sábado, 4 de julho de 2015

O que observei na Catete92

Uma coisa que sempre achei curiosa:
Observo as pessoas encantadas com a casa, com a proposta, com os encontros e tudo mais. Essa casa que é um lugar onde experimentam relações de confiança, os movimentos de cuidado e atenção com o próximo, onde podemos autogerir um espaço de forma colaborativa.

E paradoxalmente, ai que vejo a grande falta de confiança nas relações. Por que precisamos ter um espaço dedicado a isso?! Por que estamos tendo um custo adicional para isso?! Se a ideia é permitir o acesso, é gerar abundancia, por que não pegamos o máximo de nossas potencias para isso?! Será que precisaria existir uma Catete92 ou uma Laboriosa89 se estivéssemos usando nossas casas de forma autogestionada, colaborativa, compartilhada?!
Acredito que não o fazemos justamente pela falta de confiança.
Se confiássemos de verdade nas pessoas, nas relações que temos, precisaríamos ter um espaço a parte para experimentar?!

Eu acho ótimo experimetar, faz parte do nosso desenvolvimento pessoal. O que acontece no catete é muito legal. Então vamos desenvolver mais pra continuar experimentando?! Abundancia não seria ter mais casas com essa proposta?! Permitir acesso não seria eu poder descansar, ou usar a internet ou almoçar na casa mais próxima de onde estou? De acordo com minha necessidade? E poder cuidar desse espaço como se nosso fosse?

Adoraria que começacemos a pensar mais nisso. Proponho que a gente comece a fazer do catete92 a realidade de nossas vidas.
Que a gente não fique tão somente brincando de vida em comunidade quando convém, mas sim encarar o desafio do que é uma vida comunitária. Que a gente assuma a maturidade pela fluidez da vida, pelos conflitos que podem surgir das interações livres e que a gente possa, que a gente consiga, de verdade, confiar mais nas relações que estamos construindo a cada instante uns com os outros.

O discurso de: "eu preciso do meu espaço", "eu preciso da minha privacidade", mais parece uma necessidade de ter seu momento de silencio, ou solidão, ou meditação, garantido.
Quando confiamos no outro não precisamos ter esse espaço. Não exigimos garantias.
Temos nossas necessidades atendidas na relação com o outro, com base no respeito e empatia: "queria ficar um pouco sozinho, umas horas, uns dias, vc se importa?" e pronto, ai está a sua privacidade respeitada. Bem diferente de um aluguel de um quartinho para garanti-la, não?!

Atualmente moro em Visconde de Mauá e a pouco mais de 4 anos minha casa está aberta ao que quer que seja. É só chegar e se permitir. Fernando Furtado e Maiko Pinheiro podem falar com bastante confiança sobre isso.


5 comentários:

  1. Quando terminei de ler, eu meio que quis abraçar e sorrir, vai saber...

    Já gosto de você secretamente desde que vi o curso xamânico pra descascar macaxeira.

    E agora me deixou com mais perguntas que respostas, o que é ótimo.

    Porque, em tese, não precisamos desse espaço. Nem pelo olhar elevado (que, pra mim, você demonstrou ter) nem pelo mundano. Se a Catete deixar de existir, vamos seguir nossos percursos de um jeito ou de outro.

    Acho que a questão depende de como atribuir significado a esse modelo em particular.

    Por isso, num post anterior, perguntei: "Se todo mundo gosta da ideia, o que falta? Tá difícil de entender? A proposta é boa, mas não o suficiente pra pagar por ela, então melhor deixar morrer?”

    Como você bem disse antes, não faz muito sentido a dicotomia entre certo e errado. Isso é narrativa. As coisas são e pronto. O problema é se desprender das narrativas. Pelo menos pra mim.

    Por outro lado, existe, sim, muita falta de confiança. E aí estendo isso à própria casa. Relacionamentos nem sempre são entre dois seres humanos.

    Então, quer dizer: não deveríamos precisar de um Catete92. Mas talvez a gente precise.

    Não faço a menor ideia, na verdade. Fiz uma aposta. Vejo outras pessoas fazendo a mesma aposta.

    Você me deixou pensando um bocado. E se a gente tivesse realmente uma rede de casas ao invés de uma dita propriedade privada? Como se daria a organização dos espaços?

    Se a gente morasse hoje na casa 3, trabalharíamos lá? Ou não faria sentido trabalhar? Como faríamos pra receber novas pessoas?

    E como multiplicar a ideia?

    Precisaríamos convencer as pessoas que é legal abrir a própria casa (hoje vista quase como um "delimitador de intimidade") ao invés de doar pra uma iniciativa legal.

    Precisaríamos reconstruir nossa noção de intimidade?

    Parece incrível e desafiador. E tem possibilidades infinitas.

    Por enquanto, num mundo cada vez mais solitário e apressado, penso que as narrativas cumprem um papel.

    Acredito que a função da Catete não é ser uma "realidade concreta” (existe isso?).

    É ser um portal.

    Dentre tantos possíveis.

    Ainda estamos de passagem.

    A partir daqui, seguimos. Quem sabe a Mauá. Ou, na verdade, talvez nem importe.

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    1. "Se a Catete deixar de existir, vamos seguir nossos percursos de um jeito ou de outro."
      Assim como os grandes movimentos de "occupy" e tantas manifestações deixaram de existir para dar espaço a algo mais transgressor, mais inovador, outros surgem e passam, e isso que é lindo. Poder perpassar por todos esses movimentos observando aprendendo e colocando em prática o que aprendeu.

      Me importa pouco que o catete92 deixe de existir ou continue lá eternamente. O que me importa são as pessoas. Estou apenas tentando mostrar a minha visão de um movimento que aos poucos vai ficando ultrapassado, na medida que a gente aprende mais. Que a gente esteja desapegado a ponto de deixar morrer para renascer de novas formas. Que estejamos aptos para abraçar mudanças. Deixar fluir.

      A algum tempo fiz as mesmas perguntas que vc e elas foram respondidas na prática, quando me permiti ao grande imprevisível do "open space" dentro de casa.

      Não precisamos convencer ninguém. Só poder discutir o assunto de uma forma leve e prazerosa é o que nos faz mover.

      Acho que estamos desconstruindo paradigmas o tempo inteiro. Quando fazemos isso juntos, a noção de propriedade, privacidade, intimidade, e tantos outros, o estimulo é bem maior.

      Pra mim não mais importa o onde ou o como. Desde que eu possa interagir de forma cada vez mais livre entregue, ao momento.

      Já valeu a pena o fato de poder estar tendo essa conversa de forma honesta com vc. Que a gente siga se perguntando... Emoticon wink

      Beijo no coração, querida!

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  2. Cara, eu achei genial essa escrachada do Gui. Ri muito aqui. Estou longe do Rio há 6 meses e não sei como andam as dinâmicas da casa, entretanto vejo aqui no grupo um número cada vez mais crescente de participantes e o número de contribuintes não acompanha essa exponencialidade. Por que?

    Se é isso que manda o coração de quem está interagindo diariamente com a casa, eu acho que é muito válido sim aprimorar a propaganda para ver se sensibiliza as pessoas um pouco mais para uma necessidade que parece óbvia, mas pelo visto por si só não toca as pessoas o suficiente. Por que não? O que essa fato está querendo nos mostrar?

    Por outro lado, eu venho acompanhado de longe os preços no Rio de Janeiro subirem vertiginosamente e pouca gente tomando iniciativa a respeito disso. Parece que a galera está preferindo segurar firme no "seja o que Deus quiser" e se deixar levar pela tormenta até que ela passe sozinha. Diante de um "salvem-se quem puder" desse, como é que alguém vai pensar em tornar sua própria casa num espaço mais aberto e colaborativo, eu me pergunto. As pessoas que frequentam mais a casa não parecem estimular (ou se interessar) muito essa reflexão, tampouco. Mas há sempre um Ronny Ferreira para provocar, né? E se há pelo menos uma Melina França pra se sentir tocada pela provocação, acho que já é mais do que ponto ganho, Ronizito.

    (Ainda, algumas iniciativas colaborativas como o Curto Café parecem estar surfando muito bem nesse mar de ondas avassaladoras. Será que é porque eles lidam mais com um público comercial do que o Catete92? Interessante pensar sobre isso também),

    Eu não sei, eu não sei de nada. Nem nada disso está me gerando muita inquietação nesse momento como já me gerou há um tempo atrás, talvez porque eu esteja longe, vivenciando experiências completamente diferentes. Quando eu chegar no Rio em meados desse mês e vou deixar meu coração sentir de novo o que será que será quando eu estiver aí.

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    1. Fernando tenho percebido algumas coisas.

      Sinto muita empatia pelo que vc escreveu, Nandico. Então vou falar só da parte que eu não consegui me fazer entender muito bem.

      Está tão dificil ter um conversa honesta, que não é possível dar sua opinião sem que ela seja avaliada como bom ou ruim, certo ou errado.

      Sempre tem um "porém" na história. Quando eu manifesto uma opinião estou dizendo o que se passou por mim naquela hora e pode ser que mude e por isso eu interajo. Será que foi só comigo? Será que mais alguém pensou assim?

      Tenho a sensação de que nos apegamos tanto a uma ideia, a um projeto, que ao nos identificarmos demais a ponto de não conseguir aceitar críticas a ele. Adotamos uma posição defensiva para justificar o que estamos fazendo ao invés de tentar ouvir uma posição diferente.

      Eu amo ser criticado. Tenho aprendido cada vez mais ao ouvir o outro e só por causa disso posso me reconhecer cada vez mais em mim e nas minhas relações. Entende?!

      O fato de eu questionar algo, não quer dizer que sou contra, mas que me ocorreu um pensamento diferente e esta é uma ótima oportunidade de investigar com quem esteja aberto a mudar de opinião nem que seja por um momento para gerar mais aprendizado sobre a questão.

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  3. "Será que precisaria existir uma ...?"

    Precisa. Uma, várias. X, Y ou Z para cada coisa. É espaço físico disponível e comum.

    Nem todos tem uma casa própria e disponível para receber pessoas e grupos que ficarão a hora que quiser, fazendo o que quiser... nem todos conseguem fazer o que quiser na casa do Outro.

    Então precisamos do comum sim, grátis de preferência, não porque todos precisam mas principalmente porque se há diversidade nesta dispersão é uma qualidade positiva o deixar existir, deixar ser sem julgamentos, apontamentos ou necessidade de continuar existindo.

    Para mim desde o começo estava na cara que saindo o dinheiro investido do mayordomus do rolê a casa cairia, desde os idos de Madalena 80 era visível isso. Tem problema nisso? Creio que não. É assim que é em alguns casos.

    Toda casa boa tem boa bota e bom chapéu. Alguns tem botas e guarda-sóis, outros chinelos e sombreiro. Mas quase que sempre há muros e os piores pra mim são os físicos.

    Aqui por Itu o comércio ainda apresenta umas características de tênue separação física entre o comum e o privado, a porta aberta "separa" estes dois mundos em muitos casos. Mas nos bairros mais novos você adentra o espaço privado através de muros, novos tempos.

    Então eu pensaria em qual a bota, qual o chapéu e quais são os muros no entorno de cada casa. Não criaria a culpa então não responsabilizaria ninguém pelos acontecidos, tanto os bons quanto os mals. Porque dos mals a gente sabe que não vale a pena se não passa pelas cuias e dos bons é mole-mole a gente se perder em ilusões de um passado que nunca existiu.

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