sábado, 27 de abril de 2013

Brasil de Bicicleta

Após uma cicloviagem de 10 dias pela estrada desde botafogo (Rio de Janeiro) até Paraty me vejo em um novo momento da vida.

Saindo do Rio com 2 amigos, numa bike velha e apenas 50 reais comunitários no bolso, passei pelo que chamo de um novo salto quântico em matéria de aprendizado. Prainha, Grumari, Santa Cruz, Itacuruça, Muriqui, Ilha Grande, Mambucaba foram alguns dos lugares onde a magica aconteceu.

Na obrigatoriedade, proposital, de saciar as necessidades materiais mais básicas (alimento e abrigo) sem dinheiro, tivemos que nos virar interagindo, conhecendo pessoas, pedindo e trocando.
O primeiro obstaculo foi pedir. A ilusão de não ter o que oferecer diretamente me deu uma certa insegurança. Perguntava sempre sobre o alimento que sobrava (portanto contribuía com o que me parecia sustentável).

Com o tempo, percebi que ofereciam o que tinham a disposição e não só o que seria descartado, pois havia abundância. Ajudou o entendimento de que aquele alimento não havia proprietário. Tem a natureza como origem. Era mais um recurso disponível que alguém se apoderou em algum momento e inseriu num sistema de trocas (monetário) controlador e escasso.
Como não tenho o senso de propriedade e o que é meu é de todos (portanto nada é meu) ficou mais fácil o "pedir".

O ato de pedir deixou de existir, passou a ser um entendimento sobre os recursos do lugar e o quanto eu poderia usufruir daquilo sem prejuízo do meio. Dai veio a interação, o conhecer pessoas, o viver de forma espontânea, livre, natural, se comunicando, ouvindo e aprendendo. Dai a troca. Que não precisa ser igual. Nunca é. São desiguais em diferentes momentos. Não há como tangibilizar o valor de uma troca. Eu posso fazer algo útil pra você incondicionalmente, só porque eu quis, porque eu podia. E você fazer o mesmo por alguém  Assim ninguém perde. E se ninguém perde, todos ganham. A comunidade da vida ganha.

Assim foi sendo de cidade em cidade. Conhecendo a rotina das pessoas, suas casas, suas vidas. Ajudando nas tarefas do dia sempre que possível. Recebíamos com muita gratidão o que ofereciam. Aquele pequeno pedaço de mundo que se apropriaram: casa, comida, bens, para sobreviver num mundo competitivo. E quase sempre não há a percepção de que isso estimula a competição, muito comum até dentro de casa, com pais e irmãos.

O que é maravilhoso é que em todas, absolutamente todas as pessoas, se fazia presente um coração. Algo verdadeiramente humano, disposto a se mostrar.
Incomodava o que não fazia muito sentido. Um se obrigar a fazer mesmo sem querer. "Porque a vida é assim mesmo". Noções deturpadas de disciplina e responsabilidade pra justificar o que não agrada. Mas mesmo assim era possível ver a essência do ser nos olhos delas, sentir ao falarem abertamente sobre suas vidas.

Tudo isso só me faz pensar em quando foi que nos afastamos. Quando conviver juntos passou a ser insuportável e sacrificante?! Por que estamos tão desintegrados, não solidários, carentes, tímidos  retraídos  apegados, sem vontade de conhecer o novo, o diferente?! Por que manter a harmonia parece ser tão trabalhoso?!
Do que, de fato, não queremos abrir mão?!
Essas perguntas que me fazem caminhar em busca do que acredito.

Capitulo 1 - Mais do mesmo 16/04
Capitulo 2 - A barraca Navio 17/04
Capitulo 3 - O milagre do pão 17/04
Capitulo 6 - Tem que ir embora 19/04
Capitulo 8 - Despedida de Dois Rios 20/04
Capitulo 9 - Noite de musica 20/04
Capitulo 10 - Conhecendo a maravilhosa personalidade de Dudu 21/04
Capitulo 11 - Missão de Palmas 21/04
Capitulo 12 - Esperando o Nando 22/04
Capitulo 13 - Noite de interações e reflexões 22/04
Capitulo 14 - Nosso primeiro miojo 23/04
Capitulo 15 - Saudade! Pedal na estrada 24/04
Capitulo 16 - E agora, pra onde vamos? 25/04
Capitulo 17 - Dia de trabalho pesado 26/04

terça-feira, 9 de abril de 2013

Um dia incomum

texto de Fernando Furtado*

''A arte (por vezes trágica) do encontro não se cansa de me surpreender

Por que será que queremos sempre mais e mais da vida para nos sentirmos bem, quando a realização pode estar em um simples assalto de bicicleta?

Certo, essa frase inicial pode parecer muito incoerente, porém vem de um sentimento autêntico e eu só a escrevi dessa forma com um objetivo: estou afim de chamar a sua atenção para o fato de que ela realmente faz sentido! (Mas pra entender esse sentido você precisará dedicar alguns minutos do seu precioso tempo para ler duas páginas e meia de minhas reflexões. Sinta-se à vontade!)

Vou explicar: na noite passada fui acompanhar o amigo Ronny que precisava fazer umas coisas em Copacabana. Seria bom porque ambos tínhamos coisas pra conversar um com o outro e, além do mais, iríamos de bike pela ciclovia (o que torna qualquer passeio prazeroso).

Bom, ocorre que atravessar o túnel de Botafogo pra Copacabana de bike é sempre uma aventura (você nunca sabe o que vai encontrar antes, durante ou depois do túnel), e aliás, muitos deixam de fazê-lo por conta desse fator. Nesse sentido eu não temo nada, já que normalmente não sou o "público alvo" de assaltantes (quem dirá quando estou cabeludo e barbudo), mas ainda assim me equipo do mínimo possível para evitar "dar sorte ao azar".

Batata: bem na entrada do túnel, me deparei com um cara correndo à pé. Eu notei que ele estava um tanto esquisito/assustado quando passei por ele, então para me certificar de que o problema não era comigo, perguntei: "Tudo bem, véi?" Ele respondeu: "Mais ou menos. Os caras acabaram de levar minha bike e só não levaram minha mochila porque vocês se aproximavam". Eu falei: "Vixe... vou na frente e conversamos na saída do túnel", pois ele já estava correndo naquela direção mesmo... O Ronny vinha atrás do cara, então o quadro já tinha se configurado num verdadeiro resgate, com escolta e tudo. rs

Chegando ao outro lado do túnel, se aproximaram para conversar mais dois caras que vinham pedalando atrás e ainda um outro na contramão, mas que há pouco tempo tinha passado pelo túnel e ao ver uma roda e um burburinho se formando, ficou curioso pra saber se tinha rolado um assalto (já que por ter passado pelo túnel momentos antes, por pouco não foi ele que os caras abordaram).

História explicada (assalto com faca, uma arma branca que pode ocasionar danos graves, quiçá morte), conversamos e constatamos que àquela altura os caras já deviam estar longe e o que restava ali (uma vez que a "vítima" demonstrava estar "de boa") era o cara ir no carro da polícia do outro lado da rua ao menos pra narrar o ocorrido (que os caras já devem estar com os ouvidos calejados de tanto escutar, porém...) e dali decidirem o melhor a se fazer. E no final das contas recomendei ao cara: "O leite já está derramado, mas no atual momento em que esta cidade se encontra, te aconselharia a não passar mais nesse túnel vestido assim. É como pedir pra ser assaltado." (além de roupa social, até relógio chamativo o maluco usava). O cara respondeu que quase já tinha sido assaltado ali mesmo, em outra ocasião, andando de bermuda (pensei: "dependendo da bermuda...").

Senti que meu comentário final pareceu ter provocado especial incômodo no camarada que se aproximou por último (o que já havia passado pelo túnel momentos antes), afinal, ele estava com uma bike fodástica, amplamente equipada (até um iPhone compunha a bike do cara - nunca tinha visto isso antes), boné de marca... ou pra resumir, ele estava "equipado" de no mínimo R$2.000,00 (por baixo), e durante a narrativa do ocorrido, me chamou a atenção a fala dele quando o mesmo comentou: "Quando passei e vi os caras ali parados, até reduzi a velocidade pra ver qual ia ser, pois tô com essa lanterna aqui que dá choque e paraliza...". Não comentei nada, apesar de ter julgado que consistia numa ação arriscada e extremamente comprometedora (pra não dizer "burra"), devido ao grau elevadíssimo no índice de VDM (pra quem não conhece, trata-se do famoso "Vai Dá Merda").

Quando todo mundo se dispersou, continuamos nosso caminho eu e Ronny, mas o cara da "lanterna chocante surpresa" nos esperou para falar mais da revolta dele, tocando um pouco mais de terror ao relatar a forma como ele reagiria se estivesse no lugar da "vítima" (e achei também que ele tava querendo ver qual era a minha - preto sem camisa na hora do assalto -, pra quem sabe se certificar de que eu não era amigo dos assaltantes e daí testar sua lanterninha especial de justiceiro em mim. rs).

Eu, que não sei nunca a hora de ficar calado, vi logo uma brecha pra quebrar o pensamento do "playboy" egóico (preconceito detected) que, na minha leitura, estava interessado apenas em xingar ladrão e reclamar da má qualidade da segurança-pública e falei: "Cara, acredito que o debate é muito mais profundo, é social, e na minha opinião fazer justiça com as próprias mãos nessa hora só nos distancia do que deveria merecer real atenção. Não se pode seguir levando uma vida de ostentações, pois são estas que refletem uma realidade desigual assim". Pensei que com esse "pé na porta" seco eu iria desconcertá-lo e que a partir dali ele provavelmente iria embora contrariado, mas no entanto, para minha surpresa ele respondeu o seguinte: "Eu concordo, nasci e cresci na favela e sei que esse problema é só a ponta do iceberg e até busco agir através de causas sociais, pois inclusive já perdi vários amigos pro tráfico e isso me revolta, porém, você tem filhos?", engoli seco e respondi: "não", então ele continuou: "pois é, a questão é que já levei uma vida de pescador, muito mais simples, e ocorre que hoje eu tenho uma filha e a levo pra passear na garupa dessa bike e trabalho duro pra-" não pude me conter e interrompi: "que isso, cara, você tem uma filha? Então o teu pensamento tá realmente irracional, pois o tipo de solução reacionária que você está defendendo te deixa absurdamente vulnerável, sendo que, de cara, você já tem muito mais a perder do que a ganhar. Imagina tua filha sem pai por causa de um assalto à bicicleta?", o que gerou nova concordância: "Sim, reconheço que meu ponto fraco ainda está na minha revolta..." e assim um novo prosseguimento interessante foi dado à conversa.

Dali pra frente, iniciou-se uma discussão profundamente filosófica e prática entre os três (eu, o Ronny e o camarada que se apresentou como Bruno) a respeito das problemáticas que, todos concordávamos, não eram apenas de ordem social (ou da "ordem de classe") - confessei pra ele mais tarde que só falei "problema social" porque pensei preconceituosamente que ele era um playboy alienado e ia entender melhor se eu falasse daquela forma -, mas envolviam questões de fato estruturais, que não se restringiam somente às esferas "sócio-econômicas/histórico-demográficas/político-educacionais-mercadológico-hierárquicas blá blá blá", mas estavam arraigados na própria psique humana e nos mais variados e sutis elementos formadores de seu caráter, ou de sua índole (elementos - como o cuidado, por exemplo - resultantes não só da interação da família nuclear e da sociedade para com o indivíduo, como também dele para com ele mesmo), de acordo com sua bagagem pregressa.

E não parou por aí, aos poucos fomos realizando que estávamos num momento e caminhos muito semelhantes de compreensão e busca na vida, busca essa que tinha como principal inquietação (ou força motivadora/motriz) a percepção da pobreza humana - no sentido da existência de uma força opressora/violenta, geradora de escassez, refletida em um cenário global de fome, miséria, revoltas, mortes e guerras sem fim -, e que tem o próprio homem como único responsável pela sua manutenção, através de uma dinâmica cíclica de sofrer/fazer sofrer, movido a buscas individualistas e indiferentes/mesquinhas.

Compartilhamos também ao longo da nossa conversa as ferramentas que havíamos descoberto e as quais estávamos utilizando em nossas buscas por uma maior coerência existencial de vida, sob um aspecto local de atuação, dentro deste contexto coletivo macro tão drástico no qual nos encontramos e que, de certa forma, ainda nos afetava - pois concordamos que o caminho da realização plena (leia-se: livre de frustrações causadoras de revolta, por exemplo) estava em conciliar o casamento daquilo que é percebido individual e internamente como virtudes, permitindo que estas viessem a se manifestar livremente no meio externo em que se procura estar inserido, de maneira coerente e equânime, consistindo justamente isso (esta percepção e manifestação) no grande desafio existencial do Ser (ou de ser, simplesmente) -, e, para nossa surpresa, até a linguagem que utilizávamos naquela ocasião era semelhante, principalmente quando referente a como estávamos de fato já emponderando-nos, criando e praticando as condições materiais (falamos de conectividade, buscas de autonomia de subsistência, compartilhamento, redes abertas e distribuídas, auto-gestão, livre-aprendizagem, permacultura, bioconstrução e as experiências recentes com todos estes elementos na Kaverna Mountain) e emocionais (cada um ocupado em manter contato constante com o seu próprio centro, para manutenção deste equilíbrio interno/externo) que nos possibilitavam tudo isso, inclusive aquela nossa conversa ali, parados na ciclovia, numa segunda-feira à noite, sem preocupação com a hora.

Em determinado momento ele afirmou que eu e Ronny estávamos alguns passos na frente dele. Respondi que o único passo que nos separava dizia respeito a buscar as soluções dependendo o mínimo possível dos subsídios e do funcionamento de todo um sistema que concordávamos estar estruturalmente fadado ao colapso e que para isso contávamos com a conectividade e as tecnologias de redes abertas ao nosso favor. Concordamos unanimemente que as soluções colaborativas independentes estavam se disseminando muito rapidamente, pois era uma questão de novas janelas de possibilidades serem naturalmente abertas (a exemplo daquele encontro) e partir dali girarmos nossas chaves de ignição ao nosso próprio tempo, fazendo enfim a ruptura com os "pontos fracos" que nos retém ainda reféns de nós mesmos.

No final, estávamos todos fascinados (quase extasiados) por termos aprendido TANTO uns com os outros e trocado informações e sentimentos tão profundos e portanto de enorme significância, dentro de um relativo curto espaço de tempo, desde o momento que nos conhecemos até aquele aprofundamento acerca das coisas da vida, a partir de um encontro absolutamente adverso, mostrando-nos que a percepção de realização na vida pode se dar inclusive a partir do assalto de uma bicicleta.''

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O que é o sucesso?

A gente vive em busca do sucesso, mas o que é o sucesso, se não o experimentar de coisas diferentes que nos trouxe um deleite?! Não é o sucesso que nos traz a satisfação e sim a busca do novo, do diferente, da coisa ainda não vivida. Experimentar, se permitir, largar as amarras e se enfiar no mundo, viver intensamente, o agora, o momento. Engatar um ''que se foda'' e pensar ''eu sou livre e posso fazer o que eu quiser''. Soltar as asas e voar até o infinito, ou ficar parado observando a infinidade do céu com a certeza que se tem asas para ultrapassar quaisquer barreiras. A beleza está no que não conhecemos, é lá que está o sucesso. Buscar a satisfação no conhecido é se prender ao passado, é não viver, é deixar o tempo passar sem perceber o tempo passando. Vida é movimento. Acompanhe o movimento da vida. Dance!