sábado, 5 de maio de 2012

Pega Ladrão - o chamado para se fazer "justiça"

Hoje presenciei uma cena, infelizmente não muito incomum, no centro da cidade.
Ouvi gritos de "pega ladrão" seguido de pessoas correndo em direção a alguém. Até que o tal alguém foi arremessado no chão com uma certa violência.
A partir daí já não consegui assistir mais nada. Ao contrário da maioria das pessoas, me mantive, corporalmente, indiferente a toda aquela cena e não fiquei para ver o linchamento do sujeito.

Durante o caminho vim refletindo, o quão primitivo foi esse comportamento.
O "pega ladrão" poderia ter sido dito por qualquer um. Rapidamente já se faz justiça com as próprias mãos, sem saber a razão de nada. Se agride fisicamente uma pessoa desconhecida, sem questionamento, por valores totalmente deturpados. Impressionante a facilidade de separar mocinho e bandido em questão de segundos. Não quero nem falar dos expectadores. Para muitos foi o momento alto do dia.

Mais adiante havia um homem mais idoso, sentado no meio fio tentando controlar a ansiedade de 3 meninas pequenas e mal vestidas (aparentemente suas filhas) sem muito resultado. Isso ninguém repara. Não querem assistir. Ninguém se propõe a ajudar. Inclusive eu. E é triste pensar assim. Mas que inversão de valores é essa? Onde é que eu to vivendo? Eu não posso ser daqui!

Lembrei de como os Nova Iorquinos festejaram a morte de Osama Bin Laden (independente da veridicidade do caso). Pessoas celebrando a morte de um semelhante. De um ser da mesma espécie. Isso é muito desumano. Na minha visão, a maior necessidade era de ajuda e compreensão. Matar é a melhor solução? Mas que desperdício. Tirar uma vida, podendo aproveitar tudo de melhor que ela tem pra oferecer?! No mínimo, é estranhamente impensado.

Existe um linha muito tênue entre nós e as pessoas que estão encarceradas. Somos todos iguais. Todos já sentimos desejo por uma coisa que não nos pertencia. Todos já tivemos vontade de ferir alguém que nos fez mal. A única coisa que nos difere daqueles que estão nas cadeias, é a ação. Alguns ultrapassaram essa linha tênue e não aprisionaram as vontades no pensamento. Por este motivo são punidos severamente por uma sociedade estupidamente egoísta pelo resto de suas vidas.

Não é difícil perceber que todos esses comportamentos nos levam a mesma causa de um mesmo problema. Tanto bandidos quanto mocinhos e expectadores estão sendo vítimas da mesma obsolescência programada, e parece tão difícil parar um pouquinho pra pensar sobre isso e o que pode acabar gerando.


"A morte de qualquer ser humano é de uma conseqüência imensurável na sociedade. Nunca é apenas a morte do indivíduo. É a morte de relacionamentos, companheirismo, apoio e da integridade dos ambientes familiar e comunitário. Além das distorções emocionais e do padrão trágico e vingativo de recompensar a continuação da divisão humana e da violência, há uma reflexão mais prática em relação ao real problema e a importância desse problema quanto à sua prioridade."   Peter Joseph

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