sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O futuro, se houver, está no passado

texto de Claudio Oliver*

''No passado, vivemos muito tempo. Isso gerou um valor, comum a várias culturas: a sabedoria. Tínhamos a sociedade da sabedoria, acumulada e enraizada em uma diversidade cultural e uma paleta de cores incrível... e usualmente bem equilibrada ao seu entorno. No paralelo, impérios e sistemas subiram, e caíram, tentaram crescer, e morreram.

Até que nos últimos quinhentos anos achamos o caminho para abandonar a uma só vez a sabedoria e a espiritualidade. Ficamos espertos e subimos na árvore do conhecimento. A sociedade do conhecimento cresceu e hegemonizou o império. Fizemos o que Francis Bacon sugeriu: torturamos a mãe natureza até que ela entregasse seus segredos. Criamos a sociedade do conhecimento.

Lá pelo meio do século XX, o conhecimento nos tonteou e passamos a simplesmente querer saber fazer, e criamos a sociedade do Know How (se falava tanto nisso nos anos 70...). Depois, descemos mais um degrau, e nos inundamos de internet, mídias e meios.... criamos uma sociedade de informações, que nem se quer se articulam, mas que ocupam toda nossa mente.

E nesse século XXI, de tanta informação, emburrecemos, adoramos gladiadores em seus ringues de galo de briga, ouvimos coisas horrendas a que chamamos música, vemos TV, e sabemos mais sobre produtos que sobre a vida. Esvaziamos nossa casa, para ficar 12 horas por dia trabalhando, para ter dinheiro, para consumir, e cansados, nos distraímos em uma estupidificada sociedade do entretenimento. E achamos, que entretendo crianças, informando jovens, inflando nosso conhecimento teremos a alegria, que só os sábios serenamente sabiam ter... o futuro, se houver, está no passado.''

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Deseduque seu filho

O mundo está de pernas pro ar. Toda a estrutura projetada pelos grandes gênios já vingou e já chegou o ao fracasso. Acredito, hoje, que nossa liberdade está vinculada com a percepção do momento que estamos vivendo e a capacidade de fazer diferente, de buscar o prazer, independente de dogmas e tradições, de viver de uma certa forma, subversivamente. Quem sabe uma das portas para felicidade esteja na percepção do quanto fomos manipulados através da linguagem, do comportamento, da educação.

Educar que é um palavra tão autoritária se analisada etimologicamente: induzir, conduzir.. e nesse sentido transformar alguém em algo que possa servir aos interesses de outrem. E assim fomos educados durante toda a vida. Sem passar lentamente por cada umas das fases, sem dar atenção ao corpo, aos sentimentos, à imaginação. Pulando etapas, como coisas sendo moldadas para um objetivo final. Aprendendo a obedecer e nunca a respeitar o outro. O bom comportamento ditado por uma instituição.

Cansei de correr, de objetivos, metas, resultados. Quero gozar dos prazeres mais simplórios, degustar tranquilamente uma doce fruta do pé, desfrutar de uma alimentação saudável, sentir a briza da tarde se esvaindo pelas encostas das montanhas, reparar o sol se por, acordar com ele nascendo, comer quando der fome, dormir quando der sono, que as responsabilidades sejam naturalmente impostas por mim mesmo, na medida do meu bem querer, do meu bel prazer.

Se eu pudesse dar um conselho, deseduque seu filho, seria ele. Deixe-o experimentar a liberdade de descobrir por si mesmo, de achar as próprias limitações, de entender a vida do próprio ponto de vista, de viver aprendendo e aprender vivendo, ter direito a dúvidas, ter acesso a perguntas, e não somente à respostas, que em sua maioria já estão prontas, comprovadas e cheias de certeza. Crie seu filho, isso sim, com atenção, com respeito, com amor, como um ser humano, como igual.

A sujeição a certos paradigmas nos faz acreditar que temos problemas, que somos tristes, feios, incapazes. Somos o que somos. A grande sacada é buscar o autoconhecimento, e isso é uma coisa bastante difícil quando estamos atrelados a tantos modelos e rótulos.

‎"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo de travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos"Fernando Pessoa

continua... eu acho


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Relato de uma vida kavernosa

Mais uma novidade. Agora Kaverna Mountain (lugar onde moro atualmente) é uma escola. Eita palavrinha pesada! Parando pra pensar um pouquinho, percebi o quanto estou aprendendo aqui. Isso se deve pelo fato de que estou aprendendo porque gosto de fazer. Só nos esforçamos pra aprender aquilo que não gostamos.

Aqui se aprende ecologia, botânica, engenharia, elétrica, arquitetura, filosofia, religião, economia e o que mais quiser aprender.
Realizando as atividades do dia-a-dia, que me propus a realizar, me dei conta de que se tivesse sido criado com essa liberdade de escolhas, podendo vivenciar e pôr em prática o que estão nos livros, não teria demorado 20 anos pra entender quem eu sou e quais são minhas habilidades.

Ficou fácil enxergar que se uma criança estivesse me acompanhando em cada atividade que realizo, com toda sua curiosidade pelo desconhecido, o aprendizado seria absorvido suavemente. Sem decoreba. Essa coisa só teórica é muito doida. A vida é pura prática.

Neruda já dizia ''Largue o livro e vá viver''. E ainda cito Thoreaut ''Digo que os estudantes não deveriam encenar a vida, ou simplesmente estuda-la, enquanto a sociedade os sustenta nessa dispendiosa brincadeira, mas seriamente vive-la do começo ao fim.''

Por isso revelo aos papais de plantão que confiam no doidão aqui: me proponho a dedicar parte do dia às crianças que quiserem passar um tempo estudando e vivenciando a vida no campo. Com total atenção, amor e paciência, tentando sempre estimula-las a desenvolver o discernimento pessoal de certo e errado, inofensivo e perigoso, bonito e feio.

Já teve amigo dizendo que não poderia vir por não ter com quem deixar o filho. Quanta besteira! É só chegar, se permitir e experimentar. Abraaaaaço.

    Obs.: Nina Costa Venuto já teve sua primeira aula de musica.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Varrendo o quintal de casa

Existe algo intrigante em algumas pessoas que querem fazer revolução.
Fazemos um pré julgamento do que seria um mundo melhor. Perfeito! Da pra imaginar um mundo bem mais saudável e socialmente igual. Alguns problemas estão bem visíveis, bem definidos. Fome, miséria, morticínio, lixo, poluição, corrupção... Sentimos perfeitamente o incomodo e a infelicidade que tais incovenientes geram no ser humano.

Então, como acabar com eles?! Ou melhor, como estamos tentando acabar com eles? É comum identificarmos um problema de escala mundial e em nossa pequeneza humana querer soluciona-lo. Esquecemos que anos e mais anos foram necessários pra se criar aquilo que hoje se tornou um problema grave. Diria que é mais fácil criarmos grandes expectativas e acabarmos frustrados do que de fato chegar a solução que agrade a todos. Será que vale a pena gastar tanta energia em causas grandes?! Que mechem com empresas, órgãos governamentais ou não, ou qualquer outra instituição?! Estamos atentos às pessoas por trás disso tudo?!

Muitos estão cientes de que não é tarefa facil encontrar solucões para problemas desse nível do dia pra noite. A maioria de nós está convencida de que precisamos dar o primeiro passo começando a fazer a nossa parte. Economizar água, buscar alimentos saudáveis, respeitar uns aos outros, reciclar o próprio lixo, etc. Mas estamos realmente fazendo a nossa parte? Damos atenção suficiente aos pequenos detalhes? Estamos de fato fazendo revolução? Ai identifico o que ouso chamar de contraditório.

Embora seja tudo uma questão de consciência, paz de espirito, é difícil olhar para o comportamento dos ''heróis da sociedade'' e ver o quão contraditório parece a forma com que fazem revolução. Vejo gente fazendo programas de reciclagem e não conseguem reciclar o próprio lixo, falam do plastico jogado em rios e mares, mas continuam levando suas sacolinhas do super mercado. Se fazem projetos super estruturais para favelas sem nem ao menos perguntar aos moradores locais a verdadeira necessidade deles (que muitas vezes é um remédio pra tratar o câncer da mãe ou o material escolar das crianças).

Quem constrói a sociedade não é o academicista. É, sim, aquele que planta, que levanta uma casa, que carrega saco nas costas. Muitas vezes que cozinha pra que os outros comam. Quem provê as necessidades básicas são aqueles que estão o tempo todo fazendo revolução. Estão contribuindo diretamente pra evolução da comunidade da vida. Em um momento da vida percebi que o cara que eu tentava ajudar lá na favela fazia muito mais pelo coletivo do que eu, com todo meu inútil conhecimento acadêmico.

Me soa estranho quando querem fazer algo grande e belo, mas não discernem o cabível a si próprio. Não sou contra uma atitude dessas, mas posso ver muita coisa a se fazer antes de partir para esse caminho. Não consigo enxergar uma busca sã pela felicidade quando se estabelece regras, compromissos ou vínculos que geram dependência. A relação deixa de ser humana, deixa de ser pessoa à pessoa, há interesses egoístas por trás e não mais uma preocupação de todos estarem sentindo prazer, satisfeitos emocionalmente com o trabalho a ser realizado.

Falar em mudar o mundo pode parecer meio arrogante e pretensioso. Não sabemos nem o que é melhor pra nós. Mal nos conhecemos, não entendemos o que sentimos, somos apegados, consumistas, impregnados de paradigmas. Por que quereremos mudar as coisas la fora? Não tem coisa pra se fazer internamente ainda? Ali pertinho, onde a gente mora. Vamos esquecer o mundo, a cidade, a vizinhança. Vamos olhar pra nossa casa, cheia de contrariedades. Nossa relação com pais, filhos e irmãos raramente está em pé de igualdade. Comummente está sendo competitiva, cheia de interesses e recompensas.

Pagamos impostos pra um governo corrupto, compramos alimentos intoxicados, desperdiçamos água, não sabemos o próprio consumo de luz, não usamos transportes alternativos, não cumprimentamos o porteiro, não conhecemos nosso vizinho, misturamos todo o lixo em uma unica sacola plastica, fazemos dinheiro em cima do trabalho dos outros, criamos expectativas em cima dos amigos, vivemos de fins de semana e feriados, não sabemos de onde vem grande parte de nossos aparelhos eletrônicos, usamos roupas confeccionadas por crianças em condições sub-humanas de trabalho, fora as coisas que ainda nem descobrimos.

É notável que se focarmos em alguma atividade sustentável especifica, e dizermos que ali esta nossa contribuição pro planeta, alguém esta fazendo todo o resto que estamos deixando de lado. É algo genuíno de se fazer, mas esquecer que há mais do que isso, é um tanto paradoxal. Aprendi a chegar em um lugar e deixa-lo no minimo no estado em que encontrei, se não, melhor. Dado que nossa ação sobre as coisas são passiveis de depreciação, acho legal buscar formas de renova-la ou deprecia-la o menos possível.

O mundo é apenas um reflexo dos seres que nele habitam, se ele não está equilibrado é provável que o homem esteja em desequilíbrio. Assim fica mais claro enxergar que nos cabe identificar onde estamos afetando negativamente o mundo e mudar nosso comportamento, nossa forma de se relacionar com ele e com quem nele habita.
Antes de identificar problemas e soluções sugiro que comecemos a cuidar da comunidade da vida. Re-estabelecer a harmonia entre os seres e se manter em equilíbrio com o privilegiado planeta que habitamos.

Todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar louça.

É dessa forma que interpreto a frase de Gandhi ''Seja a mudança que você quer para o mundo''. O bom exemplo é a melhor forma de mudar as coisas.

''Se fossemos restaurar o genero humano por meios genuinamente naturais, caberia, em primeiro lugar, sermos nós mesmos, simples e bons como a natureza. Não nos limitemos a ser provedores de pobres, mas tentar nos tornar a própria riqueza do mundo.''

Resposta do Claudio Oliver à pergunta da Juliana Chavantes

Juliana:
"A cada momento que tento trilhar meu caminho profissional, constato o quanto não devemos mais colocar os filhos na escola que temos hoje. Cláudio, tenho uma dúvida, quais são atividades cotidianas da Giovana? E como ficou a convivência com as outras crianças? Alguma já a destratou por estudar em casa?"

Claudio:
"atividades cotidianas: as que deveriam ser comuns a todos os seres humanos: ela aprende o tempo todo, vive a vida e se expõe à aventura de viver. Come com os pais todos os dias, estuda o que lhe causa curiosidade, investiga livros e faz perguntas, cozinha, brinca, via à piscina, ajuda nas tarefas (com as vassouras e ferramentas aprende fisica, com a cozinha quimica, cuidando dos animais e vendo-os passar pelos ciclos de nascimento, vida, reprodução e morte, e curtindo as plantas, plantando e colhendo , ela aprende biologia) tais coisas a leva aos livros disponíveis. Ouve os clássicos do samba e da musica clássica, conhece Brahms e conhece Pixinguinha, é fã da Marisa monte, do MAuricio de SOuza e do Saci. L„e C.S.Lewis e lê estórias de meninos indios, não mexe em computador, mas vê vídeos, não tem video game nem telas distrativas, mas vai ao Shopping com a mãe, brinca com as crianças da vizinhança, e com a Dona Maria de 81 anos, é amiga do Eduardo e da Débora de 30 anos. Pede licença, dá bom dia, solicita permissão para interromper a conversa, e entra em casa com os pés molhados e com o cabelo emaranhado. Vai ao balet classico e ao Kumon, mas vai na igreja e na feira também. Come Boeuf Bourguignon au chocolat (feito em casa) e feijão com arroz , farofa e ovo, come tortilhas e come batata doce. Fala inglês e fala caipirês. abre a poirrrta , mas adora cantar Samba da MArisa monte com sotaque carioca. Viaja, estuda brasil colônia quando viaja com os pais para o Rio de Janeiro para ver a família, visitando as igrejas do centro da cidade e aprende sobre os indigenas quando vai ao Mato Grosso ver o outro avô e a tia, indo a museus. Enquanto a mãe tá no congresso... vai com o pai fazer uma semana de circuito de todos os museus de São Paulo. Ninguém fica com ela, mas ela fica sempre com a gente. come na mesa, pisa na poça e toma banho de chuva. Estuda geografia indo aos lugares. E descobre relações humanas , experimentando comunidade. Estuda matemática, e estuda o livro secreto das meninas. Escreve bilhetes, e escreve o diário pessoal. Ri, ri muito. dança, pula , brinca e vai nas festas. E de noite, em casa, não tem TV a cabo, nem Tv ligada. Tem conversa com os pais, jogar um joguinho, contar o dia....e acima de TUDO: NÃO TEM CURRÍCULO. Mais ou menos isso.... espero ter respondido em parte. ufff... ficou longo. Destratar não destratou... mas que já morreu de inveja... isso já."