sábado, 14 de novembro de 2015

13 de novembro de 2015 - um dia para se lamentar

Texto de Rodrigo Mansur*

"Ai de ti, meu amigo, que se comove por Paris. Recomendo que feche o Facebook por esses dias. Vais ler muitas coisas que irão adensar sua tristeza em vez de amenizá-la. Depois disso, vais chorar pelos vivos tanto quanto pelos mortos.

Ai de ti, meu amigo, a quem dizem que seu coração devia ter outras prioridades. Que devia estar em Mariana, Síria, Shangrilá e não em seu peito. Que suas lágrimas deveriam banhar doentes na África ou crianças na esquina ao invés do seu rosto. Como se suas qualidades morais fossem mutuamente excludentes. Aqueles iluminados que detém as certezas inabaláveis e os sentimentos corretos vão ensiná-lo a controlar os misteriosos caminhos da sua empatia. Com sorte, da próxima vez, não serás tão fraco ao não conseguir escolher o que sentir.

Ai de ti, meu amigo. Vão tentar colocar antolhos na sua mente e cabresto no seu coração. Vão medir seus sentimentos com uma régua de plástico. Vão pesar suas lágrimas numa balança de chumbo. Vão classificar, selecionar e descartar suas emoções segundo suas lógicas impecáveis. Vão calcular o nível ótimo de dor e manda-lo passar no caixa. “Próximo”.

Ai de ti, meu amigo, que vais ouvir teorias a respeito da responsabilidade das vítimas: da sua convivência, da sua abertura, da sua história, dos seus preconceitos, dos seus pecados, da sua existência. No lugar do consolo, vão presenteá-lo com a culpa. Vão sugerir que és inocente, manipulado, ignorante, racista e – pasmem – insensível.

Ai de ti, meu amigo. Não queria estar na sua pele. Mas estou. Je Suis Toi. Ai de nós, meu amigo."

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Relato de um dia comum por William Germano

Gente que da esperança! Os pequenos gestos revolucionários. Obrigado por compartilhar, William.

"Confesso: matei aquele cara mau do sinal! Sabe aquele menino do rodinho que limpa o vidro?! Vou contar meu assassinato porque este é o país da impunidade!

Todo domingo aquele cara que chega com um rodinho e uma garrafa pra limpar o vidro do carro no sinal. 6 e pouco da manhã, provavelmente noiado de pedra e cachaça. Eu tendo que falar que não quero, meu direito, caramba! Não quero, não limpa direito, não precisa limpar, porque ele não vai arrumar um trampo? É pra comprar droga! É pra comprar cachaça, é pra olhar o que tenho no carro pra roubar!

Pois bem. Há uns 6 meses aconteceu. Aquela tensão! Minha luta pelo direito de falar "não" por um serviço inútil!

Aquele sinal. Toda semana em meu caminho. Decidi que ia tomar uma atitude, mas não esperava que acontecesse uma mudança tão dramática.

Vermelho! Putz, é hoje!

Ele sai dá calçada vai pro carro da frente mostrando seu rodinho e fazendo positivo com a outra mão. O cara do carro da frente faz que não! Ele vai pro carro da outra pista. Mesmo história. O próximo sou eu.

Vermelho. Não vai dar tempo. Suando frio. Ele vai levantar aquele rodo já sabendo que vai tomar outro não! quem sabe vai me jogar o ácido que disseram que jogaria num alerta de internet. Ele se aproxima, mas sou mais rápido. Abro o vidro e disparo!

"Irmão, bom dia! Tudo certo contigo? Tem a moral de limpar meu vidro de trás que tá com uma poeira do caramba. Depois faço uma 'presença' pro senhor. Valeu"

Ele revida

"Opa! É pra já, patrão!"

"Que patrão, o que colega!"

Ele limpa, brinca com meu filho. Meu filho. Meu filho brinca com ele. Os dois sorriem.

Uns trocados. Vai com Deus. Fica com Deus. E vamos embora humanos. Todos nós, finalmente.

O homem mau do sinal vermelho foi morto! Morto com seu "direito sagrado de falar não"

(Eu escrevo porque o faria de qualquer jeito. Eu público sei lá porque. História verídica)"