domingo, 14 de dezembro de 2014

Sobre fugir do conflito

Texto de Augusto de Franco*

"Tenho compartilhado, com várias pessoas com as quais convivo em algumas atividades interativas, duas observações.

A primeira é que as pessoas que estão buscando e ensaiando novos processos de vida humana, em iniciativas de livre aprendizagem, de cocriação ou de ocupação de espaços públicos para se comprazer na convivência social, estão mais querendo experimentar do que estruturar discursos e referenciá-los em narrativas já existentes. Elas não estão teorizando. Elas não estão usando teorias já existentes para orientar e justificar as suas práticas. Simplesmente estão fazendo o que acham bacana. Não estão nem mesmo querendo se apresentar como grandes adeptas de causas, como acontecia há não muito tempo.

A segunda observação é que essas pessoas não têm a vibe militante. Não se parecem com gente que está guerreando, se preparando para se defender de inimigos ou para enfrentá-los e derrotá-los. Sobretudo não estão selecionando pessoas. Das novas pessoas que chegam não cobram nenhuma postura, nenhum alinhamento, nem procuram saber o que pensam em termos políticos, filosóficos ou religiosos. Não estão também querendo arrebanhar mais pessoas para algum propósito. E nem ficam aborrecidas ou desapontados quando pessoas tidas por importantes não aparecem. Os ambientes que configuram com sua convivência estão funcionando como naquela primeira proposição do Open Space: “a pessoa que vem é a pessoa certa”. Ora, isso não é nada menos do que fantástico: é o outro-imprevisível!

A impressão que se tem é que elas, se pudessem, criariam um novo mundo para elas, sem exigir que os outros participem desses mundos. Quando outras pessoas aparecem, então elas interagem (como se tivessem estado sempre ali), mas não se tornam parte, não conformam um corpo definido. E o mais bacana é que elas sentem que podem mesmo fazer isso. Agora – ao que parece – já é possível a emergência e a convivência ou a coexistência de múltiplos mundos altamente conectados.

No entanto tenho notado também uma certa tendência dessas pessoas a fugir do conflito quando por algum motivo ele se instala, sobretudo quando é tematizado segundo as velhas classificações, do tipo esquerda x direita, seguidor de tal filosofia x seguidor de outra filosofia ou ateu x religioso.

Talvez haja uma razão mais profunda, que não consigamos ainda captar, para explicar tal comportamento. E ele parece superar antigos comportamentos sectários de que temos amargas lembranças.

A seu favor podemos dizer que, nessas novas experiências, elas não estão mais lutando contra pessoas. Estão apenas desobedecendo. Sem nunca explicar – como vou fazer agora – por que se comportam assim, essas pessoas estão resistindo à determinadas configurações que reproduzem a cultura patriarcal, que induzem à ereção de estruturas hierárquicas e que condicionam a adoção de modos autocráticos de regulação de conflitos.

Sim, elas estão experimentando redes distribuídas e democracia por meio da desobediência prática (não teórica). Não fazer o que todo mundo faz, não ter um objetivo fixo e um planejamento para atingi-lo, talvez seja a forma mais eloquente de desobediência. Daí a recusa à luta.

Quem luta contra um inimigo é um obediente. Sempre obedece a alguém, a algum grupo definido por fronteiras de identidade: nós x outros. Mas é a luta contra inimigos que gera as configurações que programam alguém para obedecer-e-mandar (sim, é a mesma coisa), quer dizer, para erigir hierarquias. E na luta – que é uma forma de guerra, mesmo que não seja a guerra quente, travada com armas em campos de batalha – não se pode experimentar a democracia na vida cotidiana. Porque as exigências do combate só são compatíveis com dinâmicas autocráticas.

A paz como caminho (não-caminho) revolucionário é não-luta. Mas é desobediência civil e política que desconstitui a guerra, quer dizer, a construção de inimigos (e a manutenção de inimigos) como pretexto para organizar cosmos sociais estruturados segundo padrões hierárquicos e regidos por modos autocráticos.

Mas recusar a luta não é recusar o conflito. O problema não é o conflito, senão o modo de resolver o conflito. Não se pode escapar do conflito, como pensavam as pessoas pias, as pessoas evoluídas, as pessoas espiritualizadas, que queriam ir para um lugar (imaginário) onde não haveria conflito, onde tudo seria harmonia e concordância. Mas uma sociedade sem conflito estaria morta, congelada. A supressão do conflito – característica das distopias (e das utopias, sim, todas as utopias são autocráticas) – só pode acontecer em rebanhos, em sociedades obedientes, em mundos onde não há lugar para a sujeira e a imperfeição, para os desvios dos caminhos já pavimentados, para o erro no cálculo, para a falha na armadura, para o imprevisível e, enfim, para o acaso. Mas onde não há lugar para o acaso também não há lugar para a liberdade.

As pessoas que fugiam do conflito nunca eram melhores do que as outras. Pessoas cordatas não eram necessariamente pessoas boas. Boa educação, bons modos, abstinência de crítica, medo de ser mal-interpretado, desejo de ser admirado – tudo isso foi e ainda é, em grande parte, esforço de adequação, quer dizer: obediência, não desobediência.

O problema é que essas pessoas queriam ser aceitas por alguém que (supostamente) estaria acima delas. Elas queriam corresponder ao que esperavam delas. Mamãe programou-as para isso. E então elas saíam mundo afora atrás da mamãe: procurando aprovação. Mas não havia ninguém acima delas, a menos que elas se abaixassem. Quando elas se abaixavam, entretanto, por esse simples gesto elas já deformavam o campo social, configurando um ambiente favorável à reprodução da cultura patriarcal, hierárquica e autocrática.

Ao contrário do que lhes foi ensinado nas famílias, nas escolas, nas igrejas e nas seitas religiosas e filosóficas, padrões de inadaptação não são sinais de insanidade, pelo contrário: quando alguém se adapta a um meio doente, quem está doente é quem se adaptou. Se elas queriam se polir para passar lisas pelos esgotos, sem atritos, sem rusgas, então elas estavam doentes. Continuando nesse caminho, não raro uma pessoa assim almejava viver em lugares assépticos e de repente se pegava lavando as mãos compulsivamente com medo da sujeira. Não conseguiam ver que a pureza só existia na imagem que foram socialmente (Maturana diria: antissocialmente) compelidas a criar de si mesmas para satisfazer às expectativas mórbidas da sociedade de controle. E não descobriam que a persona é coletiva (e é também uma doença).

Então, depois de ser assaltado por tudo isso, me lembrei dos velhos alquimistas quando diziam que a matéria prima para a transformação está nos lugares mais vis e desprezados. E pensei, cá por minha conta, que se alguém não está sujo o suficiente, não pode ser aproveitado pelo simbionte (quer dizer, pelo outro-imprevisível). E que quem ser aproveitado não pode fugir do conflito."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Passaporte

Liberdade é abrir mão do medo de dizer adeus.
É transformar vontade em motivo.
É esquecer os possessivos. Os teus, os meus.
Um até logo que vai demorar eu sei que pode machucar,
Mas quem escolhe a liberdade como casa,
O mundo é seu lugar.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Vipassanando - uma visão pragmática sobre o curso de 10 dias em "silêncio"

Texto de Fernando Furtado*

"Já de cara, confesso que não possuo afinidade com processos ou regimes de ensinamento fechados ou ditos excepcionais para chegar a um determinado fim, como por exemplo uma escola qualquer, que tem sempre o objetivo de formatar uma pessoa com um método de ensino X ou Y, tendo como propósito "prepará-la para o mundo real", por exemplo. Não satisfeitos com o método escolhido pelo nossos pais para nossa formatação, mais tarde, quando adultos, alguns de nós procuramos por uma ou outra escola mais "espiritualizada" que possa nos ajudar a alcançar a meta da libertação de nossas amarras formadas anteriormente (que no fundo tem a raiz antes da escola, pois são culturais mesmo, estando presente também no próprio núcleo familiar). É quando nos deparamos com escolas que prometem o método X ou Y para a pessoa "se purificar e alcançar a iluminação, libertando-se finalmente da tão dolorosa roda de reencarnações", como o que por exemplo é GARANTIDO no 4o dia do curso de meditação Vipassana (mas claro, somente se caso você receba a técnica da maneira como eles "te passam-na" rs, e a utilize exatamente da maneira como eles mandam, caso contrário, as consequências podem ser "perigosas"). Se com este argumento, um curso passa a violar a saúde das pessoas que dele participam, considero que está existindo uma problemática grave a ser contemplada. O que vou fazer neste texto é abordar estes dois aspectos mencionados neste parágrafo de introdução, que são no mínimo questionáveis.

Vou começar então primeiro pela parte da saúde em evidente violação:

1 - Penso que não se pode pedir para 100 pessoas que você não conhece meditarem por 2 horas pelas 4:30 da manhã, sem fornecê-las uma orientação prévia para atentarem sobre suas próprias limitações e posturas, muito menos pedir para fazerem isso sem sugerir nenhum alongamento ou preparo, ainda que concedendo uma permissão para pausas de 5 minutos ou mudanças de posição durante esta meditação, já que isso não é nem de longe suficiente (sobretudo de um ponto de vista terapêutico preventivo). De maneira bem franca, é isso o que ocorre logo no primeiro dia de prática meditativa no curso de meditação Vipassana. E parar tornar a problemática ainda mais grave e penosa para algumas pessoas, é a primeira vez em suas vidas que estão permanecendo em uma postura sentada no chão, com os joelhos dobrados, com intuito de permanecer por um período de tempo tão longo.

2 - Os participantes também não recebem a mínima orientação sobre algum alongamento de compensação para fazerem depois da meditação. Aliás, até mesmo os professores incentivam qualquer alongamento antes ou após a prática (nem sequer os vi alongar) ou sentam de uma forma correta (pelo menos no caso do curso o qual participei), e conversando com eles me disseram não achar isso preocupante, pois não fazia parte da técnica, que era de purificação, não de yoga, e que não conhecem nenhum caso de pessoas que se machucaram no curso por conta disso (mas nesse mesmo curso eles presenciaram no mínimo duas: pois eu vi um rapaz que foi embora mancando com dores no joelho e Sofie uma mulher que estava sofrendo com fortes dores na coluna). Já o gerente Beto (muito maneiro, por sinal) comentou que essa coisa dos professores meditarem fora de postura também o chocou quando ele fez o curso pela primeira vez. Além disso, ele afirmou que, apesar dele ser um instrutor de yoga da linha Iyengar (que dá uma importância especial à questão postural), realmente haviam fatores ali naquele curso que eram um pouco problemáticos e complicados de serem modificados ou aprimorados, por conta da tradição ali presente não prezar pela postura mesmo. Impressionante como se pode submeter a coisas tão incoerentes em nome da tradição.

3 - No 4o dia eles te ensinam a técnica Vipassana, que nada mais é do que uma técnica de auto-observação do seu corpo físico e os processos sensoriais transitórios que nele se evidenciam durante a prática. Porém, se uma pessoa medita numa postura adequada ou numa postura péssima, essa sensação "transitória" pode ser muito relativa, não é mesmo? E se você já possui alguma limitação maior (como problemas causados por sedentarismo, má postura, alguma lesão etc.), imagina fazer isso com a intenção extremamente questionável de se mover o mínimo possível observando sua dor apenas como uma coisa transitória?

4 - Ao menos em se tratando do centro de meditação Dhamma Santi, localizado em Miguel Pereira, RJ (e pelo pouco que pesquisei, em outros centros mundo afora) posso afirmar sem sombra de dúvida que houve uma tremenda falta de ética e de respeito, sobretudo por parte dos professores do curso com os quais argumentei pessoalmente (Esnil e Nadir) e pelos quais fui arbitrariamente taxado, ou seja, minhas considerações não foram ouvidas com base em uma possível coerência presente nelas ou não, mas sim apenas com base nos preceitos que eles mesmos pregavam como os corretos a se observar, segundo a metodologia do curso, em nome da tradição da técnica e é claro, principalmente da estrutura estabelecida para transmiti-la aos futuros fiéis praticantes de Vipassana.

5 - A partir do 5o dia eles pedem para TODAS as pessoas se sentarem com "firme determinação" durante uma hora consecutiva, ou seja, sem se mexer, ainda que mencionem apenas DUAS VEZES que "uma postura ereta irá contribuir no processo" e coloquem um aviso do lado de fora que você pode se mexer caso esteja com "uma dor insuportável", pois "ninguém está ali para se torturar". Agora veja, uma pessoa que está no ponto de uma dor insuportável já pode estar causando sérios danos ao seu corpo, como os que tivemos oportunidade de presenciar lá no curso.

Sobre o fato da maior parte das pessoas que fazem o curso não conseguirem perceber alguns fatos como os citados nos itens acima, tão ávidas estão pela sua necessidade de "iluminação final", confesso que há algum tempo estou no processo de tentar me manter vigilante e estudar como isso me afeta, procurando observar no lugar de reacionar. Por essas e outras gosto de escrever e compartilhar as coisas que refletem um determinado momento presente no qual me encontro. Acho importante também apreciar o ponto de vista daqueles que apreciam o compartilhamento de reflexões.

Deixei o curso no 7o dia e ontem reparei que ao comunicar isso a um dos meus amigos que completou o curso, ele lamentou pois, já que eu não terminei, não poderíamos fazer a meditação do Vipassana semanalmente juntos, ao que eu respondi para confiarmos no fluxo natural da vida. Disse isso pois atualmente acredito que a oportunidade de meditação está em toda parte, e não em uma técnica mais ou menos iluminada. Como diz o ditado: "existem tantos caminhos quanto corações". E os fins, quais são mesmo?

Antes do curso, vários amigos que fizeram se mostraram contentes ao saber que eu o faria, e alguns que já tinham até me advertido que o curso era duro, mas que valia pena. Trata-se do tipo de coisa que venho questionado, a questão do "sacrifício", pois ultimamente tenho me interessado mais em processos onde cada um, a cada momento, tem a liberdade de explorar seu próprio caminho de auto-conhecimento (há tantos!). Como insiste meu amigo Sergião: "quando procuramos fazer isso sobretudo na interação com o próximo, estando com nossa escuta 100% aberta, isso também implica em nossa mente estar absolutamente esvaziada." Isso é muito interessante de se refletir mesmo. No final tudo se resume em estar realmente presente.

Então, tentando não enrolar demais, aí vai minha análise mais detalhada sobre a estrutura metodológica nociva adotada no curso e minha atual conclusão (pois amanhã pode ser que eu já mude de opinião. rs):

1 - "Prisão". Todas as noites tem uma palestra, e na palestra introdutória da primeira noite, onde tudo começa, "prisão" foi a palavra utilizada para designar como os participantes deviam entender onde estavam, ou seja, "como em uma prisão, já que haviam assinado o termo de compromisso de permanecer os 10 dias"... transcrevo de cabeça os trechos da gravação de áudio em que se fala disso:

"Você foi avisado antes de vir e chegando aqui você foi avisado novamente. Você leu e assinou o termo de compromisso, e agora você deve pensar que é como se você estivesse em uma prisão. Isso pois você irá iniciar uma cirurgia profunda e convenhamos que ninguém deve sair correndo no meio de uma cirurgia. Isso seria perigoso, não é mesmo?" Hoje a Sofie me disse que ficou com medo neste trecho. Pra mim isso já teve cara de lavagem cerebral, ou será que só eu estou notando o terror psicológico rolando logo desde a palestra introdutória?

2 - Ainda na 1a palestra, é pedido que você deixe tudo para trás... ainda da minha cabeça, transcrevo: "Você também leu e se comprometeu em deixar tudo que você viu e aprendeu de de outras técnicas para trás, para dar uma chance sincera a esta técnica. Sendo assim, não misturem outras técnicas de meditação com a técnica que vamos lhe ensinar, pois no passado outros estudantes fizeram isso e tiveram complicações tamanhas que até mesmo os professores tiveram dificuldade em ajudá-los." Continuo achando que a apelação ao terror mental está forte demais.

3 - Ao longos dos dias fica claro que cada palestra é meticulosamente desenhada pra falar o que você precisa ouvir pra se motivar a continuar no curso, terminar e se sentir muito vitorioso por isso. Isso é evidenciado desde a primeira palestra, mas a partir do 4o dia, quando a técnica Vipassana é ensinada, a gravação de áudio já tenta introduzir na sua cabeça que ela é o ÚNICO caminho possível para que se atinja a "iluminação" e isso é repetido no 5o e no 6o dia (nos outros não tive a oportunidade de ouvir), quando é acrescentado ainda que "milhares de pessoas já se iluminaram utilizando essa técnica". Muito sedutor, não?

4 - Ainda no 4o dia, também diz que você vai querer recomendar o curso a todos os seus os familiares, amigos, colegas de trabalho etc. Isso também é incentivado na última palestra, a qual também te motiva a ser um servidor em uma próxima oportunidade (eu não ouvi, mas a Sofie ouviu por engano essa palestra no gravador que continha a palestra em todas as línguas, inclusive em holandês, que é a língua dela) e esse é o segredo pra manter o sistema rodando e ter tantas pessoas procurando o curso ano após ano e tantos servidores acreditando em seus benefícios miraculosos, cegamente ignorando as outras coisas bizarras que lá acontecem (como as pessoas que se lesionam), curso após curso.

5 - Não se trata exatamente de um curso de 10 dias em "silêncio" como replicam por aí. A metodologia adotada no curso está inserida dentro de uma estrutura hierárquica e é bom explicar que não se trata de um curso em total silencio... na verdade, só vale se comunicar com duas pessoas: o(a) gerente e o professor(a) - sendo que todo processo de decisão precisa ser aprovado por este último. Aliás, por que diabos pensamos que ao se comunicar em um curso, seja ele de meditação ou seja lá do que for, as pessoas terão muito mais tendência de se atrapalhar do que de se ajudar?

6 - Se você decide que quer ir embora, também precisa passar por uma entrevista com os professores, e caso eles não consigam te convencer de ficar, vão te convencer de ir embora apenas num determinado horário, horário este em que todos os outros alunos estão na meditação de grupo, para que sua decisão passe o mais desapercebida possível e não incentive mais desistências, sempre sob a alegação de "não atrapalhar o processo dos outros".

7 - No final do curso só sobrarão sempre "os vitoriosos", que claro, estarão muito satisfeitos por terem terminado o curso e provavelmente vão querer voltar novamente, seja como "servidor" ou como "sentador" (termo utilizado entre aqueles que praticam Vipassana há mais tempo). Os desistentes foram aqueles de "caráter fraco" (era essa a expressão utilizada na gravação holandesa que a Sofie ouvia), aqueles que "normalmente desistem logo no segundo dia, quando a cirurgia toma início", ou "no sexto dia, já que no quinto dia se fala dos sofrimentos e ninguém quer saber de olhar pra verdadeira razão dos seus sofrimentos", razão esta para a qual eles possuem o maravilhoso e único remédio correto, é claro.

9 - Ano após ano as pessoas disputam as vagas e serão ensinadas (o que não caracteriza necessariamente processo de aprendizagem) sobre o perigo de usar palavras duras, de se cultivar apegos ou aversões, pois inevitavelmente isso irá produzir "sankaras" (resgates a serem feitos) e que, não importa o que aconteça, o melhor é aprender a observar e aceitar de forma equânime as coisas como elas são, pois no final tudo é "anitcha, anitcha, anitcha" (ou seja, de aspecto transitório). Se finalizarem o curso, terão o aval de praticar essa tão iluminada técnica ao menos uma vez por semana e com isso estarão se purificando "da forma correta", o que "certamente os levará ao tão estimado estágio final de iluminação".

10 - Diversas vezes afirma o senhor S. N. Goenka nas gravações, que a técnica Vipassana era transmitida pelo próprio Gautama, um dos budas que vieram a este mundo. Pesquisando na internet se vê que isso é questionável. Porém, isso não faz diferença com relação ao que vou afirmar categoricamente aqui: Não importa o quão iluminada uma técnica possa ser, se a estrutura metodológica empregada na sua transmissão não presa pelo cuidado ao praticante, pois com facilidade pode lesioná-lo fisicamente, pouco me importa se ela foi transmitida por Jesus Cristo, Maomé, por Santo Agostinho ou Madre Tereza de Calcutá, Sócrates, Platão, Mahatma Gandhi, psicografada por Alan Kardec ou Chico Xavier ou se era transmitida verbalmente pelo próprio Sidarta Gautama em pessoa. Espero sempre manter meu anti-vírus em dia para estas tentativas de manipulação brabas (como expressei cordialmente também aos professores).

Bom, existe uma série de outras características que poderiam ser enumeradas aqui, o que resultaria em uma lista demasiada extensa. Pra finalizar, quero apenas dizer que apesar de tudo isso, o processo de aprendizado foi ótimo pra mim. Durante o período em que estive no curso, fiz algumas amizades legais, sobretudo com o gerente Beto, muito verdadeiramente solícito, e também com o servidor Saulo que estava na cozinha e era muito gente fina, além de um dos alunos que também estava aberto à trocação de ideias. Além disso, tomei banho pelado no rio quando fez muito calor, dei beijo na boca da minha esposa na frente da professora e interagi livremente com as pessoas as quais se mostraram abertas (parcial ou totalmente) à interação e delas também ouvi muitas coisas legais e outras nem tão legais, mas que me fizeram refletir bastante e crescer. Ah, e a meditação foi legal também.

Apesar de que hoje eu não recomendaria este curso a ninguém, aconselho que se você for fazê-lo, que o faça no mínimo respeitando as necessidades e os limites do seu próprio corpo. A estrutura que rege a metodologia deste curso não incentiva isso de forma verdadeiramente cuidadosa, muito pelo contrário, não só desrespeita seu corpo com severas exigências como "Forte Determinação" de maneira irresponsável, como também tenta desde o início manipular a sua mente com lavagem cerebral. Mas enfim, independente da "prisão" externa, ao conectar mente ao coração sempre existe a possibilidade de libertação, vide experiência de Nelson Mandela, entre tantos outros que permaneceram libertos mentalmente, mesmo quando em regime de cárcere físico. Então, caso queira se submeter à experiência voluntariamente... meu sincero BOA SORTE E BOA EXPERIÊNCIA!

"You're bound to be successful, bound to be successful!"

Um gratidão e beijo a todos!

Nando."

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O que é meditação?

"A meditação é uma das coisas mais extraordinárias, e se você não sabe o que ela é, você é como um homem cego num mundo de cores brilhantes, sombras e luzes em movimento. Ela não é uma questão intelectual, mas quando o coração entra na mente, a mente tem uma qualidade totalmente diferente; ela é, então, ilimitada, não apenas na sua capacidade de pensar, agir eficientemente, mas também em seu sentido de viver num espaço vasto onde você é parte de tudo.A meditação é o movimento do amor. Ela não é o amor de um ou de muitos. É como água que qualquer um pode beber em qualquer jarra, seja dourada ou de barro; ela é inesgotável. E uma coisa peculiar acontece, que nenhuma droga ou auto-hipnose pode produzir; é como se a mente entrasse em si mesma, começando na superfície e penetrando sempre mais profundamente, até que profundidade e peso tenham perdido seu significado e toda forma de medida cessa. Neste estado existe paz completa, não contentamento que veio por gratificação, mas uma paz que tem ordem, beleza e intensidade. Isto tudo pode ser destruído, como você pode destruir uma flor e, contudo, devido à sua própria vulnerabilidade, ela é indestrutível. Esta meditação não pode ser aprendida de outra pessoa. Você deve começar sem saber nada sobre ela, e ir da inocência para a inocência. O solo onde a mente meditativa pode começar é o solo da vida cotidiana, a luta, a dor e a alegria passageira. Ela deve começar aí, e trazer ordem, e daí se mover indefinidamente. Mas se você está interessado apenas em ter ordem, então essa própria ordem trará sua própria limitação, e a mente será sua prisioneira. Em todo este movimento você deve, de algum modo, começar do outro fim, da outra margem, e não estar sempre interessado nesta margem e em como cruzar o rio. Você deve mergulhar na água, não saber como nadar. E a beleza da meditação é que você nunca sabe onde está, aonde vai, qual é o fim." - Krishnamurti, Meditations 1969,1

"Meditação implica uma qualidade de mente que pode atentar completamente, portanto, uma mente que pode estar completamente imóvel. A mente está sempre tagarelando, sempre falando, ou para si mesma, dentro de si ou para alguém, sempre em movimento. Como pode uma mente que fica tagarelando sem parar perceber alguma coisa? Apenas a mente que está completamente atenta tem a energia integral para observar, pois você precisa de tremenda energia para observar. Os monges religiosos e outros dizem que você não pode desperdiçar energia; por isso, se você quer ser santo, nenhum sexo. E quando você se torna celibatário e faz votos de celibato, há confusão em você, porque você está negando todo o sistema biológico e há desperdício de energia. Você fica lutando, lutando, lutando. Ou vai para o outro extremo, cede, o que é outra forma de gastar energia. Por outro lado, se você está atento, esta é a maior forma de somar energia. Isto significa intensidade, paixão, e você não pode ser apaixonado se está gastando. Sem nenhum esforço a mente pode se tornar completamente quieta e, assim, cheia de energia sem qualquer distorção." - Krishnamurti, Talks and Dialogues in Sydney 1970

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Minha experiencia em Vipassana

Cheguei ao centro em Miguel Pereira bem aberto à experiencia. Minha primeira atitude foi optar por refeições exclusivamente integrais durante todo o curso (frutas e vegetais crus) para facilitar a digestão tornando menos desagradáveis as horas sentado em posição de lótus. Acredito que tenha ajudado bastante.

Já no primeiro dia comecei a achar tudo entediante. Acordar às 4 da manhã, meditar sonolento, ouvir os cânticos com a voz arrastada do professor Goenka. Isso tudo por 3 horas antes da próxima hora de descanso. Foi um dia horrível, mas até aqui tudo era novo. O silencio absoluto até que me agradou e a palestra no fim da noite, deu uma motivação. Um bom entretenimento filosófico.

Veio o segundo dia. Um inferno! Meu corpo inteiro foi tomado por dores desconfortantes, queria desistir. Estava certo disso. Comecei a criticar tudo, zombava mentalmente do comportamento dos outros, sorria debochadamente das regras e no momento seguinte era um mar de frustração por não conseguir controlar meus pensamentos. Nunca percebi minha mente tão tagarela. Era um pensamento atrás do outro, sem pausa, sem piedade. Não conseguia admirar uma bela flor no jardim, imagina só reparar no ar que entra e sai pelas narinas, segundo as instruções do professor.

No terceiro dia a mente acordou mais tranquila. "Acho que da pra ficar até o final", pensei. O desafio aumentou. Agora eu deveria me concentrar numa pequena região entre o lábio e o nariz. E que desafio! Apesar de estar menos ansioso, o máximo que conseguia sentir eram cocegas no bigode. Mas fui me acostumando com a ideia de passar mais sete dias assim. E algo que me deixou ansioso pelo dia seguinte. Segundo o professor, no quarto dia, aprenderíamos Vipassana. Passamos 3 dias apenas afinando a mente para então aprender a técnica.

Chegamos ao quarto dia. Chato. Monótono. Suportável, mas tão sem graça quanto o anterior. As dores no corpo eram cada vez mais intensas. Todos no salão, inclusive eu, estavam sentados sobre 3 ou mais almofadinhas na intenção de diminuir os desconfortos do corpo. Alguns sentariam em sofás reclináveis se pudessem empilhar mais almofadas. Banquinhos, cadeiras e paredes foi o refúgio de alguns meditadores. E não preciso nem falar que fazia-se mais alongamento do que meditava-se. Pra onde se olhava havia alguém se contorcendo, se pendurando, se sacudindo e as vezes até gemidos de alivio se ouvia.
Durante à tarde foi que tudo mudou. "Agora vocês vão aprender Vipassana!", acertou Goenka. Meu coração deu um salto de alegria. "Finalmente!", pensei.

Levei uma pequena chamada ao pé do ouvido para me sentar em posição ereta. O professor parecia estar reparando que eu já tinha virado uma tartaruga nesse momento. Me esforcei. Me disciplinei. Tentei abstrair qualquer dor e desconforto e sentado sobres os ísquios, coluna ereta, com 1 almofadinha apenas comecei a seguir o passo a passo de Goenka:
- Leve sua atenção ao topo da cabeça, à cada parte dela, à cada musculo do rosto, desça para o pescoço, ombros, braços, cotovelos, antebraços, punhos, mãos, dedos...
Assim foi até os dedos do pés. Concentrando em cada pequena parte de cada membro. Objetivando sempre perceber as sensações do corpo, sem qualifica-las, quantifica-las ou entende-las. Apenas sentir o que se passa.

Quando a "magia" começou. Meu corpo começou a se balançar, vibrar, tremer, de forma sutil, melódica e ritmada. As pernas já dormentes a 40 minutos não importavam mais, as dores nas costas não faziam parte de mim. E uma profunda clareza mental tomou conta do meu ser. Um ar de paz e felicidade, uma sobrenatural satisfação por estar estar ali e poder sentir tudo aquilo. A expressão "orgasmo astral" seria pouco pra definir isso. Uma completude, uma transcendência. A perfeição da vida ou da morte pairava sobre mim. Eu era momento. Na sua forma mais perfeita. Cada milissegundo, era o que eu era. Sem corpo, sem mente, apenas algo atemporal e abstrato.

Percebi que eu ainda me embebedava daquela sensação quando a sala estava completamente vazia e todos se alongavam e relaxavam do lado de fora esperando a chamada para o lanche da tarde. Fiquei ali, por uns 5 minutos ainda. Sorrindo sem pra que ou por que. Levantei ainda com aquela leveza de ser e fui descendo as escadas, ouvindo o leve som dos meus passos descalços junto àquela tagarelice de pássaros e insetos da floresta. Leve e decidido, cheguei ao quarto. Sem pestanejar puxei o caderno escondido na mochila e comecei a escrever, quebrando uma das regras do curso:

"É humanamente inexplicável a vastidão do universo e o infinito de energia ainda desconhecida.
Um mesmo universo se reverbera em milhões de fragmentos.
Compartilhamos desses fragmentos, acessamos alguns, mas não sabemos aproveita-lo.
Vipassana, nada mais é do que um outro caminho para se alcançar a compreensão de um todo, que está em constante expansão.
Amor ao próximo, respeito, cuidado e auto-observação. O tempo todo é necessário estar alerta, atento, vigilante.
Paz de espirito é a maior virtude do homem na Terra. Só à alcança quem se permite à autocompreensão do que se é."

Foi o que escrevi com a sensação de ter psicografado. Sem nem olhar para o papel. Prefiro dizer que foi escrito através de mim.
Li e reli admirando cada palavra. Agora leio e releio sem quase nada da clareza mental que tive naquele momento.

Durante o resto do dia, sentava para meditar e rapidamente me conectava com àquela sensação. Os cânticos, uma hora, tediosos e arrastados de Goenka, agora se tornavam suaves melodias que me embalavam rumo à mais introspecção.
Senti minhas mãos vibrando e formigando como nunca. Assimilei com as energias de cura aprendidas ao longo da vida. Reiki, massoterapia e passes energéticos. Já sabia o que fazer. Aos poucos, cada toque, cada aperto em uma parte do meu corpo iam aliviando as sensações de dores acumuladas.
Alongava, estalava e sentia o musculo certo, vontando à sua posição original. Sem pressa, sem tempo. A palestra ao fundo, e eu ali, mais de 1 hora encaixando minuciosamente o pescoço de volta no lugar.
Antes de dormir, não sentia mais dor alguma e tive a sessação de flutuar e levitar durante toda a noite. Algo me puxou, como um solavanco pra fora do corpo. Observava o planeta de cima. Uma visão privilegiada.

No quinto dia só enxergava beleza naquele grupo de meditadores. Olhava e reparava em cada um, em cada detalhe. Acho que até visualizava sua personalidade. Alguns percebiam e timidamente desviavam o olhar (evitar contato visual e toque eram outras 2 regras importantes).
Foi então que decidi:
- Vou embora! Compreendi a razão de ter passado por aqui. Sou muito grato pela experiencia e não quero continuar seguindo tais regras e essa dura disciplina. Minha mente, ainda não preparada para abstrair desconfortos doutrinários, não se sente bem com a metodologia do curso.
Vou respeitar esse limite e tentar continuar aplicando essa experiencia no meu cotidiano. Mais um item para a mala de ferramentas imateriais.

É tão simples que chega a ser complexo. Tudo que já experimentei, no que cerne a espiritualidade, me leva para o mesmo lugar. A sensação que tive em vipassana também pode ser explicada como um fenômeno mediunico de incorporação, ou como uma projeção astral, ou uma profunda e imersiva prática de yoga, ou um jejum desintoxicante de 20 dias, ou mesmo o efeito de ervas psicotrópicas em rituais afros e indígenas.

Sinto que todos os caminhos, em um nível macro, estão tentando explicar a mesma coisa. O "todo infinito" viabiliza todos esses caminhos para sua compreensão. Se limitar a um deles, é muito pouco. Viva a múltipla diversidade! Como diz meu amigo Nando, "Há tantos caminhos quanto corações."

domingo, 23 de novembro de 2014

Um dia de abundancia

Hoje acordei cedo. Antes mesmo do querido sol. Frio. Uma casinha bem rustica. Situada em um pequeno vale de uma pequena cidade do interior. Santo Antonio do Rio Grande foi onde o dia começou.

Levantei, contra minha, preguiçosa, vontade e senti a abundancia de ar puro entrando em meus pulmões ao respirar bem fundo. Na casa outros 6 lindos seres ainda dormiam sob uma energia abundantemente amorosa. Do lado de fora a abundancia de verde, de vida...  em mim paz e alegria se misturavam. Eram expressas em melodias. Embaladas por um ukulele ao passo que ia descendo as escorregadias e orvalhadas montanhas.

Depois de uma longa caminhada, eis que surge a primeira carona. Até Bocaina ele ia. Sua história: começava a plantar oliveiras de forma biodinamica para produção de azeite organico. Que boa informação essa. Mais um pequeno produtor pra alimentar a rede de alimentos saudaveis. A conversa rendeu um "cadin" até nos despedirmos.

O querido sol, então, começa a deixar de ser tão querido. Tirei o casaco e estendi o dedão para a próxima carona. Um prefeito dessa vez. E la fomos os dois trepidando pelas estradas esburacadas conversando sobre politica. Ele desejava um "bom dia" bem verdadeiro pra todos que cruzavam por seu humilde carrinho barulhento e ainda chamava cada um pelo nome.
Me falou com orgulho da sua genial ideia de fazer o natal na rua, pra que todos pudessem compartilhar do mesmo alimento. Um grande pic-nic natalino na cidade. Misturando crianças e idosos na praça. Achei graça. Genial!!!
Chegando a nosso destino: a ponte que dividia o Estado de Minas e do Rio, mais infortúnios politicos. A ponte em estado precário não poderia ser tocada por ele, com risco de ter cassado seu mandato caso ousasse reforma-la, pois pertence a outro Estado.
Já que as "burrocracias" nos impediam de agir pela lei, apelamos ao mutirão social. Cada um sacou seu facão e começamos a desbastar o mato que cobria as placas. Achei graça mais uma vez. Prefeito que pega na "enxada" não é coisa de cidade grande.

Mais uma carona até a vila de Mauá onde reencontrei amigos do coração em uma festa mágica. Cheia de crianças, música, arte e natureza. Um ambiente perfeito para não querer sair de lá. Logo, não me apressei para a próxima parada.
Com despedidas e futuros encontros marcados, deixei a festa em busca da próxima carona.

Desta vez com um rabino. Um longo e prazeroso caminho montanha a baixo conversando sobre filosofia e teosofia. Mais aprendizado. Sem perceber o tempo passar cheguei em Penedo. Após os contatos trocados com o rabino, solicitei a gentileza dos irmãos Venuto: "Sergião, alguém pode vir me buscar aqui no portal?". Enquanto esperava, um dedinho de prosa com a Marilene. Solitária informante do solitário ponto de informações turisticas da cidade.

Chegando na casa, de carona com Chef Emerson, já fui beijando a criançada. Fiz o reconhecimento do jardim com Emerson. Admirando o resultado de um bom tempo de trabalho dedicado naquelas hortinhas. A maior touceira de inhame que já vi habita essa casa. Impressionante!

Lembrei de mamãe e peguei 1kg de café do bão de presente, lembrando da Bekinha e seu filhote natureba, uns bons kilos de abacates maduros e guardei no mochilão. Depois de comido, banhado, conectado e descansado, já era hora de acabar com a magia da vida sem tempo cronologico e pegar o expresso babilonia.

2 horas depois já estava sentindo o cheirinho desconfortantemente arrepiante do Rio de Janeiro.
Não com a mesma alegria do inicio do dia, mas ainda na abundancia, aqui pude contar com a gentileza de um padrasto pra me buscar na rodoviaria e uma mãe cheia de mimos que me aguardava ansiosa.

Explore seu capital social! Abundancia é compartilhar e não acumular!





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Prosa Estranha

Texto de Carla Ferro*

"Encontrei um amigo e saímos para conversar.
Ele queria saber como eu ia. Perguntou dos meus projetos. Não tenho projetos, eu respondi, a vida está boa. Apesar disso, sinto que estão crescendo desertos à minha volta.
Disse isso assim, ele não fez mais perguntas e continuamos conversando.
Ao final de duas horas, ele tinha dado boas risadas. De mim. Por menos que eu tivesse intenção, tudo o que eu dizia o fazia rir.
Um riso debochado, claramente reprovador. Desqualificador. Liquidificador. Liquidante.
Não sei explicar por que eu continuava. Talvez porque quisesse ter por mais tempo a sensação, experimentar mais um pouco daquele efeito e quem sabe aprender a evitá-lo caso viesse em doses mais fortes, de fontes mais infestas...
Eu falava sobre existirem no mundo pessoas que são minhas, que sou eu. Não por posse ou identificação. Pessoas que acontecem, que “se dão” no encontro.
Difícil explicar, e meu amigo ria.
São pessoas com quem não tenho a sensação de contracenar, você entende? Eu tentava, querendo muito que ele percebesse o que eu queria dizer.
Pessoas que em vez de configurar sempre o mesmo outro e, por consequência, sempre o mesmo eu, se deixam re-conhecer ao mesmo tempo em que me re-conhecem no espaço que se abre entre nós. Essas pessoas me viabilizam com a sua própria existência.
É engraçado, mesmo. Conversa estranha, eu disse. Porque você é estranho. Você é um estranho pra mim, de tanto só conseguir ser você mesmo, não poder sair desse seu lugar fixo para me encontrar entre nós.
Sinto que estão crescendo desertos à minha volta. E estou entendendo como acontece."

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Nós somos as pessoas comuns

Texto de Augusto de Franco*

"Nós não somos os anônimos. Somos aqueles que têm muitos nomes. E temos nossos próprios rostos. Não somos mais um indivíduo numa massa uniforme de mascarados com a mesma máscara. Não queremos ser mais uma parte em qualquer coletivo: queremos ser o todo naquela parte que somos porque cada um de nós é unique.

Não queremos substituir o velho mundo por outro que também seja único. Sabemos que muitos mundos são possíveis, desde que consigamos construí-los em nossa convivência.
Somos muitos, sim, mas um-a-um: nada de rebanho, nada de seguimento de lideranças, nada de caminhos pré-traçados para um porvir radiante, nada de revoluções épicas, nada de transformações cósmicas capazes de produzir um novo céu e uma nova terra. O novo céu será a composição fractal de muitas terras, de muitas redes tecidas por nós: liricamente!

Nós somos os que desobedecem, no dia a dia, nos pequenos gestos, salvando os mundos em que interagimos um instante de cada vez e não em formidáveis batalhas episódicas. Nós não achamos que todo mal que nos assola será redimido quando vencermos algum grande inimigo. Sabemos que o único inimigo que existe é aquele que constrói inimigos para lutar contra eles.

Não somos nem queremos ser heróis ou santos, que fugiram da humanidade porque não se achavam bons o bastante. Heroísmo ou santidade não convêm a seres humanos.

Não temos mais raízes: temos antenas. Não pertencemos a grupos e não erigimos organizações, não construímos diques e não lançamos âncoras para nos proteger da correnteza, para escapar do fluxo caudaloso... Não temos medo do abismo da interação. Quando o abismo nos olha, pulamos nele.
Nós somos as pessoas comuns."



"É desonesto reduzir-se a uma identidade. Quero falar com a sua diferença."
                                                                                                      Carla Ferro

domingo, 19 de outubro de 2014

Ferramentas de controle do Estado

Antes eu tivesse continuado na minha saudável rotina de matuto do mato. Comecei a ler os posts sobre eleições e fico cada vez mais indignado com a falta de questionamento. Com a grande competência do Estado de ignorantizar e conduzir as massas.

Ninguém se da conta do virus que está rodando. Da politica suja que está se fazendo. Como estamos replicando toda e qualquer informação absurda como memes. Raríssimas exceções são aqueles que estão se questionando sobre nossa atual forma de governo.

Confesso que estou ficando cada vez mais preocupado. Não fazia ideia do rumo que as coisas estavam tomando. Não acreditava que uma forte e desonesta propaganda politica pudesse influenciar tanta gente. Pessoas que eu considero engajadas e reflexivas.

Estamos vivendo o inicio de uma era de forte autoritarismo. Liderança centralizada. E não digo que é de uma forma tímida. Acreditei que fosse, mas não. É de uma forma inescrupulosamente falsa, mentirosa, escondida, mascarada. Há uma estratégia para ignorantizar o povo, isso sempre foi óbvio, dado o que foi feito com o ensino publico anos atrás. Mas não acreditei ser tão eficiente com pessoas que gostam e fazem politica em seu dia-a-dia. Somos todos analfabetos políticos.

Revelo o meu medo pelo que estar por vir porque pode e certamente vai me afetar diretamente. Como já tem afetado. Em doses homeopáticas. A cada medida governamental tomada na intenção de aparelhar o Estado, eu me sinto menos livre. Segue exemplos óbvios no quadrinho aqui em baixo.

Isso não é conspiração. Não são dados falsos. São medidas reais que foram tomadas e que revelam um claro interesse autocrático do Estado. O interesse é o de menos. O grande problema é que a coisa está se mostrando funcional e ninguém ta se questionando em relação a isso. Estão todos mais preocupados se o candidato é machista, ou homosexual ou se rouba ou bate em cachorrinho. Não está obvio que são ferramentas tendenciosas de controle social.

Há um interesse em jogo e as ferramentas de manipulação estão se mostrando ALTAMENTE EFICAZES!!!! Vamo acorda gente bonita, isso é importante. Discutam, escrevam aqui, vai! Não to defendendo lado nenhum. Estou é muito preocupado com o rumo dos acontecimentos dado nosso notável e GIGANTESCO DESPREPARO para lidar com o isso.


Visão politico-partidária

Estive algum tempo bem por fora de debates e conversas aqui no face, e portanto meu posicionamento politico-partidário não foi expresso nenhuma vez.
Aos pouquinhos estou começando a ler (muitas coisas mal questionadas) que alguns amigos tem postado.
Já que nessa época todo mundo quer falar e mostrar seu posicionamento, o que acho muito bom, também vou deixar aqui o meu. De uma forma mais timida, mas ai vai.

Como muitos sabem, me considero anarquista. Não acredito em democracia representativa. Adotei pra minha vida a política da boa vizinhança. Fazer o que cabe a mim para viver da forma como acredito. Plantar meu próprio alimento, compartilhar meus recursos, participar de mutirões, construir casas com amigos, enfim, estimular meu capital social e aquilo que chamo de rede.

Fui descobrir lendo e conversando com alguns amigos que participaram da construção politica do pais tempos atrás, a forma como o PT e outros tantos partidos se organizam de forma autocrática. Onde aos pouquinhos vai destituindo as diferenças de pensamentos e tornando tudo uma coisa unica por pequenos atos. Como criação da guarda da policia nacional, por exemplo.

Estou, realmente, cagando pra quem está no poder, o que faz ou deixa de fazer, desde que isso não afete a minha liberdade. Democracia! Por mais corrupta que seja, que pelo menos exista em teoria. A não rotatividade de partidos opostos na cadeira presidencial implica em uma forma cada vez mais autocrática de mando. A centralização do poder nas mãos de 1 só representa o fim da liberdade e o inicio de uma era de autoritarismo.

Por Deus! Não estou defendendo um lado. Não sou Aécio, nem Dilma, e nem Marina ou Eduardo Jorge. Não adoto posicionamento de esquerda nem direita. A 5 anos que eu não chego perto de uma urna eletronica para votar e nem pretendo, mas sou a favor da liberdade de escolha. Só preciso que não me impeçam de fazer o que quero. E obviamente em um estado autocrático isso será cada vez mais dificil. Mantendo Dilma no poder por mais 4 anos, sabe-se lá quantos anos mais o PT continuará amarrando o pais.

sábado, 27 de setembro de 2014

Antes de fazendar, experimente jardinar

Texto de Claudio Oliver*

"Pensamento da noite: Dia cansativo hoje, muito o que fazer, pouca perna para fazer... mas no meio de tudo, fazer pensando e pensar sobre o que se faz. Dai me peguei pensando na pergunta de um amigo, o Ricardo Dunker, sobre o que fazer com seu Um Hectare..... E eu he respondi, mas no fundo esta resposta é uma declaração que resume muito do que eu penso, pratico e acredito. Se servir para encorajar alguém.... me sentirei feliz.

O QUE FAZER COM SEU PEDACINHO DE CHÃO?
Amigo Ricardo, antes de mais nada recorra à nossa vocação atávica e pense como jardineiro, nunca como fazendeiro (de um ou de mil hectares... tanto faz). Antes de fazendar, experimente jardinar, pois no jardim a abundância e a variedade é sempre maior que na fazenda.
Cuide do solo, nutra a terra e junte água.

Não se perca pensando em plantas e animais, mas pense na terra. Se cuidar dela, a consequência será vegetais sadios, animais fortes e felizes e ciclos de vida ao seu redor. Fertilize a terra sempre, traga o máximo de carbono que puder para dentro da propriedade, e quando pensar que trouxe demais, dobre sua aposta e quadruplique o que trouxe.

Dai vai precisar de nitrogênio, para encher o esqueleto deste carbono. Urine nas palhas e restos de madeira, e urine muito, e peça aos seus amigos que façam o mesmo. Traga bichos para trazer mais N, esterco bem aplicado nunca é passivo ambiental. Não existe, nem nunca existiu, antes da Agricultura química, vegetais sem animais.
E antes de ter animais, pense em ter com o que alimentar os animais, de preferência com restos da cidade, que os desperdiça na forma de lixo, e faça isso para reverter a eterna extração e mineração sem ciclos.

Verticalize tudo que puder, e não pense horizontalmente. Ter mais terra é só a prova maior da incompetência e desamor do agronegócio monocultural. A gente não precisa de mais terra, precisa é de mais competência para administrar e ser bom mordomo do que temos.
Plante árvores para que elas tragam água e nutrientes do subsolo e pássaros que trarão nutrientes de longe.
Deixe a terra descansar a cada sete anos, e não plante nada naquele então, vivendo do que a terra lhe der. E receba amigos, seja simples, respeite as frutas e verduras da estação, respeite as estações, cultive o solo, plante água.

Com Carinho. Claudio Oliver "

sábado, 9 de agosto de 2014

Ahhh!! Essa Tal Felicidade

Não tenho a pretensão de definir felicidade, mas se me perguntam "o que é felicidade?", parece que já tenho a resposta na ponta da lingua, muito embora não consiga explicar. Vou me permitir faze-lo com noção da incompletude e impotência vocabular ao definir tão nobre sentimento.

Felicidade é um estado de graça, de plenitude, é um sentir-se bem independente de fatores externos. É sentir-se confortável com vc mesmo, é se gostar, é se amar e conseguir transmitir isso de uma forma leve, natural, espontânea a qualquer pessoa, seja lá onde for.

É conseguir perder a noção do tempo e entrar em estado contemplativo a qualquer momento. Observar o céu, o sol, as flores, as crianças correndo e se encantar com aqueles movimentos tão puros, tão livres de conceitos pré-definidos. Conseguir mergulhar profundamente no agora, no momento, é um grande indicador de felicidade.

Não faz muito tempo que resolvi ser feliz. E a medida que vou desvendando os mistérios do meu próprio ser, se torna cada vez mais fácil acessar esse estado de paz interior.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Os Grandes Mestres da Minha Vida

Acredito que na vida temos grandes mestres. E quando digo “mestres”, me refiro àquelas curiosas pessoas que estimulam nossas verdades e nos fazem refletir sobre a vida.

Sou enormemente grato a todas essas pessoas. Primeiramente Digo Assis. Ainda na época de “muleque” filosofávamos sobre a vida sem nem ter ideia do que era isso e já começávamos tímida e inseguramente a buscar nosso lado espiritual. Parte do que sou hoje foi lapidado em momentos de convivência com Rodrigo durante minha infância. Impressiona como estamos tão distantes e ainda assim existe uma grande sintonia quando nos reencontramos.

Matheuzinho veio depois. Com Matheus Almeida aprendi na marra a lidar com o leão presente no outro. Com uma presença forte que não se deixa influenciar facilmente e adora deixar sua marca por onde passa, me fez aprender a competir, a lutar por um espaço. Hora eu o odiava, hora o adorava. As primeiras percepções do ser egoico que existia em mim se deu neste momento. Nele consegui enxergar o amor mascarado. Aquele amor enrustido, doido para desabrochar. Matheus, na época de escola, contribuiu para que eu desse boas gargalhadas e fizesse as grandes merdas que adubaram minha vida.

O terceiro grande mestre foi a mãe Marcia. Quem me apresentou à Umbanda, me permitindo explorar toda minha sensibilidade e acessar pensamentos que só se consegue em um estado alterado de consciência. Muito paciente tentou responder à todas as minhas questões, acolhendo em seu lar e seus braços, sempre com muito amor, um garoto assustado e curioso com todas as novidades de um novo mundo. Consegui resumir alguma coisa do que vivi nesse tempo aqui: Minha Experiencia na Umbanda.

Um pouco depois conheci mais 2 grandes mestres. Sergio Venuto e Sergio Kienteca. Esses vieram com tudo. Me fazendo questionar fortemente aspectos da minha realidade. Temas do cotidiano como emprego, faculdade, moradia eram pauta de nossas conversas e a desconstrução de antigos paradigmas se deu de forma bem intensa…
Kienteca, compartilhando seus dias tardes e noites, descobrimos um novo mundo através da verdade presente em nossos corações. “Entrando em parafuso”, tentando achar a resposta para nossas perguntas, caminhávamos juntos tropeçando e aprendendo com nossa afirmações fundamentadas no nosso mais sensato achismo.
Venuto explorando a livre aprendizagem, o bem viver, o custo zero, o realizar, trabalhando as questões mais densas da vida. O aspecto material, as teorias concretas e a razão sempre foram e ainda é são muito bem desenvolvidos quando estou com Sergio Venuto. Uma das pessoas que mais admiro. Em minha opinião sua generosidade e humildade são imensuráveis.

Tempos mais tarde redescobri o amor na querida Mari Quinteiro. Me fascinou com sua filosofia de vida tão semelhante à minha, mesmo sem saber de todas as teorias que eu havia estudado. Me fez aprender muito compartilhando sua experiencia de vida e sua casinha. Mari foi a pessoa que mais me fez entender que as coisas tem suas razões para acontecerem e as pessoas tem seus motivos para agirem da forma como agem. Quem me ajudou à enxergar além das fronteiras entre certo e errado. Carrego-a no coração eternamente. Nessa meiga menina consigo ver a manifestação mais pura do amor.

Eis que, do nada, surge Marina. Transbordando alegria, com um sorriso maior que o próprio rosto e a gargalhada mais gostosa que já tive o prazer de apreciar. Um jeitinho de mulher, de criança, fascinante. Uma agradabilíssima companhia para qualquer hora. Se alguém detém o segredo de como viver feliz e de bem com a vida, ela se chama Marina Nicolaiewsky. Um mundo de Marinas seria uma explosão de cores. A admiração não é pouca por essa artista da vida.

Zezito foi quem veio em seguida. E muitos são os que o vêem e o respeitam como mestre. Dono de um vasto conhecimento sobre o corpo humano e sua relação com as emoções. Uma sensibilidade espiritual altamente desenvolvida e uma capacidade de acolher o mundo em seus braços. “Caridade” e “prazer em servir” deveriam ser seus segundos nomes.

Apesar do pouco tempo de convívio, Zé Vivo foi aquele que me fez alcançar os pensamentos mais profundos do meu eu. Paradoxos que tive dificuldade em compreender. Dono de uma forte personalidade, me introduziu aos grandes saberes ocultos na alimentação viva e surgiu do dia pra noite. Apenas para me mostrar um caminho escondido dentro de mim.

Agora, mais uma vez, o simples ato de fluir e se permitir me levou à um lugar mágico para conhecer uma pessoa linda e somar forças para desenvolver um belo trabalho. A sintonia foi forte. Acompanhado da amável e sensível Glória, Aiuruoca é o lugar do meu mais novo pouso.

"Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O cuidado com o outro

Após morar por mais de 2 anos em casas abertas e colaborativas (co-housing para os alternativos que gostam de dar nomes), o que mais chamou minha atenção, observando as diversas dinâmicas naturais e espontâneas da casa, foi o cuidado com o outro, ou a falta de.

Nossas ações sobre as coisas são passiveis de depreciação, sempre. O que me deixa triste, é ver isso acontecendo de forma desproporcional, seja qual for o lugar que eu frequente.
Normalmente quem se preocupa com a manutenção do espaço é o "dono" dele. Raramente há essa preocupação por parte daqueles que estão ali apenas fazendo uso do mesmo.
Nos movimentos de casa compartilhada que comecei com amigos, esse cuidado era mais observado pelos visitantes, mas ainda assim estava longe de ser algo sustentável para a integridade do lugar.

Conversando com o Sergio, fiquei com um olhar ainda mais atento à isso.
Os meus segundos de descuido podem representar horas de trabalho para o outro gerando um trabalho desproporcional que poderia ser evitado, não fosse meu ato preguiçoso. Vou dar alguns exemplos práticos:

Se eu piso com o pé sujo no chão da cozinha, alguém terá que limpa-lo em algum momento e certamente gastará muito mais tempo do que eu, se tivesse deixado o sapato do lado de fora.
Se alguém se acidenta com um prego que eu, despreocupadamente, larguei no chão, além da exposição ao risco, a ferida dessa pessoa vai demorar muito mais para sarar do que se eu tivesse feito o devido descarte.
Se eu tiro uma coisa do lugar e não devolvo, alguém pode perder o dia procurando tal coisa que me tomaria alguns segundos para guardar onde peguei.

O pior é que esses exemplos passam desapercebidos com facilidade no dia a dia. Inacreditavelmente é preciso ter um olhar criterioso pra observar-los.
Estou acostumado, e me causa muito desconforto, ver a louça deixada na pia para a mãe lavar, o banheiro acumulando sujeira para a diarista limpa-lo no fim da semana e ainda a ação machista dos pais de família em dias de celebração que deixam todo o serviço de casa para as mulheres, enquanto passam o dia sentados assistindo TV.

Durante todo o dia estamos depreciando desproporcionalmente os lugares por onde passamos, porque nosso ser egoísta, inconscientemente, já acredita que a manutenção do espaço é responsabilidade do outro. No supermercado quando não devolvemos o produto às gôndulas, nas lanchonetes e restaurantes quando deixamos o prato em cima da mesa, nos shows e festas que jogamos o lixo no chão, nos banheiros públicos... esses não preciso nem comentar, parecem um depósito de excrementos, e só. O que é ainda mais grosseiro é pensar que alguém deve fazer aquilo porque estamos pagando, nos livrando assim de toda a responsabilidade. Justificar nossa cretinice designando um encarregado para a função é o cúmulo do descuidado.

O ato de usar e repor é saudável para o ambiente. Aprendi a passar por um lugar e se não puder deixar melhor, deixa-lo pelo menos igual ao que encontrei.
Se você, meu amigo, chegar na minha casa (que entendo como sendo nossa casa) e usufruir dos recursos de forma descuidada, certamente sua ação será notada e sua atenção será chamada para a forma como você está agindo.

Um lugar onde há celebração e há trabalho, ou todos trabalham e todos celebram de forma integrada, ou as chances de uma convivência harmoniosa tendem a diminuir exponencialmente.

domingo, 20 de julho de 2014

O tempo e as jabuticabas

*Texto de Ruben Alvez

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Manifesto homens libertem-se!!!

- Quero o fim da obrigatoriedade ao Serviço Militar.

- Posso broxar. O tamanho do meu pau também não importa.

- Posso falir. Quero ser amado por quem eu sou e não pelo que eu tenho.

- Posso ser frágil, sentir medo, pedir socorro, chorar e gritar quando a situação for difícil.

- Posso me cuidar, fazer o que eu quiser com a minha aparência e minha postura, cuidar da minha saúde, do meu bem estar e fazer exame de próstata.

- Posso ser sensível e expressar minha sensibilidade como quiser.

- Posso ser cabeleireiro, decorador, artista, ator, bailarino; posso me maravilhar diante da beleza de uma flor ou do voo dos pássaros.

- Posso recusar me embebedar e me drogar.

- Posso recusar brigar, ser violento, fazer parte de gangues ou de qualquer grupo segregador.

- Posso não gostar de futebol ou de qualquer outro esporte.

- Posso manifestar carinho e dizer que amo meu amigo. Quero viver em uma sociedade em que homens se amem sem que isso seja um tabu.

- Posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata; posso usar saia se eu me sentir mais confortável.

- Posso trocar fraldas, dar a mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças.

- Posso deixar meu filho se vestir e se expressar ludicamente como quiser e farei tudo para incentivá-lo a demonstrar seus sentimentos, permitindo que ele chore quando sentir vontade.

- Posso tratar minha filha com o mesmo grau de respeito, liberdade e incentivo com que apoio meu filho.

- Posso admirar uma mulher que eu ache bela com respeito, sem gritaria na rua e me aproximar dela com gentileza, sem forçá-la a nada.

- Eu sei que uma mulher está de saia – ou qualquer outra roupa – porque ela quer e não porque está me convidando para nada.

- Eu sei que uma mulher que transa com quem quiser ou transa no primeiro encontro não é uma vadia, bem como o homem que o faz não é um garanhão; são só pessoas que sentiram desejo.

- Eu nunca comi uma mulher; todas as vezes nós nos comemos.

- Eu não tenho medo de que tanto homens como mulheres tenham poder e ajo de modo que nenhum poder anule o outro.

- Eu sei que o feminismo é uma luta pela igualdade entre todos os indivíduos.

- Eu nunca vou bater numa mulher, não aceito que nenhuma mulher me bata e me posiciono para que nenhum homem ou mulher ache que tem o direito de fazer isso.

- Eu vou me libertar, não para oprimir mais as mulheres, mas para que todos possamos ser livres juntos.

- Eu fui ensinado pela sociedade a ser machista e preciso de ajuda para enxergar caso eu esteja oprimindo alguém com as minhas atitudes.

- Eu não quero mais ouvir a frase “seja homem!”, como se houvesse um modelo fechado de homem a ser seguido. Não sou um rótulo qualquer.

- Quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso. E me amarem e aceitarem, não por quem acham que eu deva ser, mas por quem eu sou. E por tudo isso, não sou mais ou menos homem.

- Quero ser mais que um homem, quero ser humano!

- O machismo também me oprime e quero ser um homem livre!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

As Confusões a Respeito das Dietas e Alimentos

Achei muito legal esse texto sobre as confusões a respeito das diversas dietas e filosofias contemporâneas. Aqui Isabelle A. Moser compara a adoção de uma dieta única e exclusiva à um fanatismo religioso. Não há uma dieta perfeita, e sim uma pessoa perfeitamente capaz de escolher o alimento que melhor tem resultado em seu corpo.


Texto de Dra. Isabelle A. Moser
livro: Como e Quando ser seu Próprio Médico

"Assim como minha filha, muitas pessoas de todas as idades e épocas estão enganadas a respeito da relação entre saúde e dieta alimentar. Sua confusão criou um lucrativo mercado para informações relacionadas à saúde. E igualmente, suas confusões foram criadas por livros, artigos de revistas e noticias de TV. Esta avalanche de dados é altamente contraditória.

Na verdade, uma das razões pelas quais achava que dificilmente escreveria meu próprio livro é que eu pensava comigo mesma, e se meu livro também se tornar apenas uma outra parte desta confusão? Ao invés de viver com o desconforto de não saber o por quê, eles criarão uma explicação ou encontrarão alguma resposta, qualquer resposta, e então, depois disso, se agarrarão a esta certeza como um náufrago se agarra a um mastro flutuante durante uma tempestade. Assim é como eu explico a gênesis de muitas religiões de alimentação contemporânea.

Apropriadamente, espiritualistas e macrobióticos ensinam que o caminho para a saúde perfeita é comer como um vegetariano japonês, sendo a lista interminável: arroz integral, alguns vegetais cozidos e algas marinhas, balanceando o yin e o yang dos alimentos. E a macrobiótica funciona bem para muitas pessoas. Mas não para todas. Porque não há nada cru na dieta macrobiótica e algumas pessoas são ou podem se tornar alérgicas ao arroz nesta dieta. 

A Dieta de Linda Clark para um Planeta Pequeno também tem centenas de milhares de seguidores dedicados. Este sistema balanceia as proporções de aminoácidos essenciais em cada uma das refeições e é vegetariana. Esta dieta também funciona e realmente ajuda algumas pessoas, mas não tão bem quanto a dieta macrobiótica em minha opinião porque, obcecada com proteína, a dieta de Linda Clark contém muitos produtos de soja difíceis de digerir e faz más combinações do ponto de vista da capacidade digestiva. 

Então, existem os crudívoros. A maioria dos que comem alimentos orgânicos crus chega a comer apenas cereais não refinados que ficaram de molho em água morna (a menos de 40 graus C. ou você destruirá as enzimas) por muitas horas para amaciar as sementes e fazê-las brotar. Esta dieta funciona e realmente ajuda muita gente. O crudivorismo orgânico é especialmente bom para Holy Joes, um tipo de pessoa de grande virtuosidade que por possuir seu próprio sistema alimentar, acredita ser melhor que as outras pessoas.

Mas o crudivorismo não ajuda todas as pessoas nem resolve todas as doenças porque alimentos crus irritam o trato digestivo de algumas pessoas e em climas frios é difícil de manter o corpo aquecido com esta dieta porque é difícil consumir vegetais concentrados suficientes em seu estado cru. E alguns são frugívoros, comem apenas frutas e nada mais, nem verduras nem nozes. Eu os vi perder seus dentes por causa do baixo conteúdo mineral das frutas e o alto e constante nível de ácidos de frutas em suas bocas.

Então existem os vegetarianos de vários tipos inclusive os vegans (vegetarianos que não comem laticínios nem ovos, nem nada que seja de origem animal), e então seus opostos exatos, os seguidores da dieta do Dr. Atkins, que se focam em proteínas e comem muita carne. Há a escola de Adelle Davis: pessoas comendo grãos integrais, punhados de vitaminas, muitos laticínios, levedo de cerveja e germe de trigo, e até mesmo fígado cru. E então há a escola orgânica. Este pessoal comerá tudo em todas as combinações, contanto que seja organicamente produzido, inclusive bife, frango, carneiro, ovos, coelho, carne de caça, leite e laticínios, sal marinho natural em grandes quantidades e claro, frutas, vegetais, grãos e nozes.

E o que é orgânico? A palavra significa alimento produzido de acordo com conjunto de regras inteligentemente elaboradas por uma certificação burocrática. Quando cuidadosamente analisada, as regras meio que ilógicas não são nada diferentes, em espírito, das regras alimentares de determinadas religiões como a dos judeus. E os burocratas da certificação orgânica também não são tão diferentes dos rabinos que certificam os alimentos nestas religiões. 

Existem agora milhões de americanos assustados que, seguindo o conselho de autoridades em estilo de vida, eliminaram carne vermelha de suas vidas e reduziram drasticamente o que eles (erroneamente) entendem como alimentos ricos em colesterol.

Todas estas dietas funcionam também, ou pelo menos algumas, e todas demonstram alguma verdade. A única área relativa à saúde onde existe mais confusão e informação contraditória que a das dietas é a área relativa às vitaminas. Que balaio de gatos!

Se você acredita verdadeiramente em alguma das religiões alimentares acima mencionadas, vai achar meus pontos vista desestabilizantes. Mas o que eu considero uma dieta boa resulta de meu trabalho clínico com milhares de casos. É o que tem funcionado com estes casos. Meus pontos de vista ecléticos incorporam partes e pedaços de todos os sistemas alimentares anteriormente mencionados. Em meu próprio caso, eu comecei seguindo a escola Orgânica, e fui uma vegetariana crudívora que não comeu nada cozido por seis anos. Eu também me alimentei de acordo com a Macrobiótica por volta de um ano até me tornar violentamente alérgica a arroz. 

Cheguei a um ponto onde entendi que a bioquímica de cada pessoa é única e cada um deve trabalhar sua própria dieta para se adaptar a seus objetivos e estilo de vida, predisposição genética, e estado de saúde atual. Não existe uma única dieta correta. Mas há um único, básico e subjacente Princípio de Nutrição que é universalmente verdadeiro. 

Em sua forma mais simplificada, a equação básica da saúde humana é: Saúde = Nutrição/ Calorias. A equação está longe de explicar a origem de cada doença individual ou como curar as doenças, mas Saúde = Nutrição / Calorias mostra o caminho geral em direção a alimentação saudável e uma medicina apropriada.

Todos os animais têm os mesmos exatos problemas dietéticos: encontrar nutrição suficiente para construir e manter seus corpos dentro dos limites de sua capacidade digestiva. Raramente na natureza (exceto para os predadores carnívoros) há qualquer restrição no número de calorias ou séria limitação da quantidade de alimentos de baixo teor nutritivo disponível para consumo. Exceto pelos animais caseiros de estimação, os animais são sensíveis o suficiente para preferir os alimentos mais nutritivos e tendem a evitar calorias vazias a menos que estejam morrendo de fome.

Mas os seres humanos são perversos, não são sensatos. Ao decidir basicamente por sabores artificialmente criados, ao preferir texturas insípidas, parece que temos preferência por junk food (literalmente comida lixo) e nos tornamos escravos de nossos vícios alimentares. 

Por exemplo, em países tropicais existe uma raiz largamente cultivada em vários lugares: a mandioca. Esta interessante planta produz a maior, mais digestiva e agradável quantidade de calorias por acre comparada com qualquer outra lavoura que eu conheço. A mandioca poderia ser (mas não é) a resposta para a inanição humana porque ela cresce abundantemente em solos tropicais tão inférteis e/ou tão ressecados que nenhuma outra lavoura poderia ser ali cultivada com sucesso. A mandioca pode ser cultivada ali porque ela não precisa de virtualmente nada do solo para crescer. 

E conseqüentemente, a mandioca põe quase nada de nutrição em suas partes comestíveis. A pouco saborosa raiz é virtualmente puro amido, um carboidrato simples não muito diferente do amido puro de milho. As plantas constroem amidos do gás dióxido de carbono obtido do ar e do hidrogênio obtido da água. Não existe escassez nem mesmo do carbono obtido do CO2 no ar e raramente há escassez do hidrogênio da água. Quando o amido altamente digestível da mandioca é mastigado, as enzimas digestivas prontamente o convertem em açúcar. Em termos de nutrição, não há virtualmente nenhuma diferença entre comer mandioca e comer açúcar branco. Ambos são inteiramente calorias vazias.

Numa escala de ideal, a pior em relação ao índice de nutrição por calorias, é aquela que contém o açúcar branco, a mandioca e a maioria das gorduras, pois eles estão no extremo inferior da escala. Francamente não sei qual alimento sozinho poderia estar no extremo superior. Perto da perfeição devem estar certamente os vegetais verdes folhosos que podem ser comidos crus. Quando são cultivados em solos extremamente férteis, alguns verdes desenvolvem 20 ou mais por cento de proteínas balanceadas digestíveis com proporções ideais de todos os aminoácidos essenciais, muitas vitaminas, toneladas de minerais, toda sorte de enzimas e outros elementos nutricionais, e muito pouco calorias. Você poderia
encher seu estômago continuamente com verdes folhosos crus e ainda assim ter dificuldades em manter seu peso corporal, se esta for sua única fonte de alimentos. Talvez Popeye, o marinheiro estivesse certo a respeito do espinafre.

Por enquanto, vamos ignorar inabilidades genéticas individuais de digerir alimentos específicos e também ignorar os efeitos que o stress e a enervação podem ter em nossa habilidade de extrair nutrição dos alimentos que consumimos. Sem considerar estes fatores, é correto dizer que uma pessoa será saudável se sua dieta contiver a quantidade máxima potencial de nutrição relativa ao número de calorias ingeridas. À medida que a dieta se afasta do ideal, as doenças se desenvolverão. Pense nisso!"

terça-feira, 3 de junho de 2014

O parto de João

Texto de João Valadares*

"Parto de homem. É sobre isso que quero falar. E é para eles que escrevo. Então vou começar do começo. Ela estava no avião, foi ao banheiro e me telefonou: "estou grávida". Não teve tempo de falar mais nada. As portas já estavam em automático. Desligou. Fui buscá-la no aeroporto e, no caminho para o laboratório mais perto, completou a frase interrompida pela aeromoça: "quero ter o nosso filho em casa". A cabeça dura-sertão do macho pernambucano, dos miolos encaretados pelo sol, desinformado e suposto senhor da ações, travou. "Em casa? Você é maluca?". Ela não falou mais nada. Nem eu. Segui calado, com aquela angústia-catapora, que faz tudo coçar por dentro.


No outro dia, comecei a pesquisar sobre nascer em casa. Em apenas um dia, li muito. Um turbilhão gigantesco de informações. No outro dia, li mais ainda. E assim seguiu. Fui a todos os encontros e consultas. Ouvi depoimentos lindos sobre o nascimento. Escutei também um relato de uma mulher decepcionada, pessimamente atendida num hospital público de Brasília porque apenas queria que o filho nascesse na hora que ele quisesse nascer. Ouvi muito mais. Com três meses de gestação, não tinha absolutamente mais nenhuma dúvida. Meu filho nasceria aqui, no seu quarto, com o cheiro da nossa casa, num ambiente afetuosamente preparado para tentar parecer o escurinho quente da morada onde viveu por nove meses. E assim aconteceu.

Mulher foi feita para parir. Homem não. Mas homem também foi feito para sentir. E o parto em casa me proporcionou isso. Eu pari junto. Eu eu Cecilia viramos um só dentro da água. É sobre isso que quero falar. Sou um homem que senti o corpo da minha mulher tremer a cada contração. Sou um homem que senti os músculos da minha mulher esticar e relaxar numa dança perfeita. Sou um homem que emprestei meu corpo para minha mulher beliscar e aliviar a dor do nascimento. Choramos muito. Ela de dor. Eu de outro tipo de dor. Parimos.

É isso. Eu não estava num baby-lounge, longe do meu filho, olhando tudo por uma televisão. Também não estava separado por um pano verde, impossibilitado de perceber o olhar do meu filho na primeira vez que viu o mundo. Eu estava ali, do lado, sentindo e vendo a natureza no seu estágio mais verdadeiro. Vendo minha mulher virar um bicho, gritando e se contorcendo para proporcionar ao nosso filho uma chegada sem nenhum tipo de intervenção. Uma chegada sem luz forte no rosto, sem mãos estranhas, sem aquela higienização terrorista de manual, sem a impessoalidade de um quarto frio com objetos que não são nossos, que não foram colocados por nós.

Desajeitado que sou, descobri que sei fazer massagem. Ah como foi bom perceber o alívio imediato quando apertava as costas de Cecília e ela mudava de som. Fiz isso por duas horas seguidas. Na verdade, posso dizer que era uma espécie de automassagem. Quando percebia que, de alguma maneira, era ator ativo do parto da minha mulher, do nosso parto, descobri que era mais do que pai. Muito mais.

Não escrevo para encorajar mulheres. Escrevo para encorajar os homens. Se puderem, passem por isso. A experiência mais incrível de toda minha vida. Francisco demorou cinco horas para nascer. Não houve nenhum tipo de intervenção. Ninguém sequer tocou em Cecília. Ele nasceu quando queria nascer. Passou dez minutos com a cabeça dentro da água. Ninguém o puxou. A natureza o empurrou quando achava que deveria empurrar. E ele saiu direto para os nossos braços. Ficamos ali por uns 20 minutos acarinhando o nosso filhote, tentando ainda entender como uma pessoa sai de dentro de outra. E foi lindo. Esperamos a placenta sair, cortamos o umbigo e pronto. Cecilia se levantou, eu me levantei e fomos conversar na cama. Ficamos ali por horas, olhando o nosso filho. O melhor: na nossa casa.

Nada disso seria possível sem as parteiras incríveis Ana Cyntia Paulin Baraldi e Iara Silveira. Sem o auxílio de Carmen Palet, a mulher que ensina a coisa mais simples da vida: respirar.
Nada disso seria possível sem eu e Cecilia."

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sergio Kienteca

Alguns anos atrás fui apresentado para uma menina como a pessoa mais doce que ela poderia conhecer.
Já esqueci quem era a menina, mas a ocasião se deu no Curto Café e quem me apresentava dessa forma tão gentil era o Sergio Kienteca (Ki, para os intimos). Ao retribuir a gentileza, me referi ao meu amigo como a pessoa mais espontânea do mundo. 
Nesse contexto era mais excitante a doçura de uma pessoa do que sua espontaneidade. Fato percebido pela leve frustração do Ki com minha tentativa de atribuir-lhe valor.

Nessa época eu ainda morava no Rio e gerávamos tanto aprendizado juntos que era comum voltarmos pra casa ansiosos pelo próximo dia e com dores de cabeça de tanto refletir sobre a vida.
Muito depressa identificamos que todo aprendizado que vinha sendo gerado a cada momento só era possível porque estávamos sendo verdadeiros um com o outro. Verdadeiros com nossos sentimentos e buscando a forma mais legitima de expressa-los. É verdade que faltavam palavras, mas esse era o grande exercício. Responder para nós mesmos os motivos de nossas angustias, tristezas e buscar a origem de tudo isso.

As circunstancias da vida nos afastou, sem pesares, sem tristeza, de forma natural e compreensível. 2 anos se passaram e muita coisa aconteceu. Vivi experiencias incríveis, muitas compartilhadas aqui no blog. Dezenas de lugares, milhares de pessoas e interações, cada qual com sua especificidade. E dentre tantos lugares e pessoas encontrei muita naturalidade e espontaneidade mas nunca um alguém tão sincero quanto Sergio Kienteca.

Se eu pudesse voltar ao dia em que fui apresentado como a pessoa mais doce do mundo, apresentaria meu amigo como a pessoa mais sincera de sentimentos que já conheci. A mais profunda verdade se encontra no coração de Kienteca. Hoje em dia, com minutos de conversa, já é possível perceber a pureza de suas intenções.

Me sinto grato por te-lo conhecido e por vc ter me ajudado a desconstruir o pilar principal de um mundo de confusão que eu vinha construindo até então. Gratidão pela clareza de sentimentos, meu irmão. Beijos no coração. Fique em paz!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre o facebook (por Claudio Oliver)

Texto de Claudio Oliver*

"Amigos e Amigas.... estar aqui no Facebook, me conectando sobre as coisas que faço (não exatamente quem sou) tem sido uma ferramenta útil para inspirar alguns, animar outros, e mesmo reconectar com pessoas distantes. Mas esse não sou o eu real, somente disponível para quem tenho a oportunidade de olhar nos olhos, andar por ai, trabalhar junto... esse facebook realmente é bem bom para encontrar pessoas, mas ... meu tempo se esvai, cada semana vou ficando com menos acesso a internet... e pior.. tem sido bom.
Estou comunicando que , lentamente, vou começar a sumir daqui. POde ser que assim eu acabe sumindo de sua vida, lembranças ou intenções, mas tem um mundo lá fora, que tem sido compartilhado com alguns poucos... e meus amigos aqui estão convidadíssimos a fazer parte dele. Tenho ficado uns dias sem telefone, sem internet e sem contato com rádio. Se ocorre um crime, não sei, se ocorre um terremoto no Japão, fico sabendo quando já foi limpo. E sabe o que? acabo gostando.
Como toda tecnologia, esta aqui é boa, adianta alguns passos, estende sentidos e partes do corpo, assim que passa um primeiro umbral, e abre possibilidades novas em um primeiro momento.
Como toda tecnologia, essa aqui sofre de uma Contraprodutividade Paradoxal, que acaba gerando mais perdas que os ganhos óbvios que produz a princípio.
E como toda tecnologia, do alfinete ao foguete, só é útil e boa se mantida dentro de limites.
VAi levar uns meses, por respeito a amigos queridos, mas vou me despedindo do FAcebook, quem sabe depois do email, e devagarzinho, vou retomar a caneta, o papel e o envelope.
Devagar pois quero pegar o endereço de alguns, voltar a ir ao correio, melhorar a caligrafia para que me entendam e retomar este ultimo pedaço de minha vida que falta retomar.
Foi bom estar aqui, vai ser bom ainda estar aqui um tempo, mas lentamente estou indo embora, respeitando e celebrando muito os amigos aqui feitos.
Vou ver de novo como é caro processar e revelar fotos para poder compartilhar... e começo por deixar de lado a notícia em tempo real, a foto postada em alguns minutos. A gente vivia bem assim antes...
Amigos, estou indo embora daqui, nem hoje, nem amanhã, mas indo, com certeza para ficar onde dá pra ficar. O tempo de trocar endereços com alguns será bem bom, para reaprender a escrever cartas, e faze-las bem, para lembrar quanto tempo leva. Espero que consiga.
Foi difícil mudar o jeito de comer, de trabalhar, de cuidar do lixo, de vestir. Vai ser complicada essa etapa também, mas melhor agora que antes de viver confuso entre o virtual e o concreto, escravizado pela dependência à ferramenta. Espero que funcione.
Forte abraço a quem leu até aqui. Gosto mesmo da maioria dos amigos de minha lista... dei uma boa olhada nela antes de tomar essa decisão, vamos ver no que vai dar."

terça-feira, 25 de março de 2014

Carta que escrevi à uma amiga

Querida,
apesar da distância, ainda converso bastante com seu irmão. Não é nenhuma surpresa que nossos familiares sempre acabam sendo parte da conversa, creio que pela preocupação e carinho que temos uns pelos outros. Ultimamente falamos sobre você, o que motivou sua viagem e o que ela trouxe de aprendizado. Bom, especulamos algumas coisas, mas isso só você pode dizer.

Gostaria de compartilhar com você um pouco do que tenho vivido desde que sai da casa da minha mãe. Pode ser que de alguma forma você queira se apropriar da minha experiência. Digo isso porque uma grande fonte de autoconhecimento, para mim, foi a análise do relato das experiencias de pessoas próximas.

Basicamente o que me motivou a buscar o tipo de vida que levo foi a minha insatisfação com a vida que levava. Como você deve saber trabalhei em alguns lugares mais pelo retorno financeiro do que pela satisfação pessoal. Acreditava, de verdade, que um trabalho satisfatório surgiria com o tempo. Sempre sai para bares e restaurantes com amigos buscando algum entretenimento e alívio de uma semana cheia de trabalho.

Quando percebi que não estava fazendo o que me deixava feliz comecei, por conta própria, a buscar por algo que não sabia bem o que era. Não sabia o que queria, mas sabia perfeitamente o que não queria. Fui conhecendo gente de movimentos sociais do meu interesse, realizando atividades culturais que me inspiravam e sem perceber já vivia outra realidade. Atraia cada vez mais pessoas que pensavam parecido com meu ideais. Aprendi a desapegar dos antigos amigos e me abrir ao desconhecido.

Não demorou muito para começar a trabalhar com esses novos amigos e ter mais tempo livre para as coisas que eu gostava. Trabalhei em restaurante de amigo, cafeteria de amigo, casa de umbanda de amigo, intervenções urbanas com amigos e projetos sociais diversos. Surgiu a oportunidade de fazer um curso de instrutores de yoga e lá se foi todo o dinheiro do meu suado trabalho, mas sentia uma leve confiança no que estava fazendo.

Meses depois já estava morando no lugar onde cursava yoga (Visconde de Mauá).
Nessa época, creio que por estar vivendo de uma forma bem incomum, fui taxado de louco, hippie, maconheiro, utopista, idealista, socialista, anarquista, enfim... coisas de quem não se preocupa muito em conversar para saber a verdade. A verdade é que eu estava tentando ser feliz.
Felizmente eu já estava bem trabalhado psicologicamente para não deixar a opinião dos outros afetarem muito minhas decisões.

Foi ai que começou uma mudança a saltos quânticos dentro de mim. Morava em um lugar totalmente integrado com a natureza, fazia amigos com uma grande facilidade, me sentia bem para dizer a verdade pra qualquer um. Aprendi a dizer a verdade sem parecer ofensivo. Tinha tempo pra mim e para os outros e, cada vez mais, fui percebendo o que eu gostava, quais eram minhas habilidades, o que nasci pra fazer. Comecei a plantar, construir, escrever, dançar, e eu, que nunca liguei muito pra isso, até descobri o prazer em estudar. Escrevi algo na época: Relato de uma vida kavernosa.
Minha fonte de renda vinha dos cafés que eu vendia aos fins de semana para os turistas e não me preocupava em garantir mais do que o necessário para viver bem. E, com bem, quero dizer: alimento em abundância e uma casa confortável com um belo jardim.

Findo o contrato da casa voltei para o Rio e já não era a mesma coisa. Não passou um mês para que eu pegasse a minha bicicleta e embarcasse numa viagem “louca” sem dinheiro até Paraty. Arrumei uns trapos e sai com mais 2 amigos pela estrada. Nesse momento a minha segurança vinha da minha facilidade de me comunicar com as pessoas (coisa que sempre foi um sério problema até meus 18 anos) e a imensa rede de pessoas dispostas a me ajudar caso eu precisasse. Durante o caminho fui fazendo um diário de bordo, se quiser ler, ta aqui: Brasil de Bicicleta.
E essa foi a segunda das mais ricas experiências da minha vida. Aprendi a humildade de pedir por alimento e abrigo. Me forcei a ter que conversar com desconhecidos e me surpreendi com a sensibilidade e generosidade das pessoas.

Chegando em Paraty conheci um trabalho incrível de massoterapia. Fazia aulas gratuitas e antendia a população da cidade também gratuitamente. Depois de 1 mês morando em casas de amigos que fiz por aqui, achei um lugar, que eu considerei mágico, para morar. Era uma caverna de verdade. Um amigo generosamente pagou o primeiro aluguel e nesse mesmo lugar, assim como em Mauá, comecei um novo movimento de co-housing. Mais boas experiencias, aprendizados e novos amigos.
Por aqui vivi quase sem gastar dinheiro. Produzia e arranjava em mercados locais alimento facilmente. O aluguel de 400 reais era dividido por 4 pessoas e ainda entrava a colaboração dos amigos que vivenciavam a experiência na toca.

No fim do ano passado me agarrei com uma menina (a Ale) e resolvemos fazer uma viagem até a Bolívia. Desta viagem, que não me orgulho muito de ter feito, posso tirar grandes reflexões. Posso até dizer que vivi 2 dias, viajando sozinho e sem dinheiro (por opção) numa cidade com grande preconceito com viajantes, que foi a terceira experiencia mais intensa da minha vida. A Alê tem um desejo intenso de viajar e conhecer novos lugares. Acredito que esqueci de mim e passei a viver o sonho de outra pessoa por alguns momentos.

Voltei pro Rio com a Alê mês passado e uma semana depois já estava em Paraty novamente. Me reconectando com meu eu, distribuindo sorrisos e abraços como estava acostumado a fazer (tive grande carência dessa recíproca na viagem). A Alê conheceu, em Paraty, uma menina que queria fazer a mesma viagem que ela e lá foram as duas viver seus sonhos e desejos.

Com tudo isso aprendi a não criar expectativas em cima das pessoas e dos acontecimentos. Saber viver cada momento de uma vez é minha maior riqueza. Me permitir ao imprevisível, ao desconhecido, aceitar as mudanças, conviver com elas, é algo único e não pode ser tangibilizado. Podemos fazer o que quisermos. Nunca teremos controle sobre nossas vidas, mas estamos constantemente aprendendo a vive-la. E se existe alguém capaz de mudar a sua forma de agir e de pensar, é você mesmo.

Com minhas andanças, posso dizer com segurança que somos felizes exceções da sociedade, pois o amor incondicional que recebemos dos nossos pais, quando pequenos, facilitam, e muito, essa busca por autoconhecimento e amor próprio.

Hoje estou em Paraty. Morando num quarto de uma escola alternativa com uma filosofia de livre-aprendizagem, onde facilito atividades de yoga, jardinagem e musica 1 hora por dia em troca da hospedagem, enquanto procuro uma casa confortável para alugar. Continuo atendendo a população local com massagem gratuita e como fonte de renda faço massagem na academia de capoeira de um amigo dando a alternativa de contribuição espontânea (pagam quanto querem). Me alimento basicamente de vegetais e dou oficinas de alimentação viva esporadicamente. Se alguém me perguntar se minha busca chegou ao fim ou se me sinto realizado, são coisas que, sinceramente, não sei se há uma resposta. Sei que cada vez mais tento fazer as coisas que me deixam em paz comigo mesmo. Isso pra mim é felicidade.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Quem deixa a chave debaixo do tapete

Há pouco mais de 3 anos eu e mais alguns amigos "doidos" percebemos que para gerar abundancia para todos que estavam a nossa volta bastava compartilhar nossos recursos.

E assim iniciamos de forma muito espontanea um movimento de casa compartilhada. Não só roupas , ferramentas ou eletronicos eram compartilhados, mas nossa casa, com tudo que havia dentro dela.

E assim foi com Maiko e Kienteca no Rio, Sergio em Penedo, eu e Nando em Visconde de Maua e meses depois em Paraty. Nos sentiamos fazendo parte de uma rede que colaborava para o fim da escassez. Que dava oportunidade de acesso a quem quer que precisasse. Desde usar o banheiro até passar uns meses na casa. É só chegar, mesmo sem ninguém, a chave ta na porta.

Por onde passamos fizemos, pelo menos, algumas pessoas refletirem sobre o uso das suas casas. Muitas chegaram a dizer "a minha casa também é uma kaverna" (apelido que usamos pra nossa casa). "Se voce estiver por tal região, pode ficar lá em casa".

Hoje estou na casa da doce Joana em Campo Grande tomando um suco verde. E sinto uma enorme  gratidão pela forma tão natural em que ela disse: "Se quiser fica la em casa, a chave ta com a vizinha".

Fico muito emocionado quando as pessoas percebem a riqueza deste simples ato de desapego e generosidade. Gratidão a todos os amigos irmãos que deixam a chave "debaixo do tapete" para qualquer eventualidade. Isso é de uma delicadeza infinda.

"O grande segredo para plenitude é simples: compartilhar."
Sócrates

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Movimento 5 - Chegando em Santa Cruz

Na manhã do dia primeiro de fevereiro ficamos na espera da Marta e do Thiago (primos da Alê) chegarem em Campo Grande. Fizemos um grande sanduiche de purê de abóbora que nos satisfez pelo resto do dia. À noite, quando a Marta chegou de São Paulo fomos encontra-la na casa dos pais do Thiago. Nos despedimos da família Martinez com muita gratidão e bençãos de boa viagem. A Raquel, super gentil, mais uma vez, nos levou até o endereço certo.

Ficamos na casa dos pais do Thiago mais um dia. Passamos pelo mercadão, visitamos o belo parque da cidade, onde as capivaras transitam livremente no meio das pessoas. Refizemos o já conhecido purê de abóbora (que provavelmente vai entrar nas receitas do blog da Alê) e torcemos por uma boa noite de sono para seguir viagem pra Corumbá na manhã seguinte.

Por volta das 11h da manhã do dia 03/02 estávamos pedindo carona num posto na entrada da cidade, onde o Thiago nos deixou. Desta vez sem mochilas pesadas. Os primos ficaram de levar os quilos a mais e nos encontrariamos em Corumbá no dia seguinte.

Jonatas, um camarada sagaz, ao passar por nós pela segunda vez, deu o bizu que ali seria dificil pegar carona até Corumbá e nos levou para uma rota mais frequente de caminhões, uns 15 km à frente. Então conhecemos Vanderlei. Aparentemente um sujeito não muito receptivo e sinceramente rolou até uma certa desconfiança (peço desculpas ao nosso amigo, mas foi o que nossa cabeça preconceituosa foi ensinada à pensar). Logo fomos explorando a figura de Vanderlei e descobrindo seu lado mais sensível. E haja sensibilidade nos corações dos caminhoneiros que vivem pelas estradas. Falamos sobre lei da atração e a força da natureza. Como o universo conspira a nosso favor. Percebemos que muito de comum havia entre nós, apesar de darmos nomes diferentes aos mesmos fenômenos sobrenaturais.

Com ele fomos até um posto à 70km de Corumbá. Só paramos para conhecer a Dona Maria, protetora dos jacarés. No meio da estrada pantaneira, uma senhorinha vive harmoniozamente ao lado de um pequeno lago com cerca de 300 jacarés.

Chegando ao posto nos deparamos com uma linda fauna. Pássaros de várias espécies voando livremente pelos céus. Até araras azuis chegaram à uma árvore próxima à nós.
Sem demora, o querido Flávio, que parou pra abastecer, nos deu uma carona. Desta vez até a praça principal de Corumbá.

Chegamos por volta das 18h e sentamos no banquinho da praça para admirar os pássaros e descansar.
Resolvemos começar a saga por um lugar para dormir. Anda pra lá, volta pra cá, entre albergues, pousadas e pensões, ficamos no hotel mais barato que encontramos. Gilmar nos recepcionou muito bem e nos fez um desconto.

Uma noite bem dormida e já estávamos de pé planejando o novo dia. Fizemos o check-out e saímos para conhecer a cidade. Rapidamente nos encontramos com outro primo da Alê que estava na cidade procurando uma peça para seu carro. Erwin nos encontrou na praça principal e com ele percorremos toda a cidade. Chegamos à fronteira, enfrentamos os tramites migracionais com muita paciência e fomos os três almoçar uma saborosa sopa de banana da terra em Puerto Quijarro (cidade boliviana do outro lado da fronteira).

Voltamos à Corumbá passando por alguns pontos turisticos e históricos da cidade. Apresentamos o açai para o primo Erwin, que ficou encantado com a novidade, e marcamos um ponto de encontro para nos juntarmos à Marta e Thiago que estavam prestes a chegar.

Todos juntos, paramos para comer em um barzinho. Enquanto nossa madioca não chegava à mesa, saimos eu e Alê para organizar o pernoite de todos.
Conseguimos encontrar um hotel mais barato e aparentemente com boa estrutura para acomodar eu e Alê em um quarto e Thiago e Marta (mais as duas crianças Thiaguinho e Bruno) no outro. Perfeito. Voltamos ao bar, comemos, nos despedimos de Erwin (que estava hospedado em Puerto Quijarro) e logo estavamos no hotel.

Uma noite bem dormida, mas somente para mim. Marta, Thiago e Alê mal conseguiram dormir. As coisas por lá eram meio precárias e a sensação de insegurança, sinceramente, existia.
Levantamos cedo e partimos para fronteira pra regulamentar a entrada do Thiago e da Marta.
Mais um encontro com Erwin, nos despedimos e seguimos viagem, agora todos no mesmo carro. Na Bolívia não há necessidade de cadeirinha para crianças no banco traseiro, então havia espaço no carro para a Alê e eu.

Viagem agradabilíssima. Paramos nas Águas Termales, um rio quente devido suas pequenas atividades vulcânicas submersas. Almoçamos por ali mesmo. Comidinha com tempero brasileiro da Dona Dori. Feijão arroz e vegetais. Mais adiante visitamos o templo de pedra de Chochis. Gastamos mais algumas horas ali. Voltamos para estrada escura, agora com cuidado redobrado por causa das vaquinhas que aparecem do nada na escuridão. Por volta das onze da noite, já com o fuso boliviano (2h à menos em relação à Brasilia), estávamos em casa.

Chegamos à Santa Cruz de la Sierra no dia 5 de fevereiro, na casa dos primos Thiago e Marta. Estacionamos por aqui até decidirmos seguir viagem. Ficaremos, mais ou menos, 1 mês até resolver alguns documentos da Alê.

Ah! Tem foto lá no face!

Alguns Números

Peso:
Mochila da Alê - 14,6 kg
Mochila do Ronny - 11,3 kg

Desembolso:
01/02 - compras de mercado (R$ 14,40)
02/02 - polvilho (R$ 6,00) semente dec hia (R$ 6,00) compras de mercado (R$ 20,00)
03/02 - hotel em Corumbá (R$ 70,00)
04/02 - açaí (R$ 20,00) pasta d'água (R$ 4,20)
05/02 - hotel em Corumbá (R$ 40,00)

Total:
2 viajantes
5 dias
6 caronas
2 casas que hospedaram
1088 Km
R$ 180,60

Total da Viagem:
2 viajantes
26 dias
27 caronas
8 casas que hospedaram
3407 Km viajados
R$ 473,60