sexta-feira, 20 de março de 2015

Como cobrar por cursos, palestras, oficinas e etc.?


Continuamos pessoalmente, também Vanessa. Acredito que quando nos encontrarmos seremos novas pessoas com outros temas, questões e pensamentos em um novo ambiente. Nesse momento vou querer me reconhecer em vc, me encontrar entre nós, no momento. Não tenho a certeza de retomar essa mesma discussão. Por isso me sinto motivado a continuar por aqui, mesmo com todas as limitações da escrita. Tentarei entender se não quiser continuar.

Sugiro que pra chegarmos a falar sobre o aspecto econômico dos cursos, palestras, oficinas que vemos por ai nos aprofundemos um pouco mais. Vamos até a pessoa. A pessoa por trás do aspecto economico. O eu, o vc, o ele. E pra isso acontecer de forma verdadeira, terei que cutucar um pouco mais nossas feridas. Dar uma sacudida mesmo em nossos egos.

Percebo em mim uma forte energia de liderança. Desde a época da escola. Era sempre eu chamando o máximo da atenção, tentando ser o mais engraçado e dando as melhores sugestões, ou acreditando nisso, ou o que é pior, fazendo os outros acreditarem. Minha sensatez, e acredito que maturidade, permitia que as pessoas dessem ouvidos as besteiras que eu dizia.

Anos mais tarde (isto é, até bem pouco tempo atrás) enquanto ia desconstruindo a ideia de hierarquia e controle de fluxo, fui me percebendo nessa estorinha. Me dei conta de que pra que eu fosse sensato e maduro eu teria que estar obedecendo a padrões acreditados pelo senso comum do que é sensatez e maturidade. Essas características que me fazia ser visto como alguem que as pessoas ouviam (um lider) são fundados em um padrão de um terrivel discurso moralista. Percebi que quando há alguém mais maduro, mais sensato, mais influente, mais honesto, mais qualquer outra coisa, significa que há alguém menos. Que há um juizo de valor sobre a pessoa. Desconsiderando assim a igual humanidade presente em nós.

A bem pouco tempo atrás, por me identificar enormemente com a comunicação compassiva e estar me aprofundando mais e mais em alimentação viva comecei a elaborar projetos que visassem integrar as duas coisas. Escrevia, reescrevia, elaborava belos textos, sempre na intenção de atrair o outro praquilo que eu acredito (a boa alimentação e a harmonia nas relações) ve o juizo de valor aqui?!
De certa forma, não menos honesta, posso dizer que minha intenção era iludir o outro. Fazer com que ele acreditasse que aquilo que eu tenho pra falar é importante pra vida dele.

Cheguei a calcular custos de muitos espaços pra vivencias, experiencias de jejum, rodas de prática e muito mais. Confesso que me sentia muito desconfortável ao tentar fazer isso. Estava copiando o que tantos amigos andam fazendo por ai. E mesmo com o desconforto era algo que eu desejava fazer. Foi ai que começou uma avalanche de questionamentos. De meses de insights e perguntas e respostas que vinham de diversas fontes diferentes. Da astrologia, do daime, das cartas xamanicas, dos sonhos, do vipassana, de outras meditações, enfim... tudo pra chegar a essa conclusão. E sei que não é algo definitivo e ainda há muito a ser investigado e desenvolvido. Para isso estamos tendo essa conversa.

O que tem feito total sentido pra mim agora é não querer mandar no outro. E eu achava que já não mandava no outro a muito tempo. Assim como cheguei a acreditar que não era mais arrogante, ou hipócrita, ou incoerente, ou egocentrico. Besteira. Ainda somos tudo isso. Todos nós. Perguntas que tem me acompanhado são "vc é capaz de perceber o seu egoismo?" "vc é capaz de parar de se defender?" Ainda quero mandar no outro. Isso é perceptível e eu aceito isso. Começo a me perguntar então de que forma eu quero mandar no outro?! Eu estou deixando isso claro pra ele?!

No fundo percebi que o "mandar no outro", "ser arrogante", "assumir a posição de lider" é simplesmente o nosso impulso mais genuinamente humano de querer compartilhar as belas e ricas experiencias que tivemos na vida. Se eu vivo, ou aprendo, ou experimento algo incrível, a minha reação, quase que imediata é querer compartilhar aquilo com mais pessoas. Até li de uns pensadores por ai que a felicidade só existe se compartilhada. Perfeito compartilhemos. Agora que a gente desenvolve. De que forma estamos compartilhando nossos momentos? O que transforma o ser que compartilha no ser que lidera, que ensina, que focaliza ou facilita, como queira, é a forma como se está compartilhando.

Estamos o tempo inteiro montando cursos, oficinas, palestras e etc., pra mostrar pro outro o quão aquilo é bom. Não questiono que seja bom, mas entendo que isso é relativo. O que é bom pra mim, não necessariamente é pro outro e por isso quero que ele experimente. Mas sem fazer com que ele queira experimentar. O compartilhar pelo ato de compartilhar está perdido. São rarissimas as coisas que fazemos incondicionalmente. Acho que nem sou capaz de cita-las, mas o compartilhar, nesses casos, não é uma delas. Todos os eventos que tenho visto por ai tem sempre um discurso convidativo com uma tentativa de convencer que aquilo é bom.

Dando um exemplo prático. É como se eu ligasse pra um amigo convidando-o pra um bar e dizendo que fulano, beltrano e sicrano também vão. Que a bebida é barata e o sexo garantido. Ao invés de dizer que quero a companhia dele pra compartilhar aquele momento ou falar da minha vida. Percebe a diferença?

Não há o que fazemos em algum desses eventos que não pode ser feito em uma roda de amigos. Não há o que se discuta em uma palestra que não pode ser discutido em um picnic. Não há o que possa ser aprendido em um curso prático que não pode ser aprendido fazendo mutirão. O que eu adoraria ver é pessoas compartilhando mais os seus saberes com quem deseja aprender. Isso é uma bela energia de troca, sem quantificar ou qualificar, isso é legítimo. Isso é o que experimentei na minha vida, adorei ter chegado a esse entendimento e agora compartilho com vc. Desejo que mais pessoas possam fazer dessa forma e compartilhar ainda mais aprendizado comigo.

E a pergunta que fica: Como ganhar dinheiro apenas compartilhando? Sem a hiper valorização de um tema? Sem a criação de um produto? Como ganhar dinheiro sem precisar iludir ou convencer o outro de que algo é bom? Estou buscando essas resposta e já tenho alguma ideia.

A tempos atrás fiz um outro post também questionando essas coisas: 
Metodologias, Livre Interação e a CNV (comunicação não violenta)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pois é, pra que?!

Texto de Aline Costa*

"É amigos, uma das mais importantes coisas que aprendi com a vida é que existe uma grande confusão entre o que é simples com o que é fácil. O SIMPLES NÃO É FÁCIL. As mudanças exigidas pelo mundo de hoje são mudanças simples, e não fáceis. E só tentando. É necessário atitude, não só teoria, para simplificar e aí sim talvez facilitar. Aí a beleza da simplicidade.
Escrevo isso hoje com base em uma observação de consultório. Crianças e adolescentes ansiosos e com dificuldade para dormir. Adolescente ainda vá, mas 4 aninhos com estas queixas? E o uso de tablets e celulares para "pegar no sono". E as historinhas para dormir? E a massinha de modelar, o giz de cera, o lápis de cor? E as primeiras impressões de se estar construindo algo com as próprias mãos? Num toque de dedo na tela tudo já existe. Crianças pequenas, sem noção de tempo completamente estabelecida e já imediatistas. Penso que tipo de colapso existirá (ou já existe?) no choque entre o tempo virtual, que influencia na nossa noção de tempo mental, com o tempo biológico - o tempo da vida: o tempo da sementinha plantada germinar, brotar, crescer e florescer. Afinal estamos indo cada vez mais rápido. Para onde, aonde? E coisas simples como dormir e acordar se tornam difíceis. O simples não é fácil. O simples exige esforço, atitude de querer o simplificar. Não o simplório, a simplicidade."


quarta-feira, 11 de março de 2015

Porque a Escolha do Não-Diploma

A cerca de 3 ou 4 anos atrás comecei a descobrir novos mundos à medida que ia descobrindo novos amigos. Tais amizades me abriram portas pra entender que o tutano da vida poderia ser experimentado em acontecimentos muito além da minha limitada realidade.

Através desses amigos que iam e vinham, e eram novos, e eram outros a cada instante, decidi abandonar a faculdade, uma vida em meio ao academicismo jurídico, e me permitir à um mundo de incertezas e inseguranças. Juntei todo o dinheiro que tinha e investi em um curso de formação em instrutores de yoga numa cidade pequena. Foi o ultimo curso que fiz e não obtive a formação acadêmica por recusar escrever uma monografia.

Poucos meses depois já estava morando nessa cidade, dividindo uma casa com um amigo e fazendo dessa casa um laboratório para experimentação da livre-interação entre as pessoas. Uma casa onde tudo era de todos e qualquer pessoa era bem vinda para passar o tempo que fosse e usar a casa como bem entendesse.
Ali aprendi que liberdade não se trata de fazer o que quer. Quanto mais livre é um ambiente, mais limites devem ser respeitados.

O tempo foi passando e cada vez mais novos amigos e mais novas experiencias. Fui adquirindo muita confiança em viver com as incertezas e inseguranças. Fato que me proporcionou viajar pra fora do pais, conhecer pessoas de todas as classes sociais pelo caminho, me relacionar com pessoas de ideologias diferentes, respeitar o outro, morar em outras 4 cidades e como resultado final uma vida incomparavelmente mais vivida nos ultimos 3 anos do que nos 22 anteriores.

Pra quem se questiona sobre a relação financeira, trabalho, profissão e etc., não tive pais bancando minha empreitada e nem vendia artesanato pra turistas de cidade em cidade ou vivia de malabares no sinal.
Estando mais próximo da natureza e consequentemente da minha natureza, pude desenvolver habilidades adormecidas em mim. Aquelas que foram caçadas durante o ensino e ansiavam por se manifestar.
Desenvolvi a culinária (algo que pouco praticava em casa pelos limites impostos pelos pais), a musica (hoje toco ukulele), ingles e espanhol (com pessoas que recebi em casa e encontrei pelo caminho). Aprendi a plantar e cuidar de um jardim, identificar ervas comestíveis e medicinais e o surpreendente mundo da botânica e ecologia. Aprendi a construir uma casa com técnicas alternativas despertando meu lado criativo para a permacultura. Aprendi mecânica de bicicleta. Aprendi técnicas fantásticas de massoterapia clinica e shiatsu (onde mergulhei em anatomia, cinesiologia).
Conheci e estudei diversas religiões. Genuinamente aprendi a gostar de ler e me encantei pela arte de manifestar os sentimentos através da escrita (tarefas que repudiava na escola - redação e interpretação de texto). Pude explorar a dança, o meu corpo em movimento, sem o medo do ridículo. E tantas outras coisas que não me recordo agora.

Atualmente estou estudando nutrição (buscando minhas próprias fontes e contatos) e aprendendo muito sobre medicina ortomolecular. E posso dizer que o que mais me move nesse momento é explorar e investigar as relações humanas, a origem dos sentimentos e a forma como são expressos. Tenho descoberto como a alimentação interfere na atividade neurológica.
Como professor de yoga mesmo, estudei 9 meses e até hoje fiz muito pouco que necessitasse de toda a metodologia aprendida naquele curso.

Com tanto aprendizado, basta escolher uma dessas ferramentas pra desenvolver e retirar dali o pouco recurso financeiro que necessito pra sobreviver de forma confortável.

Enfim, tudo que eu adoraria ter aprendido na escola, só pude aprender por não estar lá. Me corta o coração imaginar uma criança não podendo experimentar a vida intensamente da forma como, ainda que com muita dificuldade de desprendimento, pude experimentar.

Segue o link de uma riquíssima discussão no facebook sobre desescolarização:
A Educação Não Escolar Pelos Academicos


Liberdade e Limites - Aprofundando o tema

Tenho tentado entender e estou percebendo, cada vez com mais sagacidade, em comentários sobre acontecimentos cotidianos, a falta de compaixão por mera ideologia.
Ideologias são ruins?! Claro que não! Sou movido por minhas próprias, mas não permito que elas sobreponham um atributo inerentemente humano. É a falta de compaixão que me sensibiliza.

Estava assistindo a um vídeo em que um rapaz falava sobre os problemas que o açúcar das frutas (frutose) pode causar. Assisti até o fim e tanto pra mim, baseado no que tenho estudado a respeito, quanto pra outras tantas pessoas, não fez o menor sentido. Tudo certo, tudo em paz, até um comentário me chamar muito a atenção:
"só pela obesidade do cara já descartei tudo que ele tentou dizer".

Nesse momento, como diz Henrique Bastos (rapaz que me ajudou bastante no entendimento pra complexidade da coisa), me despertou o sentido aranha.
É um comentário que exemplifica perfeitamente muito do que se vê por ai. Quando paramos de observar o fato, o tema abordado e passamos a desqualificar a pessoa. É nesse momento que invalidamos a existência do ser humano pelo que ele fala ou acredita. É ai que chegamos ao absurdo de deixar de ouvir o que outro está falando pelo juizo de valor que fizemos da pessoa. Não precisamos ouvir o que o outro diz se não concordamos, mas chegar ao ponto de invalidar o que está sendo dito pelo juizo que se fez da pessoa?! É ai que o tema, o assunto, se torna irrelevante. A ideologia torna-se mais importante do que a pessoa. O que define se o cara pode falar de saúde é o que se acredita ser o peso ideal. Como assim?!!!
Esse comentário foi o mais grosseiro de todos. Ainda há outros que fogem ao tema em questão para negar a existência da pessoa que está falando.

Outro exemplo bastante comum que percebo, por estar bastante envolvido com alimentação, é a atitude de alguns amigos que se autointitulam veganos, invalidarem a existência do outro pelo que ele consome, ou porque pesca ou caça animais. Eu posso não aceitar o que ele faz, mas é diferente de não aceita-lo. Eu posso fazer o que eu quiser, contanto que eu não impeça o outro de fazer o que ele quer. Limites existem e devem ser respeitados.

Um evento que me chocou absurdos foi a manifestação do MST contra a empresa de eucaliptos transgênicos da Suzano. E o que me deixou ainda mais intrigado foi ver amigos que defendem a comunidade da vida achando um máximo a destruição em massa. Se me considero um ser humano e acredito que valores como amor, compaixão, solidariedade, cooperação são inerentes ao ser social que somos, não há como ser favorável a uma atitude que violente a vida. Que violente o direito de o outro existir. Que negue sua existência pelo que ele faz. Uma coisa é eu não concordar, não apoiar, não defender o uso de transgênicos e até boicota-lo, outra coisa, muito diferente, é eu causar dano à alguém em nome do que acredito. Invalidar a existência de outros seres humanos que acreditam, que dedicaram a vida estudando, ou simplesmente que dependem daquilo para sobreviver.
Por mim a empresa nem existiria, mas extingui-la pela minha ideologia, é não perceber que existem seres humanos do outro lado. Se isso existe é uma consequência de uma desordem global da qual eu faço parte, e não local, onde designo culpados e malfeitores.

Temos agido cruelmente a cada momento em que construímos imagens de nós mesmos (personas) ou de outras pessoas. Criamos vilões. Nos eximimos da responsabilidade que temos quanto seres sociais. Preferimos apontar um culpado à olhar pra dentro e fazer o minimo pra que outra realidade, mais intuitiva, se torne possível. Uma vida de mais amor e confiança não se faz desqualificando pessoas, configurando inimigos ou estabelecendo o que é melhor ou pior para o outro. Demandar um comportamento do outro é uma atitude que agride o senso de humanidade.

Por fim, cito Krishnamurti:
"Por que temos imagens de nós mesmos? Essas imagens separam as pessoas. Se você tem uma imagem de si mesmo como suíço, ou britânico, ou francês, etc., essa imagem não só distorce sua observação da humanidade, mas também o separa dos demais. E onde quer que haja separação, divisão, tem que haver conflito – como há conflito acontecendo por todo o mundo, os árabes contra os israelitas, os muçulmanos contra os hindus, uma igreja cristã contra outra. A divisão nacional e a divisão econômica resultam de imagens, conceitos, ideias e o cérebro agarra-se a estas imagens. Por quê?"