quinta-feira, 22 de março de 2018

O depoimento de um viciado

Texto do Yuri Diniz, irmão querido

"A vida me deu a oportunidade de trabalhar com jovens em uma clínica de reabilitação no RJ, trazendo a agricultura e o contato com a Terra como veículo para o tratamento. A maioria dos pacientes é dependente químico, alguns com problemas psiquiátricos e, outros com questões específicas que os levaram a internação.

As relações que se criaram a partir daí, são inenarráveis. A evolução do comportamento e interação desses jovens a partir do contato com a Terra, me fez refletir que todo o meu trabalho sempre foi nesse sentido. Perceber que a minha procura por uma vida mais sustentável é o meu processo de reabilitação. A nossa espécie precisa se reabilitar com a Mãe Terra. Resgatar suas habilidades para interagir de maneira saudável com o todo.

A reprodução do status quo e a manutenção das grandes indústrias capitalistas dependem da dependência criada em cada indivíduo. A lógica é dependente dos dependentes. Uma dependência artificialmente criada que vai contra a inteligência natural do nosso instinto de sobrevivência. A distância dos processos que te sustentam o torna alienado. Alienação leva à dependência. Dependência vicia. Vício mata.

Em uma sociedade viciada em dependência, tentar participar dos processos que te sustentam é um processo de reabilitação. Sustentar-se é criar autonomia. Autonomia leva à liberdade, que por sua vez, torna a lógica da dependência insustentável. É um resgate da sua essência para estar novamente habilitado para cumprir função no todo. Fazer parte. E isso parte ,necessariamente, da reconexão com a origem e o final. Da terra viemos e para ela retornaremos. Reconhecer a mãe na qual a arquitetura social moderna nos separou.

Não importa o motivo ou escala de dependência, plantar, observar, cuidar, colher, comer é remédio para todo mundo. Mas a maior dificuldade do dependente é reconhecer o vício. Quando o vício é a própria dependência é ainda mais difícil. Continuar se alimentando e reproduzindo os ciclos viciosos de uma sociedade doente é triste mas é fácil. Está tudo arquitetado para isso. Se não passa na propaganda e nem está escrito nos jornais, temos dificuldade de perceber. O que é diferente se destaca, o que é normal, se naturaliza.

Precisamos desnaturalizar a naturalização da falta de natureza no nosso dia a dia, responsável pela legião de viciados que compõe a sociedade da dependência. Desenferrujar nossa inteligência natural, nosso instinto. Se você já não sabe onde este se encontra, saia do sofá e se coloque em teste. Fome, frio, medo, entre outros, são ferramentas de busca rápida para encontrar o tal instinto quase extinto, que já não se pode buscar no Google.

Falando de maneira reducionista, gostaria de colocar como eu vejo os 3 principais degraus para sairmos do vício da modernidade e como coisas simples ajudam-nos a dar o próximo passo na reabilitação.

O primeiro passo é assumir que estamos doentes (espécie/sociedade/indivíduo).

Para isso, sugiro um tempo de observação em meio a natureza natural. Em um local de abundância de vida e recursos, com outras formas de vida que ali sabem se comportar. Depois, visite um lugar completamente criado pelo ser humano moderno, por exemplo um grande shopping center ou um lixão de um centro urbano mais próximo. O estalo da sanfona pode dar um curto-circuito benéfico para criar consciência sobre a doença. Mas o click do despertar pode vir até no banho, pois não é um processo que acontece de fora para dentro.

O segundo passo na reabilitação é querer mudar. Isso tem a ver com sonhos. Esperança. Acreditar que existe força para rebrotar. Assim, nada melhor que o plantio para se dar esse segundo passo. Colocar uma semente no solo e vê-la brotando é o milagre da vida. É simples, mas é muito forte. Open bar de energia vital. Deixa doidão. Dá prazer.

O terceiro passo é a mudança. Na hora de fazer igual, faça diferente. Tem haver com o prazer interno em sair do ciclo vicioso. Enquanto for doloroso, a recuperação é simplesmente um espaçamento até a próxima recaída. Mas quando se torna prazeroso fazer diferente do que era feito, você abre o leque de possibilidades e se torna produtor da sua realidade, se torna livre e deixa de ser dependente da indústria que te vicia.

Para o terceiro passo, indico cuidar, colher e principalmente, comer! Comer é com certeza um dos maiores prazeres da vida. A vida cumpre função através da fome. O prazer interno de comer aquilo que você plantou é a chave para saborear a liberdade. Alimentar-se de uma agrofloresta em evolução/cooperação no espaço/tempo, te permite permanecer habilitado no modo função.

Desabilitando-se dos vícios de uma sociedade onde a doença é a dependência, renovamos a nossa carteira de habilitação natural. Não tem receita, modelo ou resposta, mas para reabilitar-se com o todo, sugiro que “sujem” a mão de Terra. Esse é um relato de um ser humano em recuperação. “Só por hoje funciona” ..."

sexta-feira, 2 de março de 2018

O mundo que é

O amigo Guilherme Lito publicou hoje um vídeo com muitos dados sobre o mundo apocalíptico que está prestes a emergir.

Pego esse gancho pra trazer pro agora, pro individual. Pra lhe convidar a refletir sobre a forma como estamos conduzindo nossas vidas.

Então 2017 foi difícil?! 2018 não ta fácil? E se eu te disser que é assim que é pra ser?! Que não tem que ser diferente e que nem vai ser diferente? Isso te desestimula? O mundo que te cerca hoje, seja o das ameaças de bomba atômica, seja o das dificuldades de pagar as contas, seja o mundo de furacões e tormentas, seja o mundo de ter que lidar com medos, aflições e desafios não vai mudar.

Não vim aqui fazer carinho e dizer palavras doces, nem tampouco pesar o clima e convidar o baixo astral. Vim compartilhar a verdade que habita meu coração nesse momento. A verdade que aceita o mundo como é, que aceita os desafios, que encara as jornadas, que se responsabiliza pela vida que está vivendo. Que se empodera de cada oportunidade que tem nas mão para transformar as coisas. O mundo não vai mudar, não pode mudar. Mas a gente pode.
A gente vai?!

A transformação começa com uma mudança de atitude. Uma mudança na nossa relação com os acontecimentos. Uma mudança na forma como escolhemos experimentar cada experiencia. É só olhando pra dificuldade, acolhendo e abraçando cada sensação ruim, olhando de perto, legitimando a existência dela é que a gente transforma o que ta ruim. E eu não vou dizer que transforma o que ta ruim em bom. Não. A gente apenas transforma, ou melhor, a gente permite que algo se transforme. Talvez esse algo se transforme em uma coisa boa ou um alívio imediato, talvez não. Talvez já se transforme num próximo desafio que só te da tempo pra tomar folego. E assim a gente vai vivendo e seguindo seja lá pra onde for.

E se estiver muito difícil, talvez lhe conforte saber que eu to aqui contigo. Não prometo fazer nada por vc, ou solucionar o seu problema. Não acho que os problemas precisam de soluções. Por vezes posso escutar eles dizendo, quase implorando: "por favor, não me ignore, não me resolva, me viva, me permita fazer parte desse mundo também". Mas estou aqui vivenciando tantos problemas quanto vc. Esse caminho, essa jornada é nossa e estamos caminhando juntos. Vc com seus desafios, eu com os meus, e nós compartilhando nossas experiencias e aprendizados ao lidar com eles, nos unindo, nos identificando e nos reconhecendo uns nos outros. Se não temos controle sobre a vida o que nos resta é vive-la, do jeitinho que ela é. Digo viver e aproveitar a vida mesmo. E viver e aproveitar a vida não significa ter prazeres e alegrias. Significa ter grandes responsabilidades. A maior de todas. A responsa de dar o suporte necessário pra que a sua vida cumpra seu objetivo.

E a gente vai descobrindo pouco a pouco que a beleza da vida está na diferença, na dificuldade, na experiencia de cada sensação, no momento presente que nos leva ao próximo momento presente. A beleza da vida está no movimento, na mudança, na impermanência, nos seus ciclos que se encerram e recomeçam. Essa é a lei da natureza, é a lei da vida. E com uma sutil mudança de perspectiva pode ser admirada. É sutil, mas não é nada fácil. Nossos padrões e condicionamentos tão enraizados em nosso sistema dificultam muito esse olhar. Sigo aqui em meditação.


sábado, 10 de fevereiro de 2018

O Ciclo da Vida

Vivi uma infância tranquila. Como a de qualquer outro menino de classe media no Brasil. Aos 10 anos de idade perdi um querido pai assassinado. Esse foi meu primeiro grande contato com a morte. Depois disso a vida foi passando, e eu buscando respostas sobre questões profundas. "Quem sou eu?" "O que estou fazendo aqui?" "Deus existe?", ao mesmo tempo que achava essas perguntas uma grande besteira. "O negocio é viver a vida e ser feliz", dizia nos momentos mais agradáveis, pois era quando ficava mais fácil acreditar nisso.
Fui naturalmente perdendo meus avós e por vezes era notificado sobre acontecimentos trágicos ocorridos por perto, amigos de amigos meus que se foram assim como se nada.

Encarei muitos desses acontecimentos como algo natural. É a vida, é assim que funciona. A gente nasce, cresce, morre e vira adubo. Tudo que nasce nessa Terra é feito para alimentar a própria Terra. Todas as criaturas vivas tem o mesmo destino.
Ainda estudei diversas religiões e filosofias para descobrir se a gente volta à vida depois da morte. Até me dar conta que jamais poderia encontrar essa resposta se antes eu não me perguntasse quem é "a gente"?! Como posso querer saber se vou voltar depois da minha morte se nem mesmo sei o que sou, ou o que é que vai morrer, ou até mesmo se essa morte é minha.

O tempo passou um pouco mais, "casei", tive uma filha linda que nasceu doente, perdi a mesma filha linda que nasceu doente em seu terceiro dia de vida. Anahí durante seus 8 meses de vida na barriga veio me preparando para a vida e para a morte. Me falando sobre responsabilidade, estabilidade, coerência, sobre coragem de bancar minha própria filosofia de vida com uma filha nesse mundo quadradão, sobre desafios. Me falou sobre sonhar, acreditar, querer, fazer acontecer e por fim sobre desistir e aceitar. Me falou muito sobre ironia, e principalmente sobre achar graça de um ilusório controle sobre a vida.

Hoje, 5 meses depois de conhece-la pessoalmente, ela continua me falando coisas. Estou aprendendo  mais sobre a morte do que nunca, mas principalmente sobre a vida.
Anahí viveu cada segundo de sua vida como se fosse o ultimo. Presente, inteira e se deixou morrer de uma forma tão leve, doce e natural que era possível admirar a beleza de sua passagem.
Me perguntei depois desse acontecimento por onde posso recomeçar essa vida que já estava tão traçada, certa e cheia de planos. E a resposta vem chegando a cada dia, cada vez com mais força: "Pelo começo! Do zero! Tudo de novo! Assim como sempre foi, como cada instante sempre é e sempre será".

Esse é o papel da morte. Permitir que o novo surja. Abrir espaço para que a vida se renove.
Anahí tem me ensinado que é preciso deixar morrer para renascer. É preciso desapegar dos sonhos, das crenças, das certezas, de si mesmo, do que acho que sou para que eu possa me tornar um novo eu a cada momento. É indispensável aceitar que o ato de viver é estar morrendo e renascendo a cada instante de forma a evitar o sofrimento. Que não existe nada além do momento presente, que esse é o lugar que o amor escolheu como sua morada. E que a morte em si, a morte do corpo, nada mais é do que só mais uma experiência na vida.

Pensar em vida como inicio e morte como fim é apenas uma tentativa muito bem sucedida de complicar as coisas. Vida e morte, inicio e fim, são a mesma coisa, o mesmo movimento. É a energia de transformação que faz o mundo girar e a história acontecer. Sigo aqui em meditação explorando os caminhos do ser.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Falar Sobre e Conduzir Para

"Falar sobre é diferente de conduzir para." Assim eu dizia com tom de um é bom, o outro é ruim.

Foi hoje dançando butô, uma dança japonesa, que percebi uma gigante resistência em me deixar conduzir. As meninas (professoras, por mais que elas não gostem desse título eu falo mesmo) que conduziam a dança, eram um doce, meigas e respeitosas. E dancei feito fogo. Eu e mais um tanto de loucos, nos transformamos em lava, vulcão, fogo e cinza em 2 horas de dança.

A resistência surgiu quando ouvi a próxima ordem: faça isso! Que na verdade era um convite, e nem era tão invasivo assim que parecesse uma ordem. Era um simples convite a se permitir sentir vergonha, ou melhor se desavergonhar. E confiando e me permitindo entrar na dança descobri que não era vergonha o que eu sentia, ao final era medo.
Um medo enorme de me deixar conduzir por alguém, o medo da autoridade, o medo da relação de subordinação, de alguém se colocar no lugar de que sabe mais ou é melhor do que eu.
Para conseguir mergulhar naquela experiencia precisava deixar de ouvir a vozinha da cabeça que me dava as razões mais convincentes do mundo para não permitir que meu corpo virasse lava. "Eu faço o que eu quero, eu não faço nada só porque o outro quer." e foi ai que surgiu uma segunda voz, sobrepondo esta: "Ai! Cala essa boca, que saco! Só dança!"

E pensei nas tantas vezes que resisti a entrar na dança. Ao pular de cidade em cidade como macaco pula de galho em galho buscando sabe-se lá o que, ao fugir no quinto dia da meditação vipassana, ao me calar diante de situações que contrariam meus valores, e tantos outros momentos era essa vozinha questionadora gritando na minha cabeça.

Logo percebi que algo estava sendo transformado. Ser a pessoa que resiste, que questiona e que contraria, já não me dava mais prazer. Queria me sentir mais pertencente a um grupo, alguém mais comum, menos especial, menos arrogante, mais pé no chão e bem mais presente.
Me percebi e me desnudei da resistência em ser conduzido, dançando, virando fogo. Entendi que estava ali porque aceitei um convite que foi feito muito claramente no inicio da proposta do butô. E não queria fugir, ou fazer como acho melhor. Queria honrar aquele convite, a presença e o trabalho daquelas meninas que se propunham a conduzir essa dança.

Aprendi que cabe o questionamento. É legítimo. Não se deixar ser conduzido numa sociedade onde as pessoas querem dirigir a vida das outras é importante, mas igual importância tem uma condução que nos leva a um lugar que nos permite experimentar sensações novas, ou adquirir novas habilidades. Seja uma dança, um curso, um retiro de meditação ou ainda submeter-se a substancias alucinógenas. Ainda somos completamente auto-responsáveis quando nos deixamos ser conduzidos por algum processo. E também não há mal nenhum em questionar e desistir de algo depois de começado porque aquilo nos desagrada. Só estou experimentando diferente do meu padrão, e está sendo bem mais harmônico me permitir viver assim.

Esse foi meu contato com o presente hoje. Vou seguindo cada dia me conectando com o presente, seja numa meditação sentadinho, ou na fila do banco (há! mentira, nem tem banco onde eu moro), seja numa caminhada ou numa conversa. Estar presente é libertador e gratificante. Cada vez mais possível quanto mais me conheço e me reconheço nos outros.


domingo, 5 de novembro de 2017

Recomeço. De volta à simplicidade.

Depois de viver um 2017 intenso de indas e vindas, viagens e mudanças, escolhas e transformações, sonhos e incertezas, aterrizei em terras baianas. Aqui pertinho de Itacaré, em Serra Grande a vida recomeça do "zero".

Numa casinha simples de portas e janelas tortinhas que chove dentro em dia de tempestade, dividimos esse momento da vida com 3 amigos muito amados. Thiago, Bárbara e Arumã é o que temos de mais próximo de uma família por aqui. É justo dizer que eles cumprem bem esse papel.

Assim decidimos ir vivendo os desafios e as celebrações, juntos, com amigos que se suportam, se apoiam e compartilham tanto os momentos difíceis quanto os prazerosos. Bem como eram os casamentos antigamente, lembra?! (Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença) até que a próxima etapa da vida nos separe.

Em dia de pouco trabalho a praia é o lugar onde escolhemos pra viver o ócio, pra se religar ao silêncio. E ainda são variadas as opções litorâneas. Com ou sem sombra, com ou sem rio, com ou sem onda, clara ou escura, e até mais suja ou mais limpa só pra desmistificar a ideia de que aqui é algum tipo de paraíso longe dos problemas metropolitanos.
Em dia de muito trabalho me valho de pegar o lixo da feira e fazer novos canteiros, ou viajar até a próxima cidade afim de abastecer a dispensa da casa.

Está se mostrando um recomeço de muito aprendizado com a vida comunitária, em grupos que se apoiam mutuamente e com olhar super atento às necessidades uns dos outros. Liberdade e respeito, alimento de qualidade, otimização de recursos e o cuidado com a mente, corpo e alma é a melodia que embala essa dança.

Pretendo ir compartilhando tudo com vocês. Deixem um "hey" aqui nos comentários só pra eu saber se há o desejo de bailar e explorar esse mundo junto comigo. Mais histórias, videos, audios, musicas e textos virão por ai. Beeeijo no coração e até loguinho.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Meu Relato de Parto e Vida-Morte-Vida

Sábado dia 12 de agosto.
Estávamos Marina e eu no Sitio das Paineiras, no Vale das Videiras, local onde moramos durante todo o ano de 2016 e onde nossa bebê foi concebida. Marina trabalhando em seus textos e já percebendo alterações malucas no seu corpo e sua barriga deformada. Aquela antiga bola de basquete estava ovalada, dura e com duas pontas estranhas. Michael Jordan diria que seria impossível jogar uma partida completa. Eu, trabalhando na terra depois de meses sem pegar no facão me sentia vivo a cada dia.
Passamos dias relaxados com banho de rio, musicas, mantras, conversas e planejamentos de vida acarinhando nossa barriga de 35 semanas.

Por uma vontade genuína a Marina pediu pra voltar pro Rio de Janeiro na quarta de manhã e assim o fizemos. Descobrimos com 31 semanas, através de uma ultra, que nossa bebê tinha uma má formação, possivelmente um hemangioma em toda a extensão do braço esquerdo e um pouco do abdômen, por isso estar perto do hospital especializado (Instituto Fernandes Figueira), ao qual havíamos sido encaminhados trazia uma maior segurança nessa hora de sensações estranhas no ventre.

Quarta dia 17 de agosto
Em "casa", agradecendo o tempo no campo e se preparando para mais agitação urbana com nossa barriga dura, recomeçaram os planos e as investigações sobre o que podia estar acontecendo. Marina mandava mensagens para amigas doulas, nosso médico lindo de plantão 24h e ainda contava o tempo entre possíveis contrações duvidosas, mais frequentes, de 5 em 5 minutos. Eu arrumava a mala da gestante de emergência.
22:50h da noite uma ida ao banheiro, um xixi saudável e uma cachoeira lambendo as pernas da Marina nos surpreendeu: "Amor, a bolsa estourou!", disse ela com tranquilidade em tom de "se prepare!". Uma mistura de nervosismo e felicidade tomou conta do meu corpo. Ligamos imediatamente para o Eberhart (nosso médico lindo) que veio a nosso encontro com sua companheira Dani em 20 minutos. Marina se preparava para a experiencia mais intensa de sua vida enquanto contava as contrações e tentava sem muito sucesso conter sua cachoeira com toalhinhas de papel. Eu cortava frutas, arrumava malas, limpava o chão e ria nervoso de tudo. Eberhart fez o toque e estávamos com 3cm antes de sair de casa.

O PARTO
Tudo pronto no carro, chegamos os quatro no IFF por volta de 23:40 com as malas e a barriga. A bolsa já não estava liberando tanta água. A Dani virou a guardiã das comidas na recepção enquanto eu, Marina e Eberhart subimos para o andar das gestantes. Dra. Isadora nos recebeu com tanta doçura que parecíamos estar entre amigos vivendo aquele processo. Prontuario cadastrado, fomos para um leito na enfermaria de gestantes, pois, má notícia: já haviam 2 guerreiras em trabalho de parto ocupando as salas de parto, contudo a boa notícia era que a médica de plantão Dra. Ana Elisa Baião era a mesma que fez nossa ultrassonografia e já conhecia nosso caso, além de ter nos transmitido uma enorme confiança por estar em suas mãos. Mais uma boa e surpreendente noticia chegou com Eberhart que havia ido se encontrar com Dra. Ana Elisa: "e o parto vai ser normal".
Já estávamos conformados com uma cesariana, ainda mais por termos entrado em trabalho de parto pré-maturo. Em mim mais forte ainda o sentimento de felicidade e nervosismo. Agora com um certo medo.

E as contrações começaram a ficar cada vez mais fortes. No pequeno leito ficamos conversando e estudando possíveis cenários da bebê. Eberhart tentando saciar todas as nossas duvidas. 02:30 a Dra. Isa chegou para acompanhar o coração da bebê e fazer mais um toque. 4cm dessa vez e contrações de 4 em 4 minutos. As dores que na recepção estavam incomodando um pouco nessa hora já estavam bem fortes. Foi quando eu e Eberhart nos tornamos os doulos possíveis naquele momento. Os recursos disponíveis eram carinhos, massagens, palavras de força, e os mantras vigorosos e relaxantes que eu puxava da memória na hora.

Por volta das 3:40h da manhã, toda a enfermaria provavelmente já havia sido acordada pelos gritos da Marina. As contrações estavam bem fortes, de 3 em 3 minutos e ela começava a pensar em desistir e sentir medo do que estava por vir. Chegou a pedir remédio, vejam só! Ela que nunca foi disso.
As dores começaram a aumentar extraordinariamente. Seus gritos já não vinham da garganta, mas de um lugar de profundo desespero e aparente desamparo.
Nossa pequena Marina voltou a ser uma criança e a cada nova contração uma frase aterrorizada. Um nítido resgate dos traumas de sua infância se manifestavam através de pedidos muito pouco racionais com uma voz infantil e temerosa: "faz isso parar, pelo amor de Deus" "é sério, eu quero desistir", "chega, eu não aguento mais!"
Nesse momento senti medo, muito medo. Uma impotência como ser, sem saber o que fazer, o que esperar ou como acolher todo aquele aparente sofrimento.
Minhas mãos repousavam de leve seu corpo super sensível em movimentos de alivio na região lombar e reiki. Marina questionava porque eu e Eberhart não falávamos nada. Sabiamos que qualquer coisa que falássemos não seria bem vindo. Era claro que aquele momento era dela, tão somente dela.
Eberhart disse que era chegada a hora do banho quente para alivio das dores das contrações. Tiro e queda. Água quente alívio imediato. Passamos 30 minutos no banheiro pois a dores eram bem menores debaixo d'água. Cantávamos mantras e nos deixávamos a disposição de ser o que quer que a Marina quisesse que fossemos. Nossa pequena Marina que sem se dar conta, estava prestes a se tornar gigante.

Voltamos para o leito e as dores começaram a voltar com força quando a Isa (nesse momento não havia mais sentido usar pronomes de tratamento formais) chegou para mais um toque. 4:50h, 8cm pra 9cm de dilatação e uma surpresa aliviante para Marina que achava ainda estar com 5cm ou 6cm. Nos encaminhamos para a sala de parto. Marina se posicionou na bola, na cama, com toda a liberdade entre uma contração e outra. Voltamos para o banho quente quando as dores voltaram a ficar desesperadoras. Nesse momento a água quente já não aliviava tanto assim suas dores. Os gritos desesperados voltavam a cada 3 minutos, e junto com eles alguns raros palavrões bem imponentes. Quando a vontade de fazer coco e força chegou voltamos para a sala, para a bola e para a cama. Foi esse o momento em que aparentemente as dores estavam mais fortes do que nunca. Mas aquela menina já não era a mesma Marina frágil e aterrorizada da enfermaria. Parecia estar ficando resistente a dor ou pelo menos a encarando de outra forma, mais resiliente, aceitando aquele caminho sem volta e a urgência de sua presença naquele momento.

Deitou na cama, totalmente nua, se largou na posição que mais lhe confortava. Fiquei em pé ao seu lado. Eberhart sentado na cadeira acompanhando cem silencio a fase expulsiva da bebê. As Dras. Isa e Gabriela entravam a cada 20 minutos para mais uma olhadinha e acompanhamento do coração com sonar. Parte dos gritos da Marina começavam a ser calados pela força que ela fazia. E parece ter sido uma benção descobrir que fazer força durante as contrações diminuíam suas dores. 6:00h e a cabecinha da neném começava a aparecer. "que ótimo!", pensei "o sofrimento esta acabando". Nossos 3 médicos a postos na sala esperando o momento de intervir e observando os batimentos da neném a cada 10 minutos. 
Eu já não tinha mais o medo e a Marina me passava uma enorme confiança. Estava ali, inteiro, sendo sua parede, seu pilar, seu travesseiro, tudo. A cada contração ela aprendia como seu corpo preferia respirar, gritar, fazer força e expulsar a neném. Me lembro da sua penúltima frase mais desesperada ter sido: "TIRA ESSA CRIANÇA DE MIM!!!" 

6:30h meu braço direito sobre suas costas e ombros, minha mão esquerda segurava, a seu pedido, uma de suas pernas suspensas no ar, eu já não conseguia olhar a bebê saindo. Precisava estar naquela posição firme, preparado para a próxima contração. Comecei a sentir toda a força da Marina em meu corpo. Aquela menina que não conseguia abrir os potes de geleia em casa estava deixando meu braço dormente cada vez que me pedia para puxar sua perna na direção contrária ao seu empurrão. Minha mão esquerda se tornou uma parede rídida e sólida na sola de seu pé. Por mais de 10 contrações eu ia me cansando e me tornando forte como a Marina. Não cabia desistir ali, nem o pensamento cabia. No intervalo das contrações agora minuto a minuto o pensamento de soltar aquela perna de 30kg surgia e eu o mandava embora me dizendo que não era hora de ser egoísta. Estava disposto a perder o braço se preciso. Olhava Marina nos olhos e não mais a reconhecia. Havia virado uma leoa. Fazia uma força extraordinária e no minuto seguinte relaxava de olhos fechados num estado sonolento. Nova contração se aproximando e ela se preparava cada vez mais inteira para fazer a força que fosse necessária para dar vida àquela criança. Olhava seu rosto suado, tirava seus cabelos do rosto e a estimulava com palavras de força. Não haviam mais gritos, apenas expressões de muita confiança de que aquilo iria acontecer a qualquer custo. Acho que nunca admirei tanto alguém em toda a minha vida. Seguimos nessa intensidade até as 7:00h quando a cabecinha começou a sair por completo. E foi quando ouvi sua ultima frase mais desesperada de todas "CARALHO! TA ARDENDO MUITO!". Seu circulo de fogo durou 3 eternos minutos até que toda a cabeça fosse expulsa. Quase lhe faltava ar e ela conseguia respirar quantidade suficiente para enfiar a cara no meu peito e fazer força novamente. 7:05h o corpinho da nossa pequena finalmente saiu por completo. A placenta, vermelho fogo, viva, forte, saiu em seguida sem qualquer esforço. Eu chorava copiosamente parabenizando a Marina e dizendo o quanto ela foi fantástica. Ela, com um olhar vago, sem saber o que sentir ou pensar, ou fazer.  Nossa Marina musa mulher maravilhosa havia dado a luz a 3 novos seres. Marina, Ronny e Anahí.

VIDA-MORTE-VIDA
Na hora do nascimento haviam quase 10 médicos na sala, dentre eles a Dra. Ana Elisa Baião que graças ao sucesso do parto não precisou intervir, 3 pediatras, Eberhart e as 2 medicas que acompanharam todo o parto, alguns enfermeiros e outras pessoas que pareciam estar muito curiosas.
Marina só teve a oportunidade de dizer aos pediatras "Eu confio em vocês." e dar um beijo na pequena Anahí que logo foi levada para a UTI neonatal. Marina terminou de ser limpa e costurada com grau 2 de laceração vaginal.

Voltamos para a enfermaria as 7:40h. Eberhart se despediu de nós com breves noticias sobre os procedimentos que Anahí iria passar. Marina dormia enquanto eu ansiava por noticias da nossa filha. As 9:00h pude ve-la na incubadora. Disseram que ela teria que ficar em observação. Haviam colhido exames que só teriam seus resultados no fim da tarde. Passei algum tempo admirando minha mais nova pequena tão linda, tão frágil e com o bracinho que mais parecia uma batata doce de tão roxo e gordo. Achei tudo lindo. Nem dei bola para os tantos fios e tubos que entravam pelo seu corpinho. Estava feliz. O sentimento do que é ser pai se manifestava pouco a pouco.
Voltei para encontrar a Marina feliz da vida por ter visto nossa filha. Desejava que a Marina fosse visita-la em breve e sentir um pouco daquilo que senti. Minha linda Marina se orgulhava emocionada ao dizer "eu dei um beijinho nela".

Minha mãe foi a primeira a chegar as 14:00h e pode visitar a netinha pois chegou exatamente no horário aberto para os avós. Abriu as janelinhas da encubadora e pegou em todo o corpinho da pequena Anahí. Começamos a avisar a alguns amigos que nossa bebê tinha nascido e do horário de visita. Mais familiares chegaram com mensagens de fé e esperança de que o problema dela não havia de ser nada demais e em breve ela estaria boa. Acreditávamos nisso também, mas estávamos bem apreensivos, desejando boas noticias no fim da tarde. Os pais da Marina chegaram e Eberhart também voltou para saber mais sobre o diagnostico da Anahí. Eu passei o crachá de acompanhante para mãe da Marina para que elas duas pudessem visitar a UTI juntas, fui pra casa banhar e descansar prometendo voltar à noite para dormir no hospital.

Ao voltar soube das noticias. O quadro da nossa pequena filhota não era simples. Já haviam aplicado alguns medicamentos como corticoide, sedativos para dor e ela respirava com ajuda de máquinas.
Eu e Marina começamos a pensar no pior. Ainda sem nos deixar fraquejar. Informando amigos e familiares momento a momento, a cada nova informação. Passamos uma noite com muito pouco sono e fomos visitá-la juntos pela manhã. Tocamos todo seu corpinho, cantamos, fizemos reiki, desejamos sua melhora e nos emocionamos um pouco. Minha maior frustração de todas era ver a Marina sem poder pegar a filha no colo. Vê-la segurando a mãozinha da filha por uma janelinha me cortava o coração, mas resistia com a ideia de estarmos com ela em breve em nossos braços.

Sexta-feira dia 18. Passamos um dia difícil dando a noticia de que a situação da nossa filha era rara e delicada para as pessoas. Ao mesmo tempo recebendo mensagens de carinho, força e apoio. Rodas de orações, de reiki e até umas macumbas boas se espalhavam junto com a noticia do nascimento. Nossas famílias estavam integradas juntas pedindo em oração. Haviam 5 equipes medicas cuidando do caso entre outros especialistas de fora do hospital que davam suas opiniões. Como uma boa leonina Anahí queria atenção de todos. Logo mais tivemos mais noticias, nada empolgáveis. A situação era realmente grave. Haviam descoberto uma síndrome (kasabach merritt) raríssima com poucos casos no mundo e era apenas um entre tantos outros problemas que o corpinho de Anahí apresentava. A dosagem de medicamentos foi aumentada e já se falava em transferência para um hospital mais especializado. Nesse dia eu fiz uma visita a Anahí sem a Marina, que precisava descansar, e ela abriu os olhinhos enquanto eu cantava a linda musica enviada por uma amiga querida, uma outra Marina, do outro lado do mundo. Senti um estado graça. Uma felicidade em paz nesse momento.
Disse a Marina que havia liberado nossa filha para seguir seu destino. Que confiava nela para escolher o que fosse melhor. Que seu corpinho frágil não precisava resistir a tantas intervenções, drogas e picadas.

Sábado dia 19, conhecemos o lado cinza da medicina. A situação permanecia a mesma, e já se falava em quimioterapia. Foi quando começamos a nos preparar para o descanso da nossa filha. Marina ainda como uma guerreira conseguiu preparar emocionalmente nossas mães em um bela conversa no horário de visitas para essa possibilidade que já não era nada remota.
Após o horário de visitas, tiramos um tarot, cantamos, meditamos na intenção de trazer paz aos nossos corações tão angustiados. Eberhart havia me perguntado em uma consulta médica, logo quando descobrimos a suspeita de hemangioma, qual seria o pior cenário pra mim e eu havia descrito perfeitamente esse momento. Minha filha toda entubada, tentando resistir à morte e eu sem ingerência sobre nenhuma etapa do processo, sem poder pegá-la nos braços ou decidir por ela.
Eu e Marina chorávamos muito no momento em que fomos convidados, pela médica de plantão, a ver Anahí pois o interferon não havia dado resultados, ela teve que ser reanimada e seu corpinho estava muito debilitado. Chegamos a UTI e ao ve-la, marcada, inchada, bem roxinha e completamente sedada Marina me disse "Ela não está mais aqui, amor." e choramos ali, em pé, sem saber se podíamos toca-la enquanto médicos e enfermeiros continuavam seu trabalho com outros bebês. Eu e Marina nos recompomos e eu chamei a médica de plantão que parecia bastante constrangida com a possibilidade de uma conversa.
Perguntei até que ponto tinhamos controle sobre a situação de Anahí, se tinhamos escolha para deixa-la descansar ou continuar intervindo e então descobrimos que o coração de nossa filha era sustentado pela cruel legislação que diz ser necessário tentar tudo até o fim. A médica ficou sem palavras e tudo que conseguiu foi permitir que Marina a pegasse no colo.
Nos despedimos da nossa filha. Pedimos que ela descansasse em paz, que seguisse na luz e que nos sentíamos muito gratos pela oportunidade de ter vivido esses pouco dias que pareceram meses, anos, vidas, de aprendizado e amor incondicional.

As 23h do dia 19 de agosto deste ano nossa pequena Anahí veio oficialmente a óbito. Já haviamos chorado o suficiente e se apoiado mutuamente. Agora estávamos nos preparando para dar a noticia aos avós e cuidar com o restante de força que ainda tínhamos das pessoas próximas que não esperavam por um desfecho tão transmutador. Mensagens encaminhadas e um pedido para que nos deixassem descansar sozinhos e assentar todos os acontecimentos.

As 09:00h da manhã Marina teve alta. Era o plantão da Dra. Isa e ficamos muito felizes por ser ela a nos liberar. Suas palavras doces nos animaram a sair do hospital confiantes para viver nossa nova vida sustentado pelos recentes aprendizados sobre amor, respeito, liberdade, cuidado com o outro e deixar morrer para que o novo possa renascer.
Fizemos uma carta de agradecimento a todos os médicos e enfermeiros que se mostraram tão humanos ao tentar cuidar de Anahí e da Marina e não somente da doença em questão.

A cada experiência unica e intensa que vivo acredito que não pode haver outra tão forte ou semelhante e aí a vida vem e me presenteia com mais uma. Essa foi de longe a experiência mais intensa que vivi e acredito de verdade que meu momento era perfeito para vivê-la. Estou no começo de uma nova vida, começando tudo do zero, me preparando para colocar a mochila de aprendizados nas costas, me livrar das amarras do passado e desenhar os próximos passos rumo ao infinito colorido e imprevisível. Se eu pudesse pedir por sentimentos, peço que não sintam pena. Eu e Marina estamos bem, fortes e confiantes que nossa vida será incrivelmente bela. Ela já o é. Precisamos apenas de um tempo para nós, pois por trás da nossa casca dura capaz de aguentar fortes emoções existe um coração gigante e igualmente frágil que teima em sentir saudade de um futuro que nunca existiu. Obrigado a todos por todas as palavras de carinho e de força. Duvido que estaríamos aqui escrevendo esse texto não fosse pelas amizades que cultivamos. Vocês, amigos e família, são nosso bem mais precioso e por isso esse texto visa terem vocês aqui mais pertinho.
Na tristeza ou na dor nossa força é o amor. Somos mais do que mil, somos um.

[Segue aqui o relato da Marina:https://www.facebook.com/marina.nicolaiewsky/videos/vb.1444603980/10214696879642685/?type=2&theater ]

A LENDA DE ANAHÍ
O nome Anahí foi escolhido no dia em que eu e Marina a visitamos na UTI no primeiro dia e transmitimos a nossa filha todo o amor de nossos corações.
O nome Anahí é tupi-guarani. Segundo a lenda, esse era o nome de uma india que amava sua terra natal e gostava de correr livre pelos bosques, conversava com as arvores e os animais. Era conhecida por sua voz doce. Quando cantava até o Rio parecia parar para escuta-la. Lutou bravamente por sua tribo e seu território em uma guerra sangrenta contra colonizadores espanhóis. Foi tida como bruxa pelo tamanho da sua força e encanto. Ao ser feita prisioneira foi amarrada a uma fogueira. Diziam que cantava uma bela canção enquanto queimava e irradiava luzes em direção ao céu. No dia seguinte não haviam cinzas no lugar onde foi queimada, mas sim uma bela árvore de ceibo, vigorosa e florida.








segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Como tenho lidado com nosso conflito mais comum: pais

Fui mergulhado numa piscina de amor e autoridade ao chegar nesse mundão.
Quem lê a palavra autoridade, até pensa que tive uma infância sofrida e traumática. É bem verdade que tive sim. Mas quem não teve?! Comparando com a criação de outras tantas crianças por ai a fora, seria imodesto reclamar de alguma coisa. Mas esse texto não tem o objetivo de comparar e muito menos de reclamar.
Minha intenção é simples e direta: compartilhar o que aprendi. Mas pra isso vou precisar explicar, até onde me lembro, o que me causava aflição e desconforto quando criança.

Dificuldade na relação com os pais todos nós temos. Toda família, tem. Amigos mais próximos compartilham conflitos muito comuns. Queixas de falta de compreensão, aceitação e liberdade é o que mais ouço. E diante da dificuldade em expressar-se (comum a todos nós) os pai acabam se tornando feras diabólicas ao olhar dos seus filhinhos. Comigo não foi diferente.

Perdi um pai aos 10, e fui criado por mãe desde então. Com a indispensável ajuda de um padrasto super generoso também, mas a nível emocional era mamãe que dava o suporte.
E assim fui crescendo realizando tarefas compulsoriamente... acordar cedo e se arrastar pro banho, beber um copo de vitamina de banana todo dia de manhã que quase me fazia vomitar, aulas chatas e entediantes numa escola onde ninguém parecia me notar, péssimos resultados em testes e provas, incontáveis advertências por “mau comportamento”, uma preguiça inimaginável de estudar e uma proporcional cobrança de resultados satisfatórios, “se não o coro come”. Quem ai se identifica?! Acredito que muitos..

Então cresci mais. Aprendi a usar máscaras para subir no palco e ser notado. Mas as verdades internas ainda veladas e sem abertura para exposição. Vestibulando... pressão, stress, confusão, resultados. “eu tenho que decidir hoje o que quero fazer da minha vida pra sempre?!”
Decidi por direito. Um belo advogado ambiental eu me tornaria. Minha veia que pulsava natureza já começava a me chamar pro lugar de onde nunca deveria ter saído. Mais pressão, confusão, medo e uma lista infinita de textos para ler que fazia piada com a meia duzia de livros de história entediantes da escola. Mas agora a pressão maior não era mais de mãe. Vinha de dentro. Uma autocobrança com procrastinação e autossabotagem dominavam meu corpo. Até o momento do basta. E é dele que venho falar. Dizer chega é uma grande dificuldade pra muuuita gente e pra mim também foi. E exatamente nesse momento comecei a descobrir que tinha uma super mãe a minha espera em casa.

Esse basta não foi de uma hora pra outra. Primeiro foi uma grande rebeldia se apoderando de mim. Com muitos argumentos e uma enorme certeza de que o mundo estava doente e todos a minha volta precisavam saber disso. Que me engaram durante a infância e me negaram a possibilidade de aprender com a vida o que de fato importava. Depois uma maior aceitação de que não tenho controle sobre o que pensam as pessoas e a forma como elas vivem. E depois dar graças a Deus por não ter controle de nada.

Então mamãe foi acompanhando de longe todo esse processo. Cada hora uma história diferente. Sabia que ela sentia medo, preocupação, descrença, falta de confiança e me julgava fortemente quando faltava informação sobre meus movimentos. Comecei a dar mais informações e descobrir que isso nos ajudava a entender melhor o mundo um do outro. Passei a confiar que dizer todas as minhas verdades faria bem pra nós. O que eu fazia, porque eu fazia e no que eu acreditava. A verdade que vinha do coração. Eu dizia: “mãe, eu não sei o que eu to fazendo nem aonde isso vai me levar, mas eu preciso viver essa experiencia porque eu não to feliz onde estou.”
Ela ouvia e dizia: “eu me preocupo com você e só quero que você seja feliz.”
Assim fui estabelecendo uma harmonia com minha mãe. Me orgulhava disso. Sabia da dificuldade de muitos amigos de se relacionarem com seus pais.

Nos últimos anos tenho aprofundado muito questões internas. Tenho descoberto como esses tais “traumas” de infância que me referi no inicio do texto influenciam tanto meu comportamento em relação com as pessoas hoje. A vontade de culpar alguém e não me responsabilizar pelo que sinto, sempre é a reação mais convidativa. E esse é um momento muito oportuno para tornar os pais os verdadeiros culpados de sermos como somos. Fui convidado a fazer isso e fiz, é claro.
Via a influencia que sofria por causa da criação que tive. Enxerguei de onde vinha minha dificuldade em acordar cedo, focar a atenção, me relacionar com desconhecidos, de não suportar ficar mais de 15 minutos com um livro na mão, e até de odiar banana.

Cada vez que voltava pra casa encontrava uma mãe novamente preocupada e controladora. A maior vilã e também a maior heroína da história da minha vida habitavam a mesma pessoa. O que fiz basicamente desde quando resolvi dizer o basta foi ouvir suas histórias, experiencias e buscar entender a origem da sua dor e a razão das suas escolhas. Agora vou falar do meu aprendizado ao longo do tempo e da minha gratidão a essa mulher incrível chamada Leilian.

Conseguir enxergar um outro ser humaninho ali foi libertador. Além da casca da mãe autoritária e rigorosa, existia uma mulher forte, que luta, que chora, que teme, que sente e que tem tantas dificuldades de se expressar nesse mundo caótico quanto qualquer outro ser humano. Descobrir o que ela sofreu, as dificuldades que passou, situações de pouco ou quase nenhum suporte e acolhimento emocional, trabalhos em ambientes apáticos, ordens superiores, crises financeiras, o lamento de não conseguir passar mais tempo do que gostaria com os filhos, designar a função de cuidar a um desconhecido, perdas de pessoas queridas, sentir-se confusa e mesmo assim extrair forças do fundo da alma pra seguir em frente porque “o tempo não para pra você organizar sua vida”. Nossa! Me pergunto se eu conseguiria!
Toda essa autoridade materna é legitimada pela impossibilidade de errar. Entendi que foi a única e melhor estratégia que ela encontrou para cuidar de si mesma, para não se entregar e desistir da vida. Seu corpo e seu instinto mais primitivo de sobrevivência se manifestava dizendo:
“A sociedade te faz cobranças pesadas. Como mãe solteira, você não pode se dar ao luxo de errar. Aperte as rédeas, assuma o controle ou você sofrerá uma sensação de fracasso que não cabe no peito.”
Sentar e ouvir sua história, que nada mais é do que ouvir a história da minha vida antes de eu nascer foi o caminho mais curto para empatia. E a empatia quando sentida, desmascara todos os falsos julgamentos que fazemos em nossos cérebros atrofiados.

Apenas diante da possibilidade de sentar e conversar com minha mãe, com verdade e uma genuína curiosidade sobre sua vida pude entender de onde vem todas as dificuldades que passei. Que não se comparam às dela. Se hoje me sinto forte, confiante e disposto a encarar uma vida de desafios, não preciso dizer quem me inspirou a fazê-lo né?!

Essa mulher se torna uma grande vilã quando falta informação, conversa, elementos, interesse, enfim empatia. Mas quando há empatia amigues... A figura da vilã é assassinada dentro da minha cabecinha pequena e limitada e a heroína surge das cinzas do meu coração.

Obrigado mãe. E acima de tudo, obrigado Leilan. Por todo o aprendizado e a pela oportunidade de viver essa vida ao seu lado.

Ah! Hoje em dia acordo cedo e feliz pra trabalhar na horta e adoro vitamina de banana! ;)


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sentir-se Pertencente

Hoje vou falar do que sinto falta.
Vivi um bocado até que considerável de vida até agora. Muitos tantos de cidades visitadas e outros tantos de pessoas diferentes conhecidas. A sensação de vazio sempre existiu. Acredito até que era ela quem motivava minha busca incansável por respostas e ainda respondia as indagações confusas da família e amigos: "mas sozinho?" "mas sem dinheiro?" "mas nem peixe?" "mas sem luz?"
Enfim.. foram muitas respostas inventadas intuitivamente apenas para amenizar uma ou outra preocupação.

A resposta mais verdadeira tem vindo aos poucos, vai se fazendo mais clara dentro de mim e até me arrisco a começar a nomea-la. Olha o perigo!
O fator que me move, que me inspira a continuar explorando e conhecendo vem de uma necessidade de pertencimento. Por muito tempo me senti isolado, como se não pertencesse a esse mundo. E desde que comecei a assumir mais riscos e desafios, experimentei sensações que me conectavam com essa sensação de pertencimento. Coisas simples da vida. Andar de mãos dadas por horas numa estrada escura sem se preocupar com a hora que vai chegar. Tomar café com bolo de fubá numa quarta-feira chuvosa junto a uma senhorinha que acabara de conhecer. Cagar no mato. Compartilhar abrigo, cuecas, silêncios.
E apesar de ter experimentado tantas sensações que me tiraram um grande vazio do peito simplesmente por reconhecer meu lado humano em relação com outro ser humano, ainda sinto falta de pertencer.

Depois de todo o aprendizado e experimentações, continuo querendo ter domínio sobre as roupas que uso, o alimento que consumo, a praça que me reúno com os vizinhos. Ainda me falta esse empoderamento, essa maior ingerência sobre tudo o que me cerca. É difícil assumir o controle sobre a própria vida. E é por ser tão difícil que a sensação de vazio chega dominante e avassaladora.

Mais do que querer, eu preciso. Preciso plantar e colher, andar nu, me lavar com a água que brota das pedras, preciso resgatar essa relação com a minha natureza.
Preciso ser cada vez mais natureza, me sentir pertencente ao meu corpo, a minha aldeia, meu grupo, minha vida.
Quando permito que uma cultura me sequestre o poder e me seduza a viver dependente de um discurso que oferece garantias, me sinto fraco e inútil. A sensação de inutilidade me gera um grande vazio interno que acaba sendo preenchido por futilidades. Já a sensação de produtividade, de estar sendo útil para alguém, produzindo conteúdo, insumos, alimentos, me anestesia com uma agradável sensação de pertencimento e confiança na vida.

Estou longe de querer fugir pro mato e fundar a "sociedade ideal". Quero apenas ter domínio e consciência sobre meu corpo e minhas habilidades. E permitir que você seja num lugar onde podemos simplesmente ser.



sábado, 10 de setembro de 2016

Nós somos "aquela geração"

As vezes me pego apegado. Apegado a uma ideia super nova. Que precisa aparecer, sair da caixola e tomar forma. E pra quê?!
Ora, pra quê? Pra mudar o mundo.
Ai me dou conta do tamanho da minha pequeneza humana. Desse complexo de Deus que me inquieta. Mas que seria super legal fazer algo novo, impactante, xocante, que salvaria a humanidade e me faria ser lembrado por centenas de anos, seria.
Nããão! Que horror! Em algum aspecto isso parece tão ultrapassado.

Hoje em dia essa tal mudança vem da vida. A linguagem é outra. Falamos em potencia, consciência, presença, meditação, compartilhar, co-trabalhar, co-habitar, bom dia, por favor e gratidão. Auto empoderamento é a bola da vez! Aprender a extrair o máximo de nossa natureza, resgatar nossas habilidades e trazer pro coletivo requer muita disciplina e dedicação.

Eu vejo uma meia duzia de gato pingado já fazendo um tantão de coisa diferente.
E dizendo "Não, obrigado!" pra mesmice que oferecem os mais antigos.
- Essa escola?! Esse governo?! Essa tradição?! Essa cultura?! Não, obrigado. Vou tentar diferente.

E vejo mudanças comportamentais, mudanças que trazem verdade, liberdade, respeito, manifestações de afeto e cuidado. Estou vendo essa meia duzia dizendo: "eu me importo com o outro."
Fico feliz. Por vezes radiante. Mas ainda com o desejo de ver mais. Duas duzias. Três. Esse mundão todo se renovando por completo.
Uma vozinha dentro da cabeça diz: "Calma jovem. Faz o teu."

Eu to morrendo sabe?! Eu queria ver essas coisas novas se manifestando mais e mais. Eu sou curioso demais pra pensar que vou deixar a vida no melhor da história. Tem uma galera dando duro aqui. Dando a cara a tapa, desafiando o conservadorismo que vem de papai e mamãe. Desafiando o Estado. Vivendo da rua. Aprendendo no morro. Misturando cultura. Explorando o mundo na boleia de um desconhecido pela estrada.

Caiu pra nós essa missão de desafiar o velho mundo e não brindar a consequência.
Ser imortal não é uma qualidade que cabe nessa utopia. Dá até pra prolongar um pouquinho a caminhada optando por comer uns vegetais a mais. Mas ver o que estou / estamos construindo... isso não. Os netos talvez.

Não serei aquele que irá deixar meu nome na memória de muitos cidadãos. Não serei o orgulho da nação ou o grande heroi do século. Nenhum de nós será.
Seremos lembrados como alguém que pertenceu aquela geração dos anos 2000. A geração que permitiu surgir os cidadãos sem pátria. Que desafiou limites, que desconstruiu paradigmas, que desfez os muros da escola e conseguiu com muito amor no coração dizer: Não, muito obrigado!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Gritaria frouxa


Gritar cansa. Já deu de gritar o meu desejo de que o outro seja alguma coisa.
To mais querendo deixar que as pessoas sejam. O mundo está tão cheio de chatos, sabedores, detentores da razão tão pouco razoáveis... Ah não! Não suportaria ser mais um.
Quero ouvir, mais do que falar. Quero ser apoio quando precisam, quero a sensação que vem ao reconhecer-me útil em algum lugar, para algum alguém. Não desejo o afastamento, quero proximidade, calor, humanidade que acalenta, quero pessoas como são e não como eu gostaria que fossem. Quero perceber quando tento fazer com que minha opinião prevaleça. Quero observar a gritaria vazia do meu discurso. Quero a consciência do meu desespero ao tentar me fazer entender. Me farei entender se o outro quiser me entender. Chega de revolta sem sentido, de gritos carentes, de tentativas de afirmações inseguras. No fim das contas, o simples fato de expor as minhas necessidades garantem o limite de que preciso para agir com liberdade. "Falar sobre" é bem diferente de "conduzir para". Ok, já entendi isso. Contudo, perceber a minha motivação ao "falar sobre", é imprescindível para que eu não me torne um enfurecido maquinista de uma locomotiva ou uma metralhadora automática de opiniões desinteressantes.
Importa mais, muito mais, a real intenção por trás da fala.
"Eu quero que o outro pense diferente?"


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cuidado! Em algum lugar o amor se perde.

Aconteceu com o amigo de um amigo meu...
Há! Mentira. Foi comigo mesmo.

Houve um tempo, não muito distante, em que eu flutuava. Em que a vida não poderia ser mais intensa. Emoções que não cabiam, aprendizados constantes e insights difíceis de explicar com meu tão pouco extenso vocabulário.

Nesse tempo eu viajava de bike veia e pegava carona na boleia, eu carregava a casa numa mochila e transitava por lares acolhedores, eu multiplicava novos amigos e colecionava cidades visitadas, tomava banho no rio e almoçava com as crianças. Dormia mal, acordava bem, por vezes assustado, por vezes confuso, e noutras tantas, com uma forte sensação de que, por muito tempo até então, me deixei enganar pelo que me apresentaram como "uma vida bem vivida".
Eu amava demais! Tudo era novo. Descobrir era excitante. Explorar era o sentido de seguir vivendo.
Não tinha um rumo definido e mesmo assim.. eu só ia...

Assim foi por um agradável período de tempo. Sabe quando deixou de ser tão agradável? Quando não dava mais pra fugir da realidade. Em algum momento a vida me chamou de volta e disse: "Tem mais coisa ai."

O desconforto de não ter pra onde voltar, a carência do colo de mãe e da escuta empática dos amigos, me colocavam em um lugar de vazio. Os questionamentos foram ficando mais fortes. A necessidade de colocar a mão na terra e ver as sementes crescer, de me sentir integrado e produzindo algo coerente com meus valores me deixava inquieto. Eu precisava contribuir com algo relevante para comunidade da vida que queria sustentar. Desconstruir a cultura do medo que desejo ver morrer.

Depois de me acostumar com o ser que explora e deixa a vida levar despreocupadamente, bateu uma vontade de criar raízes, assumir desafios, se fazer útil e funcional, ajudar com soluções práticas e se responsabilizar pelo efeito das próprias ações. Enfrentar o rigoroso inverno a fim de assistir o florescer da primavera.

Comecei então, aos trancos e barrancos, tentar entender o que me faltava. Finquei a bandeira da liberdade numa cidadela pacata e disse "vou ficar aqui por um bom tempo e vou fazer diferente". Depois de muito ajudar em projetos de amigos sentia finalmente aquele cansaço produtivo. Minha energia foi gasta com algo relevante. Mas ainda estava desalinhado com alguns dos meus valores. Estava vivendo o sonho de outras pessoas. Inocentemente culpava a "energia da cidade" que não era boa.

Escolho outra cidade então, pra revelar minha imaturidade de lidar com insatisfações. Novos projetos, novas pessoas. "Aqui sim, eu vou passar um bom tempo". Ledo engano. 4 meses depois uma profunda solidão e a saudade da família me fez voltar para minha cidade natal.
Usei o tempo para refletir, entender a ansiedade. Rever os amigos antigos. Até embarcar na próxima aventura. Outra cidadezinha. Já conhecida. "Aqui eu vou construir minha casa e colher minha comida".
E dediquei de verdade. Estava produzindo, estava vendo acontecer. Algumas novas parcerias, outras novas amizades. Embora incomparavelmente menos intensas do que na época em que só fluía por ai, sem compromissos.

Até que uma guria de olhar atento e uma risada acalentadora me desorientou. Ela surgiu assim, de um passado não muito distante com um sorriso bobo e uma fragilidade de quem precisava acreditar mais na magia da vida.
Num acordo não expresso seguimos dia após dia complementando um a necessidade do outro e aprendendo mais e mais sobre si mesmos.
Eu a tirei pra dançar e sussurrei em seu ouvido "se joga!". E ela confiou em mim. Pergunte a ela. Ta dançando sozinha até agora. E pra mim como foi?! Ela me trouxe o sentido que faltava para querer parar quieto. Agora penso mais em comunidade, em família, em trabalho, em segurança. Não aquela ideia falsa como o "mito" da tão sonhada aposentadoria, mas a real noção de que somos seres dependentes de alguns recursos naturais básicos para sobreviver. E mais alguns outros para tornar a sobrevivência mais confortável.

Recentemente entrei numa crise. Claro, nem tudo são flores. A vida é isso ai.
Em algum lugar o amor pela vida se perdeu e eu não percebi.
Fui esquecendo aquele ser amante que se interessava por toda e qualquer pessoa. Que celebrava a beleza de um novo encontro. Que valorizava acima de tudo o tempo de uma boa prosa. Que se permitia escutar e aprender com o outro. Que era admirado pela leveza do olhar e fala tranquila.

Não percebi quando as histórias dos outros deixaram de atrair meu interesse. Enquanto ouvia um discurso, só me vinha à mente minha agenda, meus afazeres domésticos, as plantas do quintal tantos dias sem água, meu cliente impaciente e mais etc. falsamente urgentes.
Eu tampouco me preocupava em disfarçar. Minha ausência no diálogo era revelada pelo meu constrangimento e olhar inquieto.
Estava deixando trabalho, compromissos e responsabilidades tomarem as rédeas da minha vida pela primeira vez depois de abandonar esse tipo de comportamento.
Estava inconscientemente me deixando levar pelo antigo mundo que outrora reneguei com tanta veemência.

Essa crise durou poucos meses. Vivi de perto, por um lapso de tempo, o Ronny do qual fugi enquanto viajava sem rumo. Aquele que tinha medo de me tornar. Posso dizer que por causa da tal Guria tive a clareza de perceber o caminho que estava tomando. Consegui me colocar como expectador de mim mesmo e aprender com todas essas polaridades.
Indas e vinda, que não foram poucas me trazem uma noção do que é realmente importante nas relações humanas. Percebo uma harmonia entre o cara responsável que inspira confiança e o cara amante da vida livre leve e solta.

É preciso estar atento e não deixar se descuidar, se não, o amor pela vida se perde.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mais sobre relações abertas

Então a gente se depara com um conflito. Daqueles que nossas ações podem estimular fortes sensações no outro. Ciumes, é como chamam normalmente. Mas eu não sou normal. Chamo de outra coisa. Prefiro “medo”. Aquele que só da as caras quando defrontamos o desconhecido. Aconteceu comigo e com uma namoradinha linda que eu tenho.

Surgiu, assim meio que do nada, uma menina amarela. Daquelas que atrai olhares na rua. E começamos a conviver o dia-a-dia. Senti que tinha coisa ali. Mexeu algo aqui dentro. Fui observando, fui entendendo, curioso, atraído, até compartilhar com a namorada.

Vem a mente aquele papo de “amor livre”. Papo furado. Vem conversas, vem choros, vem lembranças, vem a pergunta: “Isso que eu to sentindo, de onde vem?”. E desvendando juntos esses mistérios, desconstruindo muros de paradigmas, vamos caminhando para um campo de duvidas e incertezas comum aos dois.

Nesse campo nos encontramos despidos, quase nus de influencias. Querendo cada vez mais despir-nos e experimentar um novo e encantador encontro. Construir um novo mundo. Por raras vezes conseguimos. Compreendemos, fazemos novos acordos e conseguimos dizer honestamente que estamos satisfeitos.

Assim se manifesta o companheirismo de quem decide viver uma vida junto, em comunidade. Que contempla o respeito, atenção, cuidado e empatia. Ser capaz de sentir o que outro sente. Entender o bom momento para ousar. Cuidar das experiencias, uma de cada vez. Não deixar que elas se misturem, que se confundam. Se ouvir e se respeitar em comunhão.

Foi assim, que muito recentemente, aprendi mais um pouco sobre relações abertas, ou seja, relações honestas. Onde se escuta de verdade e há espaço para dizer o que se pensa. Sigo satisfeito, com uma curiosidade que só aumenta ao me aprofundar em relação com o outro. O outro que eu amo e que aprendo a cuidar.


Mataram um cara na minha rua

Eu soube hoje pelos vizinhos. Uma briga de faca.

Um sentimento de derrota. Perceber dentro da vizinhança que me disponho a cuidar dia após dia, a cada “bom dia” com sorriso estampado no rosto, a cada meia horinha dispensada no portão para uma prosa rápida, um caso extremo que me encontra na contra-mão do caminho.

A morte de qualquer ser humano é de uma conseqüência imensurável na sociedade. Nunca é apenas a morte do indivíduo. É a morte de relacionamentos, companheirismo, apoio e da integridade dos ambientes familiar e comunitário.

Me sinto impotente diante da situação. Mataram um cara na minha rua e não há nada que eu possa fazer. Mataram o sorriso das crianças. Mataram a cantoria da dona de casa. Confiar, cooperar, compartilhar e contribuir, se tornam palavras mais distantes da realidade.

O que me resta é o desejo que, das cinzas dessa amarga derrota, renasça o vigor para manifestar a vida que há na vida. Que me venha aquela vontade de gritar: confiem, cooperem, compartilhem e contribuam. Sim, nós podemos. Mais do que isso.. nós precisamos.

Mataram um cara na minha rua e o que não falta é trabalho a ser feito agora. Reunir os vizinhos. Falar sobre o assunto. Trazer as crianças pra dentro de casa. Reafirmar que não aceitamos isso. Precisamos deixar claro pra nossa comunidade que tirar a vida de outrem é um comportamento inaceitável e intolerável.

Mataram um cara na minha rua. E esse é só o sintoma da doença que me proponho a curar a um ínfimo passo de cada vez. Quero ouvir a Dona voltar a cantar, quero ver as crianças voltarem a sorrir.

domingo, 8 de maio de 2016

Estamos Voltando

Chegamos na cidade!
Então exploramos seus recursos naturais, cobrimos cada metro quadrado de grama com placas de concreto e cercamos as árvores em canteiros para que não fujam. Expulsamos a vida silvestre, adotamos pets para saciar nossa carência e começamos a morar empilhados até o limite do constrangimento de um elevador.

É com muito prazer e otimismo que lhes digo que estamos voltando. Ainda de forma tímida e desconcertada, regada de incertezas e insegurança, com as pernas bambas e a companhia do medo de se excluir do convívio social. Mas estamos voltando.

Falamos um tanto, especulamos outro tanto ainda maior. “Pra onde vamos?”, “O que tem que ter?”, “E a familia?”, “Onde vou comprar meu kinder ovo?”. Incertos se seria certo deixar toda a bagagem pesada que acumulamos durante toda nossa frustrada vida para trás. Mas estamos voltando.

Mas para onde estamos voltando? Pro campo?! Não!

Estamos voltando para um pequeno espaço habitacional onde ainda conseguimos experimentar um minimo de humanidade, um vestigio de compaixão. E sim, há uma preferencia pelo afastamento da cidade grande. Queremos começar de novo, queremos partir de um lugar onde estamos mais integrados com a nossa natureza. Queremos levar a tecnologia com a gente, mas podemos deixar o peso dos paradigmas para trás.

Conseguimos a façanha de nos excluir do convívio social cercados de gente por todos os lados. Agora é hora de resgatar nossa essência humana reestruturando uma comunidade que respeita a vida. Estamos voltando e queremos morar juntos. E queremos compartilhar, emprestar, e apreciar demoradas conversas na esquina da padaria do seu Manoel com a loja de bordados da tia Luzia.

Ainda estamos ensaiando. Os mais temorosos até falam bastante, mas ainda hesitam em se mover. Os mais eufóricos saem na frente aos trancos e barrancos, construindo templos e criando instituições. Os mais pacientes começam a experimentar uma vidinha mais tranquila. Com mais tempo pros amigos. Colocando a mão na terra e dizendo bom dia pros vizinhos. Um pão feito por mãos, a criançada solta na praça e muito trabalho em mutirão. Como dizia Claudio Oliver “O futuro, se houver, está no passado.”

sexta-feira, 4 de março de 2016

Facebook em guerra

Sabe..
é dificil pra mim.
Passo por aqui, leio umas coisas, canso, volto, insisto mais um pouco e me vejo cansado. Eu ainda busco esperançosamente por conversas honestas, por debates políticos apurando fatos, amadurecendo ideias, mas é difícil. É ruim. É pesado. É um pesadelo!

Os discursos: um poço sem fundo de certezas. Os comentários: uma ode à violência. Um cenário de guerra declarada. Frases soltas banhadas pela falta de respeito à pessoa. Não se pode achar, não se pode ter dúvidas. Perguntas quase inexistem.

Os valores que temos em comum, que compartilhamos, são atropelados por ideologias cegas. Tais valores se perdem num campo de batalha com opiniões atiradas à esmo. Gente que se cala, que se inibe. Que se abstem de falar por sentir a repressão dos Deuses da razão. Por não mais acreditar em uma conversa produtiva. Aqui vos fala um que muitas vezes preferiu o silêncio do que entrar nesse cenário confuso e conflituoso.

Temos uma crise generalizada em todos os setores da esfera federal e não temos maturidade para lidar com isso. É ridículo se expressar sobre vaias e acusações. Vc já sabe quem vai gostar e quem não vai. Mais do que nunca tem espaço, tem liberdade, ao mesmo tempo que tem o cerceamento do espaço e da liberdade por todos os lados. Não se emite uma opinião sem ser desqualificado como pessoa. E os grupos se separam em dois lados quem curtiu e quem não curtiu.