terça-feira, 20 de janeiro de 2015

As Viradas São Novas Ondas

Texto de Augusto de Franco*

"Aquela onda inovadora que irrompeu na última década, sobretudo nos últimos cinco anos - startups, crowdfunding, crowdsourcing (e todos os crowds sem muito crowdweaving), festivais de ideias (interactive co-creation), casas colaborativas e laboratórios sociais, ocupação de espaços públicos para instaurar novas dinâmicas de commons - parece que está refluindo, consumida nos seus próprios problemas de organização e sobrevivência. Mas quando a organização e a sobrevivência viram problemas centrais então é sinal de que as aves do céu que não tecem nem fiam não estão mais podendo voar. Ou que os lírios dos campos não estão mais podendo florescer.

Alguma coisa no fluxo interativo da convivência social não está mais enfunando aquelas iniciativas, não pelo menos como estava. Talvez isso esteja ocorrendo porque a interatividade continuou aumentando, cada vez mais avassaladoramente, mas nossas narrativas sobre os mundos que construímos em nossa convivência continuaram fundeadas em velhas crenças e conceitos. Ou, quem sabe, porque falamos de rede mas continuamos reproduzindo padrões hierárquicos e tendo comportamentos autocráticos. Não obstante, fomos carregados, isso fomos! Mas sem entender realmente o que nos carregava. Ainda tentamos entender o fenômeno, mas se demorarmos muito é possível que acabemos devorados pelo enigma indecifrado.

Quando a interatividade aumenta as migrações também aumentam. As pessoas com as quais nos emaranhávamos vão se ligando a outros emaranhados. Sinergias antigas se desfazem. As constelações mudam rapidamente. Resistir à precariedade, reforçando nossas iniciativas ou reafirmando nossos valores, talvez seja bem pior do que nos deixarmos levar pela correnteza. "Ah! Mas eu esquematizei minha vida para ela ser assim e assado e não vou jogar tudo fora para pular no abismo da incerteza e da imprevisibilidade". Qual nada! Mundos planejados vão perecer.

No pico daquela onda de inovações, chegamos a achar que estávamos nos aproximando de uma hora da virada. Mas não há uma virada. São muitas viradas. Tantas quantos somos em nossas circunstâncias. Quem tem que virar somos nós, para perceber que as viradas são outras ondas. E quais são as novas ondas?"


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