quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sentir-se Pertencente

Hoje vou falar do que sinto falta.
Vivi um bocado até que considerável de vida até agora. Muitos tantos de cidades visitadas e outros tantos de pessoas diferentes conhecidas. A sensação de vazio sempre existiu. Acredito até que era ela quem motivava minha busca incansável por respostas e ainda respondia as indagações confusas da família e amigos: "mas sozinho?" "mas sem dinheiro?" "mas nem peixe?" "mas sem luz?"
Enfim.. foram muitas respostas inventadas intuitivamente apenas para amenizar uma ou outra preocupação.

A resposta mais verdadeira tem vindo aos poucos, vai se fazendo mais clara dentro de mim e até me arrisco a começar a nomea-la. Olha o perigo!
O fator que me move, que me inspira a continuar explorando e conhecendo vem de uma necessidade de pertencimento. Por muito tempo me senti isolado, como se não pertencesse a esse mundo. E desde que comecei a assumir mais riscos e desafios, experimentei sensações que me conectavam com essa sensação de pertencimento. Coisas simples da vida. Andar de mãos dadas por horas numa estrada escura sem se preocupar com a hora que vai chegar. Tomar café com bolo de fubá numa quarta-feira chuvosa junto a uma senhorinha que acabara de conhecer. Cagar no mato. Compartilhar abrigo, cuecas, silêncios.
E apesar de ter experimentado tantas sensações que me tiraram um grande vazio do peito simplesmente por reconhecer meu lado humano em relação com outro ser humano, ainda sinto falta de pertencer.

Depois de todo o aprendizado e experimentações, continuo querendo ter domínio sobre as roupas que uso, o alimento que consumo, a praça que me reúno com os vizinhos. Ainda me falta esse empoderamento, essa maior ingerência sobre tudo o que me cerca. É difícil assumir o controle sobre a própria vida. E é por ser tão difícil que a sensação de vazio chega dominante e avassaladora.

Mais do que querer, eu preciso. Preciso plantar e colher, andar nu, me lavar com a água que brota das pedras, preciso resgatar essa relação com a minha natureza.
Preciso ser cada vez mais natureza, me sentir pertencente ao meu corpo, a minha aldeia, meu grupo, minha vida.
Quando permito que uma cultura me sequestre o poder e me seduza a viver dependente de um discurso que oferece garantias, me sinto fraco e inútil. A sensação de inutilidade me gera um grande vazio interno que acaba sendo preenchido por futilidades. Já a sensação de produtividade, de estar sendo útil para alguém, produzindo conteúdo, insumos, alimentos, me anestesia com uma agradável sensação de pertencimento e confiança na vida.

Estou longe de querer fugir pro mato e fundar a "sociedade ideal". Quero apenas ter domínio e consciência sobre meu corpo e minhas habilidades. E permitir que você seja num lugar onde podemos simplesmente ser.



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