Vivemos a cultura do ter, dizem.
Não acho não. Acho que vivemos na cultura do ser mesmo.
Se não somos, estamos apontando alguém que é.
É a cultura da rotulação, coisificação, pré-definição, preconceito.
Nossa sociedade entende o mundo como dual. Ou é bom ou é ruim, ou é certo ou é errado, ou é feio ou é bonito, e assim vai. A tendencia a enquadrar a pessoa dentro de um adjetivo, cheio de juízo de valor, é grande. Não estou entrando naquela ideia abstrata de que tudo é relativo. A coisa é mais prática mesmo. Digo que não estamos acostumados a observar e analisar os fatos, menos ainda experimentar novas formas de linguagem.
Acontece que tais juízos de valor acabam dificultando e muito o processo de entendimento na comunicação quando fazemos alguma crítica ou elogio.
Se eu disser que uma pessoa é inteligente, é bem visto. Se eu disser que uma pessoa é burra não é bem visto. Tem alguma coisa estranha ai. O juízo de valor é o mesmo. E não existe um, sem a existência do outro.
Ninguém é inteligente ou burro do nada. Algo precisa ser feito para merecer esse titulo. Em situação hipotética, o que eu quis dizer com inteligente era: "você organizou as ferramentas de uma forma que me poupou tempo, fiquei feliz com isso". Em situação contrária seria: "você não organizou as ferramentas nas posições originais e demandou mais tempo para encontra-las, fiquei com raiva por isso".
Quando digo que a pessoa é burra ou inteligente, mesmo contextualizado, a mensagem não fica clara. Não digo que seja impossível entender. E também se pode perguntar o que a pessoa quis dizer. O que estou dizendo é que aumentam as chances de ruido na comunicação e por nosso já condicionado comportamento social, há uma tendencia de entrar em estado defensivo: "sou nada" ou "burro é você".
Portanto fazer uma critica ou um elogio, dá no mesmo. Ambos dão validade a uma forma de se expressar pouco reveladora, afastada da realidade que se sente, que se quer dizer com aquilo.
Digo isso porque não é comum esse entendimento. Parece que ao ponto que chamar de burro é ruim, pois deprecia, chamar de inteligente é bom, pois enaltece. Acontece que em ambas as situações estamos avaliando, remexendo o ego, criando diálogos que estimulam uma competição social. Fica o burro contra o inteligente. E ninguém quer ser burro. Mas inteligente pode, todo mundo quer.
Aprendi a ouvir criticas e buscar o que vem por trás delas. Entender onde o outro me reconheceu ali. O que é burro pra ele, o que é uma atitude burra pra ele, o que eu fiz que estimulou essa reação. E ai seja burro ou inteligente, o trabalho de questionamento é o mesmo.
Então se ser burro, feio, chato e bobo, não é legal, ser inteligente, bonito, descolado e carismático, tampouco. Vale o mesmo para seres de pouca luz ou seres iluminados.
As vezes sinto vergonha da precariedade do nosso vocabulário para expressão emocional. Mais ainda da nossa submissão à um vocabulário pouco esclarecedor.
Proponho dois pontos chaves para essa reflexão. Ou a gente trabalha melhor esse vocabulário pra se fazer entender sem juízos de valor no meio da fala, ou a gente se expressa sem tanta preocupação e começa a se esforçar pra entender o que o outro quis dizer. Sem a bagagem social pejorativa ou glorificante que a palavra traz consigo. Se relacionar é difícil, cambada! To tentando um pouco dos dois. Vamos se esforçar! Me ajuda ai.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Vou ali visitar outro mundo e já volto
Assim começou uma viagem que seria a fluidez da vida experimentada na prática. Dei as mãos ao meu amor, pegamos um carango emprestado e partimos meio que sem propósito, com um meio propósito de buscar lugares acolhedores onde pudêssemos passar um tempo da vida se experimentando em relações despropositadamente.
Fomos ali mais adiante, fizemos favores, gastamos um tempo e alguma energia, com prazer de estar sendo útil para outros e uma descontraída capacidade de tornar o caminho mais agradável. Um almoço de mãe, requentado por mãos, ajudam a gastar menos dindin. Um banho de piscina ajudam a revigorar as energias e adentramos na carroça em busca do tal propósito inesperado.
Quando menos se espera é que o tal inesperado bate à porta. Um lugar aconchegante que passa e encanta. "Voltamos aqui mais tarde". Seguimos viagem, olhando atentos. Anúncios nas padarias e esquinas, bate-papos rápidos que indicam e sugerem uma informação ou outra mais relevante. Entre gentis Donas de esquinas surge a figura de Dona Cristina, que prontamente embarca no carango, como uma guia turística contratada, e solidariamente nos apresenta os imóveis para locação de que tem conhecimento. Vamos na casa tal, passamos na outra casa, um convite para o café e até mais tarde. Contatos guardados para ligar depois. Sacra Familia do Tinguá foi a cidade.
Mais abaixo da montanha Paulo de Frontin. Já é noite. Um tal Fabrício ofereceu no facebook: "dorme lá em casa, a chave ta embaixo do tapete". Falamos com Richard, que não só nos levou até espaçosa casa do amigo, como nos mostrou toda a cidade e o principal ponto de encontro da comunidade. Cansados, dormimos, acordamos e fomos ao tal ponto, ve-lo à luz do dia. Um grande e limpo lago com uma bela estrutura para encontros dominicais, piquenique e recreação infantil. Refrescamo-nos, claro, e voltamos à cidade com a missão de entregar as chaves de volta pro Richard.
Não havia um Richard acordado na casa onde batemos. Culpa, talvez, da entusiasmada noite anterior. Em contra partida havia um pai e uma mãe pra lá de hospitaleiros e um convite para o café. O que seria uma simples entrega de chaves se tornou um agradável bate-papo sobre vida, histórias engraçadas e filosofia de viver. Agradecemos aquele tempo que passamos com seu Ranulpho e dona Rosa e partimos deixando um abacaxi, literalmente, de presente para a próxima ceia.
"Vamos lá naquele lugar aconchegante que encanta?" E fomos. Vale das Videiras o destino, e nosso segundo dia de viagem. Foi difícil chegar sem parar em nenhum lugar curioso, mas a fome falava mais alto e combinamos de almoçar no Vale. Horas de estrada e um almoço caseiro, num cantinho bem em conta, depois de recusar a gourmetização do restaurante da praça central.
Domingo. Tudo fechado. Dia de cachoeira. Que assim seja.
Saindo deliciados da água gelada uma plaquinha atraente: "vendo casa com riacho no fundo". Paramos pra perguntar e quem respondeu foi Timba. Um ser humano que dispensa comentários quando o assunto é gentileza. Na figura de "corretor da roça" (aquele que mora por ali e mostra a casa pro amigo que teve que sair por uns tempos), nos mostrou toda a casa e ainda o tal riacho, que nada mais era do que um lindo poço de um lado e uma forte queda d'água do outro. R$ 200.000,00! "Vamo comprar essa porra!" Foi nosso primeiro impulso irracional. Perguntamos se ele não conhecia algo pra alugar e ele lembrou de Severino.
Timba se tornou membro da viagem. Subiu e desceu o vale com a gente nos apresentando sua família e todo o resto por onde passávamos. Fomos até a casa de Severino. Achamos graça do encontro dos dois amigos. Fofos! E começamos os acordos com sotaques misturados do Brasil brasileiro. "Vocês vão lá ver e me dizem depois.", disse o Cearense. Pegamos a chave da casa recém reformada do Severino e fomos conhece-la com Timba. Uma graça, um encanto. Que vista! Tem internet?! Maravilha! Conhecemos os vizinhos e voltamos pra falar com Severino que deu seu preço.
Nossa resposta:
- Calma! Vamos continuar procurando. A gente volta aqui antes que essa viagem acabe.
Com autorização e uma certa estranheza de Severino, dormimos acampados ao lado da casinha para sentir a noite e o dia. Parecia um pedaço de chão caído do céu. Um tibum na cachu pra despertar. Fomos até a casa de Timba para o desjejum. No portão, a surpresa de ver seu pai , perto de seus 90 anos, saindo para pegar um onibus para sua consulta no médico. Inveja do povo da roça. Conversas gostosas, interação com crianças e filhotes, nos conhecemos ainda mais. Ganhamos limão de presente. Despedimo-nos. "Voltamos amanhã."
No caminho descendo a serra, ali em Paty o incrível trabalho de Anderson, produtor de tomates cereja, sem veneno. Nos mostrou toda a produção e operação da estufa. Um kilo era o máximo que podíamos levar. Tudo vendido pra industria "parceira" que fornece as sementes. Que seja. Um kilo de tomates e mais algumas hortaliças e seguimos para região de Sacra Familia, porque agora a coisa ficou séria. Estávamos no terceiro dia de viagem e já tinhamos quase fechado um contrato de aluguel. Tinhamos que, por obrigação, comparar com outros lugares. Mas era tarde demais. Aquele chalé tinha nos fascinado. Todas as condições básicas, inacreditavelmente, saciavam nossas necessidades. Procuramos sem muito estimulo e com igual sucesso. "Ta bom! Vamos achar um lugar pra dormir."
"Aqui é o Vipassana", apontei à Marina (meu amor), sem saber que um pouco mais adiante, num sitio bem rustico, Alfred colocava bastante energia numa bela iniciativa. Foi do couchsurfing que veio o contato. Uma hora antes dali, tentamos contato para saber de um cantinho pra cair e felizmente a resposta foi positiva.
Eliana, cansada, nos recebeu e foi dormir. Mariana, apareceu na cozinha e trocou meia duzia de palavras sobre dieta crudivora. Um banho depois, voltamos pra cozinha. Sentados à mesa foi chegado a hora do rodizio de conversas. Primeiro com Eliane que contou sobre sua vida, seus valores (liberdade e respeito) e sua tentativa de compreender as escolhas de seu filho. Mais tarde Alfred chegou para compartilhar a comida que fizemos e nos contar um pouco das suas ideias pro lugar. Nada mirabolante, nada dogmático. Coisa simples. Do jeito que a gente gosta. Construir, morar, receber amigos e compartilhar momentos e a fazeres domésticos. Mindo foi o próximo à sentar-se à mesa. Vindo de Lumiar e um novo projeto que envolve um moto-home, nos contou um pouco do seu momento. Histórias e pessoas fascinantes. Quando já estávamos prestes a sair para o ninho, Eliana acorda e nos surpreende com sua simpatia e mais historias interessantes.
Dormimos acampados, para evitar os mosquitos do quarto. No dia seguinte foi só tomar um café rápido com Mindo e Alfred pois há muito trabalho a se fazer. Uma paradinha rápida pra conhecer o moto-home por dentro e ganhar um lindo colar artesanal de presente do Mindo.
Empacotamos tudo e partimos para dar a resposta final ao Severino. Sim, já havíamos nos decidido. Não tinha porque não.
Mais uma parada para comprar os tomates do Anderson. E chegamos ao nosso futuro quintal.
Severino trabalhando na casa com promessas de deixa-la impecável. Uma broa compartilhada, abraços ainda meio duros. "Nos encontramos antes do fim do mês pra fechar tudo bonitinho."
E assim ficou combinado.
Mais uma parada no caminho para um banho de piscina. Conversas com vizinhos. Uma aguinha pra enganar que o carro tava muito sujo e voltamos à monotonia dos grandes centros urbanos numa terça-feira pré-carnaval após a hora do rush.
Me assusta e encanta a gentileza e pró atividade das pessoas recém conhecidas ao se colocarem a disposição pro que precisássemos. Isso não é um fenômeno comum aos grandes centros urbanos. Para isso é preciso ter tempo e confiança. Qualidades comuns à um ritmo de vida mais lento. Um outro mundo possível, já existente.
A sensação que fica é de que não é necessário percorrer grandes distancias para conhecer novos mundos e culturas. Eles se apresentam bem pertinho de nós. Basta se permitir ao desconhecido, e dedicar tempo ao imprevisível. Sair sem destino, não significa ser irresponsável, mas sim confiar na vida e gozar da liberdade que temos para conhecer novos mundos através de impensáveis novos amigos.
Fomos ali mais adiante, fizemos favores, gastamos um tempo e alguma energia, com prazer de estar sendo útil para outros e uma descontraída capacidade de tornar o caminho mais agradável. Um almoço de mãe, requentado por mãos, ajudam a gastar menos dindin. Um banho de piscina ajudam a revigorar as energias e adentramos na carroça em busca do tal propósito inesperado.
Quando menos se espera é que o tal inesperado bate à porta. Um lugar aconchegante que passa e encanta. "Voltamos aqui mais tarde". Seguimos viagem, olhando atentos. Anúncios nas padarias e esquinas, bate-papos rápidos que indicam e sugerem uma informação ou outra mais relevante. Entre gentis Donas de esquinas surge a figura de Dona Cristina, que prontamente embarca no carango, como uma guia turística contratada, e solidariamente nos apresenta os imóveis para locação de que tem conhecimento. Vamos na casa tal, passamos na outra casa, um convite para o café e até mais tarde. Contatos guardados para ligar depois. Sacra Familia do Tinguá foi a cidade.
Mais abaixo da montanha Paulo de Frontin. Já é noite. Um tal Fabrício ofereceu no facebook: "dorme lá em casa, a chave ta embaixo do tapete". Falamos com Richard, que não só nos levou até espaçosa casa do amigo, como nos mostrou toda a cidade e o principal ponto de encontro da comunidade. Cansados, dormimos, acordamos e fomos ao tal ponto, ve-lo à luz do dia. Um grande e limpo lago com uma bela estrutura para encontros dominicais, piquenique e recreação infantil. Refrescamo-nos, claro, e voltamos à cidade com a missão de entregar as chaves de volta pro Richard.
Não havia um Richard acordado na casa onde batemos. Culpa, talvez, da entusiasmada noite anterior. Em contra partida havia um pai e uma mãe pra lá de hospitaleiros e um convite para o café. O que seria uma simples entrega de chaves se tornou um agradável bate-papo sobre vida, histórias engraçadas e filosofia de viver. Agradecemos aquele tempo que passamos com seu Ranulpho e dona Rosa e partimos deixando um abacaxi, literalmente, de presente para a próxima ceia.
"Vamos lá naquele lugar aconchegante que encanta?" E fomos. Vale das Videiras o destino, e nosso segundo dia de viagem. Foi difícil chegar sem parar em nenhum lugar curioso, mas a fome falava mais alto e combinamos de almoçar no Vale. Horas de estrada e um almoço caseiro, num cantinho bem em conta, depois de recusar a gourmetização do restaurante da praça central.
Domingo. Tudo fechado. Dia de cachoeira. Que assim seja.
Saindo deliciados da água gelada uma plaquinha atraente: "vendo casa com riacho no fundo". Paramos pra perguntar e quem respondeu foi Timba. Um ser humano que dispensa comentários quando o assunto é gentileza. Na figura de "corretor da roça" (aquele que mora por ali e mostra a casa pro amigo que teve que sair por uns tempos), nos mostrou toda a casa e ainda o tal riacho, que nada mais era do que um lindo poço de um lado e uma forte queda d'água do outro. R$ 200.000,00! "Vamo comprar essa porra!" Foi nosso primeiro impulso irracional. Perguntamos se ele não conhecia algo pra alugar e ele lembrou de Severino.
Timba se tornou membro da viagem. Subiu e desceu o vale com a gente nos apresentando sua família e todo o resto por onde passávamos. Fomos até a casa de Severino. Achamos graça do encontro dos dois amigos. Fofos! E começamos os acordos com sotaques misturados do Brasil brasileiro. "Vocês vão lá ver e me dizem depois.", disse o Cearense. Pegamos a chave da casa recém reformada do Severino e fomos conhece-la com Timba. Uma graça, um encanto. Que vista! Tem internet?! Maravilha! Conhecemos os vizinhos e voltamos pra falar com Severino que deu seu preço.
Nossa resposta:
- Calma! Vamos continuar procurando. A gente volta aqui antes que essa viagem acabe.
Com autorização e uma certa estranheza de Severino, dormimos acampados ao lado da casinha para sentir a noite e o dia. Parecia um pedaço de chão caído do céu. Um tibum na cachu pra despertar. Fomos até a casa de Timba para o desjejum. No portão, a surpresa de ver seu pai , perto de seus 90 anos, saindo para pegar um onibus para sua consulta no médico. Inveja do povo da roça. Conversas gostosas, interação com crianças e filhotes, nos conhecemos ainda mais. Ganhamos limão de presente. Despedimo-nos. "Voltamos amanhã."
No caminho descendo a serra, ali em Paty o incrível trabalho de Anderson, produtor de tomates cereja, sem veneno. Nos mostrou toda a produção e operação da estufa. Um kilo era o máximo que podíamos levar. Tudo vendido pra industria "parceira" que fornece as sementes. Que seja. Um kilo de tomates e mais algumas hortaliças e seguimos para região de Sacra Familia, porque agora a coisa ficou séria. Estávamos no terceiro dia de viagem e já tinhamos quase fechado um contrato de aluguel. Tinhamos que, por obrigação, comparar com outros lugares. Mas era tarde demais. Aquele chalé tinha nos fascinado. Todas as condições básicas, inacreditavelmente, saciavam nossas necessidades. Procuramos sem muito estimulo e com igual sucesso. "Ta bom! Vamos achar um lugar pra dormir."
"Aqui é o Vipassana", apontei à Marina (meu amor), sem saber que um pouco mais adiante, num sitio bem rustico, Alfred colocava bastante energia numa bela iniciativa. Foi do couchsurfing que veio o contato. Uma hora antes dali, tentamos contato para saber de um cantinho pra cair e felizmente a resposta foi positiva.
Eliana, cansada, nos recebeu e foi dormir. Mariana, apareceu na cozinha e trocou meia duzia de palavras sobre dieta crudivora. Um banho depois, voltamos pra cozinha. Sentados à mesa foi chegado a hora do rodizio de conversas. Primeiro com Eliane que contou sobre sua vida, seus valores (liberdade e respeito) e sua tentativa de compreender as escolhas de seu filho. Mais tarde Alfred chegou para compartilhar a comida que fizemos e nos contar um pouco das suas ideias pro lugar. Nada mirabolante, nada dogmático. Coisa simples. Do jeito que a gente gosta. Construir, morar, receber amigos e compartilhar momentos e a fazeres domésticos. Mindo foi o próximo à sentar-se à mesa. Vindo de Lumiar e um novo projeto que envolve um moto-home, nos contou um pouco do seu momento. Histórias e pessoas fascinantes. Quando já estávamos prestes a sair para o ninho, Eliana acorda e nos surpreende com sua simpatia e mais historias interessantes.
Dormimos acampados, para evitar os mosquitos do quarto. No dia seguinte foi só tomar um café rápido com Mindo e Alfred pois há muito trabalho a se fazer. Uma paradinha rápida pra conhecer o moto-home por dentro e ganhar um lindo colar artesanal de presente do Mindo.
Empacotamos tudo e partimos para dar a resposta final ao Severino. Sim, já havíamos nos decidido. Não tinha porque não.
Mais uma parada para comprar os tomates do Anderson. E chegamos ao nosso futuro quintal.
Severino trabalhando na casa com promessas de deixa-la impecável. Uma broa compartilhada, abraços ainda meio duros. "Nos encontramos antes do fim do mês pra fechar tudo bonitinho."
E assim ficou combinado.
Mais uma parada no caminho para um banho de piscina. Conversas com vizinhos. Uma aguinha pra enganar que o carro tava muito sujo e voltamos à monotonia dos grandes centros urbanos numa terça-feira pré-carnaval após a hora do rush.
Me assusta e encanta a gentileza e pró atividade das pessoas recém conhecidas ao se colocarem a disposição pro que precisássemos. Isso não é um fenômeno comum aos grandes centros urbanos. Para isso é preciso ter tempo e confiança. Qualidades comuns à um ritmo de vida mais lento. Um outro mundo possível, já existente.
A sensação que fica é de que não é necessário percorrer grandes distancias para conhecer novos mundos e culturas. Eles se apresentam bem pertinho de nós. Basta se permitir ao desconhecido, e dedicar tempo ao imprevisível. Sair sem destino, não significa ser irresponsável, mas sim confiar na vida e gozar da liberdade que temos para conhecer novos mundos através de impensáveis novos amigos.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
A Migração para a Amizade
Texto de Augusto de Franco*
"Mas o amigo - aquele que amamos incondicionalmente, sem instrumentalizá-lo para manter ou alcançar qualquer objetivos - é o que nos salva, é aquilo que escapa de propriamente humano nisso tudo (sim, em todo o restante repetimos padrões da sociedade hierárquica).
Agora imaginem como seria fantástico termos amigos não privados, não escolhidos seletivamente, mas escorridos ao acaso, do fluxo interativo da convivência social, para o nosso colo. Amigos nossos que fossem também amigos entre si, mas sem nunca conformar um grupo proprietário e fechado. Amigos que não fossem uma espécie de recreio ou respiro de um trabalho vivido como pena.
E que o nosso trabalho fosse realizado como amizade: o trabalhar como se comprazer na convivência com os amigos, já pensaram? E que nossos namorados e namoradas, esposos e esposas, filhos e pais fossem também e primeiramente nossos amigos e amigos de nossos amigos. E que aquilo que chamamos de nossa carreira fosse nada mais do que uma trajetória de experiências pessoais, intransferíveis e únicas para cada um de nós, porém compartilhadas - e convividas - com nossos amigos. Amigos sem os quais não poderíamos saber quem somos. Para mim este é o sentido da migração que poderemos fazer, se quisermos, de mundos sociais (ou antissociais) povoados por pessoas privadas para clusters de convivência cooperativa configurados por pessoas comuns."
"Mas o amigo - aquele que amamos incondicionalmente, sem instrumentalizá-lo para manter ou alcançar qualquer objetivos - é o que nos salva, é aquilo que escapa de propriamente humano nisso tudo (sim, em todo o restante repetimos padrões da sociedade hierárquica).
Agora imaginem como seria fantástico termos amigos não privados, não escolhidos seletivamente, mas escorridos ao acaso, do fluxo interativo da convivência social, para o nosso colo. Amigos nossos que fossem também amigos entre si, mas sem nunca conformar um grupo proprietário e fechado. Amigos que não fossem uma espécie de recreio ou respiro de um trabalho vivido como pena.
E que o nosso trabalho fosse realizado como amizade: o trabalhar como se comprazer na convivência com os amigos, já pensaram? E que nossos namorados e namoradas, esposos e esposas, filhos e pais fossem também e primeiramente nossos amigos e amigos de nossos amigos. E que aquilo que chamamos de nossa carreira fosse nada mais do que uma trajetória de experiências pessoais, intransferíveis e únicas para cada um de nós, porém compartilhadas - e convividas - com nossos amigos. Amigos sem os quais não poderíamos saber quem somos. Para mim este é o sentido da migração que poderemos fazer, se quisermos, de mundos sociais (ou antissociais) povoados por pessoas privadas para clusters de convivência cooperativa configurados por pessoas comuns."
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