domingo, 24 de março de 2013

Classificando pseudodoenças

Lendo sobre TDAH (transtorno de deficit de atençao e hiperatividade) fui percebendo que nosso descaso, fácil aceitação, na maioria das vezes por preguiça de investigar e questionar assuntos cotidianos, está afetando diretamente nossas crianças. 

Que o deficit de atenção e hiperatividade existem, não discuto, isso é inegável. Mas daí a classificar isso como doença. E o pior, fazer uso de medicamentos que alteram o sistema nervoso central. Ah, já é um pouco demais.
Descobri que na 10a edição da CID (Classificação Internacional de Doenças) no grupo F.90 está lá, bem tipificado: Transtornos Hipercinéticos. E mais ainda. Segundo os sintomas, eu e a maioria das pessoas que conheço sofre desse ''mal''.

Vamos aos sintomas da TDAH:
"Caracteriza-se pela tríade sintomatológica de desatenção, hiperatividade e impulsividade, sendo mais prevalente em meninos. Para se diagnosticar um caso de TDAH é necessário que o indivíduo em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses.''

1- Freqüentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras;
2- Com freqüência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
3- Com freqüência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra;
4- Com freqüência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade de compreender instruções);
5- Com freqüência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades;
6- Com freqüência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa);
7- Com freqüência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais);
8- É facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa;
9- Com freqüência apresenta esquecimento em atividades diárias;
e ainda são apresentados outros sintomas para hiperatividade e e impulsividade.

Visto isso, fica claro, pra mim, visualizar a coisa toda dentro de um contexto de autoridade e ambientes não-livres. Entra naquele velha história de inventar um problema para criar uma solução. Solução essa que favorece a uma minoria muito interessada na aceitabilidade da ''doença'' (industria farmacêutica).

Nos Estados Unidos a ritalina (tarja preta indicado para cura do deficit de atenção) já ficou conhecida como a ''pílula da boa nota''. Rendimento acima da média, pertencer à elite acadêmica da escola na qual estuda, estar apto a disputar e vencer a corrida pelas melhores vagas nas universidades. Como acreditar que esse tipo de comportamento padronizado é natural?! Em que universo não aceitar a diferença pode ser saudável para a criança?!

Considerando as apresentações do (cloridrato de metilfenidato):
Ritalina LA 30mg (novartis):
Preço Caixa - R$ 180,00 / Preço Comprimido - R$ 6,00
Preço Tratamento Mensal: R$ 180,00

Concerta 36mg (Janssen) (nome sugestivo e menos hipocrita):
Preço Caixa - R$ 300,00 / Preço Comprimido - R$ 10,00
Preço Tratamento Mensal: R$ 300,00

Vendas no Brasil de Caixas de Metilfenida:
Ano 2009 (160mil caixas)
Ano 2010 (270mil caixas)
Ano 2011 (420mil caixas)
A variação de 2009 pra 2011 foi de 160% calculados em mg!

No Rio, em 2011 já estava chegando a 50 caixas de remédio pra cada 1.000 crianças
Em Brasilia, passou de 110 caixas.
Rio Grande do Sul, chegou a 100 caixas.
Em Porto Alegre, o absurdo de 277 caixas (basicamente 1 pra cada 4 crianças por ano)!!!
Não quero nem imaginar o quanto deve estar este numero agora...


Observação curiosa do estudo quanto ao período do ano de maior consumo:
"a) Tem havido um aumento no consumo de metilfenidato no país com um comportamento aparentemente variável, com destaque para redução do consumo nos meses de férias e aumento no segundo semestre dos anos estudados;"
Por que será que no período de ferias se usa menos? Talvez por não terem que prestar atenção ao professor sob pena de ser diagnosticada como doente.


Fonte: boletim de farmacoepidemiologia

O problema, ao meu ver, está longe do comportamento ''anormal'' da pobre criança e sim em um sistema opressor, limitador e gerador de escassez com ferramentas muito uteis pra que ele se mantenha vivo através de escolas, creches, babás, etc. O mesmo que deturpa o conceito de natural, que mantém, com muita eficiência  pais atarefados e sem tempo para investigar como se da a evolução dos seus filhos.

Será que existiria um TDAH (classificado como doença) se não existisse escola?! Se ao invés de professores, fossemos todos responsáveis por nossas crianças tratando-as como iguais, sem hierarquia, sem autoridade, aprendendo junto?! Será que se tivéssemos  tempo e consequentemente paciência para ouvir, explicar, ajudar a desenvolver o raciocino intelectual e critico essa falta de atenção se tornaria doença?!

Por que é necessário que se conclua tarefas?! Experimentamos muitas coisas e ao fazer isso percebemos nossa aptidão, interesse, por querer continuar ou não. O simples ato de começar, já não é fazer?! O que importa o resultado final se o resultado meio é o momento presente, onde se aprende, se experiencia, portanto o mais importante. O que tem de anormal não dar atenção a assuntos desinteressantes?!

Parece muito mais cômodo enxergar a não padronização como doença. Da menos trabalho, mas é cruel, é violento, é autoritário. Estamos lidando com vidas que anseiam por aprender e não por serem ensinadas. É uma grande falácia acreditar que o aprendizado está restrito a uma instituição acadêmica.

Segue um trecho de uma excelente matéria falando sobre tudo isso:
''- Estamos medicalizando o normal.
- Estamos inserindo a patologização nas nossas vidas cotidianas - nada mais é - considerado vida comum, tudo agora é transtorno.
- Estamos dando aval a profissionais para que deem pseudodiagnósticos.
- Estamos valorizando muito mais os rótulos do que respeitando as personalidades.
- Estamos desconectados das crianças.
- Estamos comparando diferentes personalidades e esperando um padrão.
- Estamos absolutamente despreparados para acolher as diferenças
- Estamos acomodados e com preguiça de criar ambientes inclusivos, acolhedores, estimulantes e respeitosos para a criança.
- Estamos transferindo nossos papéis como pais, educadores, condutores, para caixinhas de remédios, porque, afinal, é muito mais fácil comprar...''
                                                    Matéria na íntegra

Da forma como escolhi viver já me dei conta de que fazer revolução e ser subversivo da um trabalho danado, demanda tempo e estudo. Em contrapartida, é extremamente libertador. 

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