No almoço conheci o irmão, que me parecia um gêmeo, do Romulo. Rafael, um rapaz bonito e curioso. Tive a sensação de que existia uma certa inquietação e ansiedade por ali, mas acho que seria difícil uma abertura pra conversar sobre isso. Continuamos, eu e Alê, o dia fazendo planos e buscando mais harmonia na nossa convivência.
Após ouvirmos falar das belezas naturais de Bonito, decidimos acordar bem cedo para conhecer essa cidade no dia seguinte (30/01). Já estávamos alertas de que era uma cidade turística e as coisas costumavam ser caras. Tomamos café e às 10h a querida Raquel nos deixou num posto perto da estrada que vai pra Bonito. Pegamos uma carona com o Lucas, que enguiçou sua caminhonete e em seguida com o Orlando, que saia para fazer a colheita de soja no infinito oceano de soja.
Chegando em Sidrolândia, pegamos uma carona no caminhão do seu Alberto. Um senhor cheio de história pra contar. Nos explicou tudo que sabia sobre o processo de industrialização da soja. Desde a plantação até a exportação, em diferentes épocas.
Chegando em Sidrolândia, pegamos uma carona no caminhão do seu Alberto. Um senhor cheio de história pra contar. Nos explicou tudo que sabia sobre o processo de industrialização da soja. Desde a plantação até a exportação, em diferentes épocas.
Aqui a fiscalização em cima das lavouras é maior do que no Mato Grosso (do norte), portanto não há relatos (pelo menos conhecidos) de casos grotescos de doenças causadas pelo uso excessivo de agrotóxicos.
Chegando em Jardim, paramos para comer. Desenrolamos 2 pratos bem variados em vegetais por 10 reais em um posto de estrada. Em seguida uma carona com o João até Bonito. Um cara super simpático e curioso com a nossa história. Fui falando um monte sobre a transição, o desapego, a busca de auto-conhecimento e felicidade nas coisas simples da vida. João nos deixou onde queríamos e falou um pouco sobre a cidade.
Prontamente fui me informar numa agencia de viagens. Como esperado, tudo muito caro. Passeios pelas águas, rios e corredeiras, mergulhos e grutas em cavernas, animais exóticos, riqueza de fauna e flora, muita natureza. Entretanto não havia uma atividade gratuita. Todos os balneários pertencem à grandes fazendeiros, a não ser pelo municipal que também é cobrado. Um pouco desolados com tanta privatização da nossa querida mãe Terra, sentamos na praça principal para descansar da pequena caminhada e tentar contato com a Lucia (amiga da Raquel que é bióloga em Bonito). Foi ai que descobrimos a parte pobre da cidade.
Irônico é incentivar o turismo, o estupidificado entretenimento de paisagem, os falsos eco-passeios a base de jipes à diesel e cobrar absurdos por isso para justificar a preservação do lugar. Que "bonito" isso tudo. Joga-se os preços lá em cima e quem tem acesso é quem pode pagar. Não vou nem comentar a desapropriação que deve ter rolado por ali à alguns anos atrás.
A melhor forma de preservar a natureza, na minha opinião, é não altera-la. Sua exploração vem juntamente com pessoas sem uma consciência do todo, do cuidado com o ambiente e consequentemente do cuidado com o próximo. Fica a beleza artificial, sem sentimento, sem emoção. Tudo vira a euforia do momento. Se usufrui com negligência. E como sempre, quem aproveita, não faz ideia do que está financiando.
Mais irônico ainda foi a cena que a Alê presenciou quando sai para comprar um suco. Uma viatura de PMs armados, encostou na praça e um dos policiais começou a revistar 4 dos adolescentes que estavam na praça, bem na frente de onde estávamos. Aparentemente nada de ilegal tinham feito. Estavam conversando sem preocupações.
Os três menores foram "recomendados" à deixar a praça e o que parecia ser maior de idade, recebeu uma dura perdendo celular e o boné. Quando cheguei de volta à praça, a Alê chorava inconformada. E a revista continuou. Mais um rapaz sem camisa e outros dois garotos mais afastados. Quem parecia ser morador local e apresentasse uma aparente ameaça à "beleza" da cidade não tinha vez. "Bonito para inglês ver", deveria ser o nome da cidade.
O relato da Alê:
O relato da Alê:
"Feito a revista, nada encontrado. Os garotos são expulsos da praça, expulsos, eu vi e ninguém me contou. "saiam daqui, não quero saber de vcs por aqui. E não usem boné". Saem os garotos da praça e acuados vão embora.
Se isso gerou revolta em mim, imagina naqueles adolescentes?!"
Se isso gerou revolta em mim, imagina naqueles adolescentes?!"
Tentei suavizar a cena ridícula, mas o sentimento é de revolta. Um abuso do poder de autoridade sem tamanho. Não existe serviço ao cidadão. A política é do medo em todo o Brasil."Respeita quem pode, obedece quem tem juizo". E assim a violência vai sendo semeada e fomentada nesses garotos. Mais uma cena chata: dois cavalos sendo puxados por uma corda amarrada à um carro (coisa que deve ser comum por aqui). Não tardamos 5 minutos à deixar a cidade. No caminhão de Jucimar, moço pacato e tranquilo, viajamos ouvindo um som sertanejo até Sidrolândia novamente. Chegamos às 21h e procuramos um hotel para dormir, pensando em no dia seguinte voltarmos à Campo Grande.
Aqui faço uma sugestão para os viajantes. Só é seguro viajar se permitindo ao imprevisível, numa sociedade corrompida por um sistema cruel, conhecendo e podendo contar com pessoas. Não viaje à noite. O ideal de viajar baseado nas interações do caminho é na hora em que as pessoas estão acordadas e dispostas. Assim se conhece e aprende mais pelos lugares que se passou. A noite costuma ser mais deserta e mais erma nas cidades. Como o problema não é dinheiro e sim o uso desnecessário dele, pagamos, sem culpa, 90 reais para ficar num quarto de hotel em Sidrolândia.
Hoje (dia 31), um bom café da manhã na pousada e voltamos para Campo Grande antes de entrar em contato com a Raquel e a prima da Alê que está chegando amanhã por aqui. Dessa vez a carona foi com Aparecido. Outra figura fantástica. Um vendedor de seguro, que luta contra a corrupção na área e já viveu de tudo nessa vida. Fomos tendo uma conversa interessante e curiosa, dos dois lados, até chegarmos em Campo Grande, onde ele mora atualmente com sua família. Gentilmente nos deixou na porta da casa da Raquel e ainda voltou mais tarde pra perguntar se queríamos dar um passeio com sua mulher grávida. Nos contou bastante sobre a cidade e as belezas naturais das cidades vizinhas, muitas abertas ao público e "ironicamente" preservadas. Um resumo da conversa é que "caixão não tem gaveta" e dessa, vida só se leva o que se aprende.
Um gostoso abraço de reencontro na Gina nos deu a sensação de sermos muito bem vindos de volta. Almocei mais uma vez com a Raquel e o Rafa, depois que chegaram, conversando sobre os acontecimentos de uma forma super agradável, enquanto a Alê descansava. Por aqui ficamos mais uma noite.
Ah! Tem foto lá no face!
Mochila da Alê - 14,6 kg
Mochila do Ronny - 11,3 kg
Desembolso:
29/01 - leite de magnésia (R$ 4,40)
30/01 - almoço na estrada (R$ 10,00) suco em Bonito (R$ 4,00)
31/01 - pousada em Sidrolândia (R$ 90,00)
Total:
2 viajantes
3 dias
7 caronas
0 casas que hospedaram
604 Km
R$ 108,40
Total da Viagem:
2 viajantes
21 dias
21 caronas
6 casas que hospedaram
2319 Km viajados
R$ 293,00
Ah! Tem foto lá no face!
Alguns Números
Peso:Mochila da Alê - 14,6 kg
Mochila do Ronny - 11,3 kg
Desembolso:
29/01 - leite de magnésia (R$ 4,40)
30/01 - almoço na estrada (R$ 10,00) suco em Bonito (R$ 4,00)
31/01 - pousada em Sidrolândia (R$ 90,00)
Total:
2 viajantes
3 dias
7 caronas
0 casas que hospedaram
604 Km
R$ 108,40
Total da Viagem:
2 viajantes
21 dias
21 caronas
6 casas que hospedaram
2319 Km viajados
R$ 293,00
Hahahaha, caixão não tem gaveta. Há tanto tempo não ouvia isso. Mas que triste essa cidade, hein? E não deu pra dormir na caçamba do caminhão do senhor Jucimar não?
ResponderExcluirrs
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