terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Do facilitar ao livre-aprender

Esse é um texto difícil, polêmico e vai mexer muito com a gente. Se não estivermos bem atentos nesse convite à reflexão vai ser muito fácil entrar em estado defensivo para validar aquilo que fazemos ou acreditamos. Então aqui estou para "dar a cara a tapa" mais uma vez e falar do que tenho pensado ultimamente.

Estou vendo surgir uma onda, cada vez maior, de facilitadores. Sem julgar o pessoal. To falando do ato de facilitar. O que vejo que está se configurando como uma "facilitação" nos dias atuais, mais parece uma "dificultação". Pois é... Adoraria chamar muitos amigos meus de dificultadores, ou faladores. Mas como há grande possibilidade de tomarem as dores pro lado pessoal e não da reflexão desses atos, não vou usar esse termo.
Pra ficar menos conflituoso vou me reservar a falar de mim e das minhas experiencias. Na verdade é só o que tenho. Quem se identificar que se aproprie como bem entender.

Por algum tempo já me considerei um facilitador. Quem me conhece sabe da minha relação com o unschooling (desescolarização), que nada mais é do que nosso processo de desculturalização, nossas tentativas de quebrar os velhos paradigmas sociais entranhados em nosso cotidiano.
Quando a brincadeira começou, não tive muitos amigos que questionassem o que eu fazia. Se eu tivesse experiencias de quem me apropriar, acredito que os processos de aprendizagem e desconstrução de paradigmas fossem bem menos trabalhosos. Tudo o que eu tinha era alguns amigos (loucos) dedicados a desconstruir e investigar junto comigo esses processos desumanizantes. Que nos impedem de se colocar no lugar do outro.

E o que a desescolarização tem a ver com facilitação?
A desescolarização desmistifica a necessidade de um professor para que haja aprendizado. Nessa história, o facilitador aparece como um professor da nova era. Ele não ta ali pra ensinar. Ele vai facilitar os processos de aprendizagem, de auto-empoderamento, ajudar na busca por um objetivo.
Se pensarmos em ambientes livres, distribuídos, de forma a gerar abundância de recursos, o facilitador, palestrante, que seja, está mais obstruindo fluxos, centralizando a atenção do que permitindo que a magia do imprevisível se manifeste.
Na minha opinião, facilitar a vida de alguém significa realmente facilitar a vida:
ajudar a mãe com a louça, ajudar o empresário a diminuir seus custos, dar ouvidos a quem precisa desesperadamente de atenção, repensar desperdícios, dar soluções a problemas cotidianos, reduzir, reutilizar, reciclar. Atender uma demanda de forma eficiente.
Vejo os atuais facilitadores impedindo a naturalidade do ser, o livre pensar, o livre agir. Uns mais empolgados se mostram até como gurus do saber.

Pessoal, não é fácil, eu sei! O vírus do professorado. É tentador estar em uma posição que a atenção de todos é voltada pra vc e não querer conduzir as pessoas para um resultado esperado. É difícil se livrar disso. É uma posição que nos da poder, nos da satisfação. Ainda que a gente reúna a força dos Deuses da indiferença, ainda temos que lidar com a expectativa do facilitado para que algo significativo se concretize. Ele está ali, ouvinte, se colocando em uma posição inferior. Nós temos sempre algo a dizer, uma sugestão do que fazer. "Qual o próximo passo?", é comum pensar.
Nos faz até acreditar que estamos fazendo a diferença, NÃO! Se fazemos alguma diferença é porque ela se dá naturalmente em nossa dinâmica de convívio social. Nos tornamos novos seres a cada interação. Independente de temas pré-definidos ou acordos pré-estabelecidos. Mudamos o tempo inteiro desde que o mundo é mundo. Pessoas se transformam na medida de suas interações e grau de interesse. Juntas. Sem a intenção de transformar, mas sim de aprender.

Vi relatos emocionantes de professores que desistiram do que faziam por começarem a achar estranho o ato de lecionar. E olha que eram professores bem moderninhos. Em vez de aula, assistia "Eu Maior" com os alunos pra debater sobre o tema. Foram poucos relatos. 2 escritos e 1 pessoal. Percebi como foi difícil esse processo. Aprendi com a experiencia deles.

Exemplos pessoais de livre-aprendizagem que funcionaram bem pra mim:
- Enquanto uns se inscreviam no Terrapia pra se tornar chefs crudivoro eu aprendia a "cruzinhar" ao conviver 1 semana na casa de um dos fundadores da iniciativa, o querido Zé Junior (Zé Vivo).
- Enquanto uns procuravam por workshops voltados para agroecologia eu convivia diariamente acompanhando o Jorge, filho do Zé Ferreira (uma das referencias em agroecologia no Brasil) na sua rotina de trabalho diária. Isso se resumia em fazer mutirões com seu pai, andar pelo mato com facão e máquina fotográfica e limpar os jardins dos vizinhos.
- Enquanto uns se especializavam em cursos de acupuntura, massoterapia, shiatsu, eu atendia 2 vezes por semana a população carente da minha região numa equipe que se dispunha a trabalhar gratuitamente com o objetivo primeiro de cuidar do outro. Observando um grande ser humano chamado Zezito que fundou sua ONG e é super admirado por seu trabalho em Paraty.
- Enquanto uns procuravam por imersões em permacultura, eu ajudava a fazer casas de bambu, pau a pique, superadobe, eucalipto chegando junto de quem precisava de uma mão na obra. Dos senhores que detêm a herança dos saberes regionais. Eu me atrevia a fazer fossas de bananeira no quintal dos amigos.
- Instalação elétrica e hidráulica, fui aprender ajudando os poucos amigos que ainda entendem (os mais velhos nesse caso. Os da minha geração mal trocam uma lampada).
- Fui aprendendo a tocar um instrumento fuçando na internet e ouvindo amigos músicos.

Eu aprendi em 3 anos de vida "fora da caixa" o que não aprendi em 23 anos de academia.
Não gosto de dizer que aprendi mais, ou que aprendi melhor. Digo que aprendi vivendo. Com prazer em fazer. Movido unica e exclusivamente pela minha curiosidade. Em relações livres, rindo, arriscando, brincando de aprender. Dizem que a todo momento, o ser humano aprende naturalmente com o que faz. Ele só tem que se esforçar para aprender o que não faz.

Põe a totalidade do seu ser naquilo que fazes e em algum momento vc vai perceber que não consegue mais dissociar trabalho, férias, afazeres de vida. Tudo se torna vc vivendo da melhor maneira que pode e convivendo da forma como acredita. Vc se vê interagindo e não facilitando. Vc vê os efeitos que a interação causa nos outros e em si próprio. Se parar pra pensar, a gente se facilita o tempo inteiro. E quando a gente se propõe a faze-lo, é que se manifestam os equívocos, as incoerências, as expectativas.

O que é ainda mais intrigante, é que não existe nada de inovador nesse movimento de livre-aprendizagem. O futuro que queremos está no passado. Estamos a cada momento, com uma bela ajuda da tecnologia, resgatando nossa antiga sabedoria comunitária.

Concluo que a convivência social é o maior dos aprendizados que podemos ter. Participar de ações coletivas, se reunir em praças publicas, organizar manifestos, se ajudar em mutirões, morar junto, se permitir aos conflitos provenientes da convivência. Conversar, dialogar, escutar, estar atento. Não é difícil não. Mas a gente complica com uma facilidade...

E das pessoas que aprenderam comigo?! Ah! Devem ter sido muitas. Não porque eu tenha muito com que contribuir, mas porque foram muitas as que cruzaram meu caminho. Dos aprendizados que tiveram, só elas podem dizer.



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