''Claro que todos - ou muitos de nós - temos necessidade de aprofundar a conversação sobre a transição para novos mundos e seus aspectos práticos.
A questão fulcral é: como sobreviver para continuar experimentando?
É evidente que isso pesa mais em quem tem mais idade, pais idosos e filhos jovens, que dependem de recursos auferidos, em grande parte, no velho mundo e por meio dos velhos negócios.
Nenhuma experiência alternativa de vida e convivência social pode elidir o fato de que no final do mês é necessário ter recursos para pagar o plano de saúde da mãe idosa, a escola da filha mais jovem e o próprio plano de saúde, além dos remédios. Somente essas três despesas, abstraindo aqui todas as demais, podem somar 5 mil reais. De onde tirá-los?
Dou um depoimento pessoal.
Vivi 50 anos praticamente ignorando a existência dessas exigências. Optei nos anos 70 por não ter propriedades e fui em frente. No início dos anos 70, troquei um salário de 4.000,00 por outro de 490,00 (cruzeiros, se não me engano). No início da segunda metade da década de 70, morei 7 anos numa favela (onde nasceu minha primeira filha), morando em comunidade e depois numa família nuclear. Antes já tinha vivido em comunidade (stricto sensu, com tudo comum mesmo). Durante anos minha casa tinha 50 colchões empilhados e vivia cheia de pessoas que lá iam articular seus movimentos sociais e políticos e outras ações ainda mais disruptivas... Fiz (fazíamos) ocupações de verdade (áreas rurais e urbanas sem uso eram logo ocupadas por nós, para moradia e construção em mutirão de centros comunitários - que à época chamávamos de "Casa dos Companheiros"). Tive, durante anos (inclusive quando ainda estava no Rio de Janeiro), apenas uma camisa de nylon e uma calça de tergal (materiais sintéticos horríveis, que eram lavadas durante a noite no banheiro e lá penduradas) e um par de sapatos. Vivia feliz da vida esse engajamento, vamos dizer assim, descompromissado: quem dependia de mim também dependia das condições mutáveis em que minha vida fluía.
Bem, mas aí os anos foram passando. Novas exigências foram surgindo. O falecimento de meu pai, a idade avançada de minha mãe, o nascimento de outras filhas, o surgimento de doenças nesse emaranhado parental (algumas crônicas) que exigiam tratamento continuado...
Conto essas coisas apenas para dizer que mesmo que você opte e mantenha a opção - como fiz - por não ter gastos de manutenção de coisas (infra-estruturas físicas associadas à propriedades imóveis ou móveis), mesmo assim, despesas constantes e crescentes sobrevirão. E você terá de ganhar dinheiro para pagá-las, a despeito de todas as suas idéias revolucionárias, evolucionárias, disruptivas, alternativistas ou o que for sobre como fazer negócios-em-rede ou ensaiar experiências inovadoras de auto-sustentação e de comum-sustentação. Ou então morrer. Ou então infligir sofrimentos aos que já não têm mais (ou ainda não têm) autonomia para sair de situações configuradas, vamos dizer assim, de modo anti-humano.
Não mudei minhas orientações apesar disso tudo. Continuo vivendo praticamente sem propriedades. Não aceito emprego em organizações hierárquicas. Vivo do que ganho a cada dia com palestras e consultorias que eventualmente apareçam (desde que nelas possa fazer somente o que quero fazer, do contrário não aceito). Mas fico um pouco perplexo com a galera que quer mudar o mundo sustentada pelo papai ou que se mantém às custas dos recursos derivados do proselitismo da salvação do planeta, da inclusão dos excluídos, do fim do capitalismo ou da construção de um outro mundo possível, e que despreza a preocupação com ganhar dinheiro (sabendo, porém, que terá o que comer logo mais, que se estiver duro pode dar um pulinho ali na casa da mamãe ou do titio, que se perder o teto pode sempre se ajeitar na casa de um parente ou de alguém da esfera de relacionamento que herdou dos emaranhados de seus familiares).
É claro que todos buscamos novas formas de sobrevivência. Mas neste período de transição em que vivemos, isso não é tão banal. Uma pessoa sozinha pode viver, pelo menos até certa idade, "como os lírios dos campos e as aves do céu, que não tecem nem fiam" (e eu praticamente vivi assim toda a minha vida - o que é raro, sobretudo depois dos 40).Mas a transição significa que o velho (que já morreu) ainda permanece de pé e que o novo (que já nasceu) ainda não consegue ficar de pé por si mesmo. Então, na transição, podemos experimentar o novo, mas parte da nossas condições de sobrevivência ainda vêm do velho.
Pois bem. Voltamos assim a questão inicial. Como garantir recursos para sobreviver (no velho mundo) e continuar experimentando (criando novos mundos)? É sempre possível fazer isso, desde que você seja uma pessoa que tenha apenas que se sustentar ou desde que você viva numa comunidade conformada a partir dessa condição. E desde que você possa ter tempo para ficar nas filas... nas filas do INPS e em todas as outras filas a que têm que se submeter quando não tem recursos. Mas e quando seu tempo está todo voltado para atividades que dão sentido a sua vida? Mas e quando você tem que escrever 10 horas por dia (o meu caso)? E quando você tem que arrumar, desesperadamente, um convite para falar em algum lugar, dar um curso, prestar uma assessoria para ganhar algum dinheiro sem o qual não terá como fazer o supermercado, quitar as dívidas que se acumularam, ajudar sua mãe e seus filhos a pagar os hospitais, os médicos e os remédios e, às vezes, até o alugueres (sendo que estes familiares nem moram mais com você e não compartilham em nada dos seus propósitos e do seu estilo de vida? Heim?
Pode-se sempre argumentar: foda-se! Os pobres não vivem assim? Então? O que significa, em outras palavras: morra!
Mas não há nenhuma virtude intrínseca à pobreza, nem algum valor no pobrismo, quer dizer, na ideologia que exalça a condição de pobreza e vive do proselitismo da redenção dos pobres.
Ademais, as exigências de quem vive de determinada maneira, seja condicionada pela sua trajetória, seja configurada pelas sua visão de futuro, também determinam os níveis de exigência e o volume das necessidades. Por exemplo, para quem vive investigando, pesquisando e não está mais ligado a uma instituição de pesquisa, é necessário ter recursos para assinar revistas, comprar livros (não, nem todos podem ser baixados na Internet), ter computadores adequados (não, não pode dividir o tempo da máquina com outros), pagar auxiliares (muitas vezes não se pode reservar um tempo para adquirir e preparar a própria comida). Antes, muitos de nós - exploradores de novos mundos - tínhamos a alternativa de entrar num mosteiro (foi por isso que os mosteiros floresceram e se multiplicaram como centros de pensamento antes das universidades). Hoje, porém, isso não é mais opção para quem quer sair do velho mundo: os mosteiros são organizações hierárquicas e mesmo as universidades são burocracias sacerdotais do ensinamento. Antes pessoas como Leonardo conseguiam sobreviver e continuar explorando porque eram sustentadas por mecenas. Hoje, as coisas não são mais assim.
Como viverão os inovadores (que, juntamente com os hubs, os netweavers e outros, cumprirão seus papeis antecipantes da sociedade-em-rede)?
Fazendo de outro modo a mesma pergunta: como inovarão os inovadores?
Aquele abraço,
Augusto''
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