quarta-feira, 11 de março de 2015

Liberdade e Limites - Aprofundando o tema

Tenho tentado entender e estou percebendo, cada vez com mais sagacidade, em comentários sobre acontecimentos cotidianos, a falta de compaixão por mera ideologia.
Ideologias são ruins?! Claro que não! Sou movido por minhas próprias, mas não permito que elas sobreponham um atributo inerentemente humano. É a falta de compaixão que me sensibiliza.

Estava assistindo a um vídeo em que um rapaz falava sobre os problemas que o açúcar das frutas (frutose) pode causar. Assisti até o fim e tanto pra mim, baseado no que tenho estudado a respeito, quanto pra outras tantas pessoas, não fez o menor sentido. Tudo certo, tudo em paz, até um comentário me chamar muito a atenção:
"só pela obesidade do cara já descartei tudo que ele tentou dizer".

Nesse momento, como diz Henrique Bastos (rapaz que me ajudou bastante no entendimento pra complexidade da coisa), me despertou o sentido aranha.
É um comentário que exemplifica perfeitamente muito do que se vê por ai. Quando paramos de observar o fato, o tema abordado e passamos a desqualificar a pessoa. É nesse momento que invalidamos a existência do ser humano pelo que ele fala ou acredita. É ai que chegamos ao absurdo de deixar de ouvir o que outro está falando pelo juizo de valor que fizemos da pessoa. Não precisamos ouvir o que o outro diz se não concordamos, mas chegar ao ponto de invalidar o que está sendo dito pelo juizo que se fez da pessoa?! É ai que o tema, o assunto, se torna irrelevante. A ideologia torna-se mais importante do que a pessoa. O que define se o cara pode falar de saúde é o que se acredita ser o peso ideal. Como assim?!!!
Esse comentário foi o mais grosseiro de todos. Ainda há outros que fogem ao tema em questão para negar a existência da pessoa que está falando.

Outro exemplo bastante comum que percebo, por estar bastante envolvido com alimentação, é a atitude de alguns amigos que se autointitulam veganos, invalidarem a existência do outro pelo que ele consome, ou porque pesca ou caça animais. Eu posso não aceitar o que ele faz, mas é diferente de não aceita-lo. Eu posso fazer o que eu quiser, contanto que eu não impeça o outro de fazer o que ele quer. Limites existem e devem ser respeitados.

Um evento que me chocou absurdos foi a manifestação do MST contra a empresa de eucaliptos transgênicos da Suzano. E o que me deixou ainda mais intrigado foi ver amigos que defendem a comunidade da vida achando um máximo a destruição em massa. Se me considero um ser humano e acredito que valores como amor, compaixão, solidariedade, cooperação são inerentes ao ser social que somos, não há como ser favorável a uma atitude que violente a vida. Que violente o direito de o outro existir. Que negue sua existência pelo que ele faz. Uma coisa é eu não concordar, não apoiar, não defender o uso de transgênicos e até boicota-lo, outra coisa, muito diferente, é eu causar dano à alguém em nome do que acredito. Invalidar a existência de outros seres humanos que acreditam, que dedicaram a vida estudando, ou simplesmente que dependem daquilo para sobreviver.
Por mim a empresa nem existiria, mas extingui-la pela minha ideologia, é não perceber que existem seres humanos do outro lado. Se isso existe é uma consequência de uma desordem global da qual eu faço parte, e não local, onde designo culpados e malfeitores.

Temos agido cruelmente a cada momento em que construímos imagens de nós mesmos (personas) ou de outras pessoas. Criamos vilões. Nos eximimos da responsabilidade que temos quanto seres sociais. Preferimos apontar um culpado à olhar pra dentro e fazer o minimo pra que outra realidade, mais intuitiva, se torne possível. Uma vida de mais amor e confiança não se faz desqualificando pessoas, configurando inimigos ou estabelecendo o que é melhor ou pior para o outro. Demandar um comportamento do outro é uma atitude que agride o senso de humanidade.

Por fim, cito Krishnamurti:
"Por que temos imagens de nós mesmos? Essas imagens separam as pessoas. Se você tem uma imagem de si mesmo como suíço, ou britânico, ou francês, etc., essa imagem não só distorce sua observação da humanidade, mas também o separa dos demais. E onde quer que haja separação, divisão, tem que haver conflito – como há conflito acontecendo por todo o mundo, os árabes contra os israelitas, os muçulmanos contra os hindus, uma igreja cristã contra outra. A divisão nacional e a divisão econômica resultam de imagens, conceitos, ideias e o cérebro agarra-se a estas imagens. Por quê?"


8 comentários:

  1. Limites, respeito e liberdade. Esta tríade sozinha já daria base para as ações do ser humano. O problema é que até tais conceitos podem ser facilmente manipuláveis a favor de uma pessoa ou em um grupo e seus interesses. Muito bom esse texto, pois ajuda na busca pelo discernimento entre o que é genuíno e o que é pura falta de sacanagem.

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  2. Maneiro, Ronny. Um belo fechamento da nossa última conversa.

    Essa busca por exercer a liberdade sem restringir a liberdade do outro muda o jogo. Nos liberta de uma lógica binária, de soma zero, onde se justifica tirar liberdade de quem supostamente tem pra quem supostamente não tem.

    Daí passamos à uma lógica onde a solução é injetar mais liberdade no sistema. Quanto mais liberdade, maior o potencial de interação, mais soluções construímos juntos, mas um à um (como diria o Augusto).

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  3. Adorei o texto e ainda mais as palavras do Fernando. Mas confesso que me peguei pensando, e muito, sobre uma opinião minha onde cabe a depredação de ônibus, por exemplo, como manifestação contra os péssimos serviços prestados, a corrupção envolvida, a exploração dos funcionários ... Se essa atitude não soa coerente com a base do que eu penso, por outro lado, consigo sentir como a única forma de impacto efetivo. E acaba fazendo muito sentido.
    Fiquei confusa com esses sentimentos e gostaria de ajuda para entender se estas são situações distintas ou se estão mais relacionadas do que eu posso perceber.

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  4. Pra mim, a depredação é apenas um sintoma de desequilíbrio, e não trás nada de efetivo que não mais despesas aos cofres públicos e uma oportunidade pro fdp do Datena repetir 282.000 vezes em um único programa as palavras vândalos/vandalismo.

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  5. Sim, também traz esse péssimo efeito com a manipulação da mídia. Mas, historicamente, sempre vejo resultados mais efetivos por parte dos governantes quando a população sai das passeatas com bandeira branca nas mãos. E quanto às despesas aos cofres públicos, elas poderiam ser minimizadas com um sistema de governo menos favorável à corrupção...complicado, pq também não quero entrar nesse mérito.

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  6. Edilaine Guerreiro, menos a ver com efetividade e mais a ver com valores. Portanto, uma pergunta: qualquer ação contra alguém para que faça valer a realização de um objetivo determinado por um outro, seria sinal de respeito?
    Seria negação da existência do outro, portanto, desamor?
    A violência gratuita (aquela que, pex, não é legítima defesa de preservação da vida) é justificada em nome de um objetivo a ser alcançado?
    Não seria tudo isso algo como "o mundo deveria ser da maneira que eu penso que deveria ser"?
    Acho que daí já dá pra investigar bastante coisa. Bjs e boa sorte!

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  7. Di, acredito que todas as situações são distintas, nenhuma é igual a outra. Por isso, acho legitimo ter a visão da pessoa em cada situação, do ser humano que existe no outro. Em uma depredação de onibus o que isso acarreta para a pessoa? Quais são os limites envolvidos? O problema não é o cidadão que extravasa seus sentimentos arremessando pedras em um onibus abandonado, o problema é quando essa pedra atinge alguém ou o bem de alguém. O problema é quando em nome daquilo que acredito ultrapasso o limite estabelecido pela outra pessoa.

    Ainda há uma tentativa de configurar inimigos para que a coisa se resolva, como se a exploração, a corrupção não fosse um problema social e sim de um culpado.
    E quando estabelecemos o culpado nos vemos como herois. Eu vou resolver o problema da fome, ou, o meu grupo vai resolver o problema do transporte publico. Isso não acontece genuinamente. Não há conversa quando não há pessoas. Há instituições, há vilões e vitimas e por isso não há como existir humanidade.

    Se vc não concorda, não faça. Impedir que o outro faça é o limiar da falta de respeito. O empresário do agronegócio não vem na minha casa dizer que eu não posso plantar orgânicos e destruir a minha horta.

    Não é por que o outro (o corruptor ou explorador) não enxerga o ser humano em mim que tenho o direito de não enxerga-lo como ser humano, configurando-o como vilão. Seria responder com a mesma moeda. Alimentando as relações desumanas que tanto me sensibilizam.

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  8. Saia as ruas, manifeste-se. Exija o que vc acredita da instuição que vc acredita, mas não exija do outro que ele tenha determinado comportamento.

    É muito comum as pessoas confundirem a figura publica (a instituição) com a pessoa. Vide Bolsonaro. O cara pode pensar e achar o que quiser, contanto que ele não me impeça de fazer o que acredito, de manifestar meu pensamento.

    A confusão começa por que o Estado faz isso. Me impede pouco a pouco de fazer o que quero. A instituição é feita de pessoas e só separamos um do outro quando convém.
    Se o politico tem valores diferentes dos meus passo a acusa-lo desumanamente, ou então humanamente (percebendo sua função), concordo que ele não é um bom representante. Percebe como fica confuso tentar separar a pessoa de uma instituição que manda na gente? É comum voltar nossa agressão pra pessoa e não perceber o todo envolvido na questão anti-humana. A figura politica (partidária) é intrinsecamente anti-humana. A pessoa que assume a posição, o cargo, adotará comportamentos anti-humanos.

    Por isso quero menos Estado. Enquanto ele existir, vai limitando a liberdade das pessoas em nome de sua própria ideologia. O Estado é a entidade mais desumana que existe. Ainda tenho alternativas ao transporte publico ou à especulação imobiliária. O dia que eu tiver de mãos atadas, provavelmente, por extinto de sobrevivencia, posso passar a desrespeitar o outro, atirar pedra e até matar, mas não chegamos nesse extremo. Hoje em dia, não vejo o ato desumano se manifestando por extinto de sobrevivencia e sim por ideologia.

    Enfim, dificil não entrar nesse mérito quando falamos de liberdade.

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