domingo, 14 de fevereiro de 2016

Ser bom ta na moda e todo mundo quer

Vivemos a cultura do ter, dizem.
Não acho não. Acho que vivemos na cultura do ser mesmo.
Se não somos, estamos apontando alguém que é.
É a cultura da rotulação, coisificação, pré-definição, preconceito.

Nossa sociedade entende o mundo como dual. Ou é bom ou é ruim, ou é certo ou é errado, ou é feio ou é bonito, e assim vai. A tendencia a enquadrar a pessoa dentro de um adjetivo, cheio de juízo de valor, é grande. Não estou entrando naquela ideia abstrata de que tudo é relativo. A coisa é mais prática mesmo. Digo que não estamos acostumados a observar e analisar os fatos, menos ainda experimentar novas formas de linguagem.

Acontece que tais juízos de valor acabam dificultando e muito o processo de entendimento na comunicação quando fazemos alguma crítica ou elogio.
Se eu disser que uma pessoa é inteligente, é bem visto. Se eu disser que uma pessoa é burra não é bem visto. Tem alguma coisa estranha ai. O juízo de valor é o mesmo. E não existe um, sem a existência do outro.

Ninguém é inteligente ou burro do nada. Algo precisa ser feito para merecer esse titulo. Em situação hipotética, o que eu quis dizer com inteligente era: "você organizou as ferramentas de uma forma que me poupou tempo, fiquei feliz com isso". Em situação contrária seria: "você não organizou as ferramentas nas posições originais e demandou mais tempo para encontra-las, fiquei com raiva por isso".
Quando digo que a pessoa é burra ou inteligente, mesmo contextualizado, a mensagem não fica clara. Não digo que seja impossível entender. E também se pode perguntar o que a pessoa quis dizer. O que estou dizendo é que aumentam as chances de ruido na comunicação e por nosso já condicionado comportamento social, há uma tendencia de entrar em estado defensivo: "sou nada" ou "burro é você".

Portanto fazer uma critica ou um elogio, dá no mesmo. Ambos dão validade a uma forma de se expressar pouco reveladora, afastada da realidade que se sente, que se quer dizer com aquilo.

Digo isso porque não é comum esse entendimento. Parece que ao ponto que chamar de burro é ruim, pois deprecia, chamar de inteligente é bom, pois enaltece. Acontece que em ambas as situações estamos avaliando, remexendo o ego, criando diálogos que estimulam uma competição social. Fica o burro contra o inteligente. E ninguém quer ser burro. Mas inteligente pode, todo mundo quer.

Aprendi a ouvir criticas e buscar o que vem por trás delas. Entender onde o outro me reconheceu ali. O que é burro pra ele, o que é uma atitude burra pra ele, o que eu fiz que estimulou essa reação. E ai seja burro ou inteligente, o trabalho de questionamento é o mesmo.

Então se ser burro, feio, chato e bobo, não é legal, ser inteligente, bonito, descolado e carismático, tampouco. Vale o mesmo para seres de pouca luz ou seres iluminados.

As vezes sinto vergonha da precariedade do nosso vocabulário para expressão emocional. Mais ainda da nossa submissão à um vocabulário pouco esclarecedor.

Proponho dois pontos chaves para essa reflexão. Ou a gente trabalha melhor esse vocabulário pra se fazer entender sem juízos de valor no meio da fala, ou a gente se expressa sem tanta preocupação e começa a se esforçar pra entender o que o outro quis dizer. Sem a bagagem social pejorativa ou glorificante que a palavra traz consigo. Se relacionar é difícil, cambada! To tentando um pouco dos dois. Vamos se esforçar! Me ajuda ai.


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