Texto de J. Patrice Mc Sherry*
O novo projeto está a cargo de um organismo pouco conhecido, Intelligence Advanced Projects Activity (IARPA), que funciona sob a orientação do diretor de inteligência nacional dos EUA. O projeto copiará, automaticamente, por meio de supercomputadores, dados de 21 países da América Latina, por um período de três anos que começaria em 2012. Há um projeto semelhante para o Afeganistão, patrocinado pela DARPA, organização irmã-militar do Pentágono, para identificar redes sociais de potenciais terroristas neste país.
Em 1964, o Escritório de Investigação e Desenvolvimento do exército dos Estados Unidos patrocinou o Projeto Camelot, que foi um esforço de compilação de informações no contexto da estratégia de contra-insurgência. Camelot foi concebido, originalmente, para ter uma vasta cobertura, envolvendo países em desenvolvimento de todo o mundo. No entanto, o projeto foi implementado apenas no Chile e não por muito tempo.
Os objetivos declarados eram “desenhar procedimentos para avaliar o potencial do desenvolvimento de conflitos internos nas sociedades nacionais” e “identificar... ações que um governo pode realizar para diminuir as condições favoráveis a isso”. Sob o disfarce de um projeto universitário de ciências do comportamento, situado no Escritório de Investigação de Operações Especiais da Universidade Americana (financiada pelo exército), Camelot era um projeto camuflado de inteligência. Um general do exército estadunidense afirmou que o dito projeto “nos ajudaria a prever a utilização potencial do exército estadunidense em qualquer número de casos onde a situação pudesse sair de controle”.
No Chile, Camelot foi apresentado como uma pesquisa acadêmica, escondendo sua relação com o Pentágono. Os pesquisadores entrevistaram chilenos de todos os setores da sociedade para conhecer suas crenças políticas, seu compromisso com a democracia e outras informações pessoais e políticas. De acordo com uma chilena que foi entrevistada, cada pessoa foi depois enquadrada em categorias conforme o nível de perigo ou de “potencial subversivo”. Quando esta pessoa tentou obter um visto para ir aos Estados Unidos, as autoridades de lá tinham um arquivo completo sobre ela, com toda a informação supostamente confidencial que ela colocou no formulário da pesquisa.
As bases de dados de Camelot também foram usadas para a guerra psicológica. Serviram para influir nas atitudes políticas e, dessa forma, para manipular certas eleições chave. A CIA digitalizou os dados compilados por Camelot e os analisou e utilizou para produzir atemorizantes propagandas anti-comunistas, durante a campanha eleitoral de 1964 de Eduardo Frei, candidato democrata-cristão, contra o esquerdista Salvador Allende. Por exemplo, foi dito às mulheres que, se Allende fosse eleito, seus filhos seriam mandados a Cuba e seus maridos a campos de concentração. A natureza contra-insurgente do Projeto Camelot foi descoberta pelo governo chileno e foi encerrado em 1965, depois de sessões tanto no Congresso do Chile quanto no dos Estados Unidos.
Não é a primeira vez que, nos tempos recentes, o governo dos EUA acumula grandes quantidades de dados em projetos de “data mining” (obtenção maciça de dados). Durante a administração de George Bush, a National Security Agency começou a extração de informações de milhões de cidadãos dos Estados Unidos – de telefonemas, correios eletrônicos, fax e outras fontes – num programa secreto sem autorização judicial, supostamente para descobrir e vigiar potenciais integrantes de redes terroristas. Essa administração também tratou de implementar outro enorme projeto, chamado Total Information Awareness, para acumular uma base de informações para encontrar padrões de conduta ou tendências nos correios, telefonemas, transações financeiras, informação de vistos, etc., supostamente para identificar inimigos. Este programa foi rechaçado pelo Congresso depois de produzir uma reação muito negativa na opinião pública.
Este tipo de projeto tem implicações muito preocupantes para os cidadãos, tanto da América Latina quanto dos Estados Unidos e qualquer outro país. É o ponto de partida para uma vigilância maciça de toda a população, através da sua vida pessoal e social, violando a liberdade pessoal e seus direitos. A idéia de que organizações de inteligência e militares estejam vigiando e seguindo os cidadãos – todos sob suspeita – para prever atos de violência no futuro é autoritário e orwelliano, e evoca a doutrina de segurança nacional. O aparato de segurança nacional estadunidense parece estar se estendendo e se ampliando fora de controle, com projetos cada vez mais intrusivos e anti-democráticos. Agora que os cidadãos em muitos países estão cada vez mais indignados com os respectivos sistemas e apelam a atos de protesto para reivindicar mudanças econômicas, sociais e políticas, faz-se necessário conhecer e desafiar este tipo de projeto.''
J. Patrice Mc Sherry, diretora do Programa de Estudos sobre a América Latina e o Caribe na Long Island University, Brooklyn. Autora de Os Estados Predadores: Operação Condor e a Guerra Encoberta na América Latina.
Boletim de notícias da Telesur de 2 de novembro de 2011
Tradução – Eduardo Marinho
Fonte: pagina12.com
No Chile, Camelot foi apresentado como uma pesquisa acadêmica, escondendo sua relação com o Pentágono. Os pesquisadores entrevistaram chilenos de todos os setores da sociedade para conhecer suas crenças políticas, seu compromisso com a democracia e outras informações pessoais e políticas. De acordo com uma chilena que foi entrevistada, cada pessoa foi depois enquadrada em categorias conforme o nível de perigo ou de “potencial subversivo”. Quando esta pessoa tentou obter um visto para ir aos Estados Unidos, as autoridades de lá tinham um arquivo completo sobre ela, com toda a informação supostamente confidencial que ela colocou no formulário da pesquisa.
As bases de dados de Camelot também foram usadas para a guerra psicológica. Serviram para influir nas atitudes políticas e, dessa forma, para manipular certas eleições chave. A CIA digitalizou os dados compilados por Camelot e os analisou e utilizou para produzir atemorizantes propagandas anti-comunistas, durante a campanha eleitoral de 1964 de Eduardo Frei, candidato democrata-cristão, contra o esquerdista Salvador Allende. Por exemplo, foi dito às mulheres que, se Allende fosse eleito, seus filhos seriam mandados a Cuba e seus maridos a campos de concentração. A natureza contra-insurgente do Projeto Camelot foi descoberta pelo governo chileno e foi encerrado em 1965, depois de sessões tanto no Congresso do Chile quanto no dos Estados Unidos.
Não é a primeira vez que, nos tempos recentes, o governo dos EUA acumula grandes quantidades de dados em projetos de “data mining” (obtenção maciça de dados). Durante a administração de George Bush, a National Security Agency começou a extração de informações de milhões de cidadãos dos Estados Unidos – de telefonemas, correios eletrônicos, fax e outras fontes – num programa secreto sem autorização judicial, supostamente para descobrir e vigiar potenciais integrantes de redes terroristas. Essa administração também tratou de implementar outro enorme projeto, chamado Total Information Awareness, para acumular uma base de informações para encontrar padrões de conduta ou tendências nos correios, telefonemas, transações financeiras, informação de vistos, etc., supostamente para identificar inimigos. Este programa foi rechaçado pelo Congresso depois de produzir uma reação muito negativa na opinião pública.
Este tipo de projeto tem implicações muito preocupantes para os cidadãos, tanto da América Latina quanto dos Estados Unidos e qualquer outro país. É o ponto de partida para uma vigilância maciça de toda a população, através da sua vida pessoal e social, violando a liberdade pessoal e seus direitos. A idéia de que organizações de inteligência e militares estejam vigiando e seguindo os cidadãos – todos sob suspeita – para prever atos de violência no futuro é autoritário e orwelliano, e evoca a doutrina de segurança nacional. O aparato de segurança nacional estadunidense parece estar se estendendo e se ampliando fora de controle, com projetos cada vez mais intrusivos e anti-democráticos. Agora que os cidadãos em muitos países estão cada vez mais indignados com os respectivos sistemas e apelam a atos de protesto para reivindicar mudanças econômicas, sociais e políticas, faz-se necessário conhecer e desafiar este tipo de projeto.''
J. Patrice Mc Sherry, diretora do Programa de Estudos sobre a América Latina e o Caribe na Long Island University, Brooklyn. Autora de Os Estados Predadores: Operação Condor e a Guerra Encoberta na América Latina.
Boletim de notícias da Telesur de 2 de novembro de 2011
Tradução – Eduardo Marinho
Fonte: pagina12.com
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