segunda-feira, 24 de junho de 2013

Aos manifestantes de todo dia


Essa, na minha opinião, é a imagem que reflete com mais clareza nossa sociedade atualmente.
Difícil pensar numa reforma política como solução para os problemas cotidianos se a estrutura social continua a mesma.

Segue um trecho de um trecho de um texto do Claudio Oliver Publicado hoje pela manhã:
''Aos manifestantes de todo dia, que no dia-a-dia manifestam sua postura anti-sistêmica e não frequentam manifestações, mas que fazem de suas vidas manifestações radicais de outro modo de viver, de mobilidade, de alimentar, de meditar, de criar filhos, de relacionar, de construir, de trocar e escambar, de governar a própria vida sem precisar de governo que lhe ponha ordem, de estudar sem precisar mandar, e de dar as costas para o mercado, emprego e segurança, de ser na prática a teoria que muitos esperam mas não pagam o preço, de detestar religião e amar a Deus, de plantar, colher e cozinhar, e de por fim, tomar a atitude radical de não ter sacola plástica ou mesmo cuidar do próprio dejeto.''

domingo, 23 de junho de 2013

Covardia explicita!!!

RAIVA!! É esse o sentimento que estou sentindo!!!! A muito tempo não sentia isso. Raiva não sei mais do quê...  raiva do oficial militar armado, covarde e truculento, raiva da desinformação da mídia privada, raiva da politica pública, das grandes corporações sangue-sugas, exploradoras e escravizadoras de gente humilde, raiva dos bancos que irremediavelmente endividam a população cada dia mais, dos empresários mega poderosos que sustentam toda essa violência em defesa de interesses extremamente egoístas, raiva dessa minoria privilegiada, raiva de toda essa merda dessa estrutura social, DE TODA ESSA COVARDIA, dessa desumanização, desse estado deplorável que chegou o ser humano!!!
Chego a pensar que raiva de mim por não me achar capaz de entender tudo isso, de continuar julgando a posição de uns e de outros inevitavelmente, de não ter a sabedoria necessária pra lidar com cenas de violência explicita.

Agora percebo na pele a linha tênue que existe entre amor e raiva. São o mesmo sentimento... um oposto ao outro. Pensei muito antes de escrever, mas não seria honesto comigo, e menos ainda com quem lê, escrever mensagens belas de amor e solidariedade e não manifestar esses momentos de desequilíbrio emocional... Raiva! E agora é o melhor momento pra expressar e perceber que sou humano e sou fraco, e se um dia pensei que poderia não mais sentir isso, foi pura ingenuidade. A vontade de mandar alguém tomar no meio do cu me veio varias vezes.  Já não me arrependo mais de não estar no Rio nesse momento. Não sei o que eu faria se estivesse nas ruas.

Passei mais tempo revisando o texto do que escrevendo... desabafo!!!


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pra não dizer que não falei das flores

As flores!!! Inegavelmente é um belo ato. Oferecer uma flor àquele que se veste na forma de um inimigo é um incentivo à não violência. Se esta humilde ação não vier intencionada de inibir a agressão, de trabalhar o psicológico e explorar o lado mais humano dos militares armados, ótimo! Num ato poético fica a flor pelo amor!

Entretanto não acredito que seja um movimento vazio de intenções. Pelo menos, quando eu o fazia, em outras manifestações, tinha em mim a convicção de despertar a emoção, o lado mais profundo do ser, receber um olhar de respeito, carinho e aprovação de um outro ser humano. E de fato isso acontece quando presenteio minha mãe. Mas acreditar que a farda brasileira vai se entregar à apelos emocionais é muita ingenuidade.

Nós que assistimos e aplaudimos a retratação da realidade carioca nos filmes Tropa de Elite por 2 vezes, não deveríamos nos surpreender com as ferramentas usadas para intimidação. Infelizmente a polícia sai do quartel com uma doutrina de guerra na cabeça, o outro é sempre o inimigo. A estrutura recompensa o abuso de violência. A ideologia é de guerrilha e se manisfesta com a repressão civil. O Brasil não teve justiça de transição efetiva após o período ditatorial. Hoje temos o mesmo modelo, com nomes diferentes.

Em 18 de setembro de 2012 a ONU sugeriu a desmilitarização da policia no Brasil. Dentre as 170 recomendações, foi a única negada, com a argumentação de que era previsto constitucionalmente o uso da policia armada para contenção da ordem. Os números de homicídios, principalmente à jovens de periferia, só aumentam a cada ano e nós com uma policia civil (investigativa) precária.

''Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão''

Desculpem, mas, diante dos fatos, deixo de acreditar nas flores vencendo o canhão.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sem violência?! (não é só por R$ 0,20)

''Vandalismo'' e ''pacífico''. Foram os jargões adotados pela mídia privada pra manter a desinformação, e ignorar as reivindicações feitas pelos manifestantes. ''Uma manifestação bonita é uma manifestação pacífica, sem violência, sem vandalismo''.

Acredito que uma manifestação bonita é a forma legitima, verdadeira, genuína da pessoa se manifestar. Se expressar com liberdade, da forma como achar conveniente. Uma covardia é pensar que um povo ignorantizado, oprimido por governo, policia, mídia, patrão, dia após dia, vai usar a argumentação e o discernimento do razoável em ocasiões que facilitem a sua livre expressão. Não é a atitude mais racional, é de longe o que eu faria, mas dizer que isso é vandalismo, que isso é injustificável, que isso é violência gratuita?! Tenho que discordar! Gratuita é a violência que esse povo vem sofrendo a anos.

Vou dizer o que entendo por vandalismo. Pra mim vandalismo é um jovem morrer no hall de um hospital por precariedade na estrutura hospitalar. Vandalismo é ir e voltar pro trabalho sendo tratado como bicho, amassado  num vagão de metrô como numa lata de sardinha. Vandalismo é abafar as vozes de um povo que grita, que implora por justiça a 500 anos e ainda assim não ser ouvido nas situações mais desesperadas. Vandalismo é a estratégia para ignorantizar a população, o boicote da educação para criar cidadãos submissos. Um ato violento é uma criança morrer de fome num país que a produção de alimentos é superior à capacidade de consumo.

Há quem diga que há infiltrados e até ''neguinho querendo se dar bem'' (como saqueamento à lojas da cidade). Estranho seria não ter. Continua o mesmo jogo de poder. De perde x ganha. O que é apregoado é que temos que nos destacar da grande massa. A sociedade do consumo nos convence que produtos inúteis e desnecessários, STATUS, é sinônimo de qualidade de vida. No auge da desinformação fica fácil acreditar nisso. Ai a competição rola solta, amigo com amigo, irmão com irmão, marido e mulher... Quem tem mais passa a ser o inimigo. A delegacia de crimes contra o patrimônio, por exemplo, é incomparavelmente mais bem estruturada do que a delegacia de homicídios. Vivemos numa sociedade em que a propriedade privada vale mais do que a própria vida. Se o gigante acordou foi de um sono de mais de 500 anos, é compreensível que esteja totalmente desorientado.

E a violência da polícia... Como se esses não fossem desumanizados a cada dia. Não querendo tomar partido de um lado, ou defender um posicionamento. Chega a me dar arrepio a truculência dos caras, mas me permito a reflexão. Como um cidadão longe de uma ambiente afetivo, já cheio de conceitos deturpados, passando por treinamentos de guerrilha, baseado em obediência e punição, consegue agir com sensatez? São treinados pra receber ordens. O circo é feito de tal forma que desobediência é algo inadmissível. Vergonhosamente ainda se usam noções de honra e patriotismo como argumento persuasivo.

Vou aqui. Continuando a fazer minha parte. Seguindo os entendimentos de distribuição em rede, troca e compartilhamento de recursos, autogestão, subsistência, produção de alimentos comunitária, fontes de energia alternativas. Pra mim já não há o que reivindicar, não há pra quem reivindicar. Está tudo vendido. Queria eu não existir para o Estado.

Ataques à prefeitura: um relato diferente sobre a “violência” (não é só por R$ 0,20)

Para os manifestantes do Movimento Passe Livre, especialmente após o quebra-quebra da semana passada, quando a polícia ultrapassou todos os limites, foi muito importante se distanciar dos elementos mais radicais que promoveram ataques ao patrimônio público e privado. Assim, não faltaram acusações por parte da esquerda de que a tentativa de invasão da Prefeitura de São Paulo foi promovida por policiais infiltrados querendo desmoralizar o movimento.

Por outro lado, assistir aos telejornais e programas ao vivo é absolutamente irritante, tantas as vezes que a palavra “pacífica” é dita, numa espécie de tentativa de “higienizar” o movimento.

O relato abaixo, do fotógrafo Yan Boechat, faz pensar nos limites dessas duas interpretações, das lideranças das mobilizações e da mídia tradicional. Se há infiltrados, também é verdade que há manifestantes radicalizados ultrapassando as barreiras violentas que o poder coloca dia-a-dia diante de suas vidas.


Relato de Yan Boechat*

“Só não entende o que está acontecendo nas ruas quem não foi para as ruas. Ontem, em São Paulo, os pobres, os miseráveis, os excluídos tomaram as ruas para protestar com as únicas armas de coerção que conhecem, a violência. Não foi uma “minoria” de vândalos que atacou a prefeitura. Nem os punks ou os integrantes do Black Bloc. Eles estavam lá e participaram, é verdade, mas não foram eles que por pouco não colocaram a baixo o símbolo do poder municipal, assim como não foram eles que destruíram o portão do Palácio dos Bandeirantes.



Quem atacou a prefeitura, desde o começo, foi o povo. Foi gente que está ali no centro todo dia trabalhando, gente que mora nas ruas, gente, muita gente, que veio das periferias participar dos protestos. Uma senhora, senhorinha mesmo, foi simbólica nesse ponto, para mim. Ela chegou bem perto da porta da prefeitura, onde o caos imperava após a saída da GCM, e passou a atirar pedras contra o que restava de vidros. Algumas pessoas tentaram contê-la. “Tia, sai daqui, a senhora vai morrer”, diziam. E ela: “Me deixa, eu tô com raiva, eu tô com muita raiva”. Após uma negociação entre ela e seus contentores, chegou-se a uma conclusão: “Eu saio, mas me deixa jogar mais duas, eu to com muita raiva”. E mais duas pedras portuguesas voaram em direção às vidraças.

Toda a sorte de violência que essa parcela da população sofre veio à tona ontem, por mais que os representantes da classe média tenham feito o máximo de esforço para conte-los. No meio do caos, estabeleceu-se, quase, uma luta de classes e raças para definir qual a melhor estratégia de luta. De um lado, jovens brancos e educados, em sua maioria, tentavam argumentar que esse não era o caminho, que isso era o que a “mídia burguesa” queria, que não havia “estofo ideológico” para isso. Do outro, jovens pardos, negros, filhos de nordestinos, apenas ameaçavam. “Eu vou quebrar, sai da minha frente, playboy, senão vai sobrar pra você”.

Foi assim na porta lateral da prefeitura, onde os manifestantes – sim, eles também são manifestantes – tentaram arrombar a porta fazendo dos tubos metálicos de sinalização de trânsito uma aríete. Um rapaz, loirinho, de cabelos cacheados, vestido de super-homem, tentava convencer um bando de rapazes da periferia paulistana a não invadir a prefeitura. “Pessoal, tem gente la dentro, alguém vai se machucar, para com isso”. Um rapaz, moreno, apenas com os olhos a mostra, explicou em detalhes, o que lhe aconteceria: super-homem, sai daqui senão tu vai virar a mulher maravilha”. O super-homem, ciente estar diante da Kriptonita, partiu.

A polícia, que abandonou a cidade, só apareceu quando as lojas começaram a ser saqueadas. Quando eram apenas as agências bancárias, donas de cofres impenetráveis por um bando de “arruaceiros”, não houve problema. Mas quando as lojas Marisa ou as Americanas passaram a ser o alvo, um grupo de policiais surgiu. Prendeu algumas pessoas, mas foi posto para correr pela multidão.

A cidade, como diziam, era deles. Dos pobres, dos miseráveis, dos nóia, dos meninos de rua, dos jovens da periferia. Pela primeira vez, em muito tempo, entraram nas Lojas Americanas sem serem perseguidos pelos olhares dos seguranças. E muita gente só entrou para destruir. E muita gente realizou o sonho de ter uma TV bacana ou um notebook.

Simplesmente criminalizar o que houve ontem no centro de São Paulo é aumentar o fogo sob a panela de pressão da incrível desigualdade social centenária deste país. E principalmente de São Paulo, a verdadeira cidade partida. Não é possível que continue-se a acreditar que os bandidos pardos, negros e periféricos são bandidos porque este é seu DNA, porque não gostam de trabalhar, porque, enfim, são assim. Ontem, no centro de São Paulo, essa massa mostrou que está cansada de ficar à margem. Muito cansada. E não serão R$ 0,20, de fato, que aplacarão a raiva.

O urubu bateu asa e a classe e a jovem média paulistana, que o alimentou pensando em se tratar de um vistoso sabiá, está assustada. Afinal de contas, os clamores de “Sem Vandalismo” que entoaram durante as passeatas não fazem sentido para a massa daqueles que realmente sofrem com o trânsito massacrante da cidade, com a polícia assustadoramente violenta. Por não terem a raiva a lhes alimentar a alma, os jovens que foram às ruas com cartazes dizendo “Saímos do Facebook”, não entenderam o poder da raiva. E com a raiva não se brinca.”

terça-feira, 18 de junho de 2013

Carta aos manifestantes (não é só por R$ 0,20)

Lindo movimento. Ver essa integração social por qualquer motivo que seja é bonito de se ver.
Quero aproveitar pra dizer porque, mesmo acompanhando e admirando todo esse movimento, estou aqui e não lá ''na rua''.

Escolhi não ter que pagar passagem, não ter que chegar na hora, não ter que trabalhar para alguém. Escolhi ter tempo. Tempo para observar as crianças, para ouvir os idosos, para sorrir pros semelhantes e aprender com todos eles. Escolhi comer alimentos sem veneno, plantar e cuidar da terra, semear e ver crescer. Escolhi interagir com a natureza, acordar com a alvorada, ouvir os pássaros cantando, admirar as estrelas.

Decidi que minha vida não será usada pra manutenção de um estado repugnante da sociedade. Não preciso de um banco que me dê crédito, nem de alguém que me represente politicamente, nem das doenças inventadas pelo conselho de medicina. Não dou importância à feriados, fins de semana ou dias festivos mais do que à dias normais. Não acredito nas instituições, nas organizações ou grupos fechados. Não quero e nem pretendo reunir o meu exército de benfeitores, pois não enxergo os malfeitores. Só vejo pessoas. Todas, umas mais outras menos, mas todas afetadas por uma mesma hipocrisia social. Vítimas de um sistema corrupto, opressor e autoritário que nós mesmo criamos e contribuímos pra que se mantenha. A questão é se queremos continuar financiando um modelo de ordem instituído por uma meia duzia ou fazer diferente.

Regras, modelos, métodos, rótulos, não obrigado! Dispenso atitudes excludentes e segregadoras. Acredito nas pessoas. Todas como iguais. É com elas que me relaciono todos os dias e não há prazer maior do que viver dias diferentes. Um após o outro. Vivo, amo e faço o que acredito. Hoje prefiro preservar e construir do que temer e combater.

Beijos no coração.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pensamento da manhã

Texto de Claudio Oliver*
Um caminhante, muitas vezes um pedalante, mas sempre autopropelido, um praticante que pensa, que busca praticar o que pensa e pensar sobre o que pratica. Atualmente vivendo na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, na parte Sul das Índias Ocidentais


''A gente vive em um país que reconhecidamente tem se mostrado conservador e moralista, mesmo que tenhamos um governo de esquerda ou que votemos por leis consideradas moderninhas sobre abortos, relações interpessoais e direitos. Na verdade somos um país onde o pecado individual é tratado como algo grave (quando é feito pelo outro, mesmo que quando de nosso lado seja até direito ou esperteza): corrupção, violência, roubo, desrespeito.... tudo é ruim quando é o outro que comete. E a gente deseja, deseja muito, e admira, e tem como exemplo, as estruturas que estão na raiz do problema. A gente condena a ganância, mas admira os ricos donos do sistema acumulador de capital. A gente diz que todo mundo é individualista, e ainda assim deseja ter um carrão para colocar um sonzão e mandar 300 cavalos puxarem sozinhos uma ou duas pessoas. A gente condena a prostituta, e cultiva a indústria de vulgaridade, da moda, da pornografia e da exibição do corpo como se fosse carne em açougue. A gente condena crianças abandonadas, enquanto abandona os filhos à mercê de um sistema educacional terceirizado, e que os transforma em consumidores apáticos. A gente reclama da falta de cooperação e insiste com os filhos para se entenderem em um mundo competitivo. A gente diz que as novas gerações são apáticas e sem iniciativa, mas compra telas e tablets para os guris ficarem quietos e não nos perturbarem nos carros bacanas, hipnotizados por desenhos imbecis no banco traseiro dos mesmos.A gente reclama das doenças e se envenena no supermercado.
Nosso conservadorismo se traduz na crença cega de que o negócio é baixar maioridade penal, ampliar as cadeias, enfiar os meninos na escola 12 horas por dia, passar o fim de semana no Shopping e na fila do Burguer King e do Macdonalds, e por considerar que a lei das empregadas é um abuso, e que alguém cuidando de nossa casa, e que não senta na mesa com a gente, é item de série na fábrica social de desigualdade.
O pecado, que está sempre no outro de forma individual, é na verdade um mal identificável nas estruturas que admiramos de poder, de prazer e de dinheiro. OS principados e potestades a que São Paulo se referia, não são demônios pairando no ar, mas as estruturas destruidoras que comandam a vida, que constroem os sistemas, que cativam as mentes. São estas o habitat natural do tal pecado, e se nutrem do convencimento de que elas são neutras ou mesmo positivas (quem não quer ter o filho CEO, ou não se orgulha de ter um amigo que pode dar carteirada?), elas estão na raiz que sustenta a emergência de uma sociedade conservadora no tratamento do outro enquanto indivíduo, ao mesmo tempo em que é liberadora do mal no sentido corporativo e sistemático. E assim, como dizia o apóstolo, urge lembrar que nossa luta "não é contra o sangue e a carne" (ou seja as pessoas), mas contra os "principados e potestades" (estruturas) Contra os "principes e hostes da maldade"(seus comandantes) que vivem na "nuvem", impalpáveis, imperceptíveis, e usualmente... extremamente conservadores. Bom dia.''

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sobre o aumento da tarifa do transporte público

Acredito, de verdade, que nos questionar sobre o que estamos fazendo é o primeiro passo pra uma mudança daquilo que não concordamos. Deixo então o meu questionamento lembrando que discordâncias não precisam se tornar discórdias. O debate é sempre muito enriquecedor independente de certo e errado, verdade e mentira.

Recentemente um amigo defendeu o direito ao transporte público assim como temos direito à saúde e à educação. Seu questionamento é interessante, porém seus exemplos não me fazem muito sentido. Notavelmente o direito à escola ou o direito à saúde estão sendo respeitados. Hoje o direito a escola e a saúde são mais uma arma contra nós, do que a favor. A escola, vejo como um ambiente desumano, opressor, autoritário, que extermina a criatividade. Não há aprendizagem ali, só há ensino. Professores, que por esse titulo, nunca estão em pé de igualdade com as crianças, querendo sempre entupir os pequenos com o chamado ''conteúdo programático''. E esse ''direito'' é defendido por uma lei que obriga crianças desde os 4 anos de idade a estarem matriculadas em escolas.

O mesmo se aplica a área da saúde. Sabidamente a industria farmacêutica é a que mais lucra no mundo atualmente. Os médicos estão cada vez mais especializados em doenças (muitas criadas) e menos preocupados com o lado emocional e humano dos pacientes. O enfermo é uma coisa que precisa ser curada. Semelhante ao trabalho de um mecânico (que aliás está ganhando mais que um médico por hora trabalhada, mas isso já é outra discussão). Medicina preventiva hoje se tornou coisa alternativa. Além de tudo vem o estado com uma outra lei que proíbe a automedicação mas garante o seu direito a saúde, claro. ''It's all profits, my friend.'' Nada passa de bons negócios!

Com isso concluo que o direito ao transporte público é só mais uma ferramenta pra nos manter dentro das engrenagens. Vamos engolir o aumento das passagens como já aceitamos com naturalidade que precisamos ter um diploma, ingressar no mercado de trabalho, uma profissão, uma casa e um carro na garagem pra ser uma família realizada, como ter um filho na escola (coisa que antes do século XVI não existia) é normal, como comer alimentos envenenados é habitual. Não há preocupação com a origem da maior fonte de energia do corpo. De onde vem o que nos mantem vivos é pouquíssimo questionado. Tentei beber uma água sem cloro na cidade outro dia e não tinha como. Não vou nem citar o preço de alimentos orgânicos (que aliás além de vir em caixinha de plástico passam por distribuidor e fornecedor antes de chegar até nós, o final da cadeia ainda ta bem longe do produtor).

É só mais um problema que mostra a negligencia do Estado para com a população e reflete claramente o quão estamos repugnantemente dependentes deste Estado. Eu fiz a minha escolha. Eu quero fazer parte cada vez menos desse circo. Minha função não é ser palhaço. Faço aquilo que eu acredito. Planto meu alimento, moro perto de muita água, compartilho todos os meus recursos com as pessoas, pedalo pra qualquer lugar independente de chuva ou sol, tento ser generoso e amável respeitando o outro como igual. Não consigo me desvincular totalmente dessa dependência, mas até onde consigo eu faço.

Estamos pagando uma conta muito maior do que aquela que está nos noticiários. Estamos cuidando da manutenção desse estado da sociedade para que os aumentos da passagem se justifiquem. E o que mais fazemos é dar justificativas para continuar fazendo esse sistema funcionar. Na maioria das vezes por comodismo. Digo por mim, que já fui muito acomodado e ainda me reconheço um pouco assim em algumas circunstancias. Agora, muito mais cauteloso pra não cair nessa armadilha novamente. Cansei! Já deu! Vou fazer diferente!

Dia dos namorados?

Texto de Rebeca Mello*
Biologa, amante da vida e da natureza.


''Eu como faço dessa rede social percebo, ali no feed de notícias, a grande preocupação que as pessoas tem com o dia de hoje... tanta preocupação que as que não tem um companheiro ou companheira, põe coisas como "viva os encalhados" ou "to acostumada a ficar sozinha todos os dias do ano". Não me resta outra sensação a não ser tristeza... aproveito esse post também não só pra falar dos dia dos namorados, mas também viagens, passeios, programas, que parecem tão mecânicos, artificiais e armados exatamente para apresentar um conteúdo para 400, 500 pessoas que não sabem absolutamente nada sobre sua vida ou seus sentimentos.

Que importância real tem esse dia pros verdadeiros casais que se amam, que demonstram, que vivem todos os dias o dia dos namorados? E sinceramente, qual o problema de não ter um? Assim como certas viagens que são feitas, eu tenho a impressão que tem casais que são casais só pra botar no facebook... e é sério!

Numa boa, tem tanta coisa linda nessa vida!! Nossos pais, nossos amigos, o nosso desenvolvimento e aprimoramento como ser. Não faço esse discurso também aqui para me representar virtualmente, quem me conhece (os verdadeiros amigos) sabem que tenho essa filosofia aqui e ali, dentro e fora.

Espero de coração, que vocês, nós, todos tenham uma vida real, pura, vivida, sem a preocupação com dias comerciais, dias sem amor, mal vividos, que tenha que vir aqui e se explicar de alguma maneira ou se "tornar" uma outra maneira...

Feliz dia todos os dias!!!''

sábado, 8 de junho de 2013

Selvagem x Civilizado

"Você vai me dizer: o índio tá falando, mas é selvagem. Selvagem é vocês, milhares de anos estudando e nunca aprenderam a ser civilização. Prá que você está estudando? Prá destruir a Natureza e no fim destruir a própria vida ?" (José Luiz Xavante)

Acho que qualquer caminho é o caminho quando o individuo se sente pleno, e por plenitude entendo o mais próximo do seu estado natural, das coisas que ama e, de forma não compulsória, faz com maestria.

Quando entramos dentro de um meio acadêmico, já existe toda uma rotina pré configurada que nos inibe de fazer as próprias escolhas e pensar livremente. Ele nos torna cada vez mais competitivos e egoístas. Quando pensamos no coletivo, comummente é no nosso grupo, aqueles que pensam igual, que fazem as mesmas coisas e tem os mesmos interesses. Ai é uma ignorância pensar em uma sociedade comum, civilizada, com valores como cuidado, harmonia, etc...

Não mais penso que devemos salvar o mundo, ou a sociedade ou a humanidade, mas emergencialmente salvemos a nós mesmos que chegamos ao ponto de pensar que temos o poder de salvar os outros.

Me lembrei uma frase de Thoreaut:
''Até o aluno pobre estuda e lhe é ensinado apenas economia política, enquanto aquela economia de viver, sinonima da filosofia, nem sequer é professada em nossas faculdades. O resultado disso é que o aluno ao mesmo tempo que lê Adam Smith, faz com que seu pai se endivide irremediavelmente.''

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Como ser mãe em uma época em que impera a lei do menor esforço?

Texto de Daniele Brito*

''Não tenho a obrigação de ficar calada. Ninguém tem a obrigação de concordar. Nasce a polêmica.

Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente, sabe que não gosto de estar envolvida em assuntos polêmicos, que geralmente entram em combustão com argumentos muito rasos para sustentar uma ideia, uma opinião. Não tenho tempo nem estômago para administrar isso.

Muita gente deve ter uma ideia equivocada sobre mim pelo fato de eu escrever sobre maternidade e postar muitas coisas relacionadas a isso na fan page do blog. Devem me achar uma super mãe, aquela que está acima do bem e do mal, que certamente não reclama de nada e que vive eternamente feliz.

Não gosto desse rótulo e muito menos o reivindiquei pra mim.

Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente, sabe que sou uma mãe em transformação, ou melhor, uma pessoa em transformação. Escrevo mais sobre meus erros que sobre meus acertos. Escrevo ainda sobre as coisas que descubro, que me fazem entrar numa catarse sofrida e me modificam. Como mãe e como ser humano.

Fui mãe pela primeira vez em 2003. Não tínhamos redes sociais e as informações estavam todas compiladinhas em portais www. Ainda assim, procurei me cercar de uma quantidade gigantesca de informação. Fiz minhas escolhas baseadas não só nessas, mas em vivências familiares.

Como mãe, fui eu quem decidiu o parto. Desconhecia o termo violência obstétrica, achei injustas as intervenções no primeiro parto (natural), o descaso dos profissionais de saúde que me cercavam, mas nunca me ocorreu que nós – a sociedade – teríamos argumentos e força para lutar contra um modelo obstétrico em vigor há pelo menos um século. Chorei ao saber da episiotomia, mas ingenuamente, achei que fizesse parte do pacote. E contra aquilo não me voltei.

Como mãe, fui eu quem decidiu não perseverar na amamentação dos dois filhos! Quem me vê defendendo ferrenhamente a amamentação prolongada acha que amamento meus filhos até hoje! A mais velha mamou até os quatro meses, quando acabou minha licença-maternidade. Ouvindo conselhos do pediatra e de posse de informações equivocadas em revistas, julguei ter feito a minha parte. “Mamou o suficiente”, dizia. O segundo, querendo amamentar até os dois anos ou mais, com leite suficiente pra isso, fui mal orientada por um profissional da saúde. Meu filho tinha refluxo e eu, hiperlactação. Ele não conseguia mamar e eu chorava. O pediatra deu o diagnóstico: manha. E eu sucumbi ao fracasso. Tendo refluxo, nenhum outro leite seria bom pra ele como o meu.

Até bem pouco tempo – pouquíssimo tempo, aliás – tinha o maior preconceito contra a amamentação prolongada. Não sabia que era possível amamentar durante a gestação, muito menos que mulheres eram capazes de nutrir dois filhos em idades diversas. Meu desconhecimento me levou a falar muita besteira.

Como mãe, fui eu quem optou pela combo chupeta + mamadeira, reproduzindo um padrão de vivência familiar. Eu usei. Todos os meus irmãos usaram. Ninguém morreu, veja que beleza!

Como mãe, fui eu quem optou por comidas prontas que facilitariam a vida doméstica. Diminuiriam meu cansaço e sobraria mais tempo pra mim e para minha filha. Com o segundo, a coisa foi diferente. Só não sabia que seria possível revolucionar geral com a comida servida a todos nessa casa. Mudança de hábitos, consumo consciente.

Como mãe, usei de recursos que aprendi ainda na infância, como gritar e dar palmadas para dar limites e mostrar a minha autoridade de mãe, por medo de ser permissiva e omissa. Só não sabia que, com isso, estava apenas ensinando o descontrole e a falta de assertividade em resolver as querelas domésticas. Desconhecia o poder da disciplina positiva.

Essas são as minhas escolhas. Não é porque as fiz que elas estão certas.

É muito cômodo escolher o caminho fácil quando não temos informação ou quando elas nos chegam de forma parcial. E, naquela época, eu queria me cercar de facilidades.

O que estava por trás de todas essas minhas escolhas? Aprendi a me fazer essa pergunta.

Existe mesmo livre escolha?

O mercado, através de suas peças publicitárias, nos bombardeia com mensagens que nos mostram que não somos capazes, que não conseguiremos dar conta. Que precisamos de um auxílio, de um produto que facilite nossas vidas. Pode ser de bisturi a macarrão instantâneo.

Encarar o meu papel de forma consciente exige um esforço contínuo. Procuro me cercar de informação não pasteurizada, que não queira me agradar, mas que me confronte com meus próprios medos, com minhas fraquezas.

Confirmar os vínculos com meus filhos exige de mim compromisso. Mudar, quebrar paradigmas pode significar sofrimento, MAS também pode ser um antídoto, um alento. Finalmente, sair da caverna é penoso, mas é libertador.

* * * * *

Hoje, num desabafo, contei algo que vem acontecendo na casa da minha vizinha. Não nos conhecemos. Nem mesmo sei o seu nome. Coisas da vida moderna.

Sua bebê nasceu no começo do ano e só sei que é uma menina, pois vejo no varal roupinhas cor de rosa. Desde então, ouço seus choros e sua mãe falando em tatibitati. Bate aquela nostalgia! Como é bom bebê novinho em casa!

Um dia publiquei na fan page que, quando a bebê chorava prolongadamente, eu colocava a mão na parede e dizia mentalmente “Calma, amiga. Vai passar. É só uma fase.” De lá pra cá, tenho ouvido muitos gritos. Descontrolados. Altos.

Conversando com meu marido, disse que estava com pena dela. Relembramos juntos vários momentos difíceis e recordamos do tempo que achávamos que isso nunca teria um fim. Até então, não sabia que os gritos eram direcionados à bebê. Imaginei que ela gritasse com as paredes, com o marido, com a babá.

Pontualmente, a bebê acorda às 00:30. Suponho que seja para mamar. Outro dia, então, não só ouvi os gritos, como pude discernir o que exatamente aquela mãe estava falando. Mandou a bebê – que não deve ter seis meses – calar a boca várias vezes. Mandou parar de manha. Uma adulta mandando uma bebê parar de manha.

E foi isso que me deixou triste, que me fez perder o sono. Muita gente mostrou preocupação com a mãe, que deve sim estar passando por um momento difícil, que deve, inclusive, estar com depressão pós-parto. Que seja. Afinal, sabemos que amor não se impõe nem se decreta. Se constrói. Mas na hora, naquele momento, só consegui me preocupar com a criança. E se os gritos forem acompanhados de outras formas de violência? Liguei as pecinhas e deduzi (veja bem) que há tempos essa bebezinha recebe ordens para se calar, para lidar sozinha com sua natural imaturidade. A mãe é adulta e dispõe de vários recursos para procurar ajuda, mas quais recursos a bebê possui?

Na minha fofoca matinal, escrevi algo sobre não estarmos preparados emocionalmente para ter filhos: as pessoas querem um filho, mas NÃO querem passar pelo processo. Querem um filho, mas não querem um parto. Optam pela cesárea. Querem um filho, mas não querem amamentar. Optam pelo leite artificial. Querem um filho, mas não querem cuidar. Contratam uma babá (que durma no quarto, inclusive). Querem um filho, mas não querem trabalho na hora de alimentá-lo. Optam pela comida industrializada. E ainda reclamam.

De fato, não gosto desse coitadismo materno. Somos da geração do menor esforço, do prazer instantâneo (como o macarrão), do prazer individual. Não queremos problemas, queremos resultados. A coletividade nos assusta. O outro não interessa. Agimos como eternos garotos mimados, num ciclo aparentemente inquebrantável da infantilização da vida adulta.

“Sentir-se ofendido é uma forma de negação que nossa cultura impôs com grande êxito”, como bem salienta Sergio Sinay.

A maternidade não pode ser vista como satisfação imediata de prazeres só porque a fantasiamos como um simples exercício de manipulação de um painel de controle.

Queremos as facilidades.

Dizem, entre sorrisos e músicas alegres nos comerciais da TV, que não precisamos de regras para criarmos nossos filhos. Como se isso pudesse ser de alguma forma libertador.

De fato, não precisamos de regras.

Precisamos de compromisso, responsabilidade, cumplicidade e ética.''

*Daniele tem 32 anos e é estudante de Direito, mãe da Bia, de 9 anos, e do Otto, de 4, mora em Florianópolis/ SC e é autora do blog Balzaca Materna.