Texto de Rodrigo Mansur*
Ai de ti, meu amigo, a quem dizem que seu coração devia ter outras prioridades. Que devia estar em Mariana, Síria, Shangrilá e não em seu peito. Que suas lágrimas deveriam banhar doentes na África ou crianças na esquina ao invés do seu rosto. Como se suas qualidades morais fossem mutuamente excludentes. Aqueles iluminados que detém as certezas inabaláveis e os sentimentos corretos vão ensiná-lo a controlar os misteriosos caminhos da sua empatia. Com sorte, da próxima vez, não serás tão fraco ao não conseguir escolher o que sentir.
Ai de ti, meu amigo. Vão tentar colocar antolhos na sua mente e cabresto no seu coração. Vão medir seus sentimentos com uma régua de plástico. Vão pesar suas lágrimas numa balança de chumbo. Vão classificar, selecionar e descartar suas emoções segundo suas lógicas impecáveis. Vão calcular o nível ótimo de dor e manda-lo passar no caixa. “Próximo”.
Ai de ti, meu amigo, que vais ouvir teorias a respeito da responsabilidade das vítimas: da sua convivência, da sua abertura, da sua história, dos seus preconceitos, dos seus pecados, da sua existência. No lugar do consolo, vão presenteá-lo com a culpa. Vão sugerir que és inocente, manipulado, ignorante, racista e – pasmem – insensível.
Ai de ti, meu amigo. Não queria estar na sua pele. Mas estou. Je Suis Toi. Ai de nós, meu amigo."
