terça-feira, 7 de novembro de 2017

Falar Sobre e Conduzir Para

"Falar sobre é diferente de conduzir para." Assim eu dizia com tom de um é bom, o outro é ruim.

Foi hoje dançando butô, uma dança japonesa, que percebi uma gigante resistência em me deixar conduzir. As meninas (professoras, por mais que elas não gostem desse título eu falo mesmo) que conduziam a dança, eram um doce, meigas e respeitosas. E dancei feito fogo. Eu e mais um tanto de loucos, nos transformamos em lava, vulcão, fogo e cinza em 2 horas de dança.

A resistência surgiu quando ouvi a próxima ordem: faça isso! Que na verdade era um convite, e nem era tão invasivo assim que parecesse uma ordem. Era um simples convite a se permitir sentir vergonha, ou melhor se desavergonhar. E confiando e me permitindo entrar na dança descobri que não era vergonha o que eu sentia, ao final era medo.
Um medo enorme de me deixar conduzir por alguém, o medo da autoridade, o medo da relação de subordinação, de alguém se colocar no lugar de que sabe mais ou é melhor do que eu.
Para conseguir mergulhar naquela experiencia precisava deixar de ouvir a vozinha da cabeça que me dava as razões mais convincentes do mundo para não permitir que meu corpo virasse lava. "Eu faço o que eu quero, eu não faço nada só porque o outro quer." e foi ai que surgiu uma segunda voz, sobrepondo esta: "Ai! Cala essa boca, que saco! Só dança!"

E pensei nas tantas vezes que resisti a entrar na dança. Ao pular de cidade em cidade como macaco pula de galho em galho buscando sabe-se lá o que, ao fugir no quinto dia da meditação vipassana, ao me calar diante de situações que contrariam meus valores, e tantos outros momentos era essa vozinha questionadora gritando na minha cabeça.

Logo percebi que algo estava sendo transformado. Ser a pessoa que resiste, que questiona e que contraria, já não me dava mais prazer. Queria me sentir mais pertencente a um grupo, alguém mais comum, menos especial, menos arrogante, mais pé no chão e bem mais presente.
Me percebi e me desnudei da resistência em ser conduzido, dançando, virando fogo. Entendi que estava ali porque aceitei um convite que foi feito muito claramente no inicio da proposta do butô. E não queria fugir, ou fazer como acho melhor. Queria honrar aquele convite, a presença e o trabalho daquelas meninas que se propunham a conduzir essa dança.

Aprendi que cabe o questionamento. É legítimo. Não se deixar ser conduzido numa sociedade onde as pessoas querem dirigir a vida das outras é importante, mas igual importância tem uma condução que nos leva a um lugar que nos permite experimentar sensações novas, ou adquirir novas habilidades. Seja uma dança, um curso, um retiro de meditação ou ainda submeter-se a substancias alucinógenas. Ainda somos completamente auto-responsáveis quando nos deixamos ser conduzidos por algum processo. E também não há mal nenhum em questionar e desistir de algo depois de começado porque aquilo nos desagrada. Só estou experimentando diferente do meu padrão, e está sendo bem mais harmônico me permitir viver assim.

Esse foi meu contato com o presente hoje. Vou seguindo cada dia me conectando com o presente, seja numa meditação sentadinho, ou na fila do banco (há! mentira, nem tem banco onde eu moro), seja numa caminhada ou numa conversa. Estar presente é libertador e gratificante. Cada vez mais possível quanto mais me conheço e me reconheço nos outros.


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