quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O machismo nosso de cada dia

Frequentemente, muito mais do que consigo tolerar, me deparo com cenas machistas no meu dia a dia. Atitudes que são tão desconfortáveis quanto a não gentileza com um idoso ou um ato agressivo contra uma criança. Uma atitude machista não deixa de ser um ato agressivo, em verdade. Mas o que seria machismo e o que classificaria tal atitude?!

Lembro-me logo da amiga Fernanda Tellez e seus textos que trazem uma dose unica de simancol. Entendo por machismo aquilo que chamamos de desigualdade social, mas dessa vez, o gênero como objeto de comparação. Homens e mulheres não são iguais. Fisiologicamente, sensitivamente, na forma de se relacionar, etc. Perfeito, há muita diferença. O machismo aparece quando mulheres deixam de ser pessoas e passam a ser objeto de submissão. Da mesma forma, homens passam a ser colonizadores, exploradores, pesquisadores desse, desprezivelmente, cobiçado ‘’objeto’’.

Nas noites de entretenimento, comummente sextas e sábados, a estupidificada sociedade sai às ruas para competir. A relação mais íntima, pura e profunda que o ser humano pode ter com seu semelhante passa a ser um troféu em disputa. A diversão é acumular troféus. Mostrar para o máximo de pessoas que compete melhor. Que leva jeito pra esse tal jogo de sedução . E assim vamos negligenciando cada vez mais nossa sensibilidade, descartando o pedaço de alma que existe no outro, acabando com a percepção do sentimento alheio e destruindo qualquer forma de relação humana. Quando, enfim, percebemos que somos humanos, inventamos um bando de nomes para o comportamento daquele com quem nos relacionamos mais intimamente, o culpamos por todo nosso sofrimento e desabamos num choro de profunda confusão emocional.

Meninas tendem a sofrer mais nesse jogo de enganação. Acredito que por terem uma sensibilidade maior, devido ao instinto maternal que lhes é mais caracteristico. Meninos podem levar a vida inteira assim até o dia que não conseguirem mais uma companheira para sugar toda a energia e perceberem o grande vazio de pessoas que acumulou na vida. Conheço amigos que perceberam isso um pouco tarde e gostariam de ter melhor explorado (na intenção de enriquecimento de aprendizado) a relação com as pessoas que passaram por suas vidas.

Não é só o desprezo do momento, a desatenção à pessoa, a despreocupação com o sentimento, mas sim a morte das realações humanas que vão ficando de pouco em pouco cada vez mais coisificadas, caracterizáveis, cheias de culpa e culpados, intolerancia e impaciência, não aceitação. Se perde a capacidade de entendimento e vamos, desumanizados, diferenciando homens, mulheres, gays, homosexuais, bis, tris, tetras, etc. esquecendo-se que todos são pessoas, cheias de necessidades afetivas.

Entendo esse comportamento irracional como sintomas de uma sociedade doente. Pessoas que necessitam ser percebidas, que imploram por carinho e atenção e conseguem através do sexo (a forma mais intensa de prazer) saciar essa necessidade por alguns instantes. Institucionalizamos o sexo. O tornamos objeto de triunfo e o desqualificamos simultanemmente. Ainda existem outras formas menos intensas de saciar desejos. Aquilo que um dia chamaram de pecados capitais e suas diferentes formas de consumo desenfreado. Mas o maior fator estimulante do machismo, acredito, ser a falta de cuidado com o outro e a consequente banalização do ato sexual.

''Vamos brincar de imaginar um mundo diferente? As pessoas deixam de ser coisa e passam a ser gente!''
Roberto Freire

Um comentário:

  1. Como sempre, lindas palavras vindo de vc, meu querido. Mas quando penso em machismo, a primeira imagem é a da reprodução cega de uma atitude social que existe desde sempre e nunca foi questionada.

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