terça-feira, 27 de agosto de 2013

Cidade grande

Me permiti passar um tempo na cidade grande pra me recuperar de uma lesão no pé. Em poucos dias veio à memória os motivos que fizeram eu optar por me afastar de ambientes como este. As diferenças de qualidade de vida e equilíbrio emocional entre cidade e campo são gritantes. Um ''não meche ai, não pode'' dito com tom autoritário para uma criança de 1 ano já me geram um grande desconforto. O pior é que não é um comportamento simples de indagar ou questionar. Parece algo natural, frequente. A criança está sendo ''educada''. Não há abertura para o questionamento e no momento em que não falo o que penso, algo dentro de mim morre. Me sinto menos eu e cada vez mais pertencente ao meio. Onde não há abertura ou tempo para analises de comportamentos e sentimentos, acredito que seja um ambiente não livre. Acabou a liberdade, amigo, acabou a magia! Lá se vai a poesia, a sensibilidade, o amor, o senso de humanidade, igualdade.

Encontro amigos em bares e os assuntos são quase sempre em torno das mesmas superficialidades que claramente escondem o que sentem. Futebol, pegação... Dentre piadas preconceituosas e deboches, inflam seus egos para serem percebidos e adorados. Uma cerveja aqui, mais um petisco ali e não se importa mais com a qualidade do que se consome e muito menos em pagar caro por isso. Luto contra mim pra que aquele lugar se torne agradável, mas não consigo mais ficar por muito tempo. Em teoria é um lugar democrático de alto valor social. Na prática se vê a segregação escancarada em mesas numeradas, com ''cada um paga o seu'' de despedida, o agente desinibidor sendo o álcool e para aqueles que não interagem muito tem sempre uma TV ligada no jogo. Garçons anônimos, quase sempre de mal humor, requisitados com urgência imediata, por dezenas, sentados, ocupados apenas em ir ao banheiro de hora em hora.

Conversando com uma amiga, linda (Alejandra), me foi perguntado se eu acreditava que tinha que passar por isso. Comecei a pensar a respeito e intuitivamente a resposta era muito clara. Eu não tenho que passar por isso! Entendo os motivos das pessoas fazerem o que fazem, quando não, peço explicações, busco compreender. Me sinto bem seguro e motivado pra fazer as coisas que eu faço. Tenho certeza das coisas que não quero pra mim. Sinto que cada dia que passa me aproximo mais da minha essência, do meu natural, e me reconheço como ser humano.
Quando chego num ambiente que as pessoas parecem confusas e perdidas, inseguras e carentes, com vazios enormes, tentando preencher com competições e atitudes forçadas de autoafirmação, acho que quem tem que passar por isso são elas.

Eu escolhi estar aqui, agora. Pra mim tanto faz. Inegavelmente a minha presença é desconfortante pra muita gente devido a diferença ideológica. É notável a curiosidade das pessoas em relação a forma de vida que eu levo. Se alguém tem que ''passar por isso'' acho que é essa galera que não se questiona, que aceita um mundo que dita como a vida deve ser, padronizado, cheio de métodos e rotinas autodestrutivas. Que vive o que é imposto e nada faz contra o que não concorda. Se algo em mim é capaz de morrer com a violencia no tom de voz, me pergunto se ainda existe vida humana dentro desse sistema opressor.

Observando o comportamento da doce Nina (amiga de 1 ano e meio de idade) acredito que a tendência seja ambientes autoritários me causarem cada vez mais estranhezas. A Nina, que vive desde o inicio da sua vida envolta de carinho e atenção, onde faz o que deseja e seu ''não'' tem a importância que ela mesma dá, se assusta com movimentos bruscos e tons de voz exaltados. Dificilmente ela se adaptaria a um grande centro urbano.

Não desejo que as pessoas mudem. Mas desejo, profundamente, que sejam felizes, seja lá o meio que escolherem para viver. Mas quando vejo grande parte delas reclamando e, ainda assim, se autossabotando dia após dia, não consigo esconder minha tristeza. Isso é algo que ainda tenho que trabalhar em mim.

''A vida é curta demais pra remover o pendrive com segurança'' (Alejandra Mendozza)

2 comentários:

  1. vida é curta demais. quando vê, puff, a vida passou e vc tá se preocupando em esperar o ok para remover o pendrive com segurança.
    remove logo se negócio e vamúu sê feliz.
    cidade grande já me sufoca com seus enormes prédios engolindo pessoas que a cada dia estão menores.

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