Chegamos na cidade!
Então exploramos seus recursos naturais, cobrimos cada metro quadrado de grama com placas de concreto e cercamos as árvores em canteiros para que não fujam. Expulsamos a vida silvestre, adotamos pets para saciar nossa carência e começamos a morar empilhados até o limite do constrangimento de um elevador.
É com muito prazer e otimismo que lhes digo que estamos voltando. Ainda de forma tímida e desconcertada, regada de incertezas e insegurança, com as pernas bambas e a companhia do medo de se excluir do convívio social. Mas estamos voltando.
Falamos um tanto, especulamos outro tanto ainda maior. “Pra onde vamos?”, “O que tem que ter?”, “E a familia?”, “Onde vou comprar meu kinder ovo?”. Incertos se seria certo deixar toda a bagagem pesada que acumulamos durante toda nossa frustrada vida para trás. Mas estamos voltando.
Mas para onde estamos voltando? Pro campo?! Não!
Estamos voltando para um pequeno espaço habitacional onde ainda conseguimos experimentar um minimo de humanidade, um vestigio de compaixão. E sim, há uma preferencia pelo afastamento da cidade grande. Queremos começar de novo, queremos partir de um lugar onde estamos mais integrados com a nossa natureza. Queremos levar a tecnologia com a gente, mas podemos deixar o peso dos paradigmas para trás.
Conseguimos a façanha de nos excluir do convívio social cercados de gente por todos os lados. Agora é hora de resgatar nossa essência humana reestruturando uma comunidade que respeita a vida. Estamos voltando e queremos morar juntos. E queremos compartilhar, emprestar, e apreciar demoradas conversas na esquina da padaria do seu Manoel com a loja de bordados da tia Luzia.
Ainda estamos ensaiando. Os mais temorosos até falam bastante, mas ainda hesitam em se mover. Os mais eufóricos saem na frente aos trancos e barrancos, construindo templos e criando instituições. Os mais pacientes começam a experimentar uma vidinha mais tranquila. Com mais tempo pros amigos. Colocando a mão na terra e dizendo bom dia pros vizinhos. Um pão feito por mãos, a criançada solta na praça e muito trabalho em mutirão. Como dizia Claudio Oliver “O futuro, se houver, está no passado.”
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