sábado, 10 de setembro de 2016

Nós somos "aquela geração"

As vezes me pego apegado. Apegado a uma ideia super nova. Que precisa aparecer, sair da caixola e tomar forma. E pra quê?!
Ora, pra quê? Pra mudar o mundo.
Ai me dou conta do tamanho da minha pequeneza humana. Desse complexo de Deus que me inquieta. Mas que seria super legal fazer algo novo, impactante, xocante, que salvaria a humanidade e me faria ser lembrado por centenas de anos, seria.
Nããão! Que horror! Em algum aspecto isso parece tão ultrapassado.

Hoje em dia essa tal mudança vem da vida. A linguagem é outra. Falamos em potencia, consciência, presença, meditação, compartilhar, co-trabalhar, co-habitar, bom dia, por favor e gratidão. Auto empoderamento é a bola da vez! Aprender a extrair o máximo de nossa natureza, resgatar nossas habilidades e trazer pro coletivo requer muita disciplina e dedicação.

Eu vejo uma meia duzia de gato pingado já fazendo um tantão de coisa diferente.
E dizendo "Não, obrigado!" pra mesmice que oferecem os mais antigos.
- Essa escola?! Esse governo?! Essa tradição?! Essa cultura?! Não, obrigado. Vou tentar diferente.

E vejo mudanças comportamentais, mudanças que trazem verdade, liberdade, respeito, manifestações de afeto e cuidado. Estou vendo essa meia duzia dizendo: "eu me importo com o outro."
Fico feliz. Por vezes radiante. Mas ainda com o desejo de ver mais. Duas duzias. Três. Esse mundão todo se renovando por completo.
Uma vozinha dentro da cabeça diz: "Calma jovem. Faz o teu."

Eu to morrendo sabe?! Eu queria ver essas coisas novas se manifestando mais e mais. Eu sou curioso demais pra pensar que vou deixar a vida no melhor da história. Tem uma galera dando duro aqui. Dando a cara a tapa, desafiando o conservadorismo que vem de papai e mamãe. Desafiando o Estado. Vivendo da rua. Aprendendo no morro. Misturando cultura. Explorando o mundo na boleia de um desconhecido pela estrada.

Caiu pra nós essa missão de desafiar o velho mundo e não brindar a consequência.
Ser imortal não é uma qualidade que cabe nessa utopia. Dá até pra prolongar um pouquinho a caminhada optando por comer uns vegetais a mais. Mas ver o que estou / estamos construindo... isso não. Os netos talvez.

Não serei aquele que irá deixar meu nome na memória de muitos cidadãos. Não serei o orgulho da nação ou o grande heroi do século. Nenhum de nós será.
Seremos lembrados como alguém que pertenceu aquela geração dos anos 2000. A geração que permitiu surgir os cidadãos sem pátria. Que desafiou limites, que desconstruiu paradigmas, que desfez os muros da escola e conseguiu com muito amor no coração dizer: Não, muito obrigado!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Gritaria frouxa


Gritar cansa. Já deu de gritar o meu desejo de que o outro seja alguma coisa.
To mais querendo deixar que as pessoas sejam. O mundo está tão cheio de chatos, sabedores, detentores da razão tão pouco razoáveis... Ah não! Não suportaria ser mais um.
Quero ouvir, mais do que falar. Quero ser apoio quando precisam, quero a sensação que vem ao reconhecer-me útil em algum lugar, para algum alguém. Não desejo o afastamento, quero proximidade, calor, humanidade que acalenta, quero pessoas como são e não como eu gostaria que fossem. Quero perceber quando tento fazer com que minha opinião prevaleça. Quero observar a gritaria vazia do meu discurso. Quero a consciência do meu desespero ao tentar me fazer entender. Me farei entender se o outro quiser me entender. Chega de revolta sem sentido, de gritos carentes, de tentativas de afirmações inseguras. No fim das contas, o simples fato de expor as minhas necessidades garantem o limite de que preciso para agir com liberdade. "Falar sobre" é bem diferente de "conduzir para". Ok, já entendi isso. Contudo, perceber a minha motivação ao "falar sobre", é imprescindível para que eu não me torne um enfurecido maquinista de uma locomotiva ou uma metralhadora automática de opiniões desinteressantes.
Importa mais, muito mais, a real intenção por trás da fala.
"Eu quero que o outro pense diferente?"


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cuidado! Em algum lugar o amor se perde.

Aconteceu com o amigo de um amigo meu...
Há! Mentira. Foi comigo mesmo.

Houve um tempo, não muito distante, em que eu flutuava. Em que a vida não poderia ser mais intensa. Emoções que não cabiam, aprendizados constantes e insights difíceis de explicar com meu tão pouco extenso vocabulário.

Nesse tempo eu viajava de bike veia e pegava carona na boleia, eu carregava a casa numa mochila e transitava por lares acolhedores, eu multiplicava novos amigos e colecionava cidades visitadas, tomava banho no rio e almoçava com as crianças. Dormia mal, acordava bem, por vezes assustado, por vezes confuso, e noutras tantas, com uma forte sensação de que, por muito tempo até então, me deixei enganar pelo que me apresentaram como "uma vida bem vivida".
Eu amava demais! Tudo era novo. Descobrir era excitante. Explorar era o sentido de seguir vivendo.
Não tinha um rumo definido e mesmo assim.. eu só ia...

Assim foi por um agradável período de tempo. Sabe quando deixou de ser tão agradável? Quando não dava mais pra fugir da realidade. Em algum momento a vida me chamou de volta e disse: "Tem mais coisa ai."

O desconforto de não ter pra onde voltar, a carência do colo de mãe e da escuta empática dos amigos, me colocavam em um lugar de vazio. Os questionamentos foram ficando mais fortes. A necessidade de colocar a mão na terra e ver as sementes crescer, de me sentir integrado e produzindo algo coerente com meus valores me deixava inquieto. Eu precisava contribuir com algo relevante para comunidade da vida que queria sustentar. Desconstruir a cultura do medo que desejo ver morrer.

Depois de me acostumar com o ser que explora e deixa a vida levar despreocupadamente, bateu uma vontade de criar raízes, assumir desafios, se fazer útil e funcional, ajudar com soluções práticas e se responsabilizar pelo efeito das próprias ações. Enfrentar o rigoroso inverno a fim de assistir o florescer da primavera.

Comecei então, aos trancos e barrancos, tentar entender o que me faltava. Finquei a bandeira da liberdade numa cidadela pacata e disse "vou ficar aqui por um bom tempo e vou fazer diferente". Depois de muito ajudar em projetos de amigos sentia finalmente aquele cansaço produtivo. Minha energia foi gasta com algo relevante. Mas ainda estava desalinhado com alguns dos meus valores. Estava vivendo o sonho de outras pessoas. Inocentemente culpava a "energia da cidade" que não era boa.

Escolho outra cidade então, pra revelar minha imaturidade de lidar com insatisfações. Novos projetos, novas pessoas. "Aqui sim, eu vou passar um bom tempo". Ledo engano. 4 meses depois uma profunda solidão e a saudade da família me fez voltar para minha cidade natal.
Usei o tempo para refletir, entender a ansiedade. Rever os amigos antigos. Até embarcar na próxima aventura. Outra cidadezinha. Já conhecida. "Aqui eu vou construir minha casa e colher minha comida".
E dediquei de verdade. Estava produzindo, estava vendo acontecer. Algumas novas parcerias, outras novas amizades. Embora incomparavelmente menos intensas do que na época em que só fluía por ai, sem compromissos.

Até que uma guria de olhar atento e uma risada acalentadora me desorientou. Ela surgiu assim, de um passado não muito distante com um sorriso bobo e uma fragilidade de quem precisava acreditar mais na magia da vida.
Num acordo não expresso seguimos dia após dia complementando um a necessidade do outro e aprendendo mais e mais sobre si mesmos.
Eu a tirei pra dançar e sussurrei em seu ouvido "se joga!". E ela confiou em mim. Pergunte a ela. Ta dançando sozinha até agora. E pra mim como foi?! Ela me trouxe o sentido que faltava para querer parar quieto. Agora penso mais em comunidade, em família, em trabalho, em segurança. Não aquela ideia falsa como o "mito" da tão sonhada aposentadoria, mas a real noção de que somos seres dependentes de alguns recursos naturais básicos para sobreviver. E mais alguns outros para tornar a sobrevivência mais confortável.

Recentemente entrei numa crise. Claro, nem tudo são flores. A vida é isso ai.
Em algum lugar o amor pela vida se perdeu e eu não percebi.
Fui esquecendo aquele ser amante que se interessava por toda e qualquer pessoa. Que celebrava a beleza de um novo encontro. Que valorizava acima de tudo o tempo de uma boa prosa. Que se permitia escutar e aprender com o outro. Que era admirado pela leveza do olhar e fala tranquila.

Não percebi quando as histórias dos outros deixaram de atrair meu interesse. Enquanto ouvia um discurso, só me vinha à mente minha agenda, meus afazeres domésticos, as plantas do quintal tantos dias sem água, meu cliente impaciente e mais etc. falsamente urgentes.
Eu tampouco me preocupava em disfarçar. Minha ausência no diálogo era revelada pelo meu constrangimento e olhar inquieto.
Estava deixando trabalho, compromissos e responsabilidades tomarem as rédeas da minha vida pela primeira vez depois de abandonar esse tipo de comportamento.
Estava inconscientemente me deixando levar pelo antigo mundo que outrora reneguei com tanta veemência.

Essa crise durou poucos meses. Vivi de perto, por um lapso de tempo, o Ronny do qual fugi enquanto viajava sem rumo. Aquele que tinha medo de me tornar. Posso dizer que por causa da tal Guria tive a clareza de perceber o caminho que estava tomando. Consegui me colocar como expectador de mim mesmo e aprender com todas essas polaridades.
Indas e vinda, que não foram poucas me trazem uma noção do que é realmente importante nas relações humanas. Percebo uma harmonia entre o cara responsável que inspira confiança e o cara amante da vida livre leve e solta.

É preciso estar atento e não deixar se descuidar, se não, o amor pela vida se perde.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mais sobre relações abertas

Então a gente se depara com um conflito. Daqueles que nossas ações podem estimular fortes sensações no outro. Ciumes, é como chamam normalmente. Mas eu não sou normal. Chamo de outra coisa. Prefiro “medo”. Aquele que só da as caras quando defrontamos o desconhecido. Aconteceu comigo e com uma namoradinha linda que eu tenho.

Surgiu, assim meio que do nada, uma menina amarela. Daquelas que atrai olhares na rua. E começamos a conviver o dia-a-dia. Senti que tinha coisa ali. Mexeu algo aqui dentro. Fui observando, fui entendendo, curioso, atraído, até compartilhar com a namorada.

Vem a mente aquele papo de “amor livre”. Papo furado. Vem conversas, vem choros, vem lembranças, vem a pergunta: “Isso que eu to sentindo, de onde vem?”. E desvendando juntos esses mistérios, desconstruindo muros de paradigmas, vamos caminhando para um campo de duvidas e incertezas comum aos dois.

Nesse campo nos encontramos despidos, quase nus de influencias. Querendo cada vez mais despir-nos e experimentar um novo e encantador encontro. Construir um novo mundo. Por raras vezes conseguimos. Compreendemos, fazemos novos acordos e conseguimos dizer honestamente que estamos satisfeitos.

Assim se manifesta o companheirismo de quem decide viver uma vida junto, em comunidade. Que contempla o respeito, atenção, cuidado e empatia. Ser capaz de sentir o que outro sente. Entender o bom momento para ousar. Cuidar das experiencias, uma de cada vez. Não deixar que elas se misturem, que se confundam. Se ouvir e se respeitar em comunhão.

Foi assim, que muito recentemente, aprendi mais um pouco sobre relações abertas, ou seja, relações honestas. Onde se escuta de verdade e há espaço para dizer o que se pensa. Sigo satisfeito, com uma curiosidade que só aumenta ao me aprofundar em relação com o outro. O outro que eu amo e que aprendo a cuidar.


Mataram um cara na minha rua

Eu soube hoje pelos vizinhos. Uma briga de faca.

Um sentimento de derrota. Perceber dentro da vizinhança que me disponho a cuidar dia após dia, a cada “bom dia” com sorriso estampado no rosto, a cada meia horinha dispensada no portão para uma prosa rápida, um caso extremo que me encontra na contra-mão do caminho.

A morte de qualquer ser humano é de uma conseqüência imensurável na sociedade. Nunca é apenas a morte do indivíduo. É a morte de relacionamentos, companheirismo, apoio e da integridade dos ambientes familiar e comunitário.

Me sinto impotente diante da situação. Mataram um cara na minha rua e não há nada que eu possa fazer. Mataram o sorriso das crianças. Mataram a cantoria da dona de casa. Confiar, cooperar, compartilhar e contribuir, se tornam palavras mais distantes da realidade.

O que me resta é o desejo que, das cinzas dessa amarga derrota, renasça o vigor para manifestar a vida que há na vida. Que me venha aquela vontade de gritar: confiem, cooperem, compartilhem e contribuam. Sim, nós podemos. Mais do que isso.. nós precisamos.

Mataram um cara na minha rua e o que não falta é trabalho a ser feito agora. Reunir os vizinhos. Falar sobre o assunto. Trazer as crianças pra dentro de casa. Reafirmar que não aceitamos isso. Precisamos deixar claro pra nossa comunidade que tirar a vida de outrem é um comportamento inaceitável e intolerável.

Mataram um cara na minha rua. E esse é só o sintoma da doença que me proponho a curar a um ínfimo passo de cada vez. Quero ouvir a Dona voltar a cantar, quero ver as crianças voltarem a sorrir.

domingo, 8 de maio de 2016

Estamos Voltando

Chegamos na cidade!
Então exploramos seus recursos naturais, cobrimos cada metro quadrado de grama com placas de concreto e cercamos as árvores em canteiros para que não fujam. Expulsamos a vida silvestre, adotamos pets para saciar nossa carência e começamos a morar empilhados até o limite do constrangimento de um elevador.

É com muito prazer e otimismo que lhes digo que estamos voltando. Ainda de forma tímida e desconcertada, regada de incertezas e insegurança, com as pernas bambas e a companhia do medo de se excluir do convívio social. Mas estamos voltando.

Falamos um tanto, especulamos outro tanto ainda maior. “Pra onde vamos?”, “O que tem que ter?”, “E a familia?”, “Onde vou comprar meu kinder ovo?”. Incertos se seria certo deixar toda a bagagem pesada que acumulamos durante toda nossa frustrada vida para trás. Mas estamos voltando.

Mas para onde estamos voltando? Pro campo?! Não!

Estamos voltando para um pequeno espaço habitacional onde ainda conseguimos experimentar um minimo de humanidade, um vestigio de compaixão. E sim, há uma preferencia pelo afastamento da cidade grande. Queremos começar de novo, queremos partir de um lugar onde estamos mais integrados com a nossa natureza. Queremos levar a tecnologia com a gente, mas podemos deixar o peso dos paradigmas para trás.

Conseguimos a façanha de nos excluir do convívio social cercados de gente por todos os lados. Agora é hora de resgatar nossa essência humana reestruturando uma comunidade que respeita a vida. Estamos voltando e queremos morar juntos. E queremos compartilhar, emprestar, e apreciar demoradas conversas na esquina da padaria do seu Manoel com a loja de bordados da tia Luzia.

Ainda estamos ensaiando. Os mais temorosos até falam bastante, mas ainda hesitam em se mover. Os mais eufóricos saem na frente aos trancos e barrancos, construindo templos e criando instituições. Os mais pacientes começam a experimentar uma vidinha mais tranquila. Com mais tempo pros amigos. Colocando a mão na terra e dizendo bom dia pros vizinhos. Um pão feito por mãos, a criançada solta na praça e muito trabalho em mutirão. Como dizia Claudio Oliver “O futuro, se houver, está no passado.”

sexta-feira, 4 de março de 2016

Facebook em guerra

Sabe..
é dificil pra mim.
Passo por aqui, leio umas coisas, canso, volto, insisto mais um pouco e me vejo cansado. Eu ainda busco esperançosamente por conversas honestas, por debates políticos apurando fatos, amadurecendo ideias, mas é difícil. É ruim. É pesado. É um pesadelo!

Os discursos: um poço sem fundo de certezas. Os comentários: uma ode à violência. Um cenário de guerra declarada. Frases soltas banhadas pela falta de respeito à pessoa. Não se pode achar, não se pode ter dúvidas. Perguntas quase inexistem.

Os valores que temos em comum, que compartilhamos, são atropelados por ideologias cegas. Tais valores se perdem num campo de batalha com opiniões atiradas à esmo. Gente que se cala, que se inibe. Que se abstem de falar por sentir a repressão dos Deuses da razão. Por não mais acreditar em uma conversa produtiva. Aqui vos fala um que muitas vezes preferiu o silêncio do que entrar nesse cenário confuso e conflituoso.

Temos uma crise generalizada em todos os setores da esfera federal e não temos maturidade para lidar com isso. É ridículo se expressar sobre vaias e acusações. Vc já sabe quem vai gostar e quem não vai. Mais do que nunca tem espaço, tem liberdade, ao mesmo tempo que tem o cerceamento do espaço e da liberdade por todos os lados. Não se emite uma opinião sem ser desqualificado como pessoa. E os grupos se separam em dois lados quem curtiu e quem não curtiu.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Ser bom ta na moda e todo mundo quer

Vivemos a cultura do ter, dizem.
Não acho não. Acho que vivemos na cultura do ser mesmo.
Se não somos, estamos apontando alguém que é.
É a cultura da rotulação, coisificação, pré-definição, preconceito.

Nossa sociedade entende o mundo como dual. Ou é bom ou é ruim, ou é certo ou é errado, ou é feio ou é bonito, e assim vai. A tendencia a enquadrar a pessoa dentro de um adjetivo, cheio de juízo de valor, é grande. Não estou entrando naquela ideia abstrata de que tudo é relativo. A coisa é mais prática mesmo. Digo que não estamos acostumados a observar e analisar os fatos, menos ainda experimentar novas formas de linguagem.

Acontece que tais juízos de valor acabam dificultando e muito o processo de entendimento na comunicação quando fazemos alguma crítica ou elogio.
Se eu disser que uma pessoa é inteligente, é bem visto. Se eu disser que uma pessoa é burra não é bem visto. Tem alguma coisa estranha ai. O juízo de valor é o mesmo. E não existe um, sem a existência do outro.

Ninguém é inteligente ou burro do nada. Algo precisa ser feito para merecer esse titulo. Em situação hipotética, o que eu quis dizer com inteligente era: "você organizou as ferramentas de uma forma que me poupou tempo, fiquei feliz com isso". Em situação contrária seria: "você não organizou as ferramentas nas posições originais e demandou mais tempo para encontra-las, fiquei com raiva por isso".
Quando digo que a pessoa é burra ou inteligente, mesmo contextualizado, a mensagem não fica clara. Não digo que seja impossível entender. E também se pode perguntar o que a pessoa quis dizer. O que estou dizendo é que aumentam as chances de ruido na comunicação e por nosso já condicionado comportamento social, há uma tendencia de entrar em estado defensivo: "sou nada" ou "burro é você".

Portanto fazer uma critica ou um elogio, dá no mesmo. Ambos dão validade a uma forma de se expressar pouco reveladora, afastada da realidade que se sente, que se quer dizer com aquilo.

Digo isso porque não é comum esse entendimento. Parece que ao ponto que chamar de burro é ruim, pois deprecia, chamar de inteligente é bom, pois enaltece. Acontece que em ambas as situações estamos avaliando, remexendo o ego, criando diálogos que estimulam uma competição social. Fica o burro contra o inteligente. E ninguém quer ser burro. Mas inteligente pode, todo mundo quer.

Aprendi a ouvir criticas e buscar o que vem por trás delas. Entender onde o outro me reconheceu ali. O que é burro pra ele, o que é uma atitude burra pra ele, o que eu fiz que estimulou essa reação. E ai seja burro ou inteligente, o trabalho de questionamento é o mesmo.

Então se ser burro, feio, chato e bobo, não é legal, ser inteligente, bonito, descolado e carismático, tampouco. Vale o mesmo para seres de pouca luz ou seres iluminados.

As vezes sinto vergonha da precariedade do nosso vocabulário para expressão emocional. Mais ainda da nossa submissão à um vocabulário pouco esclarecedor.

Proponho dois pontos chaves para essa reflexão. Ou a gente trabalha melhor esse vocabulário pra se fazer entender sem juízos de valor no meio da fala, ou a gente se expressa sem tanta preocupação e começa a se esforçar pra entender o que o outro quis dizer. Sem a bagagem social pejorativa ou glorificante que a palavra traz consigo. Se relacionar é difícil, cambada! To tentando um pouco dos dois. Vamos se esforçar! Me ajuda ai.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Vou ali visitar outro mundo e já volto

Assim começou uma viagem que seria a fluidez da vida experimentada na prática. Dei as mãos ao meu amor, pegamos um carango emprestado e partimos meio que sem propósito, com um meio propósito de buscar lugares acolhedores onde pudêssemos passar um tempo da vida se experimentando em relações despropositadamente.

Fomos ali mais adiante, fizemos favores, gastamos um tempo e alguma energia, com prazer de estar sendo útil  para outros e uma descontraída capacidade de tornar o caminho mais agradável. Um almoço de mãe, requentado por mãos, ajudam a gastar menos dindin. Um banho de piscina ajudam a revigorar as energias e adentramos na carroça em busca do tal propósito inesperado.

Quando menos se espera é que o tal inesperado bate à porta. Um lugar aconchegante que passa e encanta. "Voltamos aqui mais tarde". Seguimos viagem, olhando atentos. Anúncios nas padarias e esquinas, bate-papos rápidos que indicam e sugerem uma informação ou outra mais relevante. Entre gentis Donas de esquinas surge a figura de Dona Cristina, que prontamente embarca no carango, como uma guia turística contratada, e solidariamente nos apresenta os imóveis para locação de que tem conhecimento. Vamos na casa tal, passamos na outra casa, um convite para o café e até mais tarde. Contatos guardados para ligar depois. Sacra Familia do Tinguá foi a cidade.

Mais abaixo da montanha Paulo de Frontin. Já é noite. Um tal Fabrício ofereceu no facebook: "dorme lá em casa, a chave ta embaixo do tapete". Falamos com Richard, que não só nos levou até espaçosa casa do amigo, como nos mostrou toda a cidade e o principal ponto de encontro da comunidade. Cansados, dormimos, acordamos e fomos ao tal ponto, ve-lo à luz do dia. Um grande e limpo lago com uma bela estrutura para encontros dominicais, piquenique e recreação infantil. Refrescamo-nos, claro, e voltamos à cidade com a missão de entregar as chaves de volta pro Richard.

Não havia um Richard acordado na casa onde batemos. Culpa, talvez, da entusiasmada noite anterior. Em contra partida havia um pai e uma mãe pra lá de hospitaleiros e um convite para o café. O que seria uma simples entrega de chaves se tornou um agradável bate-papo sobre vida, histórias engraçadas e filosofia de viver. Agradecemos aquele tempo que passamos com seu Ranulpho e dona Rosa e partimos deixando um abacaxi, literalmente, de presente para a próxima ceia.

"Vamos lá naquele lugar aconchegante que encanta?" E fomos. Vale das Videiras o destino, e nosso segundo dia de viagem. Foi difícil chegar sem parar em nenhum lugar curioso, mas a fome falava mais alto e combinamos de almoçar no Vale. Horas de estrada e um almoço caseiro, num cantinho bem em conta, depois de recusar a gourmetização do restaurante da praça central.
Domingo. Tudo fechado. Dia de cachoeira. Que assim seja.

Saindo deliciados da água gelada uma plaquinha atraente: "vendo casa com riacho no fundo". Paramos pra perguntar e quem respondeu foi Timba. Um ser humano que dispensa comentários quando o assunto é gentileza. Na figura de "corretor da roça" (aquele que mora por ali e mostra a casa pro amigo que teve que sair por uns tempos), nos mostrou toda a casa e ainda o tal riacho, que nada mais era do que um lindo poço de um lado e uma forte queda d'água do outro. R$ 200.000,00! "Vamo comprar essa porra!" Foi nosso primeiro impulso irracional. Perguntamos se ele não conhecia algo pra alugar e ele lembrou de Severino.

Timba se tornou membro da viagem. Subiu e desceu o vale com a gente nos apresentando sua família e todo o resto por onde passávamos. Fomos até a casa de Severino. Achamos graça do encontro dos dois amigos. Fofos! E começamos os acordos com sotaques misturados do Brasil brasileiro. "Vocês vão lá ver e me dizem depois.", disse o Cearense. Pegamos a chave da casa recém reformada do Severino e fomos conhece-la com Timba. Uma graça, um encanto. Que vista! Tem internet?! Maravilha! Conhecemos os vizinhos e voltamos pra falar com Severino que deu seu preço.

Nossa resposta:
- Calma! Vamos continuar procurando. A gente volta aqui antes que essa viagem acabe.
Com autorização e uma certa estranheza de Severino, dormimos acampados ao lado da casinha para sentir a noite e o dia. Parecia um pedaço de chão caído do céu. Um tibum na cachu pra despertar. Fomos até a casa de Timba para o desjejum. No portão, a surpresa de ver seu pai , perto de seus 90 anos, saindo para pegar um onibus para sua consulta no médico. Inveja do povo da roça. Conversas gostosas, interação com crianças e filhotes, nos conhecemos ainda mais. Ganhamos limão de presente. Despedimo-nos. "Voltamos amanhã."

No caminho descendo a serra, ali em Paty o incrível trabalho de Anderson, produtor de tomates cereja, sem veneno. Nos mostrou toda a produção e operação da estufa. Um kilo era o máximo que podíamos levar. Tudo vendido pra industria "parceira" que fornece as sementes. Que seja. Um kilo de tomates e mais algumas hortaliças e seguimos para região de Sacra Familia, porque agora a coisa ficou séria. Estávamos no terceiro dia de viagem e já tinhamos quase fechado um contrato de aluguel. Tinhamos que, por obrigação, comparar com outros lugares. Mas era tarde demais. Aquele chalé tinha nos fascinado. Todas as condições básicas, inacreditavelmente, saciavam nossas necessidades. Procuramos sem muito estimulo e com igual sucesso. "Ta bom! Vamos achar um lugar pra dormir."

"Aqui é o Vipassana", apontei à Marina (meu amor), sem saber que um pouco mais adiante, num sitio bem rustico, Alfred colocava bastante energia numa bela iniciativa. Foi do couchsurfing que veio o contato. Uma hora antes dali, tentamos contato para saber de um cantinho pra cair e felizmente a resposta foi positiva.

Eliana, cansada, nos recebeu e foi dormir. Mariana, apareceu na cozinha e trocou meia duzia de palavras sobre dieta crudivora. Um banho depois, voltamos pra cozinha. Sentados à mesa foi chegado a hora do rodizio de conversas. Primeiro com Eliane que contou sobre sua vida, seus valores (liberdade e respeito) e sua tentativa de compreender as escolhas de seu filho. Mais tarde Alfred chegou para compartilhar a comida que fizemos e nos contar um pouco das suas ideias pro lugar. Nada mirabolante, nada dogmático. Coisa simples. Do jeito que a gente gosta. Construir, morar, receber amigos e compartilhar momentos e a fazeres domésticos. Mindo foi o próximo à sentar-se à mesa. Vindo de Lumiar e um novo projeto que envolve um moto-home, nos contou um pouco do seu momento. Histórias e pessoas fascinantes. Quando já estávamos prestes a sair para o ninho, Eliana acorda e nos surpreende com sua simpatia e mais historias interessantes.

Dormimos acampados, para evitar os mosquitos do quarto. No dia seguinte foi só tomar um café rápido com Mindo e Alfred pois há muito trabalho a se fazer. Uma paradinha rápida pra conhecer o moto-home por dentro e ganhar um lindo colar artesanal de presente do Mindo.
Empacotamos tudo e partimos para dar a resposta final ao Severino. Sim, já havíamos nos decidido. Não tinha porque não.
Mais uma parada para comprar os tomates do Anderson. E chegamos ao nosso futuro quintal.

Severino trabalhando na casa com promessas de deixa-la impecável. Uma broa compartilhada, abraços ainda meio duros. "Nos encontramos antes do fim do mês pra fechar tudo bonitinho."
E assim ficou combinado.
Mais uma parada no caminho para um banho de piscina. Conversas com vizinhos. Uma aguinha pra enganar que o carro tava muito sujo e voltamos à monotonia dos grandes centros urbanos numa terça-feira pré-carnaval após a hora do rush.

Me assusta e encanta a gentileza e pró atividade das pessoas recém conhecidas ao se colocarem a disposição pro que precisássemos. Isso não é um fenômeno comum aos grandes centros urbanos. Para isso é preciso ter tempo e confiança. Qualidades comuns à um ritmo de vida mais lento. Um outro mundo possível, já existente.
A sensação que fica é de que não é necessário percorrer grandes distancias para conhecer novos mundos e culturas. Eles se apresentam bem pertinho de nós. Basta se permitir ao desconhecido, e dedicar tempo ao imprevisível. Sair sem destino, não significa ser irresponsável, mas sim confiar na vida e gozar da liberdade que temos para conhecer novos mundos através de impensáveis novos amigos.








quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Migração para a Amizade

Texto de Augusto de Franco*
"Mas o amigo - aquele que amamos incondicionalmente, sem instrumentalizá-lo para manter ou alcançar qualquer objetivos - é o que nos salva, é aquilo que escapa de propriamente humano nisso tudo (sim, em todo o restante repetimos padrões da sociedade hierárquica).

Agora imaginem como seria fantástico termos amigos não privados, não escolhidos seletivamente, mas escorridos ao acaso, do fluxo interativo da convivência social, para o nosso colo. Amigos nossos que fossem também amigos entre si, mas sem nunca conformar um grupo proprietário e fechado. Amigos que não fossem uma espécie de recreio ou respiro de um trabalho vivido como pena.

E que o nosso trabalho fosse realizado como amizade: o trabalhar como se comprazer na convivência com os amigos, já pensaram? E que nossos namorados e namoradas, esposos e esposas, filhos e pais fossem também e primeiramente nossos amigos e amigos de nossos amigos. E que aquilo que chamamos de nossa carreira fosse nada mais do que uma trajetória de experiências pessoais, intransferíveis e únicas para cada um de nós, porém compartilhadas - e convividas - com nossos amigos. Amigos sem os quais não poderíamos saber quem somos. Para mim este é o sentido da migração que poderemos fazer, se quisermos, de mundos sociais (ou antissociais) povoados por pessoas privadas para clusters de convivência cooperativa configurados por pessoas comuns."

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Feliz revolva às aulas

Texto de Carla Ferro*

"Na volta às aulas as papelarias estão lotadas. Mães com listas de compras em uma mão e filhos puxando pela outra a mostrar a nova mochila do novo personagem que passa na nova TV lá de casa. O lápis tem que ser sextavado para o pequeno ter mais facilidade em manuseá-lo, a professora explicou na reunião dos pais. 36 cores para mais imaginação. É preciso escolher bem as etiquetas — cabe o nome inteiro ou vamos ter que abreviar? Corre-se abrir espaço no armário para os novos cadernos, um por matéria, o de desenho sem pauta e o quadriculado para a matemática.

Cada criança vai carregar sua mochila com quilos de cadernos e livros e lápis e tal. Tudo bem identificado com seu nome e classe. A classe onde ela vai entrar quando ouvir o sinal, onde vai sentar-se e prestar atenção por 50 minutos, até o próximo sinal, e então por mais 50, copiando em outro caderno outras palavras e números. Quando se virar para falar com o amigo, a professora vai provavelmente pedir atenção. Na segunda vez vai estar mais brava. Tem que aprender a se concentrar no que a professora está ensinando. E provar no fim do bimestre que conseguiu, ou terá nota baixa e ficará de recuperação. Talvez tenha que repetir o ano, ficará atrasada.

A caixa de 36 lápis vai voltar com 34, a mãe vai explicar que é preciso aprender a ter responsabilidade com as suas coisas. Seus lápis, seu caderno,sua lição.

De volta à escola, não fez toda a lição. Nas marcas de borracha a professora enxerga o desleixo, não a dificuldade. E ainda quer conversar durante a aula de biologia?! Não importa se pela janela se viu um casal de joaninhas, que estranho, uma em cima da outra! Na hora do recreio o amigo não vai acreditar.

Dia de prova, dor de barriga, e se for pego pedindo cola? Quem prestou atenção aprendeu, é desonesto pedir ou oferecer ajuda. Na aula seguinte, a entrega das provas por ordem de nota. O coração dispara: as maiores notas primeiro, ou são as menores? Aparecem os melhores alunos, os médios, os mais fracos. A bronca dos pais, a reunião na escola.

Professores dizem e pais reconhecem, algumas crianças precisam de ajuda. Não conseguem acompanhar o ritmo (de quem?), não se concentram e não aprendem. Como aquele que teve que ser praticamente arrastado para a aula de ciências, e em vez de prestar atenção à explicação sobre os movimentos dos corpos, arranjou com os amigos um campeonato de petelecos em bolinhas de papel! Mexem-se o tempo todo, não param sentados na cadeira e às vezes são agressivos. Mas os pais não precisam se assustar, isso é muito comum, e felizmente há profissionais especializados. A escola pode indicar alguns de confiança. Ler a bula do remédio ajuda a continuar não se assustando caso apareçam os efeitos colaterais.

O importante é não desistir, sabemos como o mundo lá fora é cruel, competitivo, assustador. Preparar as crianças para esse mundo é a obrigação da escola e a prioridade dos pais.

É por isso que no ano passado o Brasil atingiu o segundo lugar no ranking dos maiores consumidores mundiais de metilfenidato para crianças. A droga é indicada “para estabilizar as crianças a partir de 6 anos com uma síndrome comportamental caracterizada por distractibilidade moderada a grave, hiperatividade, labilidade emocional e impulsividade.”"