Texto de Fernando Furtado*
"Já de cara, confesso que não possuo afinidade com processos ou regimes de ensinamento fechados ou ditos excepcionais para chegar a um determinado fim, como por exemplo uma escola qualquer, que tem sempre o objetivo de formatar uma pessoa com um método de ensino X ou Y, tendo como propósito "prepará-la para o mundo real", por exemplo. Não satisfeitos com o método escolhido pelo nossos pais para nossa formatação, mais tarde, quando adultos, alguns de nós procuramos por uma ou outra escola mais "espiritualizada" que possa nos ajudar a alcançar a meta da libertação de nossas amarras formadas anteriormente (que no fundo tem a raiz antes da escola, pois são culturais mesmo, estando presente também no próprio núcleo familiar). É quando nos deparamos com escolas que prometem o método X ou Y para a pessoa "se purificar e alcançar a iluminação, libertando-se finalmente da tão dolorosa roda de reencarnações", como o que por exemplo é GARANTIDO no 4o dia do curso de meditação Vipassana (mas claro, somente se caso você receba a técnica da maneira como eles "te passam-na" rs, e a utilize exatamente da maneira como eles mandam, caso contrário, as consequências podem ser "perigosas"). Se com este argumento, um curso passa a violar a saúde das pessoas que dele participam, considero que está existindo uma problemática grave a ser contemplada. O que vou fazer neste texto é abordar estes dois aspectos mencionados neste parágrafo de introdução, que são no mínimo questionáveis.
Vou começar então primeiro pela parte da saúde em evidente violação:
1 - Penso que não se pode pedir para 100 pessoas que você não conhece meditarem por 2 horas pelas 4:30 da manhã, sem fornecê-las uma orientação prévia para atentarem sobre suas próprias limitações e posturas, muito menos pedir para fazerem isso sem sugerir nenhum alongamento ou preparo, ainda que concedendo uma permissão para pausas de 5 minutos ou mudanças de posição durante esta meditação, já que isso não é nem de longe suficiente (sobretudo de um ponto de vista terapêutico preventivo). De maneira bem franca, é isso o que ocorre logo no primeiro dia de prática meditativa no curso de meditação Vipassana. E parar tornar a problemática ainda mais grave e penosa para algumas pessoas, é a primeira vez em suas vidas que estão permanecendo em uma postura sentada no chão, com os joelhos dobrados, com intuito de permanecer por um período de tempo tão longo.
2 - Os participantes também não recebem a mínima orientação sobre algum alongamento de compensação para fazerem depois da meditação. Aliás, até mesmo os professores incentivam qualquer alongamento antes ou após a prática (nem sequer os vi alongar) ou sentam de uma forma correta (pelo menos no caso do curso o qual participei), e conversando com eles me disseram não achar isso preocupante, pois não fazia parte da técnica, que era de purificação, não de yoga, e que não conhecem nenhum caso de pessoas que se machucaram no curso por conta disso (mas nesse mesmo curso eles presenciaram no mínimo duas: pois eu vi um rapaz que foi embora mancando com dores no joelho e Sofie uma mulher que estava sofrendo com fortes dores na coluna). Já o gerente Beto (muito maneiro, por sinal) comentou que essa coisa dos professores meditarem fora de postura também o chocou quando ele fez o curso pela primeira vez. Além disso, ele afirmou que, apesar dele ser um instrutor de yoga da linha Iyengar (que dá uma importância especial à questão postural), realmente haviam fatores ali naquele curso que eram um pouco problemáticos e complicados de serem modificados ou aprimorados, por conta da tradição ali presente não prezar pela postura mesmo. Impressionante como se pode submeter a coisas tão incoerentes em nome da tradição.
3 - No 4o dia eles te ensinam a técnica Vipassana, que nada mais é do que uma técnica de auto-observação do seu corpo físico e os processos sensoriais transitórios que nele se evidenciam durante a prática. Porém, se uma pessoa medita numa postura adequada ou numa postura péssima, essa sensação "transitória" pode ser muito relativa, não é mesmo? E se você já possui alguma limitação maior (como problemas causados por sedentarismo, má postura, alguma lesão etc.), imagina fazer isso com a intenção extremamente questionável de se mover o mínimo possível observando sua dor apenas como uma coisa transitória?
4 - Ao menos em se tratando do centro de meditação Dhamma Santi, localizado em Miguel Pereira, RJ (e pelo pouco que pesquisei, em outros centros mundo afora) posso afirmar sem sombra de dúvida que houve uma tremenda falta de ética e de respeito, sobretudo por parte dos professores do curso com os quais argumentei pessoalmente (Esnil e Nadir) e pelos quais fui arbitrariamente taxado, ou seja, minhas considerações não foram ouvidas com base em uma possível coerência presente nelas ou não, mas sim apenas com base nos preceitos que eles mesmos pregavam como os corretos a se observar, segundo a metodologia do curso, em nome da tradição da técnica e é claro, principalmente da estrutura estabelecida para transmiti-la aos futuros fiéis praticantes de Vipassana.
5 - A partir do 5o dia eles pedem para TODAS as pessoas se sentarem com "firme determinação" durante uma hora consecutiva, ou seja, sem se mexer, ainda que mencionem apenas DUAS VEZES que "uma postura ereta irá contribuir no processo" e coloquem um aviso do lado de fora que você pode se mexer caso esteja com "uma dor insuportável", pois "ninguém está ali para se torturar". Agora veja, uma pessoa que está no ponto de uma dor insuportável já pode estar causando sérios danos ao seu corpo, como os que tivemos oportunidade de presenciar lá no curso.
Sobre o fato da maior parte das pessoas que fazem o curso não conseguirem perceber alguns fatos como os citados nos itens acima, tão ávidas estão pela sua necessidade de "iluminação final", confesso que há algum tempo estou no processo de tentar me manter vigilante e estudar como isso me afeta, procurando observar no lugar de reacionar. Por essas e outras gosto de escrever e compartilhar as coisas que refletem um determinado momento presente no qual me encontro. Acho importante também apreciar o ponto de vista daqueles que apreciam o compartilhamento de reflexões.
Deixei o curso no 7o dia e ontem reparei que ao comunicar isso a um dos meus amigos que completou o curso, ele lamentou pois, já que eu não terminei, não poderíamos fazer a meditação do Vipassana semanalmente juntos, ao que eu respondi para confiarmos no fluxo natural da vida. Disse isso pois atualmente acredito que a oportunidade de meditação está em toda parte, e não em uma técnica mais ou menos iluminada. Como diz o ditado: "existem tantos caminhos quanto corações". E os fins, quais são mesmo?
Antes do curso, vários amigos que fizeram se mostraram contentes ao saber que eu o faria, e alguns que já tinham até me advertido que o curso era duro, mas que valia pena. Trata-se do tipo de coisa que venho questionado, a questão do "sacrifício", pois ultimamente tenho me interessado mais em processos onde cada um, a cada momento, tem a liberdade de explorar seu próprio caminho de auto-conhecimento (há tantos!). Como insiste meu amigo Sergião: "quando procuramos fazer isso sobretudo na interação com o próximo, estando com nossa escuta 100% aberta, isso também implica em nossa mente estar absolutamente esvaziada." Isso é muito interessante de se refletir mesmo. No final tudo se resume em estar realmente presente.
Então, tentando não enrolar demais, aí vai minha análise mais detalhada sobre a estrutura metodológica nociva adotada no curso e minha atual conclusão (pois amanhã pode ser que eu já mude de opinião. rs):
1 - "Prisão". Todas as noites tem uma palestra, e na palestra introdutória da primeira noite, onde tudo começa, "prisão" foi a palavra utilizada para designar como os participantes deviam entender onde estavam, ou seja, "como em uma prisão, já que haviam assinado o termo de compromisso de permanecer os 10 dias"... transcrevo de cabeça os trechos da gravação de áudio em que se fala disso:
"Você foi avisado antes de vir e chegando aqui você foi avisado novamente. Você leu e assinou o termo de compromisso, e agora você deve pensar que é como se você estivesse em uma prisão. Isso pois você irá iniciar uma cirurgia profunda e convenhamos que ninguém deve sair correndo no meio de uma cirurgia. Isso seria perigoso, não é mesmo?" Hoje a Sofie me disse que ficou com medo neste trecho. Pra mim isso já teve cara de lavagem cerebral, ou será que só eu estou notando o terror psicológico rolando logo desde a palestra introdutória?
2 - Ainda na 1a palestra, é pedido que você deixe tudo para trás... ainda da minha cabeça, transcrevo: "Você também leu e se comprometeu em deixar tudo que você viu e aprendeu de de outras técnicas para trás, para dar uma chance sincera a esta técnica. Sendo assim, não misturem outras técnicas de meditação com a técnica que vamos lhe ensinar, pois no passado outros estudantes fizeram isso e tiveram complicações tamanhas que até mesmo os professores tiveram dificuldade em ajudá-los." Continuo achando que a apelação ao terror mental está forte demais.
3 - Ao longos dos dias fica claro que cada palestra é meticulosamente desenhada pra falar o que você precisa ouvir pra se motivar a continuar no curso, terminar e se sentir muito vitorioso por isso. Isso é evidenciado desde a primeira palestra, mas a partir do 4o dia, quando a técnica Vipassana é ensinada, a gravação de áudio já tenta introduzir na sua cabeça que ela é o ÚNICO caminho possível para que se atinja a "iluminação" e isso é repetido no 5o e no 6o dia (nos outros não tive a oportunidade de ouvir), quando é acrescentado ainda que "milhares de pessoas já se iluminaram utilizando essa técnica". Muito sedutor, não?
4 - Ainda no 4o dia, também diz que você vai querer recomendar o curso a todos os seus os familiares, amigos, colegas de trabalho etc. Isso também é incentivado na última palestra, a qual também te motiva a ser um servidor em uma próxima oportunidade (eu não ouvi, mas a Sofie ouviu por engano essa palestra no gravador que continha a palestra em todas as línguas, inclusive em holandês, que é a língua dela) e esse é o segredo pra manter o sistema rodando e ter tantas pessoas procurando o curso ano após ano e tantos servidores acreditando em seus benefícios miraculosos, cegamente ignorando as outras coisas bizarras que lá acontecem (como as pessoas que se lesionam), curso após curso.
5 - Não se trata exatamente de um curso de 10 dias em "silêncio" como replicam por aí. A metodologia adotada no curso está inserida dentro de uma estrutura hierárquica e é bom explicar que não se trata de um curso em total silencio... na verdade, só vale se comunicar com duas pessoas: o(a) gerente e o professor(a) - sendo que todo processo de decisão precisa ser aprovado por este último. Aliás, por que diabos pensamos que ao se comunicar em um curso, seja ele de meditação ou seja lá do que for, as pessoas terão muito mais tendência de se atrapalhar do que de se ajudar?
6 - Se você decide que quer ir embora, também precisa passar por uma entrevista com os professores, e caso eles não consigam te convencer de ficar, vão te convencer de ir embora apenas num determinado horário, horário este em que todos os outros alunos estão na meditação de grupo, para que sua decisão passe o mais desapercebida possível e não incentive mais desistências, sempre sob a alegação de "não atrapalhar o processo dos outros".
7 - No final do curso só sobrarão sempre "os vitoriosos", que claro, estarão muito satisfeitos por terem terminado o curso e provavelmente vão querer voltar novamente, seja como "servidor" ou como "sentador" (termo utilizado entre aqueles que praticam Vipassana há mais tempo). Os desistentes foram aqueles de "caráter fraco" (era essa a expressão utilizada na gravação holandesa que a Sofie ouvia), aqueles que "normalmente desistem logo no segundo dia, quando a cirurgia toma início", ou "no sexto dia, já que no quinto dia se fala dos sofrimentos e ninguém quer saber de olhar pra verdadeira razão dos seus sofrimentos", razão esta para a qual eles possuem o maravilhoso e único remédio correto, é claro.
9 - Ano após ano as pessoas disputam as vagas e serão ensinadas (o que não caracteriza necessariamente processo de aprendizagem) sobre o perigo de usar palavras duras, de se cultivar apegos ou aversões, pois inevitavelmente isso irá produzir "sankaras" (resgates a serem feitos) e que, não importa o que aconteça, o melhor é aprender a observar e aceitar de forma equânime as coisas como elas são, pois no final tudo é "anitcha, anitcha, anitcha" (ou seja, de aspecto transitório). Se finalizarem o curso, terão o aval de praticar essa tão iluminada técnica ao menos uma vez por semana e com isso estarão se purificando "da forma correta", o que "certamente os levará ao tão estimado estágio final de iluminação".
10 - Diversas vezes afirma o senhor S. N. Goenka nas gravações, que a técnica Vipassana era transmitida pelo próprio Gautama, um dos budas que vieram a este mundo. Pesquisando na internet se vê que isso é questionável. Porém, isso não faz diferença com relação ao que vou afirmar categoricamente aqui: Não importa o quão iluminada uma técnica possa ser, se a estrutura metodológica empregada na sua transmissão não presa pelo cuidado ao praticante, pois com facilidade pode lesioná-lo fisicamente, pouco me importa se ela foi transmitida por Jesus Cristo, Maomé, por Santo Agostinho ou Madre Tereza de Calcutá, Sócrates, Platão, Mahatma Gandhi, psicografada por Alan Kardec ou Chico Xavier ou se era transmitida verbalmente pelo próprio Sidarta Gautama em pessoa. Espero sempre manter meu anti-vírus em dia para estas tentativas de manipulação brabas (como expressei cordialmente também aos professores).
Bom, existe uma série de outras características que poderiam ser enumeradas aqui, o que resultaria em uma lista demasiada extensa. Pra finalizar, quero apenas dizer que apesar de tudo isso, o processo de aprendizado foi ótimo pra mim. Durante o período em que estive no curso, fiz algumas amizades legais, sobretudo com o gerente Beto, muito verdadeiramente solícito, e também com o servidor Saulo que estava na cozinha e era muito gente fina, além de um dos alunos que também estava aberto à trocação de ideias. Além disso, tomei banho pelado no rio quando fez muito calor, dei beijo na boca da minha esposa na frente da professora e interagi livremente com as pessoas as quais se mostraram abertas (parcial ou totalmente) à interação e delas também ouvi muitas coisas legais e outras nem tão legais, mas que me fizeram refletir bastante e crescer. Ah, e a meditação foi legal também.
Apesar de que hoje eu não recomendaria este curso a ninguém, aconselho que se você for fazê-lo, que o faça no mínimo respeitando as necessidades e os limites do seu próprio corpo. A estrutura que rege a metodologia deste curso não incentiva isso de forma verdadeiramente cuidadosa, muito pelo contrário, não só desrespeita seu corpo com severas exigências como "Forte Determinação" de maneira irresponsável, como também tenta desde o início manipular a sua mente com lavagem cerebral. Mas enfim, independente da "prisão" externa, ao conectar mente ao coração sempre existe a possibilidade de libertação, vide experiência de Nelson Mandela, entre tantos outros que permaneceram libertos mentalmente, mesmo quando em regime de cárcere físico. Então, caso queira se submeter à experiência voluntariamente... meu sincero BOA SORTE E BOA EXPERIÊNCIA!
"You're bound to be successful, bound to be successful!"
Um gratidão e beijo a todos!
Nando."
Querido Ronny, buscando no google por "vipassana lavagem cerebral" me deparei com o seu post. Gratidão pelas palavras escritas, sua discrição sobre a sua experiência com vipassana se assemelha MUITO a minha. Concordo em todos os pontos que vc levantou. Enxerguei tudo isso e desisti no segundo dia com dignidade. (Cheguei em casa hoje, e ainda muitissimo abalada com tudo isso) Não tive contato verbal com outros alunos, com a mesma destreza maravilhosa que vc teve, e por isso ler suas palavras e ver que eu não fui a única me confortam extremamente! Seguimos com nossas regras pra com nossos corpos! Boa sorte na sua jornada :)
ResponderExcluirKaren, querida esse relado foi do meu amigo Fernando Furtado. Fizemos o vipassana na mesma época. Postei o relato dele aqui. Se quiser ler meu relato também escrevi aqui:
Excluirhttp://naoseidenadanao.blogspot.com.br/2014/12/minha-experiencia-em-vipassana.html