domingo, 22 de fevereiro de 2015

Microssalvamentos: Como Salvar o Mundo Um Instante de Cada Vez

Publiquei um parágrafo desse texto aqui uma vez. Agora segue na integra.

Texto de Paulo Brabo*

"Sei como salvar o mundo mas até agora não contei para ninguém, porque não tenho a coragem ou a força de caráter para dar exemplo e ser o primeiro. E nem, para falar a verdade, o segundo.

Contra todos os meus instintos, portanto, exponho aqui o Plano Mestre, na esperança que ninguém acredite e coloque em prática. Os resul­ta­dos seriam incri­vel­mente desas­tro­sos para a civi­li­za­ção como a conhecemos.

Esqueça o coletivo.
A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as ini­ci­a­ti­vas comu­ni­tá­rias ou gover­na­men­tais, por mais bem inten­ci­o­na­das que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potes­ta­des. A salvação não virá de igrejas, assem­bleias, orga­ni­za­ções de bairro, sin­di­ca­tos, asilos, orfanatos ou campanhas de assis­tên­cia. As ongs tem a tremenda virtude de não serem gover­na­men­tais, mas contam com a imper­doá­vel falha de serem orga­ni­za­ções. Repita comigo: as ins­ti­tui­ções não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Abso­lu­ta­mente ninguém vai fazer.
Eu, pode estar certo que não vou.
O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Esqueça quem você ama.
Não no sentido de deixar de amar quem você ama, mas no sentido de abandonar todas as suas ten­ta­ti­vas de salvar, res­guar­dar e proteger quem você ama. Todos os esforços nesse sentido serão con­tra­pro­du­cen­tes. Você precisa de quem você ama, e está portanto intei­ra­mente des­qua­li­fi­cado para ajudá-lo. Talvez alguém possa salvar quem você ama, mas não será você. A única coisa a se fazer por quem se ama é a abso­lu­ta­mente mais dolorosa e custosa de todas: abrir mão dos seus esforços de preservar essas pessoas para você, mantendo ao mesmo tempo a [tola] esperança de que elas lhe sejam devol­vi­das inteiras um dia. Sua missão, aprenda comigo, não será salvar os que você ama. Se fosse, onde estaria o seu mérito?

Salve o momento.
O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da exis­tên­cia em grandes e efi­ci­en­tes vas­sou­ra­das. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desen­tu­pir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.
O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são fran­cis­cos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo ver­da­dei­ra­mente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dis­pen­di­oso, frus­trante e tre­men­da­mente lento dos micro­sal­va­men­tos:redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os micro­sal­va­men­tos não são gla­mo­ro­sos, não são defi­ni­ti­vos, não dão manchete e não são recom­pen­sa­do­res. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empur­ra­mos até o topo hoje terá deslizado inva­ri­a­vel­mente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infe­liz­mente o chamado ou a capa­ci­ta­ção para salvar o amanhã, o que nos pareceria infi­ni­ta­mente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impen­sá­vel tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insu­por­tá­vel, irre­di­mí­vel momento.
Alguém pare o momento que quero descer.

Prepare-se para morrer.
Se você é esperto como eu, deve estar pensando: “Brabo, você está aí sentado na sua cadeira, muito belo e formoso, me con­vi­dando para sair pela vida fazendo o bem sem olhar a quem. Pois deixe-me ser o primeiro a dar-lhe boas vindas ao planeta Terra, meu amigo. Aqui o mundo não é cor-de-rosa desse jeito não. Viver nessa onda de redimir o momento é pauleira, velho. Mesmo que eu con­se­guisse viver a minha vida con­sis­ten­te­mente com a melhor das boas intenções, é preciso mais do que óculos de Pollyanna para não enxergar que o mundo está cheio de gente mal inten­ci­o­nada. Quem garante que eu não vá cair vítima de rejeição, de incom­pre­en­são, de falcatrua, de uma bala perdida ou planejada, por parte de um espírito menos bem inten­ci­o­nado do que eu?”

Se você pensou assim, eu não teria dito melhor. Rejeição, traição e morte, confirmam as esta­tís­ti­cas, compõem o final que aguarda todos os que dedicam a vida à proposta insa­ni­dade dos micro­sal­va­men­tos. Gente como Gandhi, Martin Luther King, Jesus a Abraham Lincoln não morre, é colhida pela insu­por­tá­vel sin­gu­la­ri­dade da sua conduta. Ninguém quer estar na pele de pessoas assim, porque não per­ma­ne­cem muito tempo dentro da pele.

Fica então a adver­tên­cia: você pode até cair nessa de salvar o mundo um momento de cada vez – mas faça suas orações, velho, porque seus dias estão contados. Não comece jamais esse serviço pensando que vai terminar.

Esque­ça­mos o que eu disse.
Como espero ter deixado muito claro, salvar o mundo é atividade perigosa, frus­trante, não-remunerada e insalubre. Requer preparo físico, caráter ilibado, sangue de barata e estômago forte. Des­con­si­dere, portanto, tudo que eu disse.

Aliás, você não iria mesmo poder fazer nada sem a minha ajuda. Só eu posso salvar o mundo, e enquanto minha cons­ci­ên­cia estiver aplacada, o mundo estará perdido.
Mais fácil assim."

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