terça-feira, 29 de novembro de 2011

Por Questão de Respeito

"Vivemos uma migração social. O mundo está aos poucos substituindo os falsos valores (dinheiro, patrimônio, poder) pelos verdadeiros (amor, compaixão, solidariedade). Assim este blog tem como como objetivo informar e conscientizar, respeitando a opinião de cada um e desmistificando a idéia de uma só verdade. Partimos do princípio de que somos todos iguais e, no panorama atual, uma revolução se tornou inevitável." 
(antiga descrição do blog)

Ultimamente tenho passado por um grande processo de reflexão. Percebo que ele é continuo e embora variável está seguindo sempre um mesmo caminho. Como um Rio que segue diversos fluxos mas sempre vai desaguar no mar. 

Recentemente percebi que o nome desse blog não tem nada de humilde e tem muito de consciente.  Mas é a MINHA consciência. Diferente da sua. Quando digo que o objetivo é informar e conscientizar, é baseado em meus pensamentos, logo, fica clara minha grande arrogância. Nada de humilde há neste gesto.

Estou descobrindo o grande valor que tem a palavra respeito. Em muitas de minhas atitudes no dia a dia não venho respeitando as pessoas mais próximas de mim. E é exatamente por causa desta arrogância, de pensar que eu posso passar valores que julgo serem melhores para a felicidade de "A" ou de "B" que acabo perdendo o limite do respeito. Inconscientemente passo a querer que as pessoas acreditem que os meus ideais são melhores. Enquanto eles ainda estão em constante transformação interna.

Sou um cara cheio de dúvidas. Não tenho uma opinião formada sobre nada. De repente nunca terei. Então como posso esperar formar a opinião de alguém que não conheço? Sobre uma coisa que julgo conhecer? Não é algo muito pretensioso? Com tão pouca experiência de vida? Que exemplos práticos posso dar?
Nunca ninguém veio até mim e disse que quer saber minha opinião a respeito de algo. Então que parâmetro eu tenho para julga-la importante?

Tento mudar o mundo a pouco menos de 3 anos e já tive a sabedoria de entender que não é assim que funciona. Seria outra grande arrogância acreditar que o mundo precisa de ajuda quando ainda não resolvi nem os meus problemas. 
"Vamos começar a mudar o mundo por onde?" Nããão. Esquece. Ele não precisa ser mudado. 
"As pessoas é que precisam ser mudadas!" Também nããão. 
NÓS precisamos mudar, SE acharmos que devemos. 

Não quero interferir no pensamento das pessoas, ao menos que peçam minha opinião. Isso da muito trabalho. Causa frustração, angustia, inquietação. São sentimentos que lutei para me livrar dentro de um sistema corrompido. Tentando modificar esse sistema, a luta não vai acabar. Isso não faz sentido. Seria só trocar o motivo causador destes males. A maior revolução de todas, é a revolução pessoal. Confesso me sentir muito mais leve, feliz e despreocupado pensando dessa forma.

Este momento está voltado para pensar em mim. No que me faz bem. As pessoas que me fazem feliz. E essa acredito ser a melhor contribuição que dou pro mundo. Isso é fazer minha parte. Analisar o que eu julgo errado para mim e começar a fazer diferente. Sem a pretenção de achar o que é certo. Apenas a autossatisfação. Não importa o futuro nem passado. Isso não é ser egoísta. É ser individualista, que são coisas muito diferentes. A individualidade precisa ser respeitada. Esse é o limite que o outro te dá. É ter o poder de fazer escolhas sem ser criticado. Não é porque não como carne e reciclo meu lixo que meu vizinho deve fazer o mesmo. Eu faço pelo que eu acredito. E foda-se o meu vizinho.

Não vejo mais sentido em um blog que tenta passar valores de apenas uma pessoa. Não estarei mais escrevendo neste blog a partir de hoje. Ainda não me sinto pronto pra isso. Para assumir essa responsabilidade. Não tenho tantas experiências para partilhar. Ele continuará aberto para os outros autores ou se um dia eu voltar a escrever. Mas por enquanto não vejo mais sentido em tê-lo como ferramenta. Para desabafar, eu tenho bons amigos. Então, esta ferramenta não se faz mais necessária para o momento que estou vivendo. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Transição (por Augusto de Franco)

texto de Augusto de Franco*

''Claro que todos - ou muitos de nós - temos necessidade de aprofundar a conversação sobre a transição para novos mundos e seus aspectos práticos.

A questão fulcral é: como sobreviver para continuar experimentando?

É evidente que isso pesa mais em quem tem mais idade, pais idosos e filhos jovens, que dependem de recursos auferidos, em grande parte, no velho mundo e por meio dos velhos negócios.

Nenhuma experiência alternativa de vida e convivência social pode elidir o fato de que no final do mês é necessário ter recursos para pagar o plano de saúde da mãe idosa, a escola da filha mais jovem e o próprio plano de saúde, além dos remédios. Somente essas três despesas, abstraindo aqui todas as demais, podem somar 5 mil reais. De onde tirá-los?

Dou um depoimento pessoal.

Vivi 50 anos praticamente ignorando a existência dessas exigências. Optei nos anos 70 por não ter propriedades e fui em frente. No início dos anos 70, troquei um salário de 4.000,00 por outro de 490,00 (cruzeiros, se não me engano). No início da segunda metade da década de 70, morei 7 anos numa favela (onde nasceu minha primeira filha), morando em comunidade e depois numa família nuclear. Antes já tinha vivido em comunidade (stricto sensu, com tudo comum mesmo). Durante anos minha casa tinha 50 colchões empilhados e vivia cheia de pessoas que lá iam articular seus movimentos sociais e políticos e outras ações ainda mais disruptivas... Fiz (fazíamos) ocupações de verdade (áreas rurais e urbanas sem uso eram logo ocupadas por nós, para moradia e construção em mutirão de centros comunitários - que à época chamávamos de "Casa dos Companheiros"). Tive, durante anos (inclusive quando ainda estava no Rio de Janeiro), apenas uma camisa de nylon e uma calça de tergal (materiais sintéticos horríveis, que eram lavadas durante a noite no banheiro e lá penduradas) e um par de sapatos. Vivia feliz da vida esse engajamento, vamos dizer assim, descompromissado: quem dependia de mim também dependia das condições mutáveis em que minha vida fluía.

Bem, mas aí os anos foram passando. Novas exigências foram surgindo. O falecimento de meu pai, a idade avançada de minha mãe, o nascimento de outras filhas, o surgimento de doenças nesse emaranhado parental (algumas crônicas) que exigiam tratamento continuado...

Conto essas coisas apenas para dizer que mesmo que você opte e mantenha a opção - como fiz - por não ter gastos de manutenção de coisas (infra-estruturas físicas associadas à propriedades imóveis ou móveis), mesmo assim, despesas constantes e crescentes sobrevirão. E você terá de ganhar dinheiro para pagá-las, a despeito de todas as suas idéias revolucionárias, evolucionárias, disruptivas, alternativistas ou o que for sobre como fazer negócios-em-rede ou ensaiar experiências inovadoras de auto-sustentação e de comum-sustentação. Ou então morrer. Ou então infligir sofrimentos aos que já não têm mais (ou ainda não têm) autonomia para sair de situações configuradas, vamos dizer assim, de modo anti-humano.

Não mudei minhas orientações apesar disso tudo. Continuo vivendo praticamente sem propriedades. Não aceito emprego em organizações hierárquicas. Vivo do que ganho a cada dia com palestras e consultorias que eventualmente apareçam (desde que nelas possa fazer somente o que quero fazer, do contrário não aceito). Mas fico um pouco perplexo com a galera que quer mudar o mundo sustentada pelo papai ou que se mantém às custas dos recursos derivados do proselitismo da salvação do planeta, da inclusão dos excluídos, do fim do capitalismo ou da construção de um outro mundo possível, e que despreza a preocupação com ganhar dinheiro (sabendo, porém, que terá o que comer logo mais, que se estiver duro pode dar um pulinho ali na casa da mamãe ou do titio, que se perder o teto pode sempre se ajeitar na casa de um parente ou de alguém da esfera de relacionamento que herdou dos emaranhados de seus familiares).

É claro que todos buscamos novas formas de sobrevivência. Mas neste período de transição em que vivemos, isso não é tão banal. Uma pessoa sozinha pode viver, pelo menos até certa idade, "como os lírios dos campos e as aves do céu, que não tecem nem fiam" (e eu praticamente vivi assim toda a minha vida - o que é raro, sobretudo depois dos 40).Mas a transição significa que o velho (que já morreu) ainda permanece de pé e que o novo (que já nasceu) ainda não consegue ficar de pé por si mesmo. Então, na transição, podemos experimentar o novo, mas parte da nossas condições de sobrevivência ainda vêm do velho.

Pois bem. Voltamos assim a questão inicial. Como garantir recursos para sobreviver (no velho mundo) e continuar experimentando (criando novos mundos)? É sempre possível fazer isso, desde que você seja uma pessoa que tenha apenas que se sustentar ou desde que você viva numa comunidade conformada a partir dessa condição. E desde que você possa ter tempo para ficar nas filas... nas filas do INPS e em todas as outras filas a que têm que se submeter quando não tem recursos. Mas e quando seu tempo está todo voltado para atividades que dão sentido a sua vida? Mas e quando você tem que escrever 10 horas por dia (o meu caso)? E quando você tem que arrumar, desesperadamente, um convite para falar em algum lugar, dar um curso, prestar uma assessoria para ganhar algum dinheiro sem o qual não terá como fazer o supermercado, quitar as dívidas que se acumularam, ajudar sua mãe e seus filhos a pagar os hospitais, os médicos e os remédios e, às vezes, até o alugueres (sendo que estes familiares nem moram mais com você e não compartilham em nada dos seus propósitos e do seu estilo de vida? Heim?

Pode-se sempre argumentar: foda-se! Os pobres não vivem assim? Então? O que significa, em outras palavras: morra!

Mas não há nenhuma virtude intrínseca à pobreza, nem algum valor no pobrismo, quer dizer, na ideologia que exalça a condição de pobreza e vive do proselitismo da redenção dos pobres.

Ademais, as exigências de quem vive de determinada maneira, seja condicionada pela sua trajetória, seja configurada pelas sua visão de futuro, também determinam os níveis de exigência e o volume das necessidades. Por exemplo, para quem vive investigando, pesquisando e não está mais ligado a uma instituição de pesquisa, é necessário ter recursos para assinar revistas, comprar livros (não, nem todos podem ser baixados na Internet), ter computadores adequados (não, não pode dividir o tempo da máquina com outros), pagar auxiliares (muitas vezes não se pode reservar um tempo para adquirir e preparar a própria comida). Antes, muitos de nós - exploradores de novos mundos - tínhamos a alternativa de entrar num mosteiro (foi por isso que os mosteiros floresceram e se multiplicaram como centros de pensamento antes das universidades). Hoje, porém, isso não é mais opção para quem quer sair do velho mundo: os mosteiros são organizações hierárquicas e mesmo as universidades são burocracias sacerdotais do ensinamento. Antes pessoas como Leonardo conseguiam sobreviver e continuar explorando porque eram sustentadas por mecenas. Hoje, as coisas não são mais assim.

Como viverão os inovadores (que, juntamente com os hubs, os netweavers e outros, cumprirão seus papeis antecipantes da sociedade-em-rede)?

Fazendo de outro modo a mesma pergunta: como inovarão os inovadores?

Aquele abraço,

Augusto''



sábado, 5 de novembro de 2011

Ocupa Rio - Cinelândia

O Occupy chegou ao Rio no dia 22 de Outubro e tem como objetivo permanecer na praça Floriano, na cinelândia (centro do Rio), até que as mudanças sejam alcançadas.

A manifestação foi inspirada no movimento Occupy Wall Street que começou em Nova Iorque por conta da crise do sistema financeiro ocasionada por gananciosos empresários do mundo inteiro.

Hoje já são mais 1000 cidades no mundo com manifestantes acampados, permanentemente, em praças públicas como forma de protesto. A ideologia do movimento é protestar inicialmente contra os abusos do sistema econômico capitalista como lobby de empresas e grandes coorporações e acúmulo de riquezas e recursos nas mãos de uma pequena parcela da população.

O movimento ainda não tem uma contra proposta clara para o sistema socio-economico vigente, porém essa discussão está aberta e ninguem melhor do que nós pra escolher uma proposta nova e mais eficiente do que o sistema que vivemos hoje. Embora seja de caráter pacífico, recentemente houve casos de agressão em Oakland - Califórnia entre civis e militares.

Na ocupação acontecem discussões, palestras, exibição de filmes e documentários, grupos de discussão, música, apresentações teatrais. Tem gosto pra tudo. É fundamental que cada um de vocês participe. A ocupação ficará lá por tempo indeterminando, porém quanto maior o volume de pessoas tivermos por dia melhor.Estamos aceitando também doações principalmente de alimentos e quaisquer outros itens que possam ser úteis a ocupação.

A seguir videos da ocupação:

tarde do dia 22/10

tarde do dia 24/10

John Croft cofundador do Projeto Gaia 26/10

Movimento Zeitgeist 26/10

Saiba mais sobre a Ocupação

Movimento organizado por Sergio Cabral na cinelândia 10/11


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Novos meios de vigiar a América Latina

Texto de J. Patrice Mc Sherry*

''O governo dos Estados Unidos, com o apoio técnico de algumas universidades estadunidenses, quer usar informação “pública” que os usuários colocam no facebook, twitter, páginas da web, webcams, blogs e outros meios sociais para acumular uma enorme base de dados com o propósito de prever tanto as crises políticas, ou seja, revoluções, instabilidades ou explosões sociais, como crises econômicas. Como o projeto Camelot dos anos 60, este projeto de vigilância e espionagem estará dirigido para a América Latina.

O novo projeto está a cargo de um organismo pouco conhecido, Intelligence Advanced Projects Activity (IARPA), que funciona sob a orientação do diretor de inteligência nacional dos EUA. O projeto copiará, automaticamente, por meio de supercomputadores, dados de 21 países da América Latina, por um período de três anos que começaria em 2012. Há um projeto semelhante para o Afeganistão, patrocinado pela DARPA, organização irmã-militar do Pentágono, para identificar redes sociais de potenciais terroristas neste país.

Em 1964, o Escritório de Investigação e Desenvolvimento do exército dos Estados Unidos patrocinou o Projeto Camelot, que foi um esforço de compilação de informações no contexto da estratégia de contra-insurgência. Camelot foi concebido, originalmente, para ter uma vasta cobertura, envolvendo países em desenvolvimento de todo o mundo. No entanto, o projeto foi implementado apenas no Chile e não por muito tempo.

Os objetivos declarados eram “desenhar procedimentos para avaliar o potencial do desenvolvimento de conflitos internos nas sociedades nacionais” e “identificar... ações que um governo pode realizar para diminuir as condições favoráveis a isso”. Sob o disfarce de um projeto universitário de ciências do comportamento, situado no Escritório de Investigação de Operações Especiais da Universidade Americana (financiada pelo exército), Camelot era um projeto camuflado de inteligência. Um general do exército estadunidense afirmou que o dito projeto “nos ajudaria a prever a utilização potencial do exército estadunidense em qualquer número de casos onde a situação pudesse sair de controle”.

No Chile, Camelot foi apresentado como uma pesquisa acadêmica, escondendo sua relação com o Pentágono. Os pesquisadores entrevistaram chilenos de todos os setores da sociedade para conhecer suas crenças políticas, seu compromisso com a democracia e outras informações pessoais e políticas. De acordo com uma chilena que foi entrevistada, cada pessoa foi depois enquadrada em categorias conforme o nível de perigo ou de “potencial subversivo”. Quando esta pessoa tentou obter um visto para ir aos Estados Unidos, as autoridades de lá tinham um arquivo completo sobre ela, com toda a informação supostamente confidencial que ela colocou no formulário da pesquisa.

As bases de dados de Camelot também foram usadas para a guerra psicológica. Serviram para influir nas atitudes políticas e, dessa forma, para manipular certas eleições chave. A CIA digitalizou os dados compilados por Camelot e os analisou e utilizou para produzir atemorizantes propagandas anti-comunistas, durante a campanha eleitoral de 1964 de Eduardo Frei, candidato democrata-cristão, contra o esquerdista Salvador Allende. Por exemplo, foi dito às mulheres que, se Allende fosse eleito, seus filhos seriam mandados a Cuba e seus maridos a campos de concentração. A natureza contra-insurgente do Projeto Camelot foi descoberta pelo governo chileno e foi encerrado em 1965, depois de sessões tanto no Congresso do Chile quanto no dos Estados Unidos.

Não é a primeira vez que, nos tempos recentes, o governo dos EUA acumula grandes quantidades de dados em projetos de “data mining” (obtenção maciça de dados). Durante a administração de George Bush, a National Security Agency começou a extração de informações de milhões de cidadãos dos Estados Unidos – de telefonemas, correios eletrônicos, fax e outras fontes – num programa secreto sem autorização judicial, supostamente para descobrir e vigiar potenciais integrantes de redes terroristas. Essa administração também tratou de implementar outro enorme projeto, chamado Total Information Awareness, para acumular uma base de informações para encontrar padrões de conduta ou tendências nos correios, telefonemas, transações financeiras, informação de vistos, etc., supostamente para identificar inimigos. Este programa foi rechaçado pelo Congresso depois de produzir uma reação muito negativa na opinião pública.

Este tipo de projeto tem implicações muito preocupantes para os cidadãos, tanto da América Latina quanto dos Estados Unidos e qualquer outro país. É o ponto de partida para uma vigilância maciça de toda a população, através da sua vida pessoal e social, violando a liberdade pessoal e seus direitos. A idéia de que organizações de inteligência e militares estejam vigiando e seguindo os cidadãos – todos sob suspeita – para prever atos de violência no futuro é autoritário e orwelliano, e evoca a doutrina de segurança nacional. O aparato de segurança nacional estadunidense parece estar se estendendo e se ampliando fora de controle, com projetos cada vez mais intrusivos e anti-democráticos. Agora que os cidadãos em muitos países estão cada vez mais indignados com os respectivos sistemas e apelam a atos de protesto para reivindicar mudanças econômicas, sociais e políticas, faz-se necessário conhecer e desafiar este tipo de projeto.''

J. Patrice Mc Sherry, diretora do Programa de Estudos sobre a América Latina e o Caribe na Long Island University, Brooklyn. Autora de Os Estados Predadores: Operação Condor e a Guerra Encoberta na América Latina.

Boletim de notícias da Telesur de 2 de novembro de 2011

Tradução – Eduardo Marinho

Fonte: pagina12.com