Texto de Augusto de Franco*
"Mas o amigo - aquele que amamos incondicionalmente, sem instrumentalizá-lo para manter ou alcançar qualquer objetivos - é o que nos salva, é aquilo que escapa de propriamente humano nisso tudo (sim, em todo o restante repetimos padrões da sociedade hierárquica).
Agora imaginem como seria fantástico termos amigos não privados, não escolhidos seletivamente, mas escorridos ao acaso, do fluxo interativo da convivência social, para o nosso colo. Amigos nossos que fossem também amigos entre si, mas sem nunca conformar um grupo proprietário e fechado. Amigos que não fossem uma espécie de recreio ou respiro de um trabalho vivido como pena.
E que o nosso trabalho fosse realizado como amizade: o trabalhar como se comprazer na convivência com os amigos, já pensaram? E que nossos namorados e namoradas, esposos e esposas, filhos e pais fossem também e primeiramente nossos amigos e amigos de nossos amigos. E que aquilo que chamamos de nossa carreira fosse nada mais do que uma trajetória de experiências pessoais, intransferíveis e únicas para cada um de nós, porém compartilhadas - e convividas - com nossos amigos. Amigos sem os quais não poderíamos saber quem somos. Para mim este é o sentido da migração que poderemos fazer, se quisermos, de mundos sociais (ou antissociais) povoados por pessoas privadas para clusters de convivência cooperativa configurados por pessoas comuns."
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