terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Do facilitar ao livre-aprender

Esse é um texto difícil, polêmico e vai mexer muito com a gente. Se não estivermos bem atentos nesse convite à reflexão vai ser muito fácil entrar em estado defensivo para validar aquilo que fazemos ou acreditamos. Então aqui estou para "dar a cara a tapa" mais uma vez e falar do que tenho pensado ultimamente.

Estou vendo surgir uma onda, cada vez maior, de facilitadores. Sem julgar o pessoal. To falando do ato de facilitar. O que vejo que está se configurando como uma "facilitação" nos dias atuais, mais parece uma "dificultação". Pois é... Adoraria chamar muitos amigos meus de dificultadores, ou faladores. Mas como há grande possibilidade de tomarem as dores pro lado pessoal e não da reflexão desses atos, não vou usar esse termo.
Pra ficar menos conflituoso vou me reservar a falar de mim e das minhas experiencias. Na verdade é só o que tenho. Quem se identificar que se aproprie como bem entender.

Por algum tempo já me considerei um facilitador. Quem me conhece sabe da minha relação com o unschooling (desescolarização), que nada mais é do que nosso processo de desculturalização, nossas tentativas de quebrar os velhos paradigmas sociais entranhados em nosso cotidiano.
Quando a brincadeira começou, não tive muitos amigos que questionassem o que eu fazia. Se eu tivesse experiencias de quem me apropriar, acredito que os processos de aprendizagem e desconstrução de paradigmas fossem bem menos trabalhosos. Tudo o que eu tinha era alguns amigos (loucos) dedicados a desconstruir e investigar junto comigo esses processos desumanizantes. Que nos impedem de se colocar no lugar do outro.

E o que a desescolarização tem a ver com facilitação?
A desescolarização desmistifica a necessidade de um professor para que haja aprendizado. Nessa história, o facilitador aparece como um professor da nova era. Ele não ta ali pra ensinar. Ele vai facilitar os processos de aprendizagem, de auto-empoderamento, ajudar na busca por um objetivo.
Se pensarmos em ambientes livres, distribuídos, de forma a gerar abundância de recursos, o facilitador, palestrante, que seja, está mais obstruindo fluxos, centralizando a atenção do que permitindo que a magia do imprevisível se manifeste.
Na minha opinião, facilitar a vida de alguém significa realmente facilitar a vida:
ajudar a mãe com a louça, ajudar o empresário a diminuir seus custos, dar ouvidos a quem precisa desesperadamente de atenção, repensar desperdícios, dar soluções a problemas cotidianos, reduzir, reutilizar, reciclar. Atender uma demanda de forma eficiente.
Vejo os atuais facilitadores impedindo a naturalidade do ser, o livre pensar, o livre agir. Uns mais empolgados se mostram até como gurus do saber.

Pessoal, não é fácil, eu sei! O vírus do professorado. É tentador estar em uma posição que a atenção de todos é voltada pra vc e não querer conduzir as pessoas para um resultado esperado. É difícil se livrar disso. É uma posição que nos da poder, nos da satisfação. Ainda que a gente reúna a força dos Deuses da indiferença, ainda temos que lidar com a expectativa do facilitado para que algo significativo se concretize. Ele está ali, ouvinte, se colocando em uma posição inferior. Nós temos sempre algo a dizer, uma sugestão do que fazer. "Qual o próximo passo?", é comum pensar.
Nos faz até acreditar que estamos fazendo a diferença, NÃO! Se fazemos alguma diferença é porque ela se dá naturalmente em nossa dinâmica de convívio social. Nos tornamos novos seres a cada interação. Independente de temas pré-definidos ou acordos pré-estabelecidos. Mudamos o tempo inteiro desde que o mundo é mundo. Pessoas se transformam na medida de suas interações e grau de interesse. Juntas. Sem a intenção de transformar, mas sim de aprender.

Vi relatos emocionantes de professores que desistiram do que faziam por começarem a achar estranho o ato de lecionar. E olha que eram professores bem moderninhos. Em vez de aula, assistia "Eu Maior" com os alunos pra debater sobre o tema. Foram poucos relatos. 2 escritos e 1 pessoal. Percebi como foi difícil esse processo. Aprendi com a experiencia deles.

Exemplos pessoais de livre-aprendizagem que funcionaram bem pra mim:
- Enquanto uns se inscreviam no Terrapia pra se tornar chefs crudivoro eu aprendia a "cruzinhar" ao conviver 1 semana na casa de um dos fundadores da iniciativa, o querido Zé Junior (Zé Vivo).
- Enquanto uns procuravam por workshops voltados para agroecologia eu convivia diariamente acompanhando o Jorge, filho do Zé Ferreira (uma das referencias em agroecologia no Brasil) na sua rotina de trabalho diária. Isso se resumia em fazer mutirões com seu pai, andar pelo mato com facão e máquina fotográfica e limpar os jardins dos vizinhos.
- Enquanto uns se especializavam em cursos de acupuntura, massoterapia, shiatsu, eu atendia 2 vezes por semana a população carente da minha região numa equipe que se dispunha a trabalhar gratuitamente com o objetivo primeiro de cuidar do outro. Observando um grande ser humano chamado Zezito que fundou sua ONG e é super admirado por seu trabalho em Paraty.
- Enquanto uns procuravam por imersões em permacultura, eu ajudava a fazer casas de bambu, pau a pique, superadobe, eucalipto chegando junto de quem precisava de uma mão na obra. Dos senhores que detêm a herança dos saberes regionais. Eu me atrevia a fazer fossas de bananeira no quintal dos amigos.
- Instalação elétrica e hidráulica, fui aprender ajudando os poucos amigos que ainda entendem (os mais velhos nesse caso. Os da minha geração mal trocam uma lampada).
- Fui aprendendo a tocar um instrumento fuçando na internet e ouvindo amigos músicos.

Eu aprendi em 3 anos de vida "fora da caixa" o que não aprendi em 23 anos de academia.
Não gosto de dizer que aprendi mais, ou que aprendi melhor. Digo que aprendi vivendo. Com prazer em fazer. Movido unica e exclusivamente pela minha curiosidade. Em relações livres, rindo, arriscando, brincando de aprender. Dizem que a todo momento, o ser humano aprende naturalmente com o que faz. Ele só tem que se esforçar para aprender o que não faz.

Põe a totalidade do seu ser naquilo que fazes e em algum momento vc vai perceber que não consegue mais dissociar trabalho, férias, afazeres de vida. Tudo se torna vc vivendo da melhor maneira que pode e convivendo da forma como acredita. Vc se vê interagindo e não facilitando. Vc vê os efeitos que a interação causa nos outros e em si próprio. Se parar pra pensar, a gente se facilita o tempo inteiro. E quando a gente se propõe a faze-lo, é que se manifestam os equívocos, as incoerências, as expectativas.

O que é ainda mais intrigante, é que não existe nada de inovador nesse movimento de livre-aprendizagem. O futuro que queremos está no passado. Estamos a cada momento, com uma bela ajuda da tecnologia, resgatando nossa antiga sabedoria comunitária.

Concluo que a convivência social é o maior dos aprendizados que podemos ter. Participar de ações coletivas, se reunir em praças publicas, organizar manifestos, se ajudar em mutirões, morar junto, se permitir aos conflitos provenientes da convivência. Conversar, dialogar, escutar, estar atento. Não é difícil não. Mas a gente complica com uma facilidade...

E das pessoas que aprenderam comigo?! Ah! Devem ter sido muitas. Não porque eu tenha muito com que contribuir, mas porque foram muitas as que cruzaram meu caminho. Dos aprendizados que tiveram, só elas podem dizer.



sábado, 14 de novembro de 2015

13 de novembro de 2015 - um dia para se lamentar

Texto de Rodrigo Mansur*

"Ai de ti, meu amigo, que se comove por Paris. Recomendo que feche o Facebook por esses dias. Vais ler muitas coisas que irão adensar sua tristeza em vez de amenizá-la. Depois disso, vais chorar pelos vivos tanto quanto pelos mortos.

Ai de ti, meu amigo, a quem dizem que seu coração devia ter outras prioridades. Que devia estar em Mariana, Síria, Shangrilá e não em seu peito. Que suas lágrimas deveriam banhar doentes na África ou crianças na esquina ao invés do seu rosto. Como se suas qualidades morais fossem mutuamente excludentes. Aqueles iluminados que detém as certezas inabaláveis e os sentimentos corretos vão ensiná-lo a controlar os misteriosos caminhos da sua empatia. Com sorte, da próxima vez, não serás tão fraco ao não conseguir escolher o que sentir.

Ai de ti, meu amigo. Vão tentar colocar antolhos na sua mente e cabresto no seu coração. Vão medir seus sentimentos com uma régua de plástico. Vão pesar suas lágrimas numa balança de chumbo. Vão classificar, selecionar e descartar suas emoções segundo suas lógicas impecáveis. Vão calcular o nível ótimo de dor e manda-lo passar no caixa. “Próximo”.

Ai de ti, meu amigo, que vais ouvir teorias a respeito da responsabilidade das vítimas: da sua convivência, da sua abertura, da sua história, dos seus preconceitos, dos seus pecados, da sua existência. No lugar do consolo, vão presenteá-lo com a culpa. Vão sugerir que és inocente, manipulado, ignorante, racista e – pasmem – insensível.

Ai de ti, meu amigo. Não queria estar na sua pele. Mas estou. Je Suis Toi. Ai de nós, meu amigo."

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Relato de um dia comum por William Germano

Gente que da esperança! Os pequenos gestos revolucionários. Obrigado por compartilhar, William.

"Confesso: matei aquele cara mau do sinal! Sabe aquele menino do rodinho que limpa o vidro?! Vou contar meu assassinato porque este é o país da impunidade!

Todo domingo aquele cara que chega com um rodinho e uma garrafa pra limpar o vidro do carro no sinal. 6 e pouco da manhã, provavelmente noiado de pedra e cachaça. Eu tendo que falar que não quero, meu direito, caramba! Não quero, não limpa direito, não precisa limpar, porque ele não vai arrumar um trampo? É pra comprar droga! É pra comprar cachaça, é pra olhar o que tenho no carro pra roubar!

Pois bem. Há uns 6 meses aconteceu. Aquela tensão! Minha luta pelo direito de falar "não" por um serviço inútil!

Aquele sinal. Toda semana em meu caminho. Decidi que ia tomar uma atitude, mas não esperava que acontecesse uma mudança tão dramática.

Vermelho! Putz, é hoje!

Ele sai dá calçada vai pro carro da frente mostrando seu rodinho e fazendo positivo com a outra mão. O cara do carro da frente faz que não! Ele vai pro carro da outra pista. Mesmo história. O próximo sou eu.

Vermelho. Não vai dar tempo. Suando frio. Ele vai levantar aquele rodo já sabendo que vai tomar outro não! quem sabe vai me jogar o ácido que disseram que jogaria num alerta de internet. Ele se aproxima, mas sou mais rápido. Abro o vidro e disparo!

"Irmão, bom dia! Tudo certo contigo? Tem a moral de limpar meu vidro de trás que tá com uma poeira do caramba. Depois faço uma 'presença' pro senhor. Valeu"

Ele revida

"Opa! É pra já, patrão!"

"Que patrão, o que colega!"

Ele limpa, brinca com meu filho. Meu filho. Meu filho brinca com ele. Os dois sorriem.

Uns trocados. Vai com Deus. Fica com Deus. E vamos embora humanos. Todos nós, finalmente.

O homem mau do sinal vermelho foi morto! Morto com seu "direito sagrado de falar não"

(Eu escrevo porque o faria de qualquer jeito. Eu público sei lá porque. História verídica)"

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Carta que escrevi aos 16 mil do grupo de compras coletivas: Comida da Gente

"Essa carta vai pra todos vocês. Pra todos nós que fazemos compras e participamos desse grupo.

Tenho percebido coisas. E isso me alegra. Emoticon wink
Estamos aqui experimentando algo novo. Infelizmente a plataforma não é acessível a muitos interessados (produtores rurais). Ai que o "da gente" entra. É possível perceber o poder de uma rede ativa e comprometida. O poder que uma pessoa tem quando ela se coloca a disposição do coletivo. A abundancia de possibilidades ao permitir que as coisas (produtos, valores, tabelas, informações) sejam acessíveis.

Depois de perguntar se alguém tinha interesse no queijo da serra, ficou bem notável essa fase de experimento. É onde o alimento sai da prateleira do super mercado e se torna relacional. Vi exigências, respostas precisas, duvidas, curiosidade, cobranças... uma relação diferente com cada pessoa. Adoro me relacionar com pessoas e a alguns anos tenho experimentado isso de forma bem intensa vagando por entre casas e ambientes abertos.

O que posso concluir sobre o grupo Comida da Gente até aqui, é que durante uma compra, ou venda, vc não tem garantias. Absolutamente nada te assegura de que vc terá o que deseja. Em contrapartida, é um lugar onde se impera a confiança. É isso que sustenta mais de 16 mil comprando e se organizando para conseguir produtos de melhor qualidade e financeiramente mais acessíveis. E na verdade, é isso que estamos experimentando. Estamos aprendendo a nos relacionar, pois em algum momento da história essa capacidade foi grosseiramente atrofiada. Existem placas de "não fume" e onibus sem opção de janelas abertas porque perdemos a capacidade de lidar com conflitos.
Não existe a possibilidade de ser amigável e pedir para uma pessoa não fumar na sua frente. Existe o lugar que pode e o lugar que não pode e os incomodados que se mudem. Temo o dia em que não existam mais lugares para onde se mudar.

Estou, orgulhosamente, me acostumando a não lamentar, reclamar, ou buscar culpados. A partir do momento que me surge um conflito, um problema, já estou pensando na solução. Articulando com amigos para gerar mais soluções criativas e deixar que as coisas tomem forma para agir a partir dali. Quanto mais cooperativos somos em nossa relações, mais eficientes nos tornamos.

E a melhor forma de fazer "o queijo do produtor chegar na sua casa" é confiar que as pessoas envolvidas na logística estão realmente preocupadas com o bem estar de todos. Que conflitos existem, que imprevistos fazem parte da vida, que vontades mudam e que o mais importante ainda continua sendo confiar que somos capazes de nos importar uns com os outros. Que, a qualquer custo, vamos conseguir resgatar essa capacidade perdida de nos relacionar como seres humanos.

Me sinto muito grato por todos voces que fazem disso possível!"

terça-feira, 18 de agosto de 2015

As Minhocas do Vale

Mais uma nova fase que promete grande aprendizado vem se apresentando. Visconde de Mauá novamente como palco.
Quero dizer o que aprendi até aqui com essa brincadeira de casa aberta, vida aberta, relações abertas esmiuçando a máxima: “aqui é tudo nosso”.
Houveram mudanças comportamentais significativas desde que comecei essa deliciosa brincadeira a 5 anos atrás com Nando, Maiko, Kienteca, Venuto e companhia.
Hoje a abertura ao imprevisível é permitida com mais responsabilidade. Atentando ao cuidado e respeito ao outro.
Moramos eu, Fabio e Didi, por enquanto. O ambiente no dia-a-dia vai se configurando de forma a tornar as coisas mais funcionais para nós. Por exemplo: os 3 amam cozinhar, logo, qualquer mudança de utensílios na cozinha deve contemplar a opinião dos 3.

Percebi que antes da casa ser de todos, ela é minha. Não pela ideia paradigmática de propriedade. Não sinto assim. Mas logística e logicamente, o ambiente deve ser favorável a quem passa mais tempo por aqui.
A casa é de quem convive mais dentro dela. Não há regras, não há restrições sobre o que fazer, e isso não significa que você pode fazer o que bem entender. Existem limites. E eles são muitos. Quanto mais liberdade, quanto mais pessoas dentro da casa, mais limites hão de ser respeitados naquele momento. Dai a importância da pergunta, gosto de explorar essa ferramenta. Tentar entender o outro é imprescindível para uma convivência mais agradável. Perguntar é a forma mais eficiente que encontrei até agora.

Entendi que o “chegar chegando” não é pra qualquer um. É pra quem tem liberdade para tal.
Tudo depende das pessoas e do momento em que se dá a interação. Existem momentos e pessoas que chegam sem avisar, na hora que for e saem entrando sem cerimônia. Isso pode gerar algum constrangimento se não houver empatia suficiente na relação.

A motivação original para alugarmos uma casa grande foi para receber viajantes voluntários para trabalhos que envolvem permacultura e agroecologia no Vale das Minhocas. Não é da nossa preferencia oferecer cursos e muito menos fundar ecovilas. Seria perfeito se as pessoas pudessem se explorar manifestando suas habilidades sem restrições aqui e acolá. Eu sou assim. Primo pela livre interação e livre aprendizagem. Por onde eu andar minhas relações tendem a se desenvolver dessa forma. Se estou nessa casa, parte dela será como eu. São as pessoas que configuram os espaços no momento em que se relacionam com ele e entre si. A casa se configurar com um estatuto ético e moral, como uma entidade, como um espaço onde se faz algo específico é um grande desrespeito com quem passa por ela. Ética é algo que se desenvolve na interação e se manifesta baseada nos valores de cada um.

Há muito trabalho a ser feito por aqui. Estamos prazerosamente dedicados a fazê-lo. Dado a quantidade de afazeres, visando construir uma relação mais sustentável com a terra, a participação de alguém que haja de forma descuidada e desatenta, depreciando o espaço, se tornou menos tolerável nesse momento. Todo tipo de ajuda é bem vinda. Sinta-se a vontade para participar dessa história e contribuir com a gente, uma comunidade global.

Amar é perceber a existência do outro ser humano na sua frente.




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Associação Amorosa dos Seres Iluminados

Cada vez mais tem me agradado estar perto de crianças.
Não é comum me sentir desestimulado na presença delas. Posso ser espontâneo, agir naturalmente.
Passei o dia conversando com algumas delas hoje na praça. Varias idades. E foi um dos momentos de mais tranquilidade dos últimos tempos.
Me senti vivo, fluido. Fazendo o que eu queria, sem, absolutamente, nenhum receio de pensar 2 vezes antes do próximo ato. 
Ao perguntar suas idades elas não se preocupavam se estão velhas ou novas demais. Ao perguntar onde moram elas não sabiam ao ceto. Sabem que estão onde estão. É o que importa. Elas não precisavam afirmar: "eu sou do mundo, meu espirito é livre". Elas sabem que são! Eu chutava bolas e dava passes sem titubear. Sem tentar acertar, sem medo de errar. E percebendo meu estado de satisfação, comecei a me perguntar porque essa sensação não é tão frequente quanto eu gostaria no dia-a-dia.
E me vieram reflexões antigas ainda sendo amadurecidas. 

Existem muitos lugares, e não são poucos, que os valores morais não me permitem explorar minha natureza. Me engano! Não são os lugares que fazem isso. Eles não tem essa habilidade. Pessoas sim.
Umas mais, outras menos, mas todos nós estamos vestindo nossos avatares sempre que convém, criando personas para sermos mais bem aceitos, amados, adorados. Tudo bem! Fizemos muito na escola escolhendo nossas tribos. Reconheço que é uma condição a que fomos submetidos desde o nosso nascimento com todas essas convenções culturais. O que é extremamente problemático é cair na mesma armadilha achando que estamos "fazendo diferente". Que fazer yoga, entoar o OM e falar com a voz amena nos proporciona autoconhecimento. Que só andar com o mesmo grupo e usar roupas folgadas e coloridas é sinal de autoconfiança. Que buscar justificativas para o que fazemos suavizam nossos atos. Quando surge um porém, quase sempre é uma negação do outro e da crítica que está sendo feita. Não explorar diferentes mundos nos acomoda.
Se digo: "eu não gosto disso", ou "aquilo me incomoda". Pronto, criei um problema.
Tenho ouvido mais uma enxurrada de "mas" para justificar a falta de reflexão do que perguntas interessadas que dão abertura ao diálogo como: "por que vc pensa assim?" "o que poderia ser diferente?"?

Há quem questione os temas desinteressantes que surgem no facebook. Há quem fale da futilidade alheia. Há quem critique as selfies e seus paus. O que estou dizendo é algo mais profundo. É questão de olhar pra si mesmo. O que motiva nossas ações, qual a origem dos nossos sentimentos e desejos. Me admira que isso seja um "algo mais profundo", dado que, a persona que criamos é uma enorme atitude de desrespeito ao outro. Uma tremenda desonestidade. Um ato de negação do momento, da interação, do outro ser humano, do presente, do real, em nome de um ideal.

Quando faço uma critica é porque algo me soa estranho. Tem cheiro de confusão no ar. Alguma coisa não ta batendo. Adoraria ver essa critica sendo aceita. Me parece natural receber uma crítica e refletir sobre ela. Pensar sobre a imagem que estamos passando pro outro. Atentar às incoerências presentes em nossos atos, mas não é o que acontece. Longe disso.
Em uma reação defensiva, quase imediata, negamos que aquilo pode ser uma boa informação sobre nós mesmos. 
Se eu passo a questionar o que faço, como vou continuar fazendo sem o pesar na consciência?
Por mais que eu ache estranho, preciso me enquadrar aqui. Não nos damos a chance de refletir sobre o tema. Se sentir só, é angustiante. Queremos fazer parte de um grupo. Pensar igual a alguém é mais fácil do que pensar por nós mesmos.

Já largamos empregos estressantes, faculdades padronizadas, religiões doutrinantes, trabalhamos com o que nos dá prazer, nos encontramos para conviver e falar de espiritualidade e... será que é suficiente?! Quebramos todos os paradigmas e já podemos desfrutar de uma vida plena e abundante?! Atingimos um grau tão elevado no caminho espiritual que os dramas cotidianos (miséria, corrupção, retalhação, guerra) se tornaram irrelevantes?! Nos libertamos de toda a escola opressora ao ponto de já estarmos desescolarizando nossos filhos?! Essa tal desprogramação tem um fim?!

Eu acho que a gente ta só no começo dessa brincadeira, sabe?! Negar que continuamos a todo momento temerosos de não sermos aceitos socialmente é muita ingenuidade. Eu quero cada vez mais assumir o desafio que é viver. Aceitar que quanto mais trabalho eu tenho, mais trabalho terei. Não tenho a ilusão de viver uma vida perfeita, plena e feliz. Sei que a vida não é fácil por mais que pareça, nesse momento, incomparavelmente mais fácil pra mim do que pra muita gente. Tenho sim, a consciência de que quanto mais quebro esses paradigmas tão bem introduzidos na nossa sociedade, mais livre me sinto, mais espontâneo eu sou, mais desenvolvo minha potencia e menos incoerentes são minhas atitudes. E assim, como quem não quer nada, vejo aflorando os reais sentimentos de compaixão, solidariedade e respeito ao outro.

Não quero ser chamado de iluminado quando expresso meus sentimentos da forma mais verdadeira que consigo. Eu quero desabafar, conversar, quero me reconhecer no outro, quero ser humano, quero ouvir opiniões diferentes, quero experimentar a vida e compartilha-la em cada pensamento que me for apresentado. Sem divisões, sem lado certo ou errado, sem figuras de herói e vilão, mas com inteligencia, com verdade, com compromisso em estar presente, pensante e vivo na questão apresentada.

Alguns exemplos me incomodaram bastante nos últimos tempos. E minha frustração não se deve ao incomodo, mas sim ao fato de não ter abertura para relatar meu incomodo. 
1 ano atrás participei de uma reunião numa casa colaborativa e vi pessoas ali. Pessoas de verdade. Preocupadas em buscar soluções juntas para os reais conflitos do dia-a-dia. E discutiam, e discordavam e buscavam um entendimento. Achei ótimo. Mesmo sem concordar com algumas ideias, julgando outras mais inteligentes, fiquei por ali, pois aquela dinâmica me emocionava. 
Fui acompanhando esses amigos, e com o tempo percebendo que não haviam mais reflexões sobre as incoerências. As soluções não eram pensadas a partir da origem do problema. Não havia mais o olhar para a desconstrução de paradigmas, e sim novos paradigmas sendo criados com soluções que maquiavam o real problema.
Um novo paradigma foi criado e negado. Pensar no real problema seria deixar de viver tudo de belo e maravilhoso que aconteceu e poderia continuar acontecendo. Valia mais estarmos juntos, vivendo momentos lindos de amor e gratidão. E é claro que a vida não é feita disso. Logo aumentam-se os conflitos de um mundo idealizado em negação ao mundo real.
A pouco tempo voltei para mais uma reunião.
Uma reunião necessária para lidar com o problema original que voltou a bater à porta. Que legal! Pensei. Ao chegar, não encontrei mais as pessoas comprometidas em serem elas mesmas e se permitirem às possíveis soluções. Vi muitas personas. Algumas que controlavam o fluxo das conversações, impedindo que elas existissem e outras que se sabotavam se colocando numa posição de ouvinte pela pressão de grau de importância que se configurou no espaço.
Não tive a sensação de ver soluções sendo geradas, não haviam discussões, mas haviam vários discursos bonitos e inspiradores. Foi o que consegui ouvir nos primeiros minutos que consegui sabotar minha natureza e ficar ali naquele espaço, na minha opinião, desumanizante.

A motivação desse texto foram vários acontecimentos. Esse foi um episódio que me deixou bem triste pela minha expectativa criada sobre alguns amigos. Não porque desejei determinado comportamento deles, mas porque não re-encontrei a leve espontaneidade que me nos faz tanto bem. Desejo caminhar junto, discutir, aprender, necessito um ambiente fértil para me explorar e isso depende de pessoas. O que gerou grande empatia num primeiro momento a um ano atrás se perdeu pela criação da persona e de um cluster que só fala a mesma língua.


sábado, 18 de julho de 2015

A Reflexão e o Amor

"Esta é a mudança que está acontecendo agora na cultura patriarcal ocidental, tanto no espaço do entendimento como no espaço da própria convivência, já que as fontes desta mudança são a reflexão e o amor. A reflexão que libera do apego é o que constitui a ciência enquanto domínio explicativo e permite o olhar capaz de ajuizar no espaço das preferências as ideologias sociopolíticas do patriarcado; e é o amor que, ao configurar o ético a partir da aceitação do outro, como espaço das ações no qual nos importamos com o que acontece ao outro, permite o olhar reflexivo e a negação das ideologias que negam o amor."
Humberto Maturana

Como ser ultra-espiritual

Texto de Fator Quantico*

"Você deve conhecer pessoas que gostam muito de entender e praticar a espiritualidade. Praticam todas as modas espirituais que surgem de tempos em tempos, se envolvem com mensagens de mestres/médiuns/líderes/gurus espirituais desta ou de outras épocas e planos.

São pessoas amenas, doces, de fala lenta, macia, tranquila. Aparentemente sem agressividade e muito conselheiras (um grande perigo).

Acabam se tornando referência para muitas outras pessoas por essa sua postura ultra-mega-extremamente adorável-amorosa-pacífica. É aquele seu amigo "sabixão-espiritual", "muito iluminado".

Mascaradamente, julgam outras como menos iluminadas por seus comportamentos e até por condições de vida adversas que podem acometer qualquer um (agressividade, vícios, sofrimentos).

Você está lembrando de alguém que se encaixa? Pois pergunte-se o quanto você mesmo faz isso.

As ideologias religiosas/espiritualistas estão cheias de negação dos sentimentos tais como muitos deles são: ruins. Pensam que não entrando em contato com seus conteúdos psíquicos desagradáveis estão num caminho espiritual melhor do que aqueles que estão tomados pelo que sentem.

JP Sears satiriza brilhantemente o comportamento espiritualista neste video:


A importancia do fazer

Movemos o mundo com nossos corações. A partir do momento que ele grita: Faça alguma coisa!!!
Desse jeitinho que fui me libertando das amarras. Aprendi a ouvi-lo e respeitar meus impulsos mais genuínos, com muita incoerência, claro, mas aberto para entender o que sentia e alinhando pensamentos críticos e intuição.
Não foi um trabalho fácil, não está sendo, mas a satisfação é garantida. Liberdade não é uma virtude para preguiçosos. É pra quem rala, pra quem arrisca e principalmente pra quem confia.

Posso dizer que a mais ou menos 6 anos atrás comecei a questionar muito o mundo que foi me apresentado originalmente. Logo entendi como girava a roda da economia monetária e de onde vinha a desigual distribuição de renda.
Após estudar e entender bem mais do que aprendi na escola, parti pra ação. Não por ser um cara super corajoso, mas por não suportar mais as grosseiras incoerências sociais que me rodeavam na cidade. E foi assim, na base da confiança que me veio a onda de desapego. Reduzi meu quarto a uma grande mochila. Fui viajar sem dinheiro para experimentar o que é não ter nada. O que é depender necessariamente da boa vontade do ser humano. E aprendi um tanto bem bom.

Meu custo de vida foi sendo reduzido vertiginosamente. Fui  percebendo a felicidade nas coisas simples da vida. Aluguei uma casa num canto pertinho do rio e da mata, que não sofria tanto com a especulação imobiliária. E assim como meus poucos bens materiais, não fazia sentido ter mais direitos sobre aquele espaço do que qualquer outra pessoa.
Dai surgiu a máxima: "aqui é tudo nosso!". Sim, bem radical, arrisquei e confiei mais uma vez. Posso dizer que serviu de base pra aprender mais um tanto.

Abri minha casa, e de forma bem resumida digo que seguia os 4 princípios do open space:
1. Quem quer que venha, são as pessoas certas.
2. Quando começar é a hora certa.
3. O que quer aconteça é a única coisa que poderia ter acontecido.
4. Quando acabar, acabou.

Me permiti aos conflitos que poderiam surgir dai. Assumi a responsabilidade por minas atitudes e aceitei o incessante trabalho da manutenção da harmonia de uma "casa da mãe Joana". Em 2 ou 3 anos aprendi e vivi mais do que os últimos 20 e poucos. 
Algumas experiencias fui relatando e compilei aqui para compartilhar com quem se interessa: 

Pra quem pensa que aprendi tudo isso sofrendo e passando necessidade, está muito enganado. Aprendi brincando de viver. Foi fluindo pela vida e recebendo com graça o que me era oferecido, que pude experimentar momentos de plena felicidade e abundancia. Hoje em dia só sei viver assim. E assim sigo fluindo abertamente, compartilhando os recursos que disponho, desenvolvendo minha relação com a posse, respeitando os limites da minha relação com o outro e trabalhando incansavelmente minhas habilidades terapêuticas e agroecológicas.

"Brincar é uma atividade que se realiza no prazer de ser feita, com a atenção posta no prazer de fazer a coisa, pelo fazer mesmo, não na conseqüência. Permite a seriedade do fazer pelo próprio fazer, pelo respeito àquilo que se está fazendo, pelo prazer de fazê-lo e não pelas conseqüências que poderá ter."
Humberto Maturana


terça-feira, 14 de julho de 2015

Não é a casa que é aberta. É a pessoa!

Sempre me lembro de um texto do Paulo Brabo quando tendemos a nos afastar do "peer to peer", das relações naturais e espontâneas que se dão no momento ao pré-configurar um espaço.

Diz Paulo Brabo que instituições, organizações, grupos, não existem. Só existem pessoas. E elas, nós, as pessoas, criamos algo determinístico no desespero de ter as coisas sobre controle. E o controle é uma mera ilusão, meu amigo. Não temos controle sobre nada. Mais vale a gente aprender a seguir fluindo do que se matar tentando fazer nossos planos se materializarem.

Uma casa aberta, nunca será aberta se as pessoas que a frequentam não se permitirem ao imprevisível, não se abrirem a experiencia de viver o momento. Uma casa não é aberta por que assim se determina. Pessoas abertas fazem de qualquer lugar um espaço aberto. As relações podem ser abertas. Os ambientes, nunca.

Passei por casas de amigos muito queridos onde me senti num verdadeiro lar. Confortável e a vontade para dormir, comer, usar o que fosse e ficar o tempo que quisesse. O mais curioso é que alguns desses amigos nunca ouviram falar em "co-housing", "casa colaborativa", ou coisas do tipo. A interação era livre, aberta, honesta e baseada na confiança.

Se você experimenta relações livres na sua vida, naturalmente a casa que você mora não será um lugar cheio de regras e manuais de boa conduta.

sábado, 4 de julho de 2015

O que observei na Catete92

Uma coisa que sempre achei curiosa:
Observo as pessoas encantadas com a casa, com a proposta, com os encontros e tudo mais. Essa casa que é um lugar onde experimentam relações de confiança, os movimentos de cuidado e atenção com o próximo, onde podemos autogerir um espaço de forma colaborativa.

E paradoxalmente, ai que vejo a grande falta de confiança nas relações. Por que precisamos ter um espaço dedicado a isso?! Por que estamos tendo um custo adicional para isso?! Se a ideia é permitir o acesso, é gerar abundancia, por que não pegamos o máximo de nossas potencias para isso?! Será que precisaria existir uma Catete92 ou uma Laboriosa89 se estivéssemos usando nossas casas de forma autogestionada, colaborativa, compartilhada?!
Acredito que não o fazemos justamente pela falta de confiança.
Se confiássemos de verdade nas pessoas, nas relações que temos, precisaríamos ter um espaço a parte para experimentar?!

Eu acho ótimo experimetar, faz parte do nosso desenvolvimento pessoal. O que acontece no catete é muito legal. Então vamos desenvolver mais pra continuar experimentando?! Abundancia não seria ter mais casas com essa proposta?! Permitir acesso não seria eu poder descansar, ou usar a internet ou almoçar na casa mais próxima de onde estou? De acordo com minha necessidade? E poder cuidar desse espaço como se nosso fosse?

Adoraria que começacemos a pensar mais nisso. Proponho que a gente comece a fazer do catete92 a realidade de nossas vidas.
Que a gente não fique tão somente brincando de vida em comunidade quando convém, mas sim encarar o desafio do que é uma vida comunitária. Que a gente assuma a maturidade pela fluidez da vida, pelos conflitos que podem surgir das interações livres e que a gente possa, que a gente consiga, de verdade, confiar mais nas relações que estamos construindo a cada instante uns com os outros.

O discurso de: "eu preciso do meu espaço", "eu preciso da minha privacidade", mais parece uma necessidade de ter seu momento de silencio, ou solidão, ou meditação, garantido.
Quando confiamos no outro não precisamos ter esse espaço. Não exigimos garantias.
Temos nossas necessidades atendidas na relação com o outro, com base no respeito e empatia: "queria ficar um pouco sozinho, umas horas, uns dias, vc se importa?" e pronto, ai está a sua privacidade respeitada. Bem diferente de um aluguel de um quartinho para garanti-la, não?!

Atualmente moro em Visconde de Mauá e a pouco mais de 4 anos minha casa está aberta ao que quer que seja. É só chegar e se permitir. Fernando Furtado e Maiko Pinheiro podem falar com bastante confiança sobre isso.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Experimentando Novas Formas de Vender

Embalado pelos discursos de "mas eu preciso de dinheiro pra sobreviver" e "não dá pra fazer tudo de graça" eu tento responder à confusão que foi gerada com um exemplo do que tenho feito:

Sabemos todos que temos necessidades básicas a serem supridas (ar, água, alimento, agasalho, abrigo). Ok! Tendo acesso à essas 5 coisas sobrevivemos.
O mais difícil hoje em dia é ter fácil acesso a alimento e abrigo. 
Sendo alimentação e moradia temas que me envolvem bastante, procurei explorar novas formas de fazer. Sobre moradia, muitos já estão cansados de saber dos movimentos de casas abertas e compartilhadas que andei co-criando por ai.

Agora tenho me permitido explorar o alimento relacional. E sou grato ao Thiago Lopes por ter me ajudado tanto nessa reflexão.
Alimento é um bem de necessidade primária e as pessoas já compram, com má qualidade, e ainda pagam caro por isso.
Logo, faz muito sentido a existência um alimento mais saudável que seja acessível às pessoas.
Faz tanto sentido que a busca por orgânicos e maior proximidade com o produtor rural tem aumentado exponencialmente nos últimos tempos.

E o que sustenta essa mudança é nada mais nada menos do que a boa, velha e quase extinta relação de confiança. A mesma que faz as pessoas compartilharem suas vidas em uma casa colaborativa. Nesse tipo de moradia estamos resgatando o ato de confiar. Sendo assim, queremos confiar que o outro terá um olhar atento pro meu espaço e meus limites no ambiente. Ao comprar comida, quero confiar que o outro está produzindo um alimento de qualidade e cobrando o necessário para suprir apenas sua necessidade financeira, e não ganhar em cima de mim com um produto cheio de propagandas e belas histórias.

Com esse pensamento, eu e outros tantos amigos, estamos começando a produzir terra boa para plantio e alimentos beneficiados do quintal com a intenção de atender a essa demanda de primeira necessidade com maior qualidade e um preço mais acessível.

Ainda que não esteja muito claro, percebo uma tendencia à mudança das marcas, nomes e selos gourmets, para algo bem mais intimo, mais acolhedor, mais integrativo e mais relacional, nos aproximando da humanidade existente entre produtor e consumidor.

Em alguns lugares tem-se preferido o:
"Produzo tomates! Quem precisa?" 
Do que a plaquinha ou rótulo de: 
"tomates orgânicos, selecionados, biodinâmicos e blablabla..."

Tem sido bem mais prazeroso, pelo menos pra mim, comprar o queijo da Edineia que me convida a conhecer sua casa, suas vacas e o cantinho onde produz os queijos, o feijão do Tião que me explica, na feira mesmo, como tratar a terra para plantar leguminosas, do que comprar de qualquer outro lugar.


Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Sim, eu conheço a Carla.
Acompanho seu trabalho de profunda investigação sobre desescolarização. De todos, percebo a mais engajada nos movimentos de unschooling.
Questiono alguns pensamentos, procuro entender e aprendo com ela. Aprendo sobre mim com ela. Sobre nós com a gente. E sobre o momento no momento em que se dá o momento. E não aprendo pouco.
Recentemente houve um desses momentos que me fizeram admira-la ainda mais.
A publicação de uma simples frase me fez perceber uma das maiores atitudes de respeito ao ser humano que já vi.

Agora tento explicar em limitadas palavras o sentimento confortante que se abateu sobre mim:
Qualquer atividade que comprometa a livre aprendizagem me causa desconforto. Escola, professor e ensino são palavras distantes da minha realidade atual. Busco lidar da melhor forma com o tema quando surge. Estou em contato diário com crianças encantadoras e me encanta ainda mais ver a velocidade com que aprendem sobre o que quer que seja, motivadas apenas pela própria curiosidade.

Com o tempo fui conhecendo pessoas que acrescentaram e motivaram mais as minhas críticas à escola e o ato de conduzir alguém para algum lugar. A Carla, e sua filha Gaia ("unschooler") foram duas delas.
Eis que me surge essa frase onde a Carla se refere, provavelmente, à um diálogo com sua filha:
Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Instantaneamente fiquei maravilhado. Pude acessar o amor presente no ato. O respeito pelo outro, permitir, deixar ser, estar atento, ouvir, não deixar que ideais sobreponham a importância do momento e da interação. E nas relações entre pais e filhos, onde comummente impera a expectativa e o empoderamento de um sobre o outro isso é ainda mais difícil.

Me vi pensando nas pessoas que falariam da incoerência, da contradição da minha amiga, que até repudiariam a liberdade concedida a pequena Gaia. Talvez por não entenderem que não se trata de concessão. E mais uma vez nada disso pareceu ter importância para Carla a não ser o olhar atento ao outro. Um olhar cuidadoso que independe de idade, sexo ou grau de parentesco.

Não conheço a Carla, mas amo cada vez mais os momentos em que me reconheço nela.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Contribuição Inconsciente

Tempos atrás, eu e uns amigos tolos (os quais sinto profunda admiração), tivemos a infeliz ideia de passar nosso conhecimento sobre teoria de redes para ambulantes, camelôs e outras pessoas de baixa renda, a fim de empodera-los. Cheguei a visitar favelas para conhecer os moradores e juntos gerarmos soluções para os problemas da comunidade. 
Não tardou minha percepção de que quem estava sendo empoderado, à duros "socos no estomago", era eu. 
Estudava Direito, trabalhava em um restaurante, e comparado com essa galera de baixa renda eu fazia POUCO, tendendo ao NADA que fosse trazer alguma melhoria significativa para a coletividade.

Cito aqui 3 exemplos que me fizeram descer do palco. 
- Observar o Seu João que aos 53 anos alugava um galpão para reciclar o lixo da favela, cuidava da quadra com o time de futebol que organizou e sustentava a familia, que não era pequena, com seu emprego convencional.
- Conhecer o incansável trabalho de agroecologia do Luiz Poeta com o Verdejar no morro do Alemão.
- Desfrutar da presença e energia da Regina Tchelly no morro da Babilonia com seu projeto Favela Organica, que hoje despensa apresentações, e ainda arrumando tempo para criar 2 crianças.

Depois de ter outros tantos exemplos semelhantes, de pessoas que colocavam a mão na massa, que não tinham tempo pra mimimi, que não se permitem ter sofrer de depressão porque a vida é intensa na prática, pude perceber minha insignificância nesse mundo. Como o simples fato de eu existir com meus movimentos pouco responsáveis depreciava os lugares por onde passava. Pois bem... depois de me sentir o humus de minhoca do coco do cavalo do bandido, comecei de forma espontânea um auto-empoderamento. Colei junto dessa galera e fui aprendendo... Jorge Brito, Kal, Astronauta, Zezito, Jorge Ferreira, Zé Ferreira, Seu Maneco, enfim uma lista infinda de Seus Zés e Donas Marias que sabiam viver de verdade e, sem fazer exigências, assumiam total responsabilidade por suas vidas.

Hoje me percebo mais ativo, com mais vida, cuidando dos lugares por onde passo e produzindo recursos básicos que favorecem a sobrevivência da minha espécie por influencia do aprendizado que tive com o pessoal, que à principio, arrogantemente, fui empoderar.

Começo a falar agora de contribuição consciente.
Outro dia vi no blog da Ana Thomaz: vivencia de não sei o que - contribuição inconsciente.
Achei perfeito. Honesto. O que me fez pensar mais sobre o que seria o desonesto.
Faltam verdades quando careço de informações para contribuir com o quer que seja. 
A contribuição livre e consciente parte do principio de que há uma consciência da pessoa que contribui em todo o processo necessário para que um determinado evento ou projeto aconteça.

Um exemplo prático do que, pra mim, é uma contribuição consciente:
Estou no Catete92 (casa auto-gestionada onde se experimenta a livre-interação) e percebo que falta café na cozinha. Tenho consciência de que muitas pessoas que passam por ali bebem café. O fato de eu lembrar disso, passar no mercado, comprar um pacote de café e levar pra casa me faz ter contribuído com total consciência do meu ato e a demanda que ele atende. É estar atento ao contexto, às pessoas, ao ambiente que me cerca. O ato de contribuir conscientemente requer cuidado. 

Um exemplo de contribuição inconsciente:
Eu vou até a casa, ofereço um curso. Sou pago pelo curso que dei e deposito, digamos 100 reais no pote de contribuição.
Isso é contribuir, mas não há a menor consciência da necessidade do todo, pra onde aquele dinheiro vai, como ele pode ser melhor investido, como diminuir essa demanda. Isso é uma atitude irresponsável perante a vida. Perante o espaço que você faz uso. Isso é uma atitude de descuidado.
Fique a vontade para não usar sua consciência, mas não é o tipo de relação que tenho buscado desenvolver com as pessoas.

Lembrei da amada amiga Carla Ferro e seu argumento confuso. A ideia foi:
"Eu quero oferecer um curso, receber por isso e desejo que cada um pague o quanto puder. E não acho que eu precise dizer que vou usar o dinheiro para pagar minha viagem à Europa e comprar chapéus e blabla...", não lembro mais o que ela falou, mas girava em torno disso.

Te respondo com uma clareza satisfatória da situação, Carlinha:
Se vc não me deixa saber pra que vc vai usar o dinheiro eu prefiro não contribuir. Escolhi ter atitudes conscientes de tudo que me cerca. Não estou pagando pelo curso que vc deu. Seu curso não tem um valor tangível (exceto pelo lápis papel e espaço). Estou pagando por contemplar a sua necessidade financeira quando te dá na telha desenvolver um curso. Eu quero contribuir pra sua vida e não preciso participar do seu curso pra isso. Me soa estranho a ideia de posse. O meu dinheiro é nosso dinheiro e ele está ali, primordialmente, para atender uma necessidade básica (alimento, água, ar, abrigo, agasalho) da minha rede de amigos. 
E não para sustentar a sua vida de "bon vivant". Sim, quando eu digo "bon vivant" é um enorme juízo de valor que faço sobre voce e suas ações que não contemplam valores que trago comigo. Não sou capaz de não julgar, não sou um buda ou iluminado e não pretendo um dia se-lo. Estou feliz com minha humanidade. Julgo a todo momento nas minhas relações e ao manifestar meus desejos. O que tenho aprimorado é o "julgar melhor". Estar atento, observar e coletar todos os elementos contextuais da interação na intenção de ficar mais próximo da verdade, e então definir meus movimentos. Estar consciente do todo!
Isso falando assim num contexto hipotético. Em um contexto mais envolvido emocionalmente, pode ser que eu queira ir comprar chapéus com vc. Mas estar envolvido com o presente é importante pra mim. Me de a sua maior verdade que eu sei o que fazer com ela. Confie na minha capacidade de observa-la e contemplar a sua existência.

Entendendo melhor essa questão do "meu dinheiro é nosso dinheiro":
Quando a relação se dá em um momento determinado, com interesses pessoais a serem atendidos, é razoável uma troca quantificada: Vc me dá isso, eu te dou aquilo e cada um segue sua vida feliz. O meu dinheiro é meu e o seu é seu.
Mas quando experimentamos interações em rede e temos valores que se conversam (amor, compaixão, liberdade), nossas interações tendem a existir e se desenvolver até o final das nossas vidas. Assim sendo, não precisamos trocar isso por aquilo. A nossa necessidade será atendida em um panorama de abundancia. Levando recursos de onde tem mais para onde tem menos. E atualmente no nosso real estado de escassez, alimentos orgânicos contemplam mais os valores da minha rede do que chapéus europeus.

Tenho amigos que não faz o menor sentido contribuírem com as massagens que faço. Que não faz sentido contribuir com nada que fazemos um pro outro quantitativamente, pois nós acreditamos na comunidade da vida e que é fundamental cooperarmos uns com os outros afim ver nossas necessidades básicas atendidas. E meu coração salta de alegria quando posso experimentar esse tipo de interação. Livre, honesta, consciente e cuidadosa.

Não tenho mais paciência pra galera "harebô" que vive de "namastê" e "gratidão" despreocupadamente com a natureza que os cerca. Eu não sinto prazer em contribuir para essas terapias emocionais metodológicas que estão tomando conta da nossa capacidade intuitiva de lidar com conflitos.
Vejo personas e produtos sendo criados para atender uma necessidade emocional afetiva e de auto-compreensão. 
Entendo que o fulano que cobra 200 dinheiros em uma sessão de reiki, acredita no seu trabalho, queira comer orgânicos e sustentar a especulação imobiliária para "morar bem". Quer fazer, faça! Também acredito no seu trabalho, mas não me peça para achar razoável contribuir com seu elevado custo de vida enquanto tenho amigos (os Seus Zés e Donas Marias, que tanto me inspiram) que sentem um inexplicável prazer em servir, trabalhando incansavelmente dia após dia, se alimentando de cesta básica e morando sem condições de saneamento básico. E além disso me proporciona um agradável bem estar chegar na casa deles e me sentir em casa sem anfitrião, aprender sem curso, escutar sem palestrante, me investigar sem coaching e ter verdadeiras lições sobre a vida, sem professor.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Se não, vira bagunça

Não lembro quando essa sentença começou a me incomodar.
Talvez tenha identificado a pulga atrás da orelha quando percebi o que ela trás consigo: o sentimento de insegurança, a necessidade de garantias, a ilusão de ter a situação sob controle.

Acho tão desonesto quando alguém argumenta "tem que ser assim, se não vira bagunça".
A desonestidade vem com o tradicional comodismo junto da frase. Existe uma preguiça de lidar com uma possível situação não planejada, de lidar com o caos, com o conflito, e ainda, de usar a cabeça para gerar soluções, que na maioria esmagadora das vezes está bem ali diante de nossos olhos, é só se permitir. A ilusória zona de conforto se tornou mais atrativa do que a vontade de viver.

Negar a existência de problemas só nos faz menos preparados para resolve-los.  Quando obstruímos o fluxo natural das coisas, acreditando que evitaremos os conflitos, evitamos também a beleza imprevisível da vida. A infinidade de possibilidades que podem surgir do acaso. A chuva de abundancia de recursos tangíveis ou não.

Se permitir, fluir sem amarras, não tem nada a ver com gerar caos e sim aceitar a existência dele. Aceitar que tudo está fora do nosso controle. Que venha o que vier. 
Quanto mais acredito, mais entrego, mais confio e mais sinto os resultados inacreditavelmente mágicos dessa entrega. E o mais legal é que me sinto cada vez mais preparado para aceitação das mudanças. Cada vez mais assumo a responsabilidade pela minha existência e me percebo um ser humano genuinamente autopoiético.

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."


sexta-feira, 20 de março de 2015

Como cobrar por cursos, palestras, oficinas e etc.?


Continuamos pessoalmente, também Vanessa. Acredito que quando nos encontrarmos seremos novas pessoas com outros temas, questões e pensamentos em um novo ambiente. Nesse momento vou querer me reconhecer em vc, me encontrar entre nós, no momento. Não tenho a certeza de retomar essa mesma discussão. Por isso me sinto motivado a continuar por aqui, mesmo com todas as limitações da escrita. Tentarei entender se não quiser continuar.

Sugiro que pra chegarmos a falar sobre o aspecto econômico dos cursos, palestras, oficinas que vemos por ai nos aprofundemos um pouco mais. Vamos até a pessoa. A pessoa por trás do aspecto economico. O eu, o vc, o ele. E pra isso acontecer de forma verdadeira, terei que cutucar um pouco mais nossas feridas. Dar uma sacudida mesmo em nossos egos.

Percebo em mim uma forte energia de liderança. Desde a época da escola. Era sempre eu chamando o máximo da atenção, tentando ser o mais engraçado e dando as melhores sugestões, ou acreditando nisso, ou o que é pior, fazendo os outros acreditarem. Minha sensatez, e acredito que maturidade, permitia que as pessoas dessem ouvidos as besteiras que eu dizia.

Anos mais tarde (isto é, até bem pouco tempo atrás) enquanto ia desconstruindo a ideia de hierarquia e controle de fluxo, fui me percebendo nessa estorinha. Me dei conta de que pra que eu fosse sensato e maduro eu teria que estar obedecendo a padrões acreditados pelo senso comum do que é sensatez e maturidade. Essas características que me fazia ser visto como alguem que as pessoas ouviam (um lider) são fundados em um padrão de um terrivel discurso moralista. Percebi que quando há alguém mais maduro, mais sensato, mais influente, mais honesto, mais qualquer outra coisa, significa que há alguém menos. Que há um juizo de valor sobre a pessoa. Desconsiderando assim a igual humanidade presente em nós.

A bem pouco tempo atrás, por me identificar enormemente com a comunicação compassiva e estar me aprofundando mais e mais em alimentação viva comecei a elaborar projetos que visassem integrar as duas coisas. Escrevia, reescrevia, elaborava belos textos, sempre na intenção de atrair o outro praquilo que eu acredito (a boa alimentação e a harmonia nas relações) ve o juizo de valor aqui?!
De certa forma, não menos honesta, posso dizer que minha intenção era iludir o outro. Fazer com que ele acreditasse que aquilo que eu tenho pra falar é importante pra vida dele.

Cheguei a calcular custos de muitos espaços pra vivencias, experiencias de jejum, rodas de prática e muito mais. Confesso que me sentia muito desconfortável ao tentar fazer isso. Estava copiando o que tantos amigos andam fazendo por ai. E mesmo com o desconforto era algo que eu desejava fazer. Foi ai que começou uma avalanche de questionamentos. De meses de insights e perguntas e respostas que vinham de diversas fontes diferentes. Da astrologia, do daime, das cartas xamanicas, dos sonhos, do vipassana, de outras meditações, enfim... tudo pra chegar a essa conclusão. E sei que não é algo definitivo e ainda há muito a ser investigado e desenvolvido. Para isso estamos tendo essa conversa.

O que tem feito total sentido pra mim agora é não querer mandar no outro. E eu achava que já não mandava no outro a muito tempo. Assim como cheguei a acreditar que não era mais arrogante, ou hipócrita, ou incoerente, ou egocentrico. Besteira. Ainda somos tudo isso. Todos nós. Perguntas que tem me acompanhado são "vc é capaz de perceber o seu egoismo?" "vc é capaz de parar de se defender?" Ainda quero mandar no outro. Isso é perceptível e eu aceito isso. Começo a me perguntar então de que forma eu quero mandar no outro?! Eu estou deixando isso claro pra ele?!

No fundo percebi que o "mandar no outro", "ser arrogante", "assumir a posição de lider" é simplesmente o nosso impulso mais genuinamente humano de querer compartilhar as belas e ricas experiencias que tivemos na vida. Se eu vivo, ou aprendo, ou experimento algo incrível, a minha reação, quase que imediata é querer compartilhar aquilo com mais pessoas. Até li de uns pensadores por ai que a felicidade só existe se compartilhada. Perfeito compartilhemos. Agora que a gente desenvolve. De que forma estamos compartilhando nossos momentos? O que transforma o ser que compartilha no ser que lidera, que ensina, que focaliza ou facilita, como queira, é a forma como se está compartilhando.

Estamos o tempo inteiro montando cursos, oficinas, palestras e etc., pra mostrar pro outro o quão aquilo é bom. Não questiono que seja bom, mas entendo que isso é relativo. O que é bom pra mim, não necessariamente é pro outro e por isso quero que ele experimente. Mas sem fazer com que ele queira experimentar. O compartilhar pelo ato de compartilhar está perdido. São rarissimas as coisas que fazemos incondicionalmente. Acho que nem sou capaz de cita-las, mas o compartilhar, nesses casos, não é uma delas. Todos os eventos que tenho visto por ai tem sempre um discurso convidativo com uma tentativa de convencer que aquilo é bom.

Dando um exemplo prático. É como se eu ligasse pra um amigo convidando-o pra um bar e dizendo que fulano, beltrano e sicrano também vão. Que a bebida é barata e o sexo garantido. Ao invés de dizer que quero a companhia dele pra compartilhar aquele momento ou falar da minha vida. Percebe a diferença?

Não há o que fazemos em algum desses eventos que não pode ser feito em uma roda de amigos. Não há o que se discuta em uma palestra que não pode ser discutido em um picnic. Não há o que possa ser aprendido em um curso prático que não pode ser aprendido fazendo mutirão. O que eu adoraria ver é pessoas compartilhando mais os seus saberes com quem deseja aprender. Isso é uma bela energia de troca, sem quantificar ou qualificar, isso é legítimo. Isso é o que experimentei na minha vida, adorei ter chegado a esse entendimento e agora compartilho com vc. Desejo que mais pessoas possam fazer dessa forma e compartilhar ainda mais aprendizado comigo.

E a pergunta que fica: Como ganhar dinheiro apenas compartilhando? Sem a hiper valorização de um tema? Sem a criação de um produto? Como ganhar dinheiro sem precisar iludir ou convencer o outro de que algo é bom? Estou buscando essas resposta e já tenho alguma ideia.

A tempos atrás fiz um outro post também questionando essas coisas: 
Metodologias, Livre Interação e a CNV (comunicação não violenta)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pois é, pra que?!

Texto de Aline Costa*

"É amigos, uma das mais importantes coisas que aprendi com a vida é que existe uma grande confusão entre o que é simples com o que é fácil. O SIMPLES NÃO É FÁCIL. As mudanças exigidas pelo mundo de hoje são mudanças simples, e não fáceis. E só tentando. É necessário atitude, não só teoria, para simplificar e aí sim talvez facilitar. Aí a beleza da simplicidade.
Escrevo isso hoje com base em uma observação de consultório. Crianças e adolescentes ansiosos e com dificuldade para dormir. Adolescente ainda vá, mas 4 aninhos com estas queixas? E o uso de tablets e celulares para "pegar no sono". E as historinhas para dormir? E a massinha de modelar, o giz de cera, o lápis de cor? E as primeiras impressões de se estar construindo algo com as próprias mãos? Num toque de dedo na tela tudo já existe. Crianças pequenas, sem noção de tempo completamente estabelecida e já imediatistas. Penso que tipo de colapso existirá (ou já existe?) no choque entre o tempo virtual, que influencia na nossa noção de tempo mental, com o tempo biológico - o tempo da vida: o tempo da sementinha plantada germinar, brotar, crescer e florescer. Afinal estamos indo cada vez mais rápido. Para onde, aonde? E coisas simples como dormir e acordar se tornam difíceis. O simples não é fácil. O simples exige esforço, atitude de querer o simplificar. Não o simplório, a simplicidade."


quarta-feira, 11 de março de 2015

Porque a Escolha do Não-Diploma

A cerca de 3 ou 4 anos atrás comecei a descobrir novos mundos à medida que ia descobrindo novos amigos. Tais amizades me abriram portas pra entender que o tutano da vida poderia ser experimentado em acontecimentos muito além da minha limitada realidade.

Através desses amigos que iam e vinham, e eram novos, e eram outros a cada instante, decidi abandonar a faculdade, uma vida em meio ao academicismo jurídico, e me permitir à um mundo de incertezas e inseguranças. Juntei todo o dinheiro que tinha e investi em um curso de formação em instrutores de yoga numa cidade pequena. Foi o ultimo curso que fiz e não obtive a formação acadêmica por recusar escrever uma monografia.

Poucos meses depois já estava morando nessa cidade, dividindo uma casa com um amigo e fazendo dessa casa um laboratório para experimentação da livre-interação entre as pessoas. Uma casa onde tudo era de todos e qualquer pessoa era bem vinda para passar o tempo que fosse e usar a casa como bem entendesse.
Ali aprendi que liberdade não se trata de fazer o que quer. Quanto mais livre é um ambiente, mais limites devem ser respeitados.

O tempo foi passando e cada vez mais novos amigos e mais novas experiencias. Fui adquirindo muita confiança em viver com as incertezas e inseguranças. Fato que me proporcionou viajar pra fora do pais, conhecer pessoas de todas as classes sociais pelo caminho, me relacionar com pessoas de ideologias diferentes, respeitar o outro, morar em outras 4 cidades e como resultado final uma vida incomparavelmente mais vivida nos ultimos 3 anos do que nos 22 anteriores.

Pra quem se questiona sobre a relação financeira, trabalho, profissão e etc., não tive pais bancando minha empreitada e nem vendia artesanato pra turistas de cidade em cidade ou vivia de malabares no sinal.
Estando mais próximo da natureza e consequentemente da minha natureza, pude desenvolver habilidades adormecidas em mim. Aquelas que foram caçadas durante o ensino e ansiavam por se manifestar.
Desenvolvi a culinária (algo que pouco praticava em casa pelos limites impostos pelos pais), a musica (hoje toco ukulele), ingles e espanhol (com pessoas que recebi em casa e encontrei pelo caminho). Aprendi a plantar e cuidar de um jardim, identificar ervas comestíveis e medicinais e o surpreendente mundo da botânica e ecologia. Aprendi a construir uma casa com técnicas alternativas despertando meu lado criativo para a permacultura. Aprendi mecânica de bicicleta. Aprendi técnicas fantásticas de massoterapia clinica e shiatsu (onde mergulhei em anatomia, cinesiologia).
Conheci e estudei diversas religiões. Genuinamente aprendi a gostar de ler e me encantei pela arte de manifestar os sentimentos através da escrita (tarefas que repudiava na escola - redação e interpretação de texto). Pude explorar a dança, o meu corpo em movimento, sem o medo do ridículo. E tantas outras coisas que não me recordo agora.

Atualmente estou estudando nutrição (buscando minhas próprias fontes e contatos) e aprendendo muito sobre medicina ortomolecular. E posso dizer que o que mais me move nesse momento é explorar e investigar as relações humanas, a origem dos sentimentos e a forma como são expressos. Tenho descoberto como a alimentação interfere na atividade neurológica.
Como professor de yoga mesmo, estudei 9 meses e até hoje fiz muito pouco que necessitasse de toda a metodologia aprendida naquele curso.

Com tanto aprendizado, basta escolher uma dessas ferramentas pra desenvolver e retirar dali o pouco recurso financeiro que necessito pra sobreviver de forma confortável.

Enfim, tudo que eu adoraria ter aprendido na escola, só pude aprender por não estar lá. Me corta o coração imaginar uma criança não podendo experimentar a vida intensamente da forma como, ainda que com muita dificuldade de desprendimento, pude experimentar.

Segue o link de uma riquíssima discussão no facebook sobre desescolarização:
A Educação Não Escolar Pelos Academicos


Liberdade e Limites - Aprofundando o tema

Tenho tentado entender e estou percebendo, cada vez com mais sagacidade, em comentários sobre acontecimentos cotidianos, a falta de compaixão por mera ideologia.
Ideologias são ruins?! Claro que não! Sou movido por minhas próprias, mas não permito que elas sobreponham um atributo inerentemente humano. É a falta de compaixão que me sensibiliza.

Estava assistindo a um vídeo em que um rapaz falava sobre os problemas que o açúcar das frutas (frutose) pode causar. Assisti até o fim e tanto pra mim, baseado no que tenho estudado a respeito, quanto pra outras tantas pessoas, não fez o menor sentido. Tudo certo, tudo em paz, até um comentário me chamar muito a atenção:
"só pela obesidade do cara já descartei tudo que ele tentou dizer".

Nesse momento, como diz Henrique Bastos (rapaz que me ajudou bastante no entendimento pra complexidade da coisa), me despertou o sentido aranha.
É um comentário que exemplifica perfeitamente muito do que se vê por ai. Quando paramos de observar o fato, o tema abordado e passamos a desqualificar a pessoa. É nesse momento que invalidamos a existência do ser humano pelo que ele fala ou acredita. É ai que chegamos ao absurdo de deixar de ouvir o que outro está falando pelo juizo de valor que fizemos da pessoa. Não precisamos ouvir o que o outro diz se não concordamos, mas chegar ao ponto de invalidar o que está sendo dito pelo juizo que se fez da pessoa?! É ai que o tema, o assunto, se torna irrelevante. A ideologia torna-se mais importante do que a pessoa. O que define se o cara pode falar de saúde é o que se acredita ser o peso ideal. Como assim?!!!
Esse comentário foi o mais grosseiro de todos. Ainda há outros que fogem ao tema em questão para negar a existência da pessoa que está falando.

Outro exemplo bastante comum que percebo, por estar bastante envolvido com alimentação, é a atitude de alguns amigos que se autointitulam veganos, invalidarem a existência do outro pelo que ele consome, ou porque pesca ou caça animais. Eu posso não aceitar o que ele faz, mas é diferente de não aceita-lo. Eu posso fazer o que eu quiser, contanto que eu não impeça o outro de fazer o que ele quer. Limites existem e devem ser respeitados.

Um evento que me chocou absurdos foi a manifestação do MST contra a empresa de eucaliptos transgênicos da Suzano. E o que me deixou ainda mais intrigado foi ver amigos que defendem a comunidade da vida achando um máximo a destruição em massa. Se me considero um ser humano e acredito que valores como amor, compaixão, solidariedade, cooperação são inerentes ao ser social que somos, não há como ser favorável a uma atitude que violente a vida. Que violente o direito de o outro existir. Que negue sua existência pelo que ele faz. Uma coisa é eu não concordar, não apoiar, não defender o uso de transgênicos e até boicota-lo, outra coisa, muito diferente, é eu causar dano à alguém em nome do que acredito. Invalidar a existência de outros seres humanos que acreditam, que dedicaram a vida estudando, ou simplesmente que dependem daquilo para sobreviver.
Por mim a empresa nem existiria, mas extingui-la pela minha ideologia, é não perceber que existem seres humanos do outro lado. Se isso existe é uma consequência de uma desordem global da qual eu faço parte, e não local, onde designo culpados e malfeitores.

Temos agido cruelmente a cada momento em que construímos imagens de nós mesmos (personas) ou de outras pessoas. Criamos vilões. Nos eximimos da responsabilidade que temos quanto seres sociais. Preferimos apontar um culpado à olhar pra dentro e fazer o minimo pra que outra realidade, mais intuitiva, se torne possível. Uma vida de mais amor e confiança não se faz desqualificando pessoas, configurando inimigos ou estabelecendo o que é melhor ou pior para o outro. Demandar um comportamento do outro é uma atitude que agride o senso de humanidade.

Por fim, cito Krishnamurti:
"Por que temos imagens de nós mesmos? Essas imagens separam as pessoas. Se você tem uma imagem de si mesmo como suíço, ou britânico, ou francês, etc., essa imagem não só distorce sua observação da humanidade, mas também o separa dos demais. E onde quer que haja separação, divisão, tem que haver conflito – como há conflito acontecendo por todo o mundo, os árabes contra os israelitas, os muçulmanos contra os hindus, uma igreja cristã contra outra. A divisão nacional e a divisão econômica resultam de imagens, conceitos, ideias e o cérebro agarra-se a estas imagens. Por quê?"


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Microssalvamentos: Como Salvar o Mundo Um Instante de Cada Vez

Publiquei um parágrafo desse texto aqui uma vez. Agora segue na integra.

Texto de Paulo Brabo*

"Sei como salvar o mundo mas até agora não contei para ninguém, porque não tenho a coragem ou a força de caráter para dar exemplo e ser o primeiro. E nem, para falar a verdade, o segundo.

Contra todos os meus instintos, portanto, exponho aqui o Plano Mestre, na esperança que ninguém acredite e coloque em prática. Os resul­ta­dos seriam incri­vel­mente desas­tro­sos para a civi­li­za­ção como a conhecemos.

Esqueça o coletivo.
A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as ini­ci­a­ti­vas comu­ni­tá­rias ou gover­na­men­tais, por mais bem inten­ci­o­na­das que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potes­ta­des. A salvação não virá de igrejas, assem­bleias, orga­ni­za­ções de bairro, sin­di­ca­tos, asilos, orfanatos ou campanhas de assis­tên­cia. As ongs tem a tremenda virtude de não serem gover­na­men­tais, mas contam com a imper­doá­vel falha de serem orga­ni­za­ções. Repita comigo: as ins­ti­tui­ções não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Abso­lu­ta­mente ninguém vai fazer.
Eu, pode estar certo que não vou.
O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Esqueça quem você ama.
Não no sentido de deixar de amar quem você ama, mas no sentido de abandonar todas as suas ten­ta­ti­vas de salvar, res­guar­dar e proteger quem você ama. Todos os esforços nesse sentido serão con­tra­pro­du­cen­tes. Você precisa de quem você ama, e está portanto intei­ra­mente des­qua­li­fi­cado para ajudá-lo. Talvez alguém possa salvar quem você ama, mas não será você. A única coisa a se fazer por quem se ama é a abso­lu­ta­mente mais dolorosa e custosa de todas: abrir mão dos seus esforços de preservar essas pessoas para você, mantendo ao mesmo tempo a [tola] esperança de que elas lhe sejam devol­vi­das inteiras um dia. Sua missão, aprenda comigo, não será salvar os que você ama. Se fosse, onde estaria o seu mérito?

Salve o momento.
O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da exis­tên­cia em grandes e efi­ci­en­tes vas­sou­ra­das. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desen­tu­pir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.
O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são fran­cis­cos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo ver­da­dei­ra­mente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dis­pen­di­oso, frus­trante e tre­men­da­mente lento dos micro­sal­va­men­tos:redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os micro­sal­va­men­tos não são gla­mo­ro­sos, não são defi­ni­ti­vos, não dão manchete e não são recom­pen­sa­do­res. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empur­ra­mos até o topo hoje terá deslizado inva­ri­a­vel­mente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infe­liz­mente o chamado ou a capa­ci­ta­ção para salvar o amanhã, o que nos pareceria infi­ni­ta­mente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impen­sá­vel tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insu­por­tá­vel, irre­di­mí­vel momento.
Alguém pare o momento que quero descer.

Prepare-se para morrer.
Se você é esperto como eu, deve estar pensando: “Brabo, você está aí sentado na sua cadeira, muito belo e formoso, me con­vi­dando para sair pela vida fazendo o bem sem olhar a quem. Pois deixe-me ser o primeiro a dar-lhe boas vindas ao planeta Terra, meu amigo. Aqui o mundo não é cor-de-rosa desse jeito não. Viver nessa onda de redimir o momento é pauleira, velho. Mesmo que eu con­se­guisse viver a minha vida con­sis­ten­te­mente com a melhor das boas intenções, é preciso mais do que óculos de Pollyanna para não enxergar que o mundo está cheio de gente mal inten­ci­o­nada. Quem garante que eu não vá cair vítima de rejeição, de incom­pre­en­são, de falcatrua, de uma bala perdida ou planejada, por parte de um espírito menos bem inten­ci­o­nado do que eu?”

Se você pensou assim, eu não teria dito melhor. Rejeição, traição e morte, confirmam as esta­tís­ti­cas, compõem o final que aguarda todos os que dedicam a vida à proposta insa­ni­dade dos micro­sal­va­men­tos. Gente como Gandhi, Martin Luther King, Jesus a Abraham Lincoln não morre, é colhida pela insu­por­tá­vel sin­gu­la­ri­dade da sua conduta. Ninguém quer estar na pele de pessoas assim, porque não per­ma­ne­cem muito tempo dentro da pele.

Fica então a adver­tên­cia: você pode até cair nessa de salvar o mundo um momento de cada vez – mas faça suas orações, velho, porque seus dias estão contados. Não comece jamais esse serviço pensando que vai terminar.

Esque­ça­mos o que eu disse.
Como espero ter deixado muito claro, salvar o mundo é atividade perigosa, frus­trante, não-remunerada e insalubre. Requer preparo físico, caráter ilibado, sangue de barata e estômago forte. Des­con­si­dere, portanto, tudo que eu disse.

Aliás, você não iria mesmo poder fazer nada sem a minha ajuda. Só eu posso salvar o mundo, e enquanto minha cons­ci­ên­cia estiver aplacada, o mundo estará perdido.
Mais fácil assim."

domingo, 15 de fevereiro de 2015

7 dias de Jejum

Escolhemos fazer o jejum no maior estilo "bivack". Imerso à natureza selvagem com o minimo de adornos necessários. Assim, saímos eu e Thiago Lopes de Paraty com 10 litros de água de coco e algumas frutas em direção à Vila do Oratório para a travessia: Praia do Sono - Martim de Sá.

Primeiro dia foi só água de coco e uma boa caminhada até Ponta Negra. Sempre compartilhando o alimento, no segundo dia, terminamos com as as frutas durante uma cansativa caminhada até a Toca da Aricurana (próximo a Martim de Sá).

Um lugar agradável, no meio da selva, protegidos por uma "marquise" de pedra, um rio de água fresca ao lado e lenha em abundancia. Lugar perfeito para acampar durante o jejum. 

Primeiro dia de Jejum
Senti leves dores nas costas, porém os músculos super relaxados. Provavelmente por causa da longa caminhada com a mochila nas costas. Um leve esgotamento fisico.
Ficamos na toca durante todo o dia. Alimentando a fogueira e meditando. Silencio quase absoluto.

Segundo dia de Jejum
O tédio tomou conta de nós e curtir o ócio não estava mais tão agradável. Caminhamos, bem lentamente, até a praia. Uma tarde inteira "lagartiando" na areia e voltamos subindo as pedras pelo Rio. Com o corpo exausto, não foi dificil cair no sono assim que chegamos. Hoje a mente já começava a manifestar vontade por comida.

Terceiro dia de Jejum
Acordei exausto. Sem disposição pra levantar. Dormi muitas horas e tive muitos sonhos. O gosto ruim na boca estava mais forte do que nunca.
Comecei a sentir uma grande sensibilidade nos movimentos dos dedos das mãos. Minha letra estava mais bem desenhada e a ansiedade facilmente controlada.
A vontade por comidas recreativas ia e vinha a todo momento.

Quarto dia de Jejum
Menos cansaço ao acordar, mas ainda muito indisposto durante o dia. O corpo, tanto fisico quanto emocional, ainda mais sensíveis. O gosto ruim na boca diminuira. Comecei a sentir saudade da familia e dos amigos. 
Resolvemos subir o Mirante do Miranda. Era reveillon. Uma caminhada montanha a cima que parecia nunca acabar. Fiquei sem folego durante vários momentos.

Quinto dia de Jejum
Me vieram percepções e analises de que não estava ocorrendo tudo na mais perfeita harmonia.
A água do rio, rica em matéria orgânica estava me dando gases e leves refluxos, os mini carrapatos estavam gerando um enorme desconforto, a falta de lenha seca permitia a aproximação dos mosquitos e ainda rolava o receio de dormir sem fogo em área onde felinos selvagens caçam a noite. 
Outro forte incomodo que tive foram dores na virilha e na bacia por estar dormindo em posição fetal por 6 dias em uma superficie muito densa. Ou seja, todo errado.
Nesse dia percebi a barriga mais seca, a bermuda mais larga, menos cansaso e lentidão, embora o corpo não aguentasse muito esforço fisico.
Descemos para a praia em busca de um barco que nos levasse até a casa de um amigo, onde teriamos mais conforto no Saco Claro. 
Em menos de 6 horas já estavamos descansando em um deck à beira mar na casinha do Adriano.

Sexto dia de Jejum
Acordei bem melhor das dores ao dormir em um colchão macio. Foi o dia que mais se manifestou o desejo por comida. Até carne pareceu ser uma opção.
Senti um gosto desprazeroso na boca, uma sabor de podridão.
Apesar da lentidão fisica, a clareza mental se manifestou mais forte do que nunca. E era constante.

Sétimo dia de jejum
Decidimos voltar pra Paraty com o Adriano de barco.
As mesmas sensações. Mais disposto porém com menos força fisica para caminhadas com mochila nas costas.
A quebra do jejum se deu no dia seguinte com uma manga.
Voltei pro Rio 8kg mais magro e voltei ao meu peso original em 5 dias.

O que consegui concluir é que a mente é quem nos propicia todo o aprendizado sobre nós mesmos. Enquanto há distrações, até se esquece que está em jejum, mas basta um momento de ócio para a mente tomar conta dos pensamentos novamente e assim desejar mais distrações, mais prazeres.
Se manter presente, em estado de vigilia, sendo observador da mente, não é tarefa facil. Em jejum isso fica ainda mais perceptível.

"Quanto mais se conhece, mais existe luz. O conhecimento de si mesmo não tem limites. Ele não leva a uma realização ou a uma conclusão. É um rio sem fim. Quanto mais se mergulha nele, maior é a paz que se encontra."
Jiddu Krishnamurti.

Site onde compatilho informações sobre alimentação higienista: vivaacozinha.com



sábado, 31 de janeiro de 2015

Falta Arrependimento (por Claudio Oliver)

Texto do Claudio Oliver*

"Na minha tradição existe uma palavra que é usada para conclamar as pessoas às mudanças necessárias e urgentes, e para que um novo futuro se desenhe para a vida, nossa vida, suas vidas. Esta palavra representa daquelas situações onde o simples se apresenta como o mais eficiente e óbvio caminho, porém , por ser simples e direto e implicar em coragem para se olhar no espelho e dar a largada para a resolução de problemas de frente, é deixado de lado e simplesmente não querido, trocado pelas aparentes soluções complicadas, intrincadas, administradas, que ao invés de resolver, postergam e adiam a tragédia que criamos.

A palavra é ARREPENDIMENTO! E espere.... você pensou em pesar, em tristeza... não eu disse ARREPENDIMENTO!
Esta palavra foi dita em dois idiomas originais em minha tradição: o hebráico e o Grego. Em Hebráico é Beshuvah, e quer dizer VOLTAR, RETORNAR, converter a direção em que se vai e caminhar de volta, fazer a CONVERSÃO no sentido em que se leva a vida. Em grego é METANOIA, (meta - mudança e noia mente) literalmente MUDAR A MANEIRA COMO SE PENSA, ou para os mais atuais: mudar o sistema operacional da mente e não somente os softwares que nela se usam.

O mundo está colapsando, falta água, mas falta muito mais humildade, sobra violência, rancor, ódio, arrogância e prepotência. Basta um falar, o outro quer mostrar que sabe mais ou que pode meter o dedo na ferida. Falta sentido e sobra vida vazia. Nossa arrogância há muito esgotou o volume seco de nossa alma. Vive-se o inferno, e ainda se insiste que se pode dar um jeito. Jovens tolos, adultos egoístas, crianças apáticas, consumo exacerbado, nenhuma disposição para o amor.... A ÁGUA QUE FALTA EM SÃO PAULO, RIO, PARANÁ E EM BREVE NA SUA TORNEIRA é só um sintoma de falta geral de arrependimento. De não decidir descansar, sossegar a alma, refletir, voltar atrás, olhar mais para o próprio erro que para o erro do outro. É falta de coragem de sair de casa e cuidar de seu lixo, de suas plantas e das suas pessoas. É preguiça de pensar, trocada pela audiência apática na frente da TV ou no computador.

A crise hídrica, e todas as demais crises que a causam: moral, ética, consumista, relacional e financeira, infelizmente só será resolvida se se der ouvido ao velho grito de todos os profetas, se após isso se decidir por mudar o modo de pensar e tomar o caminho de volta.
Eu adoraria que houvesse uma bela solução tecnológica ou administrativa para tudo isso que nem eu nem você tivessemos de mudar de vida. MAS NÃO HÁ!
ARREPENDA-SE, PEÇA PERDÃO, MUDE O MODO COMO FUNCIONA A MENTE E VOLTE PARA CASA, PARA SUA VIDA E PARA QUEM TE DEU ORIGEM.
Ou espere pelas consequências.
(depois dessa se quiser me manter na lista de malucos de plantão... fique a vontade)"

Sobre a Feliz-cidade

Texto de André Kaires*

"Eu podia chorar a vida inteira pelas verdades doídas. Pelas frustrações corriqueiras. Pelas Desilusões. Incompreensões. Pela fome e sede e doenças... mas, acontece que sou ridículo o bastante, para transbordar de alegria!
Vou seguindo pela estrada, os pés descalços. A pele quente e bronzeada. Os músculos endurecidos de aves de rapina. Em cima: a imensidão de um céu azul e branco e infinito...
Eu podia chorar!
A caminhada é longa... o cansaço me consome. No meio do caminho, deparo-me com uma pousada: Feliz-Cidade... Sigo ao encontro dela.
O céu ainda mais azul. A estrada cinza. As paredes da pousada carregadas de verde e rosa. Flores charmosas em tons de amarelo-manga, azul-anil, verde-bandeira. O gramado verde. Ao fundo, um lindo e majestoso cavalo branco e por fim, uma ninfa de pés descalços e vestido floral... A transparência do tecido, revelando seus belos e firmes seios...
Eu podia chorar... Grillet. Tarkovski. Copolla. Almodovar...
Pago pelo quarto com frigobar e TV a cabo. Pago por duas cervejas nacional e por uma refeição à moda da casa.
A noite cai. Encaro-me no grande espelho do quarto: um homem com um corpo de homem, e músculos de homem. A barba (ainda), de pelos pretos invadindo cada vez mais a face... E a Alma?
Eu podia chorar! -Pensei.
A Alma é feminina! Daquelas que acreditam no amor e nas crianças. Na arte, na doçura do preparo de um café e na entrega total ao escrever...
Eu podia chorar a vida inteira... Mas, aí vem a vida, e me permite ser ridículo e sonhador e idealista.

O dia amanhece... Aos poucos, vou deixando para trás: Feliz-Cidade."

André Kaires


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Uma carapaça egoista

O ser humano é tão egoísta! Reparo como assumimos uma postura defensiva quando fazem criticas ou poẽm em cheque aquilo que acreditamos. Ouvir "eu não acho o seu sonho legal" ou "ao meu ver, seu projeto não vai dar certo", pode ser o despertar de uma revolta guardada nas profundezas do nosso eu. Fica fácil adotar uma posição defensiva.

Se sua opinião vai contra aquilo que acredito eu à desmereço. Não te escuto honestamente. Muito menos me permito à reflexão. Deixo de contemplar o diálogo.

É como se tivesse dado um grande trabalho me descobrir amante da coisa. E ai rola um apego. Apego à uma ideia, uma crença, uma defesa do caminho que construí. Achamos que descobrimos a razão de existir pela empatia com um tema. Não queremos perder essa empatia. Não acreditamos que ela pode existir no novo, em outras tematicas.

Se eu pudesse dar um conselho, seria: Libertem-se de vcs mesmos. Saibam receber criticas ao que mais amam. Questionem o que configuraram como sendo a razão da sua existência. Não seja único. Seja múltiplos. Mude de opinião. Viva momentos!!!

Citando Carla Ferro: "É desonesto reduzir-se a uma identidade. Quero falar com a sua diferença."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Falta água e a culpa é nossa

Critica-se o desmatamento, a agropecuária, a falta de planejamento e corrupção pública, mas não vejo ninguém falando do problema mais latente. Não convém criticar a urbanização, nossas gigantescas ilhas de cimento. Assumir que moramos em ambientes inóspitos e colaboramos, dia após dia, para a previsível escassez de recursos naturais na medida do nosso "desenvolvimento". Plantem árvores!