Há! Mentira. Foi comigo mesmo.
Houve um tempo, não muito distante, em que eu flutuava. Em que a vida não poderia ser mais intensa. Emoções que não cabiam, aprendizados constantes e insights difíceis de explicar com meu tão pouco extenso vocabulário.
Nesse tempo eu viajava de bike veia e pegava carona na boleia, eu carregava a casa numa mochila e transitava por lares acolhedores, eu multiplicava novos amigos e colecionava cidades visitadas, tomava banho no rio e almoçava com as crianças. Dormia mal, acordava bem, por vezes assustado, por vezes confuso, e noutras tantas, com uma forte sensação de que, por muito tempo até então, me deixei enganar pelo que me apresentaram como "uma vida bem vivida".
Eu amava demais! Tudo era novo. Descobrir era excitante. Explorar era o sentido de seguir vivendo.
Não tinha um rumo definido e mesmo assim.. eu só ia...
Assim foi por um agradável período de tempo. Sabe quando deixou de ser tão agradável? Quando não dava mais pra fugir da realidade. Em algum momento a vida me chamou de volta e disse: "Tem mais coisa ai."
O desconforto de não ter pra onde voltar, a carência do colo de mãe e da escuta empática dos amigos, me colocavam em um lugar de vazio. Os questionamentos foram ficando mais fortes. A necessidade de colocar a mão na terra e ver as sementes crescer, de me sentir integrado e produzindo algo coerente com meus valores me deixava inquieto. Eu precisava contribuir com algo relevante para comunidade da vida que queria sustentar. Desconstruir a cultura do medo que desejo ver morrer.
Depois de me acostumar com o ser que explora e deixa a vida levar despreocupadamente, bateu uma vontade de criar raízes, assumir desafios, se fazer útil e funcional, ajudar com soluções práticas e se responsabilizar pelo efeito das próprias ações. Enfrentar o rigoroso inverno a fim de assistir o florescer da primavera.
Comecei então, aos trancos e barrancos, tentar entender o que me faltava. Finquei a bandeira da liberdade numa cidadela pacata e disse "vou ficar aqui por um bom tempo e vou fazer diferente". Depois de muito ajudar em projetos de amigos sentia finalmente aquele cansaço produtivo. Minha energia foi gasta com algo relevante. Mas ainda estava desalinhado com alguns dos meus valores. Estava vivendo o sonho de outras pessoas. Inocentemente culpava a "energia da cidade" que não era boa.
Escolho outra cidade então, pra revelar minha imaturidade de lidar com insatisfações. Novos projetos, novas pessoas. "Aqui sim, eu vou passar um bom tempo". Ledo engano. 4 meses depois uma profunda solidão e a saudade da família me fez voltar para minha cidade natal.
Usei o tempo para refletir, entender a ansiedade. Rever os amigos antigos. Até embarcar na próxima aventura. Outra cidadezinha. Já conhecida. "Aqui eu vou construir minha casa e colher minha comida".
E dediquei de verdade. Estava produzindo, estava vendo acontecer. Algumas novas parcerias, outras novas amizades. Embora incomparavelmente menos intensas do que na época em que só fluía por ai, sem compromissos.
Até que uma guria de olhar atento e uma risada acalentadora me desorientou. Ela surgiu assim, de um passado não muito distante com um sorriso bobo e uma fragilidade de quem precisava acreditar mais na magia da vida.
Num acordo não expresso seguimos dia após dia complementando um a necessidade do outro e aprendendo mais e mais sobre si mesmos.
Eu a tirei pra dançar e sussurrei em seu ouvido "se joga!". E ela confiou em mim. Pergunte a ela. Ta dançando sozinha até agora. E pra mim como foi?! Ela me trouxe o sentido que faltava para querer parar quieto. Agora penso mais em comunidade, em família, em trabalho, em segurança. Não aquela ideia falsa como o "mito" da tão sonhada aposentadoria, mas a real noção de que somos seres dependentes de alguns recursos naturais básicos para sobreviver. E mais alguns outros para tornar a sobrevivência mais confortável.
Recentemente entrei numa crise. Claro, nem tudo são flores. A vida é isso ai.
Em algum lugar o amor pela vida se perdeu e eu não percebi.
Fui esquecendo aquele ser amante que se interessava por toda e qualquer pessoa. Que celebrava a beleza de um novo encontro. Que valorizava acima de tudo o tempo de uma boa prosa. Que se permitia escutar e aprender com o outro. Que era admirado pela leveza do olhar e fala tranquila.
Não percebi quando as histórias dos outros deixaram de atrair meu interesse. Enquanto ouvia um discurso, só me vinha à mente minha agenda, meus afazeres domésticos, as plantas do quintal tantos dias sem água, meu cliente impaciente e mais etc. falsamente urgentes.
Eu tampouco me preocupava em disfarçar. Minha ausência no diálogo era revelada pelo meu constrangimento e olhar inquieto.
Estava deixando trabalho, compromissos e responsabilidades tomarem as rédeas da minha vida pela primeira vez depois de abandonar esse tipo de comportamento.
Estava inconscientemente me deixando levar pelo antigo mundo que outrora reneguei com tanta veemência.
Essa crise durou poucos meses. Vivi de perto, por um lapso de tempo, o Ronny do qual fugi enquanto viajava sem rumo. Aquele que tinha medo de me tornar. Posso dizer que por causa da tal Guria tive a clareza de perceber o caminho que estava tomando. Consegui me colocar como expectador de mim mesmo e aprender com todas essas polaridades.
Indas e vinda, que não foram poucas me trazem uma noção do que é realmente importante nas relações humanas. Percebo uma harmonia entre o cara responsável que inspira confiança e o cara amante da vida livre leve e solta.
É preciso estar atento e não deixar se descuidar, se não, o amor pela vida se perde.

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