sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pra não dizer que não falei das flores

As flores!!! Inegavelmente é um belo ato. Oferecer uma flor àquele que se veste na forma de um inimigo é um incentivo à não violência. Se esta humilde ação não vier intencionada de inibir a agressão, de trabalhar o psicológico e explorar o lado mais humano dos militares armados, ótimo! Num ato poético fica a flor pelo amor!

Entretanto não acredito que seja um movimento vazio de intenções. Pelo menos, quando eu o fazia, em outras manifestações, tinha em mim a convicção de despertar a emoção, o lado mais profundo do ser, receber um olhar de respeito, carinho e aprovação de um outro ser humano. E de fato isso acontece quando presenteio minha mãe. Mas acreditar que a farda brasileira vai se entregar à apelos emocionais é muita ingenuidade.

Nós que assistimos e aplaudimos a retratação da realidade carioca nos filmes Tropa de Elite por 2 vezes, não deveríamos nos surpreender com as ferramentas usadas para intimidação. Infelizmente a polícia sai do quartel com uma doutrina de guerra na cabeça, o outro é sempre o inimigo. A estrutura recompensa o abuso de violência. A ideologia é de guerrilha e se manisfesta com a repressão civil. O Brasil não teve justiça de transição efetiva após o período ditatorial. Hoje temos o mesmo modelo, com nomes diferentes.

Em 18 de setembro de 2012 a ONU sugeriu a desmilitarização da policia no Brasil. Dentre as 170 recomendações, foi a única negada, com a argumentação de que era previsto constitucionalmente o uso da policia armada para contenção da ordem. Os números de homicídios, principalmente à jovens de periferia, só aumentam a cada ano e nós com uma policia civil (investigativa) precária.

''Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão''

Desculpem, mas, diante dos fatos, deixo de acreditar nas flores vencendo o canhão.

Um comentário:

  1. É, meu caro. De novo, em sociedade altamente conectada, a avaliação pontual tende a ser cada vez menos relevante nas questões de previsibilidade. Digo que, provavelmente, o ato da "flor" ou qq outro pode ou não desencadear algo, pode ou não alterar o processo por ser algo que gere a ignição do enxameamento.
    Portanto, voltamos lá no começo pra seguir fazendo o que a gente tem vontade, o que a gente acredita.
    Assim sendo, a despretensiosidade do ato é a grande libertação de si mesmo, de uma mente que nos engana com a expectativa de que o outro mude e fique de acordo com o que desejamos com que ele seja.
    Esse perverso mecanismo de punição/recompensa nos é inoculado desde que interagimos as primeiras vezes com nossos pais e, depois, só vai aumentando, até que chegue a um nível quase máximo via MERITOCRACIA, que nos quartéis fica bem explícito.
    Quanto 'a polícia militar, se eles desejarem contrariar ordens, puniçoes imediatas, inclusive reclusão de 30 dias e, quiçá, expulsão.
    Lembre-se, numa estrutura altamente hierarquizada, o "pecado maior" é ir contra o sistema, seja polícia militar e governo, seja médico e conselho regional de medicina, seja pai e filho, aluno e escola, etc
    Por fim, dê quantas flores quiser dar e tantas outras quanto não quiser oferecer. Sem a pretensão do aguardo do "obrigado" como retorno da pessoa que a recebeu. Isso já é um passo e tanto pra fugir da perversa "punição/recompensa".

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