domingo, 14 de dezembro de 2014

Sobre fugir do conflito

Texto de Augusto de Franco*

"Tenho compartilhado, com várias pessoas com as quais convivo em algumas atividades interativas, duas observações.

A primeira é que as pessoas que estão buscando e ensaiando novos processos de vida humana, em iniciativas de livre aprendizagem, de cocriação ou de ocupação de espaços públicos para se comprazer na convivência social, estão mais querendo experimentar do que estruturar discursos e referenciá-los em narrativas já existentes. Elas não estão teorizando. Elas não estão usando teorias já existentes para orientar e justificar as suas práticas. Simplesmente estão fazendo o que acham bacana. Não estão nem mesmo querendo se apresentar como grandes adeptas de causas, como acontecia há não muito tempo.

A segunda observação é que essas pessoas não têm a vibe militante. Não se parecem com gente que está guerreando, se preparando para se defender de inimigos ou para enfrentá-los e derrotá-los. Sobretudo não estão selecionando pessoas. Das novas pessoas que chegam não cobram nenhuma postura, nenhum alinhamento, nem procuram saber o que pensam em termos políticos, filosóficos ou religiosos. Não estão também querendo arrebanhar mais pessoas para algum propósito. E nem ficam aborrecidas ou desapontados quando pessoas tidas por importantes não aparecem. Os ambientes que configuram com sua convivência estão funcionando como naquela primeira proposição do Open Space: “a pessoa que vem é a pessoa certa”. Ora, isso não é nada menos do que fantástico: é o outro-imprevisível!

A impressão que se tem é que elas, se pudessem, criariam um novo mundo para elas, sem exigir que os outros participem desses mundos. Quando outras pessoas aparecem, então elas interagem (como se tivessem estado sempre ali), mas não se tornam parte, não conformam um corpo definido. E o mais bacana é que elas sentem que podem mesmo fazer isso. Agora – ao que parece – já é possível a emergência e a convivência ou a coexistência de múltiplos mundos altamente conectados.

No entanto tenho notado também uma certa tendência dessas pessoas a fugir do conflito quando por algum motivo ele se instala, sobretudo quando é tematizado segundo as velhas classificações, do tipo esquerda x direita, seguidor de tal filosofia x seguidor de outra filosofia ou ateu x religioso.

Talvez haja uma razão mais profunda, que não consigamos ainda captar, para explicar tal comportamento. E ele parece superar antigos comportamentos sectários de que temos amargas lembranças.

A seu favor podemos dizer que, nessas novas experiências, elas não estão mais lutando contra pessoas. Estão apenas desobedecendo. Sem nunca explicar – como vou fazer agora – por que se comportam assim, essas pessoas estão resistindo à determinadas configurações que reproduzem a cultura patriarcal, que induzem à ereção de estruturas hierárquicas e que condicionam a adoção de modos autocráticos de regulação de conflitos.

Sim, elas estão experimentando redes distribuídas e democracia por meio da desobediência prática (não teórica). Não fazer o que todo mundo faz, não ter um objetivo fixo e um planejamento para atingi-lo, talvez seja a forma mais eloquente de desobediência. Daí a recusa à luta.

Quem luta contra um inimigo é um obediente. Sempre obedece a alguém, a algum grupo definido por fronteiras de identidade: nós x outros. Mas é a luta contra inimigos que gera as configurações que programam alguém para obedecer-e-mandar (sim, é a mesma coisa), quer dizer, para erigir hierarquias. E na luta – que é uma forma de guerra, mesmo que não seja a guerra quente, travada com armas em campos de batalha – não se pode experimentar a democracia na vida cotidiana. Porque as exigências do combate só são compatíveis com dinâmicas autocráticas.

A paz como caminho (não-caminho) revolucionário é não-luta. Mas é desobediência civil e política que desconstitui a guerra, quer dizer, a construção de inimigos (e a manutenção de inimigos) como pretexto para organizar cosmos sociais estruturados segundo padrões hierárquicos e regidos por modos autocráticos.

Mas recusar a luta não é recusar o conflito. O problema não é o conflito, senão o modo de resolver o conflito. Não se pode escapar do conflito, como pensavam as pessoas pias, as pessoas evoluídas, as pessoas espiritualizadas, que queriam ir para um lugar (imaginário) onde não haveria conflito, onde tudo seria harmonia e concordância. Mas uma sociedade sem conflito estaria morta, congelada. A supressão do conflito – característica das distopias (e das utopias, sim, todas as utopias são autocráticas) – só pode acontecer em rebanhos, em sociedades obedientes, em mundos onde não há lugar para a sujeira e a imperfeição, para os desvios dos caminhos já pavimentados, para o erro no cálculo, para a falha na armadura, para o imprevisível e, enfim, para o acaso. Mas onde não há lugar para o acaso também não há lugar para a liberdade.

As pessoas que fugiam do conflito nunca eram melhores do que as outras. Pessoas cordatas não eram necessariamente pessoas boas. Boa educação, bons modos, abstinência de crítica, medo de ser mal-interpretado, desejo de ser admirado – tudo isso foi e ainda é, em grande parte, esforço de adequação, quer dizer: obediência, não desobediência.

O problema é que essas pessoas queriam ser aceitas por alguém que (supostamente) estaria acima delas. Elas queriam corresponder ao que esperavam delas. Mamãe programou-as para isso. E então elas saíam mundo afora atrás da mamãe: procurando aprovação. Mas não havia ninguém acima delas, a menos que elas se abaixassem. Quando elas se abaixavam, entretanto, por esse simples gesto elas já deformavam o campo social, configurando um ambiente favorável à reprodução da cultura patriarcal, hierárquica e autocrática.

Ao contrário do que lhes foi ensinado nas famílias, nas escolas, nas igrejas e nas seitas religiosas e filosóficas, padrões de inadaptação não são sinais de insanidade, pelo contrário: quando alguém se adapta a um meio doente, quem está doente é quem se adaptou. Se elas queriam se polir para passar lisas pelos esgotos, sem atritos, sem rusgas, então elas estavam doentes. Continuando nesse caminho, não raro uma pessoa assim almejava viver em lugares assépticos e de repente se pegava lavando as mãos compulsivamente com medo da sujeira. Não conseguiam ver que a pureza só existia na imagem que foram socialmente (Maturana diria: antissocialmente) compelidas a criar de si mesmas para satisfazer às expectativas mórbidas da sociedade de controle. E não descobriam que a persona é coletiva (e é também uma doença).

Então, depois de ser assaltado por tudo isso, me lembrei dos velhos alquimistas quando diziam que a matéria prima para a transformação está nos lugares mais vis e desprezados. E pensei, cá por minha conta, que se alguém não está sujo o suficiente, não pode ser aproveitado pelo simbionte (quer dizer, pelo outro-imprevisível). E que quem ser aproveitado não pode fugir do conflito."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Passaporte

Liberdade é abrir mão do medo de dizer adeus.
É transformar vontade em motivo.
É esquecer os possessivos. Os teus, os meus.
Um até logo que vai demorar eu sei que pode machucar,
Mas quem escolhe a liberdade como casa,
O mundo é seu lugar.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Vipassanando - uma visão pragmática sobre o curso de 10 dias em "silêncio"

Texto de Fernando Furtado*

"Já de cara, confesso que não possuo afinidade com processos ou regimes de ensinamento fechados ou ditos excepcionais para chegar a um determinado fim, como por exemplo uma escola qualquer, que tem sempre o objetivo de formatar uma pessoa com um método de ensino X ou Y, tendo como propósito "prepará-la para o mundo real", por exemplo. Não satisfeitos com o método escolhido pelo nossos pais para nossa formatação, mais tarde, quando adultos, alguns de nós procuramos por uma ou outra escola mais "espiritualizada" que possa nos ajudar a alcançar a meta da libertação de nossas amarras formadas anteriormente (que no fundo tem a raiz antes da escola, pois são culturais mesmo, estando presente também no próprio núcleo familiar). É quando nos deparamos com escolas que prometem o método X ou Y para a pessoa "se purificar e alcançar a iluminação, libertando-se finalmente da tão dolorosa roda de reencarnações", como o que por exemplo é GARANTIDO no 4o dia do curso de meditação Vipassana (mas claro, somente se caso você receba a técnica da maneira como eles "te passam-na" rs, e a utilize exatamente da maneira como eles mandam, caso contrário, as consequências podem ser "perigosas"). Se com este argumento, um curso passa a violar a saúde das pessoas que dele participam, considero que está existindo uma problemática grave a ser contemplada. O que vou fazer neste texto é abordar estes dois aspectos mencionados neste parágrafo de introdução, que são no mínimo questionáveis.

Vou começar então primeiro pela parte da saúde em evidente violação:

1 - Penso que não se pode pedir para 100 pessoas que você não conhece meditarem por 2 horas pelas 4:30 da manhã, sem fornecê-las uma orientação prévia para atentarem sobre suas próprias limitações e posturas, muito menos pedir para fazerem isso sem sugerir nenhum alongamento ou preparo, ainda que concedendo uma permissão para pausas de 5 minutos ou mudanças de posição durante esta meditação, já que isso não é nem de longe suficiente (sobretudo de um ponto de vista terapêutico preventivo). De maneira bem franca, é isso o que ocorre logo no primeiro dia de prática meditativa no curso de meditação Vipassana. E parar tornar a problemática ainda mais grave e penosa para algumas pessoas, é a primeira vez em suas vidas que estão permanecendo em uma postura sentada no chão, com os joelhos dobrados, com intuito de permanecer por um período de tempo tão longo.

2 - Os participantes também não recebem a mínima orientação sobre algum alongamento de compensação para fazerem depois da meditação. Aliás, até mesmo os professores incentivam qualquer alongamento antes ou após a prática (nem sequer os vi alongar) ou sentam de uma forma correta (pelo menos no caso do curso o qual participei), e conversando com eles me disseram não achar isso preocupante, pois não fazia parte da técnica, que era de purificação, não de yoga, e que não conhecem nenhum caso de pessoas que se machucaram no curso por conta disso (mas nesse mesmo curso eles presenciaram no mínimo duas: pois eu vi um rapaz que foi embora mancando com dores no joelho e Sofie uma mulher que estava sofrendo com fortes dores na coluna). Já o gerente Beto (muito maneiro, por sinal) comentou que essa coisa dos professores meditarem fora de postura também o chocou quando ele fez o curso pela primeira vez. Além disso, ele afirmou que, apesar dele ser um instrutor de yoga da linha Iyengar (que dá uma importância especial à questão postural), realmente haviam fatores ali naquele curso que eram um pouco problemáticos e complicados de serem modificados ou aprimorados, por conta da tradição ali presente não prezar pela postura mesmo. Impressionante como se pode submeter a coisas tão incoerentes em nome da tradição.

3 - No 4o dia eles te ensinam a técnica Vipassana, que nada mais é do que uma técnica de auto-observação do seu corpo físico e os processos sensoriais transitórios que nele se evidenciam durante a prática. Porém, se uma pessoa medita numa postura adequada ou numa postura péssima, essa sensação "transitória" pode ser muito relativa, não é mesmo? E se você já possui alguma limitação maior (como problemas causados por sedentarismo, má postura, alguma lesão etc.), imagina fazer isso com a intenção extremamente questionável de se mover o mínimo possível observando sua dor apenas como uma coisa transitória?

4 - Ao menos em se tratando do centro de meditação Dhamma Santi, localizado em Miguel Pereira, RJ (e pelo pouco que pesquisei, em outros centros mundo afora) posso afirmar sem sombra de dúvida que houve uma tremenda falta de ética e de respeito, sobretudo por parte dos professores do curso com os quais argumentei pessoalmente (Esnil e Nadir) e pelos quais fui arbitrariamente taxado, ou seja, minhas considerações não foram ouvidas com base em uma possível coerência presente nelas ou não, mas sim apenas com base nos preceitos que eles mesmos pregavam como os corretos a se observar, segundo a metodologia do curso, em nome da tradição da técnica e é claro, principalmente da estrutura estabelecida para transmiti-la aos futuros fiéis praticantes de Vipassana.

5 - A partir do 5o dia eles pedem para TODAS as pessoas se sentarem com "firme determinação" durante uma hora consecutiva, ou seja, sem se mexer, ainda que mencionem apenas DUAS VEZES que "uma postura ereta irá contribuir no processo" e coloquem um aviso do lado de fora que você pode se mexer caso esteja com "uma dor insuportável", pois "ninguém está ali para se torturar". Agora veja, uma pessoa que está no ponto de uma dor insuportável já pode estar causando sérios danos ao seu corpo, como os que tivemos oportunidade de presenciar lá no curso.

Sobre o fato da maior parte das pessoas que fazem o curso não conseguirem perceber alguns fatos como os citados nos itens acima, tão ávidas estão pela sua necessidade de "iluminação final", confesso que há algum tempo estou no processo de tentar me manter vigilante e estudar como isso me afeta, procurando observar no lugar de reacionar. Por essas e outras gosto de escrever e compartilhar as coisas que refletem um determinado momento presente no qual me encontro. Acho importante também apreciar o ponto de vista daqueles que apreciam o compartilhamento de reflexões.

Deixei o curso no 7o dia e ontem reparei que ao comunicar isso a um dos meus amigos que completou o curso, ele lamentou pois, já que eu não terminei, não poderíamos fazer a meditação do Vipassana semanalmente juntos, ao que eu respondi para confiarmos no fluxo natural da vida. Disse isso pois atualmente acredito que a oportunidade de meditação está em toda parte, e não em uma técnica mais ou menos iluminada. Como diz o ditado: "existem tantos caminhos quanto corações". E os fins, quais são mesmo?

Antes do curso, vários amigos que fizeram se mostraram contentes ao saber que eu o faria, e alguns que já tinham até me advertido que o curso era duro, mas que valia pena. Trata-se do tipo de coisa que venho questionado, a questão do "sacrifício", pois ultimamente tenho me interessado mais em processos onde cada um, a cada momento, tem a liberdade de explorar seu próprio caminho de auto-conhecimento (há tantos!). Como insiste meu amigo Sergião: "quando procuramos fazer isso sobretudo na interação com o próximo, estando com nossa escuta 100% aberta, isso também implica em nossa mente estar absolutamente esvaziada." Isso é muito interessante de se refletir mesmo. No final tudo se resume em estar realmente presente.

Então, tentando não enrolar demais, aí vai minha análise mais detalhada sobre a estrutura metodológica nociva adotada no curso e minha atual conclusão (pois amanhã pode ser que eu já mude de opinião. rs):

1 - "Prisão". Todas as noites tem uma palestra, e na palestra introdutória da primeira noite, onde tudo começa, "prisão" foi a palavra utilizada para designar como os participantes deviam entender onde estavam, ou seja, "como em uma prisão, já que haviam assinado o termo de compromisso de permanecer os 10 dias"... transcrevo de cabeça os trechos da gravação de áudio em que se fala disso:

"Você foi avisado antes de vir e chegando aqui você foi avisado novamente. Você leu e assinou o termo de compromisso, e agora você deve pensar que é como se você estivesse em uma prisão. Isso pois você irá iniciar uma cirurgia profunda e convenhamos que ninguém deve sair correndo no meio de uma cirurgia. Isso seria perigoso, não é mesmo?" Hoje a Sofie me disse que ficou com medo neste trecho. Pra mim isso já teve cara de lavagem cerebral, ou será que só eu estou notando o terror psicológico rolando logo desde a palestra introdutória?

2 - Ainda na 1a palestra, é pedido que você deixe tudo para trás... ainda da minha cabeça, transcrevo: "Você também leu e se comprometeu em deixar tudo que você viu e aprendeu de de outras técnicas para trás, para dar uma chance sincera a esta técnica. Sendo assim, não misturem outras técnicas de meditação com a técnica que vamos lhe ensinar, pois no passado outros estudantes fizeram isso e tiveram complicações tamanhas que até mesmo os professores tiveram dificuldade em ajudá-los." Continuo achando que a apelação ao terror mental está forte demais.

3 - Ao longos dos dias fica claro que cada palestra é meticulosamente desenhada pra falar o que você precisa ouvir pra se motivar a continuar no curso, terminar e se sentir muito vitorioso por isso. Isso é evidenciado desde a primeira palestra, mas a partir do 4o dia, quando a técnica Vipassana é ensinada, a gravação de áudio já tenta introduzir na sua cabeça que ela é o ÚNICO caminho possível para que se atinja a "iluminação" e isso é repetido no 5o e no 6o dia (nos outros não tive a oportunidade de ouvir), quando é acrescentado ainda que "milhares de pessoas já se iluminaram utilizando essa técnica". Muito sedutor, não?

4 - Ainda no 4o dia, também diz que você vai querer recomendar o curso a todos os seus os familiares, amigos, colegas de trabalho etc. Isso também é incentivado na última palestra, a qual também te motiva a ser um servidor em uma próxima oportunidade (eu não ouvi, mas a Sofie ouviu por engano essa palestra no gravador que continha a palestra em todas as línguas, inclusive em holandês, que é a língua dela) e esse é o segredo pra manter o sistema rodando e ter tantas pessoas procurando o curso ano após ano e tantos servidores acreditando em seus benefícios miraculosos, cegamente ignorando as outras coisas bizarras que lá acontecem (como as pessoas que se lesionam), curso após curso.

5 - Não se trata exatamente de um curso de 10 dias em "silêncio" como replicam por aí. A metodologia adotada no curso está inserida dentro de uma estrutura hierárquica e é bom explicar que não se trata de um curso em total silencio... na verdade, só vale se comunicar com duas pessoas: o(a) gerente e o professor(a) - sendo que todo processo de decisão precisa ser aprovado por este último. Aliás, por que diabos pensamos que ao se comunicar em um curso, seja ele de meditação ou seja lá do que for, as pessoas terão muito mais tendência de se atrapalhar do que de se ajudar?

6 - Se você decide que quer ir embora, também precisa passar por uma entrevista com os professores, e caso eles não consigam te convencer de ficar, vão te convencer de ir embora apenas num determinado horário, horário este em que todos os outros alunos estão na meditação de grupo, para que sua decisão passe o mais desapercebida possível e não incentive mais desistências, sempre sob a alegação de "não atrapalhar o processo dos outros".

7 - No final do curso só sobrarão sempre "os vitoriosos", que claro, estarão muito satisfeitos por terem terminado o curso e provavelmente vão querer voltar novamente, seja como "servidor" ou como "sentador" (termo utilizado entre aqueles que praticam Vipassana há mais tempo). Os desistentes foram aqueles de "caráter fraco" (era essa a expressão utilizada na gravação holandesa que a Sofie ouvia), aqueles que "normalmente desistem logo no segundo dia, quando a cirurgia toma início", ou "no sexto dia, já que no quinto dia se fala dos sofrimentos e ninguém quer saber de olhar pra verdadeira razão dos seus sofrimentos", razão esta para a qual eles possuem o maravilhoso e único remédio correto, é claro.

9 - Ano após ano as pessoas disputam as vagas e serão ensinadas (o que não caracteriza necessariamente processo de aprendizagem) sobre o perigo de usar palavras duras, de se cultivar apegos ou aversões, pois inevitavelmente isso irá produzir "sankaras" (resgates a serem feitos) e que, não importa o que aconteça, o melhor é aprender a observar e aceitar de forma equânime as coisas como elas são, pois no final tudo é "anitcha, anitcha, anitcha" (ou seja, de aspecto transitório). Se finalizarem o curso, terão o aval de praticar essa tão iluminada técnica ao menos uma vez por semana e com isso estarão se purificando "da forma correta", o que "certamente os levará ao tão estimado estágio final de iluminação".

10 - Diversas vezes afirma o senhor S. N. Goenka nas gravações, que a técnica Vipassana era transmitida pelo próprio Gautama, um dos budas que vieram a este mundo. Pesquisando na internet se vê que isso é questionável. Porém, isso não faz diferença com relação ao que vou afirmar categoricamente aqui: Não importa o quão iluminada uma técnica possa ser, se a estrutura metodológica empregada na sua transmissão não presa pelo cuidado ao praticante, pois com facilidade pode lesioná-lo fisicamente, pouco me importa se ela foi transmitida por Jesus Cristo, Maomé, por Santo Agostinho ou Madre Tereza de Calcutá, Sócrates, Platão, Mahatma Gandhi, psicografada por Alan Kardec ou Chico Xavier ou se era transmitida verbalmente pelo próprio Sidarta Gautama em pessoa. Espero sempre manter meu anti-vírus em dia para estas tentativas de manipulação brabas (como expressei cordialmente também aos professores).

Bom, existe uma série de outras características que poderiam ser enumeradas aqui, o que resultaria em uma lista demasiada extensa. Pra finalizar, quero apenas dizer que apesar de tudo isso, o processo de aprendizado foi ótimo pra mim. Durante o período em que estive no curso, fiz algumas amizades legais, sobretudo com o gerente Beto, muito verdadeiramente solícito, e também com o servidor Saulo que estava na cozinha e era muito gente fina, além de um dos alunos que também estava aberto à trocação de ideias. Além disso, tomei banho pelado no rio quando fez muito calor, dei beijo na boca da minha esposa na frente da professora e interagi livremente com as pessoas as quais se mostraram abertas (parcial ou totalmente) à interação e delas também ouvi muitas coisas legais e outras nem tão legais, mas que me fizeram refletir bastante e crescer. Ah, e a meditação foi legal também.

Apesar de que hoje eu não recomendaria este curso a ninguém, aconselho que se você for fazê-lo, que o faça no mínimo respeitando as necessidades e os limites do seu próprio corpo. A estrutura que rege a metodologia deste curso não incentiva isso de forma verdadeiramente cuidadosa, muito pelo contrário, não só desrespeita seu corpo com severas exigências como "Forte Determinação" de maneira irresponsável, como também tenta desde o início manipular a sua mente com lavagem cerebral. Mas enfim, independente da "prisão" externa, ao conectar mente ao coração sempre existe a possibilidade de libertação, vide experiência de Nelson Mandela, entre tantos outros que permaneceram libertos mentalmente, mesmo quando em regime de cárcere físico. Então, caso queira se submeter à experiência voluntariamente... meu sincero BOA SORTE E BOA EXPERIÊNCIA!

"You're bound to be successful, bound to be successful!"

Um gratidão e beijo a todos!

Nando."

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O que é meditação?

"A meditação é uma das coisas mais extraordinárias, e se você não sabe o que ela é, você é como um homem cego num mundo de cores brilhantes, sombras e luzes em movimento. Ela não é uma questão intelectual, mas quando o coração entra na mente, a mente tem uma qualidade totalmente diferente; ela é, então, ilimitada, não apenas na sua capacidade de pensar, agir eficientemente, mas também em seu sentido de viver num espaço vasto onde você é parte de tudo.A meditação é o movimento do amor. Ela não é o amor de um ou de muitos. É como água que qualquer um pode beber em qualquer jarra, seja dourada ou de barro; ela é inesgotável. E uma coisa peculiar acontece, que nenhuma droga ou auto-hipnose pode produzir; é como se a mente entrasse em si mesma, começando na superfície e penetrando sempre mais profundamente, até que profundidade e peso tenham perdido seu significado e toda forma de medida cessa. Neste estado existe paz completa, não contentamento que veio por gratificação, mas uma paz que tem ordem, beleza e intensidade. Isto tudo pode ser destruído, como você pode destruir uma flor e, contudo, devido à sua própria vulnerabilidade, ela é indestrutível. Esta meditação não pode ser aprendida de outra pessoa. Você deve começar sem saber nada sobre ela, e ir da inocência para a inocência. O solo onde a mente meditativa pode começar é o solo da vida cotidiana, a luta, a dor e a alegria passageira. Ela deve começar aí, e trazer ordem, e daí se mover indefinidamente. Mas se você está interessado apenas em ter ordem, então essa própria ordem trará sua própria limitação, e a mente será sua prisioneira. Em todo este movimento você deve, de algum modo, começar do outro fim, da outra margem, e não estar sempre interessado nesta margem e em como cruzar o rio. Você deve mergulhar na água, não saber como nadar. E a beleza da meditação é que você nunca sabe onde está, aonde vai, qual é o fim." - Krishnamurti, Meditations 1969,1

"Meditação implica uma qualidade de mente que pode atentar completamente, portanto, uma mente que pode estar completamente imóvel. A mente está sempre tagarelando, sempre falando, ou para si mesma, dentro de si ou para alguém, sempre em movimento. Como pode uma mente que fica tagarelando sem parar perceber alguma coisa? Apenas a mente que está completamente atenta tem a energia integral para observar, pois você precisa de tremenda energia para observar. Os monges religiosos e outros dizem que você não pode desperdiçar energia; por isso, se você quer ser santo, nenhum sexo. E quando você se torna celibatário e faz votos de celibato, há confusão em você, porque você está negando todo o sistema biológico e há desperdício de energia. Você fica lutando, lutando, lutando. Ou vai para o outro extremo, cede, o que é outra forma de gastar energia. Por outro lado, se você está atento, esta é a maior forma de somar energia. Isto significa intensidade, paixão, e você não pode ser apaixonado se está gastando. Sem nenhum esforço a mente pode se tornar completamente quieta e, assim, cheia de energia sem qualquer distorção." - Krishnamurti, Talks and Dialogues in Sydney 1970

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Minha experiencia em Vipassana

Cheguei ao centro em Miguel Pereira bem aberto à experiencia. Minha primeira atitude foi optar por refeições exclusivamente integrais durante todo o curso (frutas e vegetais crus) para facilitar a digestão tornando menos desagradáveis as horas sentado em posição de lótus. Acredito que tenha ajudado bastante.

Já no primeiro dia comecei a achar tudo entediante. Acordar às 4 da manhã, meditar sonolento, ouvir os cânticos com a voz arrastada do professor Goenka. Isso tudo por 3 horas antes da próxima hora de descanso. Foi um dia horrível, mas até aqui tudo era novo. O silencio absoluto até que me agradou e a palestra no fim da noite, deu uma motivação. Um bom entretenimento filosófico.

Veio o segundo dia. Um inferno! Meu corpo inteiro foi tomado por dores desconfortantes, queria desistir. Estava certo disso. Comecei a criticar tudo, zombava mentalmente do comportamento dos outros, sorria debochadamente das regras e no momento seguinte era um mar de frustração por não conseguir controlar meus pensamentos. Nunca percebi minha mente tão tagarela. Era um pensamento atrás do outro, sem pausa, sem piedade. Não conseguia admirar uma bela flor no jardim, imagina só reparar no ar que entra e sai pelas narinas, segundo as instruções do professor.

No terceiro dia a mente acordou mais tranquila. "Acho que da pra ficar até o final", pensei. O desafio aumentou. Agora eu deveria me concentrar numa pequena região entre o lábio e o nariz. E que desafio! Apesar de estar menos ansioso, o máximo que conseguia sentir eram cocegas no bigode. Mas fui me acostumando com a ideia de passar mais sete dias assim. E algo que me deixou ansioso pelo dia seguinte. Segundo o professor, no quarto dia, aprenderíamos Vipassana. Passamos 3 dias apenas afinando a mente para então aprender a técnica.

Chegamos ao quarto dia. Chato. Monótono. Suportável, mas tão sem graça quanto o anterior. As dores no corpo eram cada vez mais intensas. Todos no salão, inclusive eu, estavam sentados sobre 3 ou mais almofadinhas na intenção de diminuir os desconfortos do corpo. Alguns sentariam em sofás reclináveis se pudessem empilhar mais almofadas. Banquinhos, cadeiras e paredes foi o refúgio de alguns meditadores. E não preciso nem falar que fazia-se mais alongamento do que meditava-se. Pra onde se olhava havia alguém se contorcendo, se pendurando, se sacudindo e as vezes até gemidos de alivio se ouvia.
Durante à tarde foi que tudo mudou. "Agora vocês vão aprender Vipassana!", acertou Goenka. Meu coração deu um salto de alegria. "Finalmente!", pensei.

Levei uma pequena chamada ao pé do ouvido para me sentar em posição ereta. O professor parecia estar reparando que eu já tinha virado uma tartaruga nesse momento. Me esforcei. Me disciplinei. Tentei abstrair qualquer dor e desconforto e sentado sobres os ísquios, coluna ereta, com 1 almofadinha apenas comecei a seguir o passo a passo de Goenka:
- Leve sua atenção ao topo da cabeça, à cada parte dela, à cada musculo do rosto, desça para o pescoço, ombros, braços, cotovelos, antebraços, punhos, mãos, dedos...
Assim foi até os dedos do pés. Concentrando em cada pequena parte de cada membro. Objetivando sempre perceber as sensações do corpo, sem qualifica-las, quantifica-las ou entende-las. Apenas sentir o que se passa.

Quando a "magia" começou. Meu corpo começou a se balançar, vibrar, tremer, de forma sutil, melódica e ritmada. As pernas já dormentes a 40 minutos não importavam mais, as dores nas costas não faziam parte de mim. E uma profunda clareza mental tomou conta do meu ser. Um ar de paz e felicidade, uma sobrenatural satisfação por estar estar ali e poder sentir tudo aquilo. A expressão "orgasmo astral" seria pouco pra definir isso. Uma completude, uma transcendência. A perfeição da vida ou da morte pairava sobre mim. Eu era momento. Na sua forma mais perfeita. Cada milissegundo, era o que eu era. Sem corpo, sem mente, apenas algo atemporal e abstrato.

Percebi que eu ainda me embebedava daquela sensação quando a sala estava completamente vazia e todos se alongavam e relaxavam do lado de fora esperando a chamada para o lanche da tarde. Fiquei ali, por uns 5 minutos ainda. Sorrindo sem pra que ou por que. Levantei ainda com aquela leveza de ser e fui descendo as escadas, ouvindo o leve som dos meus passos descalços junto àquela tagarelice de pássaros e insetos da floresta. Leve e decidido, cheguei ao quarto. Sem pestanejar puxei o caderno escondido na mochila e comecei a escrever, quebrando uma das regras do curso:

"É humanamente inexplicável a vastidão do universo e o infinito de energia ainda desconhecida.
Um mesmo universo se reverbera em milhões de fragmentos.
Compartilhamos desses fragmentos, acessamos alguns, mas não sabemos aproveita-lo.
Vipassana, nada mais é do que um outro caminho para se alcançar a compreensão de um todo, que está em constante expansão.
Amor ao próximo, respeito, cuidado e auto-observação. O tempo todo é necessário estar alerta, atento, vigilante.
Paz de espirito é a maior virtude do homem na Terra. Só à alcança quem se permite à autocompreensão do que se é."

Foi o que escrevi com a sensação de ter psicografado. Sem nem olhar para o papel. Prefiro dizer que foi escrito através de mim.
Li e reli admirando cada palavra. Agora leio e releio sem quase nada da clareza mental que tive naquele momento.

Durante o resto do dia, sentava para meditar e rapidamente me conectava com àquela sensação. Os cânticos, uma hora, tediosos e arrastados de Goenka, agora se tornavam suaves melodias que me embalavam rumo à mais introspecção.
Senti minhas mãos vibrando e formigando como nunca. Assimilei com as energias de cura aprendidas ao longo da vida. Reiki, massoterapia e passes energéticos. Já sabia o que fazer. Aos poucos, cada toque, cada aperto em uma parte do meu corpo iam aliviando as sensações de dores acumuladas.
Alongava, estalava e sentia o musculo certo, vontando à sua posição original. Sem pressa, sem tempo. A palestra ao fundo, e eu ali, mais de 1 hora encaixando minuciosamente o pescoço de volta no lugar.
Antes de dormir, não sentia mais dor alguma e tive a sessação de flutuar e levitar durante toda a noite. Algo me puxou, como um solavanco pra fora do corpo. Observava o planeta de cima. Uma visão privilegiada.

No quinto dia só enxergava beleza naquele grupo de meditadores. Olhava e reparava em cada um, em cada detalhe. Acho que até visualizava sua personalidade. Alguns percebiam e timidamente desviavam o olhar (evitar contato visual e toque eram outras 2 regras importantes).
Foi então que decidi:
- Vou embora! Compreendi a razão de ter passado por aqui. Sou muito grato pela experiencia e não quero continuar seguindo tais regras e essa dura disciplina. Minha mente, ainda não preparada para abstrair desconfortos doutrinários, não se sente bem com a metodologia do curso.
Vou respeitar esse limite e tentar continuar aplicando essa experiencia no meu cotidiano. Mais um item para a mala de ferramentas imateriais.

É tão simples que chega a ser complexo. Tudo que já experimentei, no que cerne a espiritualidade, me leva para o mesmo lugar. A sensação que tive em vipassana também pode ser explicada como um fenômeno mediunico de incorporação, ou como uma projeção astral, ou uma profunda e imersiva prática de yoga, ou um jejum desintoxicante de 20 dias, ou mesmo o efeito de ervas psicotrópicas em rituais afros e indígenas.

Sinto que todos os caminhos, em um nível macro, estão tentando explicar a mesma coisa. O "todo infinito" viabiliza todos esses caminhos para sua compreensão. Se limitar a um deles, é muito pouco. Viva a múltipla diversidade! Como diz meu amigo Nando, "Há tantos caminhos quanto corações."