Chego a pensar que raiva de mim por não me achar capaz de entender tudo isso, de continuar julgando a posição de uns e de outros inevitavelmente, de não ter a sabedoria necessária pra lidar com cenas de violência explicita.
Agora percebo na pele a linha tênue que existe entre amor e raiva. São o mesmo sentimento... um oposto ao outro. Pensei muito antes de escrever, mas não seria honesto comigo, e menos ainda com quem lê, escrever mensagens belas de amor e solidariedade e não manifestar esses momentos de desequilíbrio emocional... Raiva! E agora é o melhor momento pra expressar e perceber que sou humano e sou fraco, e se um dia pensei que poderia não mais sentir isso, foi pura ingenuidade. A vontade de mandar alguém tomar no meio do cu me veio varias vezes. Já não me arrependo mais de não estar no Rio nesse momento. Não sei o que eu faria se estivesse nas ruas.
Passei mais tempo revisando o texto do que escrevendo... desabafo!!!
Carta para meu amigo Ronny.
ResponderExcluirAmigo, eu também senti raiva quando vi a truculência policial na minha pele de vândala, porque o outro também sou eu. Aquele gás arranhando garganta, narinas, sensibilidade, a Lapa era um filme de horror, o que antes era sinônimo de alegria até o dia amanhecer se tornou caos por motos, bombas e desalmados promovendo a violência, tive segundos de catarse, engoli, mantive a calma externa, sentei, pensei: Cacete, é exatamente assim nas favelas, exatamente não, é pior, a gente não faz ideia, a gente supõe. Amigo, eu não vou dar três tapinhas nas suas costas e dizer que todo mundo é bom, tem gente ruim, gente capaz de coisas que a nossa gente "Coração Leve" nem imagina. Olha um exemplo que me ocorreu: Eu sempre achei uma babaquice nos filmes de terror as cenas em que aparece a figura ameaçadora e as protagonistas correm e se esborracham no chão. Eu pensava: Isso é hora de cair minha filha??? Levanta, porra. E na quinta, eu queria correr tão rápido que caí, machuquei o joelho, e me vi na mesma cena de terror que eu sempre achei que era pura ficção. O que eu quero dizer com isso é que tem coisa que a gente precisa entrar em entendimento profundo, a raiva é similar ao amor em força mas caminham em direções opostas. Chegando em casa eu já não estava com raiva, eu queria lutar, eu dedicaria sem duvida toda a minha existência para combater as injustiças. Em qualquer lugar, enquanto existir repressão, medo, covardia, eu vou lutar, eu vou lutar pela cidade que nós merecemos, vou lutar pela Educação, pela Saúde, eu não quero migalhas do Estado, quero nossos direitos respeitados com dignidade. Quero não me esquecer que sou humana e não devolver uma bala na cara de ninguém, quero que isso não seja necessário. E quero mais ainda, que esse momento sirva de reflexão a todos, não adianta querer mudar o mundo se você não muda a si mesmo, não ajuda as pessoas mais próximas de você, família, mãe, irmão! Catar o cocô que o seu cachorro faz na rua é um ato revolucionário.