Saindo do Rio com 2 amigos, numa bike velha e apenas 50 reais comunitários no bolso, passei pelo que chamo de um novo salto quântico em matéria de aprendizado. Prainha, Grumari, Santa Cruz, Itacuruça, Muriqui, Ilha Grande, Mambucaba foram alguns dos lugares onde a magica aconteceu.
Na obrigatoriedade, proposital, de saciar as necessidades materiais mais básicas (alimento e abrigo) sem dinheiro, tivemos que nos virar interagindo, conhecendo pessoas, pedindo e trocando.
O primeiro obstaculo foi pedir. A ilusão de não ter o que oferecer diretamente me deu uma certa insegurança. Perguntava sempre sobre o alimento que sobrava (portanto contribuía com o que me parecia sustentável).
Com o tempo, percebi que ofereciam o que tinham a disposição e não só o que seria descartado, pois havia abundância. Ajudou o entendimento de que aquele alimento não havia proprietário. Tem a natureza como origem. Era mais um recurso disponível que alguém se apoderou em algum momento e inseriu num sistema de trocas (monetário) controlador e escasso.
Como não tenho o senso de propriedade e o que é meu é de todos (portanto nada é meu) ficou mais fácil o "pedir".
O ato de pedir deixou de existir, passou a ser um entendimento sobre os recursos do lugar e o quanto eu poderia usufruir daquilo sem prejuízo do meio. Dai veio a interação, o conhecer pessoas, o viver de forma espontânea, livre, natural, se comunicando, ouvindo e aprendendo. Dai a troca. Que não precisa ser igual. Nunca é. São desiguais em diferentes momentos. Não há como tangibilizar o valor de uma troca. Eu posso fazer algo útil pra você incondicionalmente, só porque eu quis, porque eu podia. E você fazer o mesmo por alguém Assim ninguém perde. E se ninguém perde, todos ganham. A comunidade da vida ganha.
Assim foi sendo de cidade em cidade. Conhecendo a rotina das pessoas, suas casas, suas vidas. Ajudando nas tarefas do dia sempre que possível. Recebíamos com muita gratidão o que ofereciam. Aquele pequeno pedaço de mundo que se apropriaram: casa, comida, bens, para sobreviver num mundo competitivo. E quase sempre não há a percepção de que isso estimula a competição, muito comum até dentro de casa, com pais e irmãos.
O que é maravilhoso é que em todas, absolutamente todas as pessoas, se fazia presente um coração. Algo verdadeiramente humano, disposto a se mostrar.
Incomodava o que não fazia muito sentido. Um se obrigar a fazer mesmo sem querer. "Porque a vida é assim mesmo". Noções deturpadas de disciplina e responsabilidade pra justificar o que não agrada. Mas mesmo assim era possível ver a essência do ser nos olhos delas, sentir ao falarem abertamente sobre suas vidas.
Tudo isso só me faz pensar em quando foi que nos afastamos. Quando conviver juntos passou a ser insuportável e sacrificante?! Por que estamos tão desintegrados, não solidários, carentes, tímidos retraídos apegados, sem vontade de conhecer o novo, o diferente?! Por que manter a harmonia parece ser tão trabalhoso?!
Do que, de fato, não queremos abrir mão?!
Essas perguntas que me fazem caminhar em busca do que acredito.
Capitulo 1 - Mais do mesmo 16/04
Capitulo 2 - A barraca Navio 17/04
Capitulo 3 - O milagre do pão 17/04
Capitulo 6 - Tem que ir embora 19/04
Capitulo 8 - Despedida de Dois Rios 20/04
Capitulo 9 - Noite de musica 20/04
Capitulo 10 - Conhecendo a maravilhosa personalidade de Dudu 21/04
Capitulo 11 - Missão de Palmas 21/04
Capitulo 12 - Esperando o Nando 22/04
Capitulo 13 - Noite de interações e reflexões 22/04
Capitulo 14 - Nosso primeiro miojo 23/04
Capitulo 15 - Saudade! Pedal na estrada 24/04
Capitulo 16 - E agora, pra onde vamos? 25/04
Capitulo 17 - Dia de trabalho pesado 26/04
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