segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Minha experiencia em Vipassana

Cheguei ao centro em Miguel Pereira bem aberto à experiencia. Minha primeira atitude foi optar por refeições exclusivamente integrais durante todo o curso (frutas e vegetais crus) para facilitar a digestão tornando menos desagradáveis as horas sentado em posição de lótus. Acredito que tenha ajudado bastante.

Já no primeiro dia comecei a achar tudo entediante. Acordar às 4 da manhã, meditar sonolento, ouvir os cânticos com a voz arrastada do professor Goenka. Isso tudo por 3 horas antes da próxima hora de descanso. Foi um dia horrível, mas até aqui tudo era novo. O silencio absoluto até que me agradou e a palestra no fim da noite, deu uma motivação. Um bom entretenimento filosófico.

Veio o segundo dia. Um inferno! Meu corpo inteiro foi tomado por dores desconfortantes, queria desistir. Estava certo disso. Comecei a criticar tudo, zombava mentalmente do comportamento dos outros, sorria debochadamente das regras e no momento seguinte era um mar de frustração por não conseguir controlar meus pensamentos. Nunca percebi minha mente tão tagarela. Era um pensamento atrás do outro, sem pausa, sem piedade. Não conseguia admirar uma bela flor no jardim, imagina só reparar no ar que entra e sai pelas narinas, segundo as instruções do professor.

No terceiro dia a mente acordou mais tranquila. "Acho que da pra ficar até o final", pensei. O desafio aumentou. Agora eu deveria me concentrar numa pequena região entre o lábio e o nariz. E que desafio! Apesar de estar menos ansioso, o máximo que conseguia sentir eram cocegas no bigode. Mas fui me acostumando com a ideia de passar mais sete dias assim. E algo que me deixou ansioso pelo dia seguinte. Segundo o professor, no quarto dia, aprenderíamos Vipassana. Passamos 3 dias apenas afinando a mente para então aprender a técnica.

Chegamos ao quarto dia. Chato. Monótono. Suportável, mas tão sem graça quanto o anterior. As dores no corpo eram cada vez mais intensas. Todos no salão, inclusive eu, estavam sentados sobre 3 ou mais almofadinhas na intenção de diminuir os desconfortos do corpo. Alguns sentariam em sofás reclináveis se pudessem empilhar mais almofadas. Banquinhos, cadeiras e paredes foi o refúgio de alguns meditadores. E não preciso nem falar que fazia-se mais alongamento do que meditava-se. Pra onde se olhava havia alguém se contorcendo, se pendurando, se sacudindo e as vezes até gemidos de alivio se ouvia.
Durante à tarde foi que tudo mudou. "Agora vocês vão aprender Vipassana!", acertou Goenka. Meu coração deu um salto de alegria. "Finalmente!", pensei.

Levei uma pequena chamada ao pé do ouvido para me sentar em posição ereta. O professor parecia estar reparando que eu já tinha virado uma tartaruga nesse momento. Me esforcei. Me disciplinei. Tentei abstrair qualquer dor e desconforto e sentado sobres os ísquios, coluna ereta, com 1 almofadinha apenas comecei a seguir o passo a passo de Goenka:
- Leve sua atenção ao topo da cabeça, à cada parte dela, à cada musculo do rosto, desça para o pescoço, ombros, braços, cotovelos, antebraços, punhos, mãos, dedos...
Assim foi até os dedos do pés. Concentrando em cada pequena parte de cada membro. Objetivando sempre perceber as sensações do corpo, sem qualifica-las, quantifica-las ou entende-las. Apenas sentir o que se passa.

Quando a "magia" começou. Meu corpo começou a se balançar, vibrar, tremer, de forma sutil, melódica e ritmada. As pernas já dormentes a 40 minutos não importavam mais, as dores nas costas não faziam parte de mim. E uma profunda clareza mental tomou conta do meu ser. Um ar de paz e felicidade, uma sobrenatural satisfação por estar estar ali e poder sentir tudo aquilo. A expressão "orgasmo astral" seria pouco pra definir isso. Uma completude, uma transcendência. A perfeição da vida ou da morte pairava sobre mim. Eu era momento. Na sua forma mais perfeita. Cada milissegundo, era o que eu era. Sem corpo, sem mente, apenas algo atemporal e abstrato.

Percebi que eu ainda me embebedava daquela sensação quando a sala estava completamente vazia e todos se alongavam e relaxavam do lado de fora esperando a chamada para o lanche da tarde. Fiquei ali, por uns 5 minutos ainda. Sorrindo sem pra que ou por que. Levantei ainda com aquela leveza de ser e fui descendo as escadas, ouvindo o leve som dos meus passos descalços junto àquela tagarelice de pássaros e insetos da floresta. Leve e decidido, cheguei ao quarto. Sem pestanejar puxei o caderno escondido na mochila e comecei a escrever, quebrando uma das regras do curso:

"É humanamente inexplicável a vastidão do universo e o infinito de energia ainda desconhecida.
Um mesmo universo se reverbera em milhões de fragmentos.
Compartilhamos desses fragmentos, acessamos alguns, mas não sabemos aproveita-lo.
Vipassana, nada mais é do que um outro caminho para se alcançar a compreensão de um todo, que está em constante expansão.
Amor ao próximo, respeito, cuidado e auto-observação. O tempo todo é necessário estar alerta, atento, vigilante.
Paz de espirito é a maior virtude do homem na Terra. Só à alcança quem se permite à autocompreensão do que se é."

Foi o que escrevi com a sensação de ter psicografado. Sem nem olhar para o papel. Prefiro dizer que foi escrito através de mim.
Li e reli admirando cada palavra. Agora leio e releio sem quase nada da clareza mental que tive naquele momento.

Durante o resto do dia, sentava para meditar e rapidamente me conectava com àquela sensação. Os cânticos, uma hora, tediosos e arrastados de Goenka, agora se tornavam suaves melodias que me embalavam rumo à mais introspecção.
Senti minhas mãos vibrando e formigando como nunca. Assimilei com as energias de cura aprendidas ao longo da vida. Reiki, massoterapia e passes energéticos. Já sabia o que fazer. Aos poucos, cada toque, cada aperto em uma parte do meu corpo iam aliviando as sensações de dores acumuladas.
Alongava, estalava e sentia o musculo certo, vontando à sua posição original. Sem pressa, sem tempo. A palestra ao fundo, e eu ali, mais de 1 hora encaixando minuciosamente o pescoço de volta no lugar.
Antes de dormir, não sentia mais dor alguma e tive a sessação de flutuar e levitar durante toda a noite. Algo me puxou, como um solavanco pra fora do corpo. Observava o planeta de cima. Uma visão privilegiada.

No quinto dia só enxergava beleza naquele grupo de meditadores. Olhava e reparava em cada um, em cada detalhe. Acho que até visualizava sua personalidade. Alguns percebiam e timidamente desviavam o olhar (evitar contato visual e toque eram outras 2 regras importantes).
Foi então que decidi:
- Vou embora! Compreendi a razão de ter passado por aqui. Sou muito grato pela experiencia e não quero continuar seguindo tais regras e essa dura disciplina. Minha mente, ainda não preparada para abstrair desconfortos doutrinários, não se sente bem com a metodologia do curso.
Vou respeitar esse limite e tentar continuar aplicando essa experiencia no meu cotidiano. Mais um item para a mala de ferramentas imateriais.

É tão simples que chega a ser complexo. Tudo que já experimentei, no que cerne a espiritualidade, me leva para o mesmo lugar. A sensação que tive em vipassana também pode ser explicada como um fenômeno mediunico de incorporação, ou como uma projeção astral, ou uma profunda e imersiva prática de yoga, ou um jejum desintoxicante de 20 dias, ou mesmo o efeito de ervas psicotrópicas em rituais afros e indígenas.

Sinto que todos os caminhos, em um nível macro, estão tentando explicar a mesma coisa. O "todo infinito" viabiliza todos esses caminhos para sua compreensão. Se limitar a um deles, é muito pouco. Viva a múltipla diversidade! Como diz meu amigo Nando, "Há tantos caminhos quanto corações."

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