sábado, 2 de fevereiro de 2013

No Carnaval

Foi me dito uma vez, em um centro de Umbanda, que minhas constantes mudanças de opinião não significavam uma inconstância ou incongruência de pensamentos, mas sim que eu passo muito rápido pelas fases da vida. No contexto da religião, foi-me dito que isso acontece por ter um espírito muito evoluído e já ter vivido muitas coisas.

Recentemente aprendi com Nilton Lessa o que significa autopoiese e foi uma informação muito relevante. Se trata da capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios, transmutar de acordo com o que experimentam. Minha capacidade de mudar é muito grande.

Me percebi um pouco espantado quando comecei a observar as festas de carnaval de rua com outros olhos. Sempre tive uma visão diferente da grande massa. Gosto de pensar que é um ambiente rico em interações, um momento único do ano onde as pessoas se permitem, conversam com desconhecidos e se libertam em suas fantasias, mas apesar de ainda achar que é assim que funciona, o ambiente não tem mais me motivado a querer brincar e instigar cada ser fantasiado que passa por mim (quem me conhece de outros carnavais sabe o que quero dizer).

Não tenho sentido aquela euforia de fazer o carnaval acontecer. Estou apenas indo atrás dele. Deixando ele passar, e aquela magia que estava contida em mim não está mais se fazendo presente no carnaval.
Não que ela não exista mais. Longe disso. Mas ela está se fazendo presente em todos os momentos da minha vida. A vida está pura magia. Logo, o carnaval deixou de ser o acontecimento do ano. Enquanto eu vivia uma vida que não se adequava aos meus desejos, fevereiro era o mês mais esperado. Agora, não mais.

Existe um samba pra cada momento da nossa vida, segundo meu irmão Fernando Furtado, e o grande Elton Medeiros expressou esse meu momento muito bem aqui:

Um comentário:

  1. Querido Ronny. Pelo que me parece, compartilho deste seu entendimento também. Tenho percebido alguns elementos de outra maneira, tentando resignificar tanta coisa na vida.
    Uma delas, como havia conversado com você, é a "euforia" (como o lado oposto, modular, da depressão).
    A ideia de "explodir" pra se sentir humano não tem feito muito sentido em mim, pra mim. O equilíbrio, o suposto prazer "insosso" tem me contemplado mais.

    Há muito bug nestas artificialidades (chamo assim) incutidas na gente, seja por uma data festiva, seja por uma supervalorização de um sentimento dito natural/humano, seja por uma busca incessante pelo prazer (e como há entendimento pra resignificar prazer).

    Além de muita coisa, há o prazer em que torno o outro objeto/meio da realizaçao daquilo que desejo obter. Esta forma de "sedução" do outro me parece, cada vez mais, um aprisionamento de ambos: do seduzido (que é conduzido por artimanhas mil) e do sedutor (que está preso em seus proprios desejos que o tornam, possivelmente, menos livre).

    Estes são alguns pontos que, pra mim, afloram no Carnaval e também em outras datas, locais, momentos...

    No mais, o momento simples (talvez a sofisticação esteja nas interações livres e belas) dos encontros doces, fortuitos ou não, tem me produzido mais equilíbrio e entendimento....vou caminhando neles.

    Sobre simplicidade, aproveito pra deixar o trecho de um diálogo do Krishnamurti:

    "Nossos problemas – sociais, ambientais, políticos, religiosos – são tão complexos que só podemos resolvê-los sendo simples, não nos tornando extraordinariamente eruditos e astutos. Porque uma pessoa simples vê muito mais diretamente, tem uma experiência mais direta do que a pessoa complexa. E nossas mentes estão tão abarrotadas com um infinito conhecimento de fatos que outros contaram que nos tornamos incapazes de ser simples e ter experiências diretas nós mesmos. Estes problemas demandam uma abordagem nova, e eles só podem ser abordados assim quando somos simples, internamente realmente simples. Essa simplicidade só chega com o autoconhecimento, com a compreensão de nós mesmos: os caminhos de nosso pensar e sentir, os movimentos de nossos pensamentos, nossas respostas, como nos adaptamos pelo medo da opinião pública, do que os outros dizem, o que o Buda, o Cristo, os grandes santos disseram – tudo mostra nossa natureza para a adaptação, estar seguro, estar protegido. E, quando se está buscando segurança, obviamente se está em estado de medo, e assim não há simplicidade."
    - Talks in Ojai, California, 1949

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