quinta-feira, 25 de junho de 2015

Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Sim, eu conheço a Carla.
Acompanho seu trabalho de profunda investigação sobre desescolarização. De todos, percebo a mais engajada nos movimentos de unschooling.
Questiono alguns pensamentos, procuro entender e aprendo com ela. Aprendo sobre mim com ela. Sobre nós com a gente. E sobre o momento no momento em que se dá o momento. E não aprendo pouco.
Recentemente houve um desses momentos que me fizeram admira-la ainda mais.
A publicação de uma simples frase me fez perceber uma das maiores atitudes de respeito ao ser humano que já vi.

Agora tento explicar em limitadas palavras o sentimento confortante que se abateu sobre mim:
Qualquer atividade que comprometa a livre aprendizagem me causa desconforto. Escola, professor e ensino são palavras distantes da minha realidade atual. Busco lidar da melhor forma com o tema quando surge. Estou em contato diário com crianças encantadoras e me encanta ainda mais ver a velocidade com que aprendem sobre o que quer que seja, motivadas apenas pela própria curiosidade.

Com o tempo fui conhecendo pessoas que acrescentaram e motivaram mais as minhas críticas à escola e o ato de conduzir alguém para algum lugar. A Carla, e sua filha Gaia ("unschooler") foram duas delas.
Eis que me surge essa frase onde a Carla se refere, provavelmente, à um diálogo com sua filha:
Então ela se auto-matriculou na escola: "Você é você, eu sou eu. Quero aulas de matemática."

Instantaneamente fiquei maravilhado. Pude acessar o amor presente no ato. O respeito pelo outro, permitir, deixar ser, estar atento, ouvir, não deixar que ideais sobreponham a importância do momento e da interação. E nas relações entre pais e filhos, onde comummente impera a expectativa e o empoderamento de um sobre o outro isso é ainda mais difícil.

Me vi pensando nas pessoas que falariam da incoerência, da contradição da minha amiga, que até repudiariam a liberdade concedida a pequena Gaia. Talvez por não entenderem que não se trata de concessão. E mais uma vez nada disso pareceu ter importância para Carla a não ser o olhar atento ao outro. Um olhar cuidadoso que independe de idade, sexo ou grau de parentesco.

Não conheço a Carla, mas amo cada vez mais os momentos em que me reconheço nela.

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