Passando para visitar, e talvez passar um tempo, numa ecovila Vaishnava em Paraty, me alegrei ao ser bem recebido com um jantar. Os devotos que viviam ali, de imediato, se preocuparam se eu já havia comido e trataram de providenciar uma sopa, uma cama e um banheiro pro meu descanso, apesar de eu já ter chegado a noite (20h quando todos já se retiravam para dormir).
No dia seguinte me dei de cara com a realidade. Fui conversar com o responsável pela comunidade, teoricamente aquele ser mais espiritualizado. O esquema era o seguinte: 50 reais a diária ou 30 reais se ajudasse nas tarefas do dia. R$ 900,00 por mês que te dava direito a uma cama, um banheiro comunitário (água fria), 3 refeições diárias e ainda assim trabalhando no que era pedido.
Na parte mais alta do terreno vinha a justificativa. A construção, quase finda, de uma pousada enorme, super bem projetada, uma arquitetura inovadora, mármore, mobília mirabolante... Coisa ''chic''. Um pouco mais acima um grande templo não menos exagerado. Grosseiramente contrastante com o lugar rústico que dormi.
Inegavelmente um lugar lindo. Muito verde, muita água, mas extremamente aprisionador. Senti, sutilmente, as pessoas presas dentro de si mesmas. Não se via abertura para manifestar-se de forma verdadeira, fluida. Tive a sensação de que a galera ali não deixava de brigar, falar alto, ou dormir tarde por um genuíno desejo e sim por obrigação. Por aquilo que talvez chamem de serviço devocional. Não me aprofundei ao estudar e refletir sobre isso, mas esse contraste de desapego material com estruturas megalomaníacas para servir a uma classe mais elitizada me causa uma grande estranheza.
Sinceramente, acredito que se o lugar conseguisse se manter sem dinheiro, as coisas tenderiam a ser mais orgânicas. A noção de solidariedade e humanidade estariam mais presentes na prática. Até essa questão da devoção seria melhor entendida. Entretanto, buscar alternativas para viver sem o recurso monetário, ou reduzi-lo até onde se consiga viver com satisfação, suprindo as necessidades materiais mais básicas, parece inviável, fora de cogitação.. De ''eco'' a vila tinha muito pouco.
Ouvi um relato de um voluntário simpatizante da cultura Hare Krishna que já estava a 1 ano na comunidade. Se queixava de falta de privacidade e dificuldade de convivência. Privacidade, pra mim, nada mais é do que apego. Vem com a ideia de posse. De não querer compartilhar o espaço, as coisas, ideias e sentimentos, logo a convivência se torna insuportável. Se há a privacidade, há a invasão dela e assim há maior exigência de respeito. Um respeito imposto como valor e não um respeito consciente. A partir dai fica fácil começar a estabelecer regras para conviver e o convívio se torna algo sacrificante.
Entendi a recomendação de passar a tranca na bicicleta quando cheguei. ''Como assim?! Até aqui?!''. Resisti dizendo que não teria problema. Se roubassem é porque estavam precisando de uma bike. O que provocou o comentário ''Ta desapegado mesmo, hein?!’''
Isso tudo em um ambiente pré configurado para, teoricamente, se desenvolver a espiritualidade. Pessoas fazendo coisas em nome de algo que foram induzidas a acreditar sem ao menos se questionar do por que estarem fazendo. O maior fator limitador, ao meu ver, está na destinação de um ambiente para algo específico, não permitindo a imprevisibilidade do que pode acontecer naturalmente. Não vejo problema em ser "hare krishna" ou qualquer outra coisa, senão grupos que se constituem pra ser diferentes, excludentes, em nome de algo maior. De uma salvação, de uma libertação, seja o que for.
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