terça-feira, 11 de novembro de 2014

Prosa Estranha

Texto de Carla Ferro*

"Encontrei um amigo e saímos para conversar.
Ele queria saber como eu ia. Perguntou dos meus projetos. Não tenho projetos, eu respondi, a vida está boa. Apesar disso, sinto que estão crescendo desertos à minha volta.
Disse isso assim, ele não fez mais perguntas e continuamos conversando.
Ao final de duas horas, ele tinha dado boas risadas. De mim. Por menos que eu tivesse intenção, tudo o que eu dizia o fazia rir.
Um riso debochado, claramente reprovador. Desqualificador. Liquidificador. Liquidante.
Não sei explicar por que eu continuava. Talvez porque quisesse ter por mais tempo a sensação, experimentar mais um pouco daquele efeito e quem sabe aprender a evitá-lo caso viesse em doses mais fortes, de fontes mais infestas...
Eu falava sobre existirem no mundo pessoas que são minhas, que sou eu. Não por posse ou identificação. Pessoas que acontecem, que “se dão” no encontro.
Difícil explicar, e meu amigo ria.
São pessoas com quem não tenho a sensação de contracenar, você entende? Eu tentava, querendo muito que ele percebesse o que eu queria dizer.
Pessoas que em vez de configurar sempre o mesmo outro e, por consequência, sempre o mesmo eu, se deixam re-conhecer ao mesmo tempo em que me re-conhecem no espaço que se abre entre nós. Essas pessoas me viabilizam com a sua própria existência.
É engraçado, mesmo. Conversa estranha, eu disse. Porque você é estranho. Você é um estranho pra mim, de tanto só conseguir ser você mesmo, não poder sair desse seu lugar fixo para me encontrar entre nós.
Sinto que estão crescendo desertos à minha volta. E estou entendendo como acontece."

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