quinta-feira, 22 de março de 2018

O depoimento de um viciado

Texto do Yuri Diniz, irmão querido

"A vida me deu a oportunidade de trabalhar com jovens em uma clínica de reabilitação no RJ, trazendo a agricultura e o contato com a Terra como veículo para o tratamento. A maioria dos pacientes é dependente químico, alguns com problemas psiquiátricos e, outros com questões específicas que os levaram a internação.

As relações que se criaram a partir daí, são inenarráveis. A evolução do comportamento e interação desses jovens a partir do contato com a Terra, me fez refletir que todo o meu trabalho sempre foi nesse sentido. Perceber que a minha procura por uma vida mais sustentável é o meu processo de reabilitação. A nossa espécie precisa se reabilitar com a Mãe Terra. Resgatar suas habilidades para interagir de maneira saudável com o todo.

A reprodução do status quo e a manutenção das grandes indústrias capitalistas dependem da dependência criada em cada indivíduo. A lógica é dependente dos dependentes. Uma dependência artificialmente criada que vai contra a inteligência natural do nosso instinto de sobrevivência. A distância dos processos que te sustentam o torna alienado. Alienação leva à dependência. Dependência vicia. Vício mata.

Em uma sociedade viciada em dependência, tentar participar dos processos que te sustentam é um processo de reabilitação. Sustentar-se é criar autonomia. Autonomia leva à liberdade, que por sua vez, torna a lógica da dependência insustentável. É um resgate da sua essência para estar novamente habilitado para cumprir função no todo. Fazer parte. E isso parte ,necessariamente, da reconexão com a origem e o final. Da terra viemos e para ela retornaremos. Reconhecer a mãe na qual a arquitetura social moderna nos separou.

Não importa o motivo ou escala de dependência, plantar, observar, cuidar, colher, comer é remédio para todo mundo. Mas a maior dificuldade do dependente é reconhecer o vício. Quando o vício é a própria dependência é ainda mais difícil. Continuar se alimentando e reproduzindo os ciclos viciosos de uma sociedade doente é triste mas é fácil. Está tudo arquitetado para isso. Se não passa na propaganda e nem está escrito nos jornais, temos dificuldade de perceber. O que é diferente se destaca, o que é normal, se naturaliza.

Precisamos desnaturalizar a naturalização da falta de natureza no nosso dia a dia, responsável pela legião de viciados que compõe a sociedade da dependência. Desenferrujar nossa inteligência natural, nosso instinto. Se você já não sabe onde este se encontra, saia do sofá e se coloque em teste. Fome, frio, medo, entre outros, são ferramentas de busca rápida para encontrar o tal instinto quase extinto, que já não se pode buscar no Google.

Falando de maneira reducionista, gostaria de colocar como eu vejo os 3 principais degraus para sairmos do vício da modernidade e como coisas simples ajudam-nos a dar o próximo passo na reabilitação.

O primeiro passo é assumir que estamos doentes (espécie/sociedade/indivíduo).

Para isso, sugiro um tempo de observação em meio a natureza natural. Em um local de abundância de vida e recursos, com outras formas de vida que ali sabem se comportar. Depois, visite um lugar completamente criado pelo ser humano moderno, por exemplo um grande shopping center ou um lixão de um centro urbano mais próximo. O estalo da sanfona pode dar um curto-circuito benéfico para criar consciência sobre a doença. Mas o click do despertar pode vir até no banho, pois não é um processo que acontece de fora para dentro.

O segundo passo na reabilitação é querer mudar. Isso tem a ver com sonhos. Esperança. Acreditar que existe força para rebrotar. Assim, nada melhor que o plantio para se dar esse segundo passo. Colocar uma semente no solo e vê-la brotando é o milagre da vida. É simples, mas é muito forte. Open bar de energia vital. Deixa doidão. Dá prazer.

O terceiro passo é a mudança. Na hora de fazer igual, faça diferente. Tem haver com o prazer interno em sair do ciclo vicioso. Enquanto for doloroso, a recuperação é simplesmente um espaçamento até a próxima recaída. Mas quando se torna prazeroso fazer diferente do que era feito, você abre o leque de possibilidades e se torna produtor da sua realidade, se torna livre e deixa de ser dependente da indústria que te vicia.

Para o terceiro passo, indico cuidar, colher e principalmente, comer! Comer é com certeza um dos maiores prazeres da vida. A vida cumpre função através da fome. O prazer interno de comer aquilo que você plantou é a chave para saborear a liberdade. Alimentar-se de uma agrofloresta em evolução/cooperação no espaço/tempo, te permite permanecer habilitado no modo função.

Desabilitando-se dos vícios de uma sociedade onde a doença é a dependência, renovamos a nossa carteira de habilitação natural. Não tem receita, modelo ou resposta, mas para reabilitar-se com o todo, sugiro que “sujem” a mão de Terra. Esse é um relato de um ser humano em recuperação. “Só por hoje funciona” ..."

sexta-feira, 2 de março de 2018

O mundo que é

O amigo Guilherme Lito publicou hoje um vídeo com muitos dados sobre o mundo apocalíptico que está prestes a emergir.

Pego esse gancho pra trazer pro agora, pro individual. Pra lhe convidar a refletir sobre a forma como estamos conduzindo nossas vidas.

Então 2017 foi difícil?! 2018 não ta fácil? E se eu te disser que é assim que é pra ser?! Que não tem que ser diferente e que nem vai ser diferente? Isso te desestimula? O mundo que te cerca hoje, seja o das ameaças de bomba atômica, seja o das dificuldades de pagar as contas, seja o mundo de furacões e tormentas, seja o mundo de ter que lidar com medos, aflições e desafios não vai mudar.

Não vim aqui fazer carinho e dizer palavras doces, nem tampouco pesar o clima e convidar o baixo astral. Vim compartilhar a verdade que habita meu coração nesse momento. A verdade que aceita o mundo como é, que aceita os desafios, que encara as jornadas, que se responsabiliza pela vida que está vivendo. Que se empodera de cada oportunidade que tem nas mão para transformar as coisas. O mundo não vai mudar, não pode mudar. Mas a gente pode.
A gente vai?!

A transformação começa com uma mudança de atitude. Uma mudança na nossa relação com os acontecimentos. Uma mudança na forma como escolhemos experimentar cada experiencia. É só olhando pra dificuldade, acolhendo e abraçando cada sensação ruim, olhando de perto, legitimando a existência dela é que a gente transforma o que ta ruim. E eu não vou dizer que transforma o que ta ruim em bom. Não. A gente apenas transforma, ou melhor, a gente permite que algo se transforme. Talvez esse algo se transforme em uma coisa boa ou um alívio imediato, talvez não. Talvez já se transforme num próximo desafio que só te da tempo pra tomar folego. E assim a gente vai vivendo e seguindo seja lá pra onde for.

E se estiver muito difícil, talvez lhe conforte saber que eu to aqui contigo. Não prometo fazer nada por vc, ou solucionar o seu problema. Não acho que os problemas precisam de soluções. Por vezes posso escutar eles dizendo, quase implorando: "por favor, não me ignore, não me resolva, me viva, me permita fazer parte desse mundo também". Mas estou aqui vivenciando tantos problemas quanto vc. Esse caminho, essa jornada é nossa e estamos caminhando juntos. Vc com seus desafios, eu com os meus, e nós compartilhando nossas experiencias e aprendizados ao lidar com eles, nos unindo, nos identificando e nos reconhecendo uns nos outros. Se não temos controle sobre a vida o que nos resta é vive-la, do jeitinho que ela é. Digo viver e aproveitar a vida mesmo. E viver e aproveitar a vida não significa ter prazeres e alegrias. Significa ter grandes responsabilidades. A maior de todas. A responsa de dar o suporte necessário pra que a sua vida cumpra seu objetivo.

E a gente vai descobrindo pouco a pouco que a beleza da vida está na diferença, na dificuldade, na experiencia de cada sensação, no momento presente que nos leva ao próximo momento presente. A beleza da vida está no movimento, na mudança, na impermanência, nos seus ciclos que se encerram e recomeçam. Essa é a lei da natureza, é a lei da vida. E com uma sutil mudança de perspectiva pode ser admirada. É sutil, mas não é nada fácil. Nossos padrões e condicionamentos tão enraizados em nosso sistema dificultam muito esse olhar. Sigo aqui em meditação.


sábado, 10 de fevereiro de 2018

O Ciclo da Vida

Vivi uma infância tranquila. Como a de qualquer outro menino de classe media no Brasil. Aos 10 anos de idade perdi um querido pai assassinado. Esse foi meu primeiro grande contato com a morte. Depois disso a vida foi passando, e eu buscando respostas sobre questões profundas. "Quem sou eu?" "O que estou fazendo aqui?" "Deus existe?", ao mesmo tempo que achava essas perguntas uma grande besteira. "O negocio é viver a vida e ser feliz", dizia nos momentos mais agradáveis, pois era quando ficava mais fácil acreditar nisso.
Fui naturalmente perdendo meus avós e por vezes era notificado sobre acontecimentos trágicos ocorridos por perto, amigos de amigos meus que se foram assim como se nada.

Encarei muitos desses acontecimentos como algo natural. É a vida, é assim que funciona. A gente nasce, cresce, morre e vira adubo. Tudo que nasce nessa Terra é feito para alimentar a própria Terra. Todas as criaturas vivas tem o mesmo destino.
Ainda estudei diversas religiões e filosofias para descobrir se a gente volta à vida depois da morte. Até me dar conta que jamais poderia encontrar essa resposta se antes eu não me perguntasse quem é "a gente"?! Como posso querer saber se vou voltar depois da minha morte se nem mesmo sei o que sou, ou o que é que vai morrer, ou até mesmo se essa morte é minha.

O tempo passou um pouco mais, "casei", tive uma filha linda que nasceu doente, perdi a mesma filha linda que nasceu doente em seu terceiro dia de vida. Anahí durante seus 8 meses de vida na barriga veio me preparando para a vida e para a morte. Me falando sobre responsabilidade, estabilidade, coerência, sobre coragem de bancar minha própria filosofia de vida com uma filha nesse mundo quadradão, sobre desafios. Me falou sobre sonhar, acreditar, querer, fazer acontecer e por fim sobre desistir e aceitar. Me falou muito sobre ironia, e principalmente sobre achar graça de um ilusório controle sobre a vida.

Hoje, 5 meses depois de conhece-la pessoalmente, ela continua me falando coisas. Estou aprendendo  mais sobre a morte do que nunca, mas principalmente sobre a vida.
Anahí viveu cada segundo de sua vida como se fosse o ultimo. Presente, inteira e se deixou morrer de uma forma tão leve, doce e natural que era possível admirar a beleza de sua passagem.
Me perguntei depois desse acontecimento por onde posso recomeçar essa vida que já estava tão traçada, certa e cheia de planos. E a resposta vem chegando a cada dia, cada vez com mais força: "Pelo começo! Do zero! Tudo de novo! Assim como sempre foi, como cada instante sempre é e sempre será".

Esse é o papel da morte. Permitir que o novo surja. Abrir espaço para que a vida se renove.
Anahí tem me ensinado que é preciso deixar morrer para renascer. É preciso desapegar dos sonhos, das crenças, das certezas, de si mesmo, do que acho que sou para que eu possa me tornar um novo eu a cada momento. É indispensável aceitar que o ato de viver é estar morrendo e renascendo a cada instante de forma a evitar o sofrimento. Que não existe nada além do momento presente, que esse é o lugar que o amor escolheu como sua morada. E que a morte em si, a morte do corpo, nada mais é do que só mais uma experiência na vida.

Pensar em vida como inicio e morte como fim é apenas uma tentativa muito bem sucedida de complicar as coisas. Vida e morte, inicio e fim, são a mesma coisa, o mesmo movimento. É a energia de transformação que faz o mundo girar e a história acontecer. Sigo aqui em meditação explorando os caminhos do ser.