Cada vez mais tem me agradado estar perto de crianças.
Não é comum me sentir desestimulado na presença delas. Posso ser espontâneo, agir naturalmente.
Passei o dia conversando com algumas delas hoje na praça. Varias idades. E foi um dos momentos de mais tranquilidade dos últimos tempos.
Me senti vivo, fluido. Fazendo o que eu queria, sem, absolutamente, nenhum receio de pensar 2 vezes antes do próximo ato.
Ao perguntar suas idades elas não se preocupavam se estão velhas ou novas demais. Ao perguntar onde moram elas não sabiam ao ceto. Sabem que estão onde estão. É o que importa. Elas não precisavam afirmar: "eu sou do mundo, meu espirito é livre". Elas sabem que são! Eu chutava bolas e dava passes sem titubear. Sem tentar acertar, sem medo de errar. E percebendo meu estado de satisfação, comecei a me perguntar porque essa sensação não é tão frequente quanto eu gostaria no dia-a-dia.
E me vieram reflexões antigas ainda sendo amadurecidas.
Existem muitos lugares, e não são poucos, que os valores morais não me permitem explorar minha natureza. Me engano! Não são os lugares que fazem isso. Eles não tem essa habilidade. Pessoas sim.
Umas mais, outras menos, mas todos nós estamos vestindo nossos avatares sempre que convém, criando personas para sermos mais bem aceitos, amados, adorados. Tudo bem! Fizemos muito na escola escolhendo nossas tribos. Reconheço que é uma condição a que fomos submetidos desde o nosso nascimento com todas essas convenções culturais. O que é extremamente problemático é cair na mesma armadilha achando que estamos "fazendo diferente". Que fazer yoga, entoar o OM e falar com a voz amena nos proporciona autoconhecimento. Que só andar com o mesmo grupo e usar roupas folgadas e coloridas é sinal de autoconfiança. Que buscar justificativas para o que fazemos suavizam nossos atos. Quando surge um porém, quase sempre é uma negação do outro e da crítica que está sendo feita. Não explorar diferentes mundos nos acomoda.
Se digo: "eu não gosto disso", ou "aquilo me incomoda". Pronto, criei um problema.
Tenho ouvido mais uma enxurrada de "mas" para justificar a falta de reflexão do que perguntas interessadas que dão abertura ao diálogo como: "por que vc pensa assim?" "o que poderia ser diferente?"?
Se digo: "eu não gosto disso", ou "aquilo me incomoda". Pronto, criei um problema.
Tenho ouvido mais uma enxurrada de "mas" para justificar a falta de reflexão do que perguntas interessadas que dão abertura ao diálogo como: "por que vc pensa assim?" "o que poderia ser diferente?"?
Há quem questione os temas desinteressantes que surgem no facebook. Há quem fale da futilidade alheia. Há quem critique as selfies e seus paus. O que estou dizendo é algo mais profundo. É questão de olhar pra si mesmo. O que motiva nossas ações, qual a origem dos nossos sentimentos e desejos. Me admira que isso seja um "algo mais profundo", dado que, a persona que criamos é uma enorme atitude de desrespeito ao outro. Uma tremenda desonestidade. Um ato de negação do momento, da interação, do outro ser humano, do presente, do real, em nome de um ideal.
Quando faço uma critica é porque algo me soa estranho. Tem cheiro de confusão no ar. Alguma coisa não ta batendo. Adoraria ver essa critica sendo aceita. Me parece natural receber uma crítica e refletir sobre ela. Pensar sobre a imagem que estamos passando pro outro. Atentar às incoerências presentes em nossos atos, mas não é o que acontece. Longe disso.
Em uma reação defensiva, quase imediata, negamos que aquilo pode ser uma boa informação sobre nós mesmos.
Se eu passo a questionar o que faço, como vou continuar fazendo sem o pesar na consciência?
Por mais que eu ache estranho, preciso me enquadrar aqui. Não nos damos a chance de refletir sobre o tema. Se sentir só, é angustiante. Queremos fazer parte de um grupo. Pensar igual a alguém é mais fácil do que pensar por nós mesmos.
Já largamos empregos estressantes, faculdades padronizadas, religiões doutrinantes, trabalhamos com o que nos dá prazer, nos encontramos para conviver e falar de espiritualidade e... será que é suficiente?! Quebramos todos os paradigmas e já podemos desfrutar de uma vida plena e abundante?! Atingimos um grau tão elevado no caminho espiritual que os dramas cotidianos (miséria, corrupção, retalhação, guerra) se tornaram irrelevantes?! Nos libertamos de toda a escola opressora ao ponto de já estarmos desescolarizando nossos filhos?! Essa tal desprogramação tem um fim?!
Eu acho que a gente ta só no começo dessa brincadeira, sabe?! Negar que continuamos a todo momento temerosos de não sermos aceitos socialmente é muita ingenuidade. Eu quero cada vez mais assumir o desafio que é viver. Aceitar que quanto mais trabalho eu tenho, mais trabalho terei. Não tenho a ilusão de viver uma vida perfeita, plena e feliz. Sei que a vida não é fácil por mais que pareça, nesse momento, incomparavelmente mais fácil pra mim do que pra muita gente. Tenho sim, a consciência de que quanto mais quebro esses paradigmas tão bem introduzidos na nossa sociedade, mais livre me sinto, mais espontâneo eu sou, mais desenvolvo minha potencia e menos incoerentes são minhas atitudes. E assim, como quem não quer nada, vejo aflorando os reais sentimentos de compaixão, solidariedade e respeito ao outro.
Não quero ser chamado de iluminado quando expresso meus sentimentos da forma mais verdadeira que consigo. Eu quero desabafar, conversar, quero me reconhecer no outro, quero ser humano, quero ouvir opiniões diferentes, quero experimentar a vida e compartilha-la em cada pensamento que me for apresentado. Sem divisões, sem lado certo ou errado, sem figuras de herói e vilão, mas com inteligencia, com verdade, com compromisso em estar presente, pensante e vivo na questão apresentada.
Alguns exemplos me incomodaram bastante nos últimos tempos. E minha frustração não se deve ao incomodo, mas sim ao fato de não ter abertura para relatar meu incomodo.
1 ano atrás participei de uma reunião numa casa colaborativa e vi pessoas ali. Pessoas de verdade. Preocupadas em buscar soluções juntas para os reais conflitos do dia-a-dia. E discutiam, e discordavam e buscavam um entendimento. Achei ótimo. Mesmo sem concordar com algumas ideias, julgando outras mais inteligentes, fiquei por ali, pois aquela dinâmica me emocionava.
Fui acompanhando esses amigos, e com o tempo percebendo que não haviam mais reflexões sobre as incoerências. As soluções não eram pensadas a partir da origem do problema. Não havia mais o olhar para a desconstrução de paradigmas, e sim novos paradigmas sendo criados com soluções que maquiavam o real problema.
Um novo paradigma foi criado e negado. Pensar no real problema seria deixar de viver tudo de belo e maravilhoso que aconteceu e poderia continuar acontecendo. Valia mais estarmos juntos, vivendo momentos lindos de amor e gratidão. E é claro que a vida não é feita disso. Logo aumentam-se os conflitos de um mundo idealizado em negação ao mundo real.
A pouco tempo voltei para mais uma reunião.
Uma reunião necessária para lidar com o problema original que voltou a bater à porta. Que legal! Pensei. Ao chegar, não encontrei mais as pessoas comprometidas em serem elas mesmas e se permitirem às possíveis soluções. Vi muitas personas. Algumas que controlavam o fluxo das conversações, impedindo que elas existissem e outras que se sabotavam se colocando numa posição de ouvinte pela pressão de grau de importância que se configurou no espaço.
Não tive a sensação de ver soluções sendo geradas, não haviam discussões, mas haviam vários discursos bonitos e inspiradores. Foi o que consegui ouvir nos primeiros minutos que consegui sabotar minha natureza e ficar ali naquele espaço, na minha opinião, desumanizante.
A motivação desse texto foram vários acontecimentos. Esse foi um episódio que me deixou bem triste pela minha expectativa criada sobre alguns amigos. Não porque desejei determinado comportamento deles, mas porque não re-encontrei a leve espontaneidade que me nos faz tanto bem. Desejo caminhar junto, discutir, aprender, necessito um ambiente fértil para me explorar e isso depende de pessoas. O que gerou grande empatia num primeiro momento a um ano atrás se perdeu pela criação da persona e de um cluster que só fala a mesma língua.

meu pai e eu essa véspera do "dia dos pais" depois de discutirmos: "olha o que vc faz, vc acha que tá certa? e depois vem com essa de Astral ..." Tb não quero estar certa, só queria conversar, ser escutada de verdade, e se fosse o caso de eu ser Astral que pudesse ter meus trânsitos perturbadores...
ResponderExcluirTexto bonito e me encaixo em a das pessoas que não deu um pio, não falou nada. O clima do ambiente estava opressor e eu gosto de falar sentindo, devagar, sem muito sentido entre as palavras muitas vezes. As pessoas querem escutar o que lhes agrada e eu gosto de preencher essa expectativa.
ResponderExcluirFico um pouco chateado com você, Ronny Ferreira,por não ter se manifestado. Talvez ali nada tivesse claro para vice. Também fico triste por mim, por não manifestar o que eu sentia.
A única fala que fiz foi relembrando das morte de pessoas queridas que se foram nesse ano de 2015 e manifestando a dificuldade de ir lá dia a dia. Foram 50 segundos de fala e nada mais.
Depois... Depois as pessoas falaram e só queriam se sentir parte de algo importante.
Há meses parei de fazer as perguntas certas.
Mesmo assim amigo, coisas foram feitas.
Sempre estamos nadando por lugares desconhecidos. Sempre.
Não fique triste por mim, querido. Não senti nenhum pesar. A gente pode se manifestar um pro outro a qualquer momento e por quanto tempo quisermos. Não encontrei razão pra me manifestar e fiquei bem tranquilo com isso. Não é um ambiente onde eu gostaria de estar. Fiz uma boa viagem e cheguei mais cedo pra descansar nas montanhas Emoticon wink
ExcluirReconheço as coisas sendo feitas. É só por isso que temos base pra conversar. A partir das coisas que estão sendo feitas podemos discutir sobre as que ainda não estão. E ai, a gente quer falar sobre isso?!