Vivi uma infância tranquila. Como a de qualquer outro menino de classe media no Brasil. Aos 10 anos de idade perdi um querido pai assassinado. Esse foi meu primeiro grande contato com a morte. Depois disso a vida foi passando, e eu buscando respostas sobre questões profundas. "Quem sou eu?" "O que estou fazendo aqui?" "Deus existe?", ao mesmo tempo que achava essas perguntas uma grande besteira. "O negocio é viver a vida e ser feliz", dizia nos momentos mais agradáveis, pois era quando ficava mais fácil acreditar nisso.
Fui naturalmente perdendo meus avós e por vezes era notificado sobre acontecimentos trágicos ocorridos por perto, amigos de amigos meus que se foram assim como se nada.
Encarei muitos desses acontecimentos como algo natural. É a vida, é assim que funciona. A gente nasce, cresce, morre e vira adubo. Tudo que nasce nessa Terra é feito para alimentar a própria Terra. Todas as criaturas vivas tem o mesmo destino.
Ainda estudei diversas religiões e filosofias para descobrir se a gente volta à vida depois da morte. Até me dar conta que jamais poderia encontrar essa resposta se antes eu não me perguntasse quem é "a gente"?! Como posso querer saber se vou voltar depois da minha morte se nem mesmo sei o que sou, ou o que é que vai morrer, ou até mesmo se essa morte é minha.
O tempo passou um pouco mais, "casei", tive uma filha linda que nasceu doente, perdi a mesma filha linda que nasceu doente em seu terceiro dia de vida. Anahí durante seus 8 meses de vida na barriga veio me preparando para a vida e para a morte. Me falando sobre responsabilidade, estabilidade, coerência, sobre coragem de bancar minha própria filosofia de vida com uma filha nesse mundo quadradão, sobre desafios. Me falou sobre sonhar, acreditar, querer, fazer acontecer e por fim sobre desistir e aceitar. Me falou muito sobre ironia, e principalmente sobre achar graça de um ilusório controle sobre a vida.
Hoje, 5 meses depois de conhece-la pessoalmente, ela continua me falando coisas. Estou aprendendo mais sobre a morte do que nunca, mas principalmente sobre a vida.
Anahí viveu cada segundo de sua vida como se fosse o ultimo. Presente, inteira e se deixou morrer de uma forma tão leve, doce e natural que era possível admirar a beleza de sua passagem.
Me perguntei depois desse acontecimento por onde posso recomeçar essa vida que já estava tão traçada, certa e cheia de planos. E a resposta vem chegando a cada dia, cada vez com mais força: "Pelo começo! Do zero! Tudo de novo! Assim como sempre foi, como cada instante sempre é e sempre será".
Esse é o papel da morte. Permitir que o novo surja. Abrir espaço para que a vida se renove.
Anahí tem me ensinado que é preciso deixar morrer para renascer. É preciso desapegar dos sonhos, das crenças, das certezas, de si mesmo, do que acho que sou para que eu possa me tornar um novo eu a cada momento. É indispensável aceitar que o ato de viver é estar morrendo e renascendo a cada instante de forma a evitar o sofrimento. Que não existe nada além do momento presente, que esse é o lugar que o amor escolheu como sua morada. E que a morte em si, a morte do corpo, nada mais é do que só mais uma experiência na vida.
Pensar em vida como inicio e morte como fim é apenas uma tentativa muito bem sucedida de complicar as coisas. Vida e morte, inicio e fim, são a mesma coisa, o mesmo movimento. É a energia de transformação que faz o mundo girar e a história acontecer. Sigo aqui em meditação explorando os caminhos do ser.

Ronny, que lindo depoimento e muito emotivo para mim! Eu que ainda não lidei com a morte, embora meus pais já tenham morrido, mas já haviam vivido seu tempo (um com 89 anos e outro 87). Então era a morte natural, pois ninguém vive eternamente...ou talvez sim em nossas lembranças. Sim seremos adubo, pois já diz o livro sagrado: do pó viemos ao pó voltaremos. Lidar com a vida então é o nosso destino! Saber viver, saber amar, saber observar e contemplar o belo! Um grande abraço para você meu caro amigo!
ResponderExcluir