa rápida, um caso extremo que me encontra na contra-mão do caminho.

A morte de qualquer ser humano é de uma conseqüência imensurável na sociedade. Nunca é apenas a morte do indivíduo. É a morte de relacionamentos, companheirismo, apoio e da integridade dos ambientes familiar e comunitário.

Me sinto impotente diante da situação. Mataram um cara na minha rua e não há nada que eu possa fazer. Mataram o sorriso das crianças. Mataram a cantoria da dona de casa. Confiar, cooperar, compartilhar e contribuir, se tornam palavras mais distantes da realidade.

O que me resta é o desejo que, das cinzas dessa amarga derrota, renasça o vigor para manifestar a vida que há na vida. Que me venha aquela vontade de gritar: confiem, cooperem, compartilhem e contribuam. Sim, nós podemos. Mais do que isso.. nós precisamos.

Mataram um cara na minha rua e o que não falta é trabalho a ser feito agora. Reunir os vizinhos. Falar sobre o assunto. Trazer as crianças pra dentro de casa. Reafirmar que não aceitamos isso. Precisamos deixar claro pra nossa comunidade que tirar a vida de outrem é um comportamento inaceitável e intolerável.

Mataram um cara na minha rua. E esse é só o sintoma da doença que me proponho a curar a um ínfimo passo de cada vez. Quero ouvir a Dona voltar a cantar, quero ver as crianças voltarem a sorrir.

domingo, 8 de maio de 2016

Estamos Voltando

Chegamos na cidade!
Então exploramos seus recursos naturais, cobrimos cada metro quadrado de grama com placas de concreto e cercamos as árvores em canteiros para que não fujam. Expulsamos a vida silvestre, adotamos pets para saciar nossa carência e começamos a morar empilhados até o limite do constrangimento de um elevador.

É com muito prazer e otimismo que lhes digo que estamos voltando. Ainda de forma tímida e desconcertada, regada de incertezas e insegurança, com as pernas bambas e a companhia do medo de se excluir do convívio social. Mas estamos voltando.

Falamos um tanto, especulamos outro tanto ainda maior. “Pra onde vamos?”, “O que tem que ter?”, “E a familia?”, “Onde vou comprar meu kinder ovo?”. Incertos se seria certo deixar toda a bagagem pesada que acumulamos durante toda nossa frustrada vida para trás. Mas estamos voltando.

Mas para onde estamos voltando? Pro campo?! Não!

Estamos voltando para um pequeno espaço habitacional onde ainda conseguimos experimentar um minimo de humanidade, um vestigio de compaixão. E sim, há uma preferencia pelo afastamento da cidade grande. Queremos começar de novo, queremos partir de um lugar onde estamos mais integrados com a nossa natureza. Queremos levar a tecnologia com a gente, mas podemos deixar o peso dos paradigmas para trás.

Conseguimos a façanha de nos excluir do convívio social cercados de gente por todos os lados. Agora é hora de resgatar nossa essência humana reestruturando uma comunidade que respeita a vida. Estamos voltando e queremos morar juntos. E queremos compartilhar, emprestar, e apreciar demoradas conversas na esquina da padaria do seu Manoel com a loja de bordados da tia Luzia.

Ainda estamos ensaiando. Os mais temorosos até falam bastante, mas ainda hesitam em se mover. Os mais eufóricos saem na frente aos trancos e barrancos, construindo templos e criando instituições. Os mais pacientes começam a experimentar uma vidinha mais tranquila. Com mais tempo pros amigos. Colocando a mão na terra e dizendo bom dia pros vizinhos. Um pão feito por mãos, a criançada solta na praça e muito trabalho em mutirão. Como dizia Claudio Oliver “O futuro, se houver, está no passado.”