quinta-feira, 25 de junho de 2015

Experimentando Novas Formas de Vender

Embalado pelos discursos de "mas eu preciso de dinheiro pra sobreviver" e "não dá pra fazer tudo de graça" eu tento responder à confusão que foi gerada com um exemplo do que tenho feito:

Sabemos todos que temos necessidades básicas a serem supridas (ar, água, alimento, agasalho, abrigo). Ok! Tendo acesso à essas 5 coisas sobrevivemos.
O mais difícil hoje em dia é ter fácil acesso a alimento e abrigo. 
Sendo alimentação e moradia temas que me envolvem bastante, procurei explorar novas formas de fazer. Sobre moradia, muitos já estão cansados de saber dos movimentos de casas abertas e compartilhadas que andei co-criando por ai.

Agora tenho me permitido explorar o alimento relacional. E sou grato ao Thiago Lopes por ter me ajudado tanto nessa reflexão.
Alimento é um bem de necessidade primária e as pessoas já compram, com má qualidade, e ainda pagam caro por isso.
Logo, faz muito sentido a existência um alimento mais saudável que seja acessível às pessoas.
Faz tanto sentido que a busca por orgânicos e maior proximidade com o produtor rural tem aumentado exponencialmente nos últimos tempos.

E o que sustenta essa mudança é nada mais nada menos do que a boa, velha e quase extinta relação de confiança. A mesma que faz as pessoas compartilharem suas vidas em uma casa colaborativa. Nesse tipo de moradia estamos resgatando o ato de confiar. Sendo assim, queremos confiar que o outro terá um olhar atento pro meu espaço e meus limites no ambiente. Ao comprar comida, quero confiar que o outro está produzindo um alimento de qualidade e cobrando o necessário para suprir apenas sua necessidade financeira, e não ganhar em cima de mim com um produto cheio de propagandas e belas histórias.

Com esse pensamento, eu e outros tantos amigos, estamos começando a produzir terra boa para plantio e alimentos beneficiados do quintal com a intenção de atender a essa demanda de primeira necessidade com maior qualidade e um preço mais acessível.

Ainda que não esteja muito claro, percebo uma tendencia à mudança das marcas, nomes e selos gourmets, para algo bem mais intimo, mais acolhedor, mais integrativo e mais relacional, nos aproximando da humanidade existente entre produtor e consumidor.

Em alguns lugares tem-se preferido o:
"Produzo tomates! Quem precisa?" 
Do que a plaquinha ou rótulo de: 
"tomates orgânicos, selecionados, biodinâmicos e blablabla..."

Tem sido bem mais prazeroso, pelo menos pra mim, comprar o queijo da Edineia que me convida a conhecer sua casa, suas vacas e o cantinho onde produz os queijos, o feijão do Tião que me explica, na feira mesmo, como tratar a terra para plantar leguminosas, do que comprar de qualquer outro lugar.


Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Sim, eu conheço a Carla.
Acompanho seu trabalho de profunda investigação sobre desescolarização. De todos, percebo a mais engajada nos movimentos de unschooling.
Questiono alguns pensamentos, procuro entender e aprendo com ela. Aprendo sobre mim com ela. Sobre nós com a gente. E sobre o momento no momento em que se dá o momento. E não aprendo pouco.
Recentemente houve um desses momentos que me fizeram admira-la ainda mais.
A publicação de uma simples frase me fez perceber uma das maiores atitudes de respeito ao ser humano que já vi.

Agora tento explicar em limitadas palavras o sentimento confortante que se abateu sobre mim:
Qualquer atividade que comprometa a livre aprendizagem me causa desconforto. Escola, professor e ensino são palavras distantes da minha realidade atual. Busco lidar da melhor forma com o tema quando surge. Estou em contato diário com crianças encantadoras e me encanta ainda mais ver a velocidade com que aprendem sobre o que quer que seja, motivadas apenas pela própria curiosidade.

Com o tempo fui conhecendo pessoas que acrescentaram e motivaram mais as minhas críticas à escola e o ato de conduzir alguém para algum lugar. A Carla, e sua filha Gaia ("unschooler") foram duas delas.
Eis que me surge essa frase onde a Carla se refere, provavelmente, à um diálogo com sua filha:
Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Instantaneamente fiquei maravilhado. Pude acessar o amor presente no ato. O respeito pelo outro, permitir, deixar ser, estar atento, ouvir, não deixar que ideais sobreponham a importância do momento e da interação. E nas relações entre pais e filhos, onde comummente impera a expectativa e o empoderamento de um sobre o outro isso é ainda mais difícil.

Me vi pensando nas pessoas que falariam da incoerência, da contradição da minha amiga, que até repudiariam a liberdade concedida a pequena Gaia. Talvez por não entenderem que não se trata de concessão. E mais uma vez nada disso pareceu ter importância para Carla a não ser o olhar atento ao outro. Um olhar cuidadoso que independe de idade, sexo ou grau de parentesco.

Não conheço a Carla, mas amo cada vez mais os momentos em que me reconheço nela.