Tempos atrás, eu e uns amigos tolos (os quais sinto profunda admiração), tivemos a infeliz ideia de passar nosso conhecimento sobre teoria de redes para ambulantes, camelôs e outras pessoas de baixa renda, a fim de empodera-los. Cheguei a visitar favelas para conhecer os moradores e juntos gerarmos soluções para os problemas da comunidade.
Não tardou minha percepção de que quem estava sendo empoderado, à duros "socos no estomago", era eu.
Estudava Direito, trabalhava em um restaurante, e comparado com essa galera de baixa renda eu fazia POUCO, tendendo ao NADA que fosse trazer alguma melhoria significativa para a coletividade.
Cito aqui 3 exemplos que me fizeram descer do palco.
- Observar o Seu João que aos 53 anos alugava um galpão para reciclar o lixo da favela, cuidava da quadra com o time de futebol que organizou e sustentava a familia, que não era pequena, com seu emprego convencional.
- Conhecer o incansável trabalho de agroecologia do Luiz Poeta com o Verdejar no morro do Alemão.
- Desfrutar da presença e energia da Regina Tchelly no morro da Babilonia com seu projeto Favela Organica, que hoje despensa apresentações, e ainda arrumando tempo para criar 2 crianças.
Depois de ter outros tantos exemplos semelhantes, de pessoas que colocavam a mão na massa, que não tinham tempo pra mimimi, que não se permitem ter sofrer de depressão porque a vida é intensa na prática, pude perceber minha insignificância nesse mundo. Como o simples fato de eu existir com meus movimentos pouco responsáveis depreciava os lugares por onde passava. Pois bem... depois de me sentir o humus de minhoca do coco do cavalo do bandido, comecei de forma espontânea um auto-empoderamento. Colei junto dessa galera e fui aprendendo... Jorge Brito, Kal, Astronauta, Zezito, Jorge Ferreira, Zé Ferreira, Seu Maneco, enfim uma lista infinda de Seus Zés e Donas Marias que sabiam viver de verdade e, sem fazer exigências, assumiam total responsabilidade por suas vidas.
Hoje me percebo mais ativo, com mais vida, cuidando dos lugares por onde passo e produzindo recursos básicos que favorecem a sobrevivência da minha espécie por influencia do aprendizado que tive com o pessoal, que à principio, arrogantemente, fui empoderar.
Começo a falar agora de contribuição consciente.
Outro dia vi no blog da Ana Thomaz: vivencia de não sei o que - contribuição inconsciente.
Achei perfeito. Honesto. O que me fez pensar mais sobre o que seria o desonesto.
Faltam verdades quando careço de informações para contribuir com o quer que seja.
A contribuição livre e consciente parte do principio de que há uma consciência da pessoa que contribui em todo o processo necessário para que um determinado evento ou projeto aconteça.
Um exemplo prático do que, pra mim, é uma contribuição consciente:
Estou no Catete92 (casa auto-gestionada onde se experimenta a livre-interação) e percebo que falta café na cozinha. Tenho consciência de que muitas pessoas que passam por ali bebem café. O fato de eu lembrar disso, passar no mercado, comprar um pacote de café e levar pra casa me faz ter contribuído com total consciência do meu ato e a demanda que ele atende. É estar atento ao contexto, às pessoas, ao ambiente que me cerca. O ato de contribuir conscientemente requer cuidado.
Um exemplo de contribuição inconsciente:
Eu vou até a casa, ofereço um curso. Sou pago pelo curso que dei e deposito, digamos 100 reais no pote de contribuição.
Isso é contribuir, mas não há a menor consciência da necessidade do todo, pra onde aquele dinheiro vai, como ele pode ser melhor investido, como diminuir essa demanda. Isso é uma atitude irresponsável perante a vida. Perante o espaço que você faz uso. Isso é uma atitude de descuidado.
Fique a vontade para não usar sua consciência, mas não é o tipo de relação que tenho buscado desenvolver com as pessoas.
Lembrei da amada amiga Carla Ferro e seu argumento confuso. A ideia foi:
"Eu quero oferecer um curso, receber por isso e desejo que cada um pague o quanto puder. E não acho que eu precise dizer que vou usar o dinheiro para pagar minha viagem à Europa e comprar chapéus e blabla...", não lembro mais o que ela falou, mas girava em torno disso.
Te respondo com uma clareza satisfatória da situação, Carlinha:
Se vc não me deixa saber pra que vc vai usar o dinheiro eu prefiro não contribuir. Escolhi ter atitudes conscientes de tudo que me cerca. Não estou pagando pelo curso que vc deu. Seu curso não tem um valor tangível (exceto pelo lápis papel e espaço). Estou pagando por contemplar a sua necessidade financeira quando te dá na telha desenvolver um curso. Eu quero contribuir pra sua vida e não preciso participar do seu curso pra isso. Me soa estranho a ideia de posse. O meu dinheiro é nosso dinheiro e ele está ali, primordialmente, para atender uma necessidade básica (alimento, água, ar, abrigo, agasalho) da minha rede de amigos.
E não para sustentar a sua vida de "bon vivant". Sim, quando eu digo "bon vivant" é um enorme juízo de valor que faço sobre voce e suas ações que não contemplam valores que trago comigo. Não sou capaz de não julgar, não sou um buda ou iluminado e não pretendo um dia se-lo. Estou feliz com minha humanidade. Julgo a todo momento nas minhas relações e ao manifestar meus desejos. O que tenho aprimorado é o "julgar melhor". Estar atento, observar e coletar todos os elementos contextuais da interação na intenção de ficar mais próximo da verdade, e então definir meus movimentos. Estar consciente do todo!
Isso falando assim num contexto hipotético. Em um contexto mais envolvido emocionalmente, pode ser que eu queira ir comprar chapéus com vc. Mas estar envolvido com o presente é importante pra mim. Me de a sua maior verdade que eu sei o que fazer com ela. Confie na minha capacidade de observa-la e contemplar a sua existência.
Entendendo melhor essa questão do "meu dinheiro é nosso dinheiro":
Quando a relação se dá em um momento determinado, com interesses pessoais a serem atendidos, é razoável uma troca quantificada: Vc me dá isso, eu te dou aquilo e cada um segue sua vida feliz. O meu dinheiro é meu e o seu é seu.
Mas quando experimentamos interações em rede e temos valores que se conversam (amor, compaixão, liberdade), nossas interações tendem a existir e se desenvolver até o final das nossas vidas. Assim sendo, não precisamos trocar isso por aquilo. A nossa necessidade será atendida em um panorama de abundancia. Levando recursos de onde tem mais para onde tem menos. E atualmente no nosso real estado de escassez, alimentos orgânicos contemplam mais os valores da minha rede do que chapéus europeus.
Tenho amigos que não faz o menor sentido contribuírem com as massagens que faço. Que não faz sentido contribuir com nada que fazemos um pro outro quantitativamente, pois nós acreditamos na comunidade da vida e que é fundamental cooperarmos uns com os outros afim ver nossas necessidades básicas atendidas. E meu coração salta de alegria quando posso experimentar esse tipo de interação. Livre, honesta, consciente e cuidadosa.
Não tenho mais paciência pra galera "harebô" que vive de "namastê" e "gratidão" despreocupadamente com a natureza que os cerca. Eu não sinto prazer em contribuir para essas terapias emocionais metodológicas que estão tomando conta da nossa capacidade intuitiva de lidar com conflitos.
Vejo personas e produtos sendo criados para atender uma necessidade emocional afetiva e de auto-compreensão.
Entendo que o fulano que cobra 200 dinheiros em uma sessão de reiki, acredita no seu trabalho, queira comer orgânicos e sustentar a especulação imobiliária para "morar bem". Quer fazer, faça! Também acredito no seu trabalho, mas não me peça para achar razoável contribuir com seu elevado custo de vida enquanto tenho amigos (os Seus Zés e Donas Marias, que tanto me inspiram) que sentem um inexplicável prazer em servir, trabalhando incansavelmente dia após dia, se alimentando de cesta básica e morando sem condições de saneamento básico. E além disso me proporciona um agradável bem estar chegar na casa deles e me sentir em casa sem anfitrião, aprender sem curso, escutar sem palestrante, me investigar sem coaching e ter verdadeiras lições sobre a vida, sem professor.
Muito bom! Honesto e verdadeiro. Posso compartilhar no Face?
ResponderExcluirObg, Ronny, Bj. Kiki.
ResponderExcluirAntes tarde... ah, você sabe! Cara, que prazer escutar alguem no mundo que conseguiu colocar de forma tão lúcida o que eu só conseguia pensar com muita raiva, me perguntando se essa galera "haribô" não enxerga o Seu Zé. Muito grata, mesmo, de coração! Foi um momento de alívio no meu dia e vai me servir para explicar melhor as minhas razões no projeto que estou iniciando. Gratidão <3
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