Existe algo intrigante em algumas pessoas que querem fazer revolução.
Fazemos um pré julgamento do que seria um mundo melhor. Perfeito! Da pra imaginar um mundo bem mais saudável e socialmente igual. Alguns problemas estão bem visíveis, bem definidos. Fome, miséria, morticínio, lixo, poluição, corrupção... Sentimos perfeitamente o incomodo e a infelicidade que tais incovenientes geram no ser humano.
Então, como acabar com eles?! Ou melhor, como estamos tentando acabar com eles? É comum identificarmos um problema de escala mundial e em nossa pequeneza humana querer soluciona-lo. Esquecemos que anos e mais anos foram necessários pra se criar aquilo que hoje se tornou um problema grave. Diria que é mais fácil criarmos grandes expectativas e acabarmos frustrados do que de fato chegar a solução que agrade a todos. Será que vale a pena gastar tanta energia em causas grandes?! Que mechem com empresas, órgãos governamentais ou não, ou qualquer outra instituição?! Estamos atentos às pessoas por trás disso tudo?!
Muitos estão cientes de que não é tarefa facil encontrar solucões para problemas desse nível do dia pra noite. A maioria de nós está convencida de que precisamos dar o primeiro passo começando a fazer a nossa parte. Economizar água, buscar alimentos saudáveis, respeitar uns aos outros, reciclar o próprio lixo, etc. Mas estamos realmente fazendo a nossa parte? Damos atenção suficiente aos pequenos detalhes? Estamos de fato fazendo revolução? Ai identifico o que ouso chamar de contraditório.
Embora seja tudo uma questão de consciência, paz de espirito, é difícil olhar para o comportamento dos ''heróis da sociedade'' e ver o quão contraditório parece a forma com que fazem revolução. Vejo gente fazendo programas de reciclagem e não conseguem reciclar o próprio lixo, falam do plastico jogado em rios e mares, mas continuam levando suas sacolinhas do super mercado. Se fazem projetos super estruturais para favelas sem nem ao menos perguntar aos moradores locais a verdadeira necessidade deles (que muitas vezes é um remédio pra tratar o câncer da mãe ou o material escolar das crianças).
Quem constrói a sociedade não é o academicista. É, sim, aquele que planta, que levanta uma casa, que carrega saco nas costas. Muitas vezes que cozinha pra que os outros comam. Quem provê as necessidades básicas são aqueles que estão o tempo todo fazendo revolução. Estão contribuindo diretamente pra evolução da comunidade da vida. Em um momento da vida percebi que o cara que eu tentava ajudar lá na favela fazia muito mais pelo coletivo do que eu, com todo meu inútil conhecimento acadêmico.
Me soa estranho quando querem fazer algo grande e belo, mas não discernem o cabível a si próprio. Não sou contra uma atitude dessas, mas posso ver muita coisa a se fazer antes de partir para esse caminho. Não consigo enxergar uma busca sã pela felicidade quando se estabelece regras, compromissos ou vínculos que geram dependência. A relação deixa de ser humana, deixa de ser pessoa à pessoa, há interesses egoístas por trás e não mais uma preocupação de todos estarem sentindo prazer, satisfeitos emocionalmente com o trabalho a ser realizado.
Falar em mudar o mundo pode parecer meio arrogante e pretensioso. Não sabemos nem o que é melhor pra nós. Mal nos conhecemos, não entendemos o que sentimos, somos apegados, consumistas, impregnados de paradigmas. Por que quereremos mudar as coisas la fora? Não tem coisa pra se fazer internamente ainda? Ali pertinho, onde a gente mora. Vamos esquecer o mundo, a cidade, a vizinhança. Vamos olhar pra nossa casa, cheia de contrariedades. Nossa relação com pais, filhos e irmãos raramente está em pé de igualdade. Comummente está sendo competitiva, cheia de interesses e recompensas.
Pagamos impostos pra um governo corrupto, compramos alimentos intoxicados, desperdiçamos água, não sabemos o próprio consumo de luz, não usamos transportes alternativos, não cumprimentamos o porteiro, não conhecemos nosso vizinho, misturamos todo o lixo em uma unica sacola plastica, fazemos dinheiro em cima do trabalho dos outros, criamos expectativas em cima dos amigos, vivemos de fins de semana e feriados, não sabemos de onde vem grande parte de nossos aparelhos eletrônicos, usamos roupas confeccionadas por crianças em condições sub-humanas de trabalho, fora as coisas que ainda nem descobrimos.
É notável que se focarmos em alguma atividade sustentável especifica, e dizermos que ali esta nossa contribuição pro planeta, alguém esta fazendo todo o resto que estamos deixando de lado. É algo genuíno de se fazer, mas esquecer que há mais do que isso, é um tanto paradoxal. Aprendi a chegar em um lugar e deixa-lo no minimo no estado em que encontrei, se não, melhor. Dado que nossa ação sobre as coisas são passiveis de depreciação, acho legal buscar formas de renova-la ou deprecia-la o menos possível.
O mundo é apenas um reflexo dos seres que nele habitam, se ele não está equilibrado é provável que o homem esteja em desequilíbrio. Assim fica mais claro enxergar que nos cabe identificar onde estamos afetando negativamente o mundo e mudar nosso comportamento, nossa forma de se relacionar com ele e com quem nele habita.
Antes de identificar problemas e soluções sugiro que comecemos a cuidar da comunidade da vida. Re-estabelecer a harmonia entre os seres e se manter em equilíbrio com o privilegiado planeta que habitamos.
Todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar louça.
É dessa forma que interpreto a frase de Gandhi ''Seja a mudança que você quer para o mundo''. O bom exemplo é a melhor forma de mudar as coisas.
''Se fossemos restaurar o genero humano por meios genuinamente naturais, caberia, em primeiro lugar, sermos nós mesmos, simples e bons como a natureza. Não nos limitemos a ser provedores de pobres, mas tentar nos tornar a própria riqueza do mundo.''
Ronny, esta última citação é lindíssima. Fiquei curiosa para saber quem é o autor. Adorei o texto. Andei vendo em algumas reuniões de manifestantes muita ironia e desrespeito entre eles. Graças a Deus a maioria é incrível e realmente tem um espírito de coletividade e carinho. Mas muitos querem um mundo melhor sem nem saber tratar o colega com consideração. Inacreditável. Apesar de ser algo muito humano, não faz o menor sentido, e é preciso atentar para estas incoerências. Um abraço.
ResponderExcluirNão lembro ao certo quem foi o autor da frase, Guidi. Acredito que foi Henry Thoreaut. Se for dele é do livro Walden - A vida nos Bosques. Se quiser tenho aqui em PDF.
ResponderExcluirBaixei! Obrigada!
ResponderExcluirRonny mininu, vc escreve tão bem!
ResponderExcluirLendo seu texto, percebi que realmente esses eventos não são pra mim. Sempre quis e to querendo experiências mais humanizadas e verdadeiras.
Eu cismo em querer aprender tanta coisa, talvez eu não precise desse conhecimento todo.
Eu sempre acho que tem alguma coisa que eu não sei ainda, e sempre vai ter. Enfim. amei o texto.
beijão e grata aqui por você ter escrito isso <3
<3
ResponderExcluirem 2012 eu não teria notado isso, vejamos como andamos:
ajudar a mãe a lavar louça?
que bom que a primavera das mulheres já me leva a problematizar ainda isso.
gostoso te ler.